Rol Fabuloso

artista(s): João Grando

Talitha Motter [1]

 

Neste espaço expositivo, devemos estar preparados para nos desarmar, para nos desfazer rapidamente de certas ideias que temos sobre uma narrativa linear dos acontecimentos, sobre expectativas de encontrar compreensões únicas para o que nos rodeia e nos constitui. Aqui o artista João Grando nos coloca diante da dúvida. O rol de seres fabulosos, oriundos de diversas temporalidades para colapsar em um suporte escolhido, seja ele a superfície da tela, do papel ou da projeção, estabelece um jogo de múltiplas interpretações. Os encontros inusitados entre personagens como dinossauros, tigres, homens voadores e máquinas, nos destituem da capacidade de interpretar pontos narrativos que formem uma unidade com início, meio e fim. É possível elencar uma infinidade de sentidos (entendidos tanto como significados quanto como orientações no trajeto do olhar), os quais podem ser escolhidos e logo após abandonados por outros.

A coexistência de corpos de diferentes naturezas se dá, de maneira integrada, por meio de um fazer plástico que atravessa vários sistemas de representação. Se há uma coleção de seres, como numa amostragem do imaginário que o artista construiu no seu transitar pelo mundo, há também um compêndio de modos de construção do espaço da obra de arte. E esse é observado no uso de tratamentos mais realistas, mantendo as referências de proporcionalidade, luz e sombra da visão que temos da realidade; na elaboração de figuras esquematizadas; e na presença de formas inacabadas, como em um esboço. Nessa colagem, o texto também surge, ora com significação gráfica, ora pelo valor comunicacional de suas palavras. Como comenta João [2], “o quadro é um lugar, e, sendo um lugar, tudo pode passar por ali”.

Em Rol Fabuloso, processos do fazer na arte são revelados, como o ato de colecionar e editar elementos do mundo para sua incorporação nesse campo destinado ao ficcional. Ao jogarem com estruturas diversas para a composição das figuras, fugindo de uma representação realista unitária que ilude nosso olhar, e trazendo imagens distintas que, juntas, desestabilizam qualquer construção racional, as obras do artista nos submetem ao imprevisível. É na arte que encontramos o território para o questionamento dos entendimentos certos [3].

 

[1] É mestre na linha de História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ, coeditora da revista Arte ConTexto e curadora da plataforma Aura.

[2] e [3] GRANDO, João. Entrevista. Porto Alegre, 24 mar. 2016. Entrevista concedida à autora.

CONVERSA COM O ARTISTA

07/07/2016 às 19h

EXPOSIÇÃO

20/04/2016 a 29/06/2016

ABERTURA

19/04/2016 a partir das 19h

LOCAL

Perestroika (Av. Cel. Lucas de Oliveira, 894, POA/RS)

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