(In)visível furta-cor

artista(s): David Ceccon
curadoria: Talitha Motter

Talitha Motter*

Furta-cor é a cor cambiante. Uma cor que afirma a indeterminação ou a não necessidade de se determinar. Trago-a aqui por ela possuir essa propriedade mutável, constituindo-se na relação com o outro pela forma que o olhar a (a)tinge. Nesse encontro de intimidades, em que existem trocas entre o sujeito e a cor que fala, revela-se a multiplicidade dos eus que podemos assumir. A ideia desse contínuo multicor é romper com dicotomias como a do feminino versus masculino, ou com qualquer outra que coíba nossos meios-termos.

Esta exposição, a partir dos trabalhos de Alexandre Copês, David Ceccon e Diane Sbardelotto, convida-nos a transgredir os moldes que limitam as inúmeras maneiras de nos colocarmos no mundo. O que se dá a ver, por exemplo, a partir das formas imprecisas apresentadas por Sbardelotto. Aderidas à arquitetura, elas são como seres que buscam maneiras de existir, avançando e recuando, juntando retalhos, mas também se desfazendo (ou seriam elas as multiformes cascas que já conseguimos abandonar? As mil vestes que deixamos de vestir?). Por outro lado, os corpos pequenos e esvaziados de Ceccon evidenciam situações em que as dicotomias se tornam opressivas, quando somente alguns parecem ter o direito de fazer parte do universo de discussão, enquanto outros são lacerados para que se adaptem. Por vibrarmos no terreno dos muitos sentidos, esses objetos e gravuras, delicados em sua forma, mostram-nos ainda o quão sutil pode ser o contorno de nós mesmos e daqueles com quem nos relacionamos. Percebe-se o risco e a ternura existente quando interpolamos nossas bordas. Já Copês nos atravessa com uma proliferação de desenhos que ironizam a oposição de gênero simbolizada pelo rosa e o azul. Dessa espécie de caderno de anotações, aberto aos nossos olhos um pouco indiscretos, pulam signos de formas de amar. Por fim, nossa imagem furtada e diluída por seu “Corpo-fantasma (Nocturne)”, lembra o fato de que, às vezes, precisamos do invisível e do visível para silenciar partes de nós e passar a ver o outro em sua diferença.

*Talitha Motter é mestre na linha de História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ, coeditora da revista Arte ConTexto e curadora da plataforma Aura.

HORÁRIO

de segunda a sexta, das 10h às 12h e das 14h às 18h

EXPOSIÇÃO

17/03/2017 a 28/06/2017

ABERTURA

16/03/2017, a partir das 19h

LOCAL

Perestroika (Av. Cel. Lucas de Oliveira, 894, POA/RS)

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David Ceccon

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Talitha Motter

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