GARAGEM AURA - Habita Fúrias

artista(s): Letícia Lopes

A Garagem Aura é um espaço reservado, que se destina a proporcionar encontros com a arte. Letícia Lopes ocupou o local durante os meses de setembro e outubro, fazendo dele seu ateliê temporário. Durante esse período, proporcionamos diálogos entre a artista da Aura e convidados, de maneira a possibilitar o contato com o seu processo de criação. No dia 22/10, realizamos o evento de encerramento para apresentar a todos as obras resultantes da imersão da artista. Leia abaixo o texto realizado por Letícia sobre a experiência:

 

Habita Fúrias 

por Letícia Lopes

 

Durante estas semanas de imersão, espécie de “residência informal” em que levei um recorte de meu atelier pra dentro da Garagem Aura, me propus a produzir algo a partir desse recorte específico (conceitual e imagético). Através de anotações feitas durante esse período, um eixo de trabalho foi se formando, fruto da união entre as imagens e intenções da ideia inicial com outras imagens que iam aparecendo, advindas do percurso entre a garagem e a minha casa (que fazia a pé), dos livros que eu havia escolhido aleatoriamente levar pra lá, e as interferências ruidosas de duas viajens, intercaladas no meio do período da “residência”.

Desse caldo, restou uma linha muito clara: a figura das Fúrias/Noite e a figura do corvo.

O corvo apareceu de um jeito meio travestido tropical: durante quase todos os dias, no caminho até a garagem eu tinha breves encontros com passarinhos de porte grande, especificamente o João-de-barro e o Sabiá. O que chamava a atenção era como eles me encaravam. Por exemplo, se eu viesse pela calçada e por ventura cruzasse o percurso de um João-de-barro, ele ao invés de assustar-se ou levantar vôo (como normalmente é esperado dos passarinhos), parava e me olhava nos olhos, como quem diz: “moça estou no meio de uma coisa aqui, com licença”. Os sabiás idem. Mas teve um em especial, e esse sim, me fez lembrar do corvo: ele estava pousado na grade de um portão com um pedacinho de sei lá o quê na boca. Ficou me olhando, e eu aproximei o rosto e fiquei a um palmo dele. Ele nada... só continuou me olhando, carregando aquela coisinha no bico, que depois reparei melhor, tinha um certo brilho (papel alumínio? pedaço de pacote de bolacha? não sei).

Isso me fez lembrar que eu li uma vez que os corvos colecionam tudo que brilha, e eles costumam ter um relicário de pequenos lixinhos que catam pelo mundo. Aí lembrei que li em algum lugar que “Andy Warhol entesoura tudo que vê, dá pra compará-lo com um Midas: pra ele, cai na mão, vira ouro”. O estranho é que essa frase eu havia lido há bastante tempo, e eu estava bem afastada de Andy Warhol e suas ideias, quando, alguns dias depois disso, durante uma viagem ao Rio, um cara me abordou na rua e resolveu dar um livro pra mim. Tipo, assim, sem mais, resolveu me DAR um livro. Chamava: “Popismo: os anos sessenta segundo Warhol”. Eu achei o cara simpático e aceitei – afinal eu não ia recusar um LIVRO DADO. E então, essa conexão bizarra que aconteceu entre um sabiá – o caráter do corvo – e a atitude de Warhol como corvo, eu achei realmente curiosa porque tinha essa coincidência no meio, além de interessante pro processo como um todo; afinal, eu também me identifico com o corvo por pegar recortes de revistas que já viraram lixo em sua grande maioria, e ver algo ali que de alguma forma preciso “entesourar” ou “sacralizar” (ou seja, transformar em pintura sobre tela).

Essa viagem toda me remeteu mais fortemente à figura do corvo, que por sua vez me levou à imagem da noite – que vem sendo uma constante no meu trabalho desde Presença Sinistra. A essas alturas a garagem-atelier já contava com duas pinturas enluaradas, duas imagens noturnas, uma planta, uma onça e dois corvos. Pensei “o clima aqui está bem óbvio, é noturno, hostil e estranho”. Resolvi dar corda e peguei o “Livro dos Símbolos” pra ler o conceito “noite”, o que me conduziu à deusa grega Nix (Noite). Descobri depois que na versão de Ésquilo a Noite teve três filhas (TisífoneMegera e Alecto) conhecidas como as Fúrias.

Comecei a achar uma conexão entre tudo o que eu estava lendo e o que havia ali dentro do atelier, a partir dos conceitos-chave fúrias – transmutadas em “feras”, através de imagens de crânios, onças, pumas e leões – e noite – através das luas e ambientações noturnas.

A partir daí, (juntando um episódio no qual a metodologia do meu trabalho desencadeou a fúria alheia) resolvi escrever um pequeno “statement” meu como artista, como autora daquelas pinturas. Um texto-poema que deixa claro quantas camadas existem no meu trabalho, e como eu procuro provocar essas fronteiras simbólicas entre imagem/pintura, conceito/linguagem, lixo/tesouro. O texto ficou um tanto musical, e pensei que imprimi-lo num cartão com uma imagem toda pontilhada dos recortes do atelier faria jus ao fechamento de todos esses entrecruzamentos que surgiram desde lá no início, com o sabiá-corvo, até o fim do período de residência, com a pintura-pintada. Onça-pintada, fera, fúria, o que for.

“É mais fácil erguer um templo do que fazer baixar nele o objeto de culto” – O inominável, Beckett.

IMERSÃO DA ARTISTA

12/09/2016 a 22/10/2016

EVENTO DE ENCERRAMENTO

22/10/2016, das 15h às 19h

LOCAL

Garagem Aura (Rua Tobias da Silva, 41 - POA/RS)

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