Michele Martines conta sobre seu processo de criação

POSTADO: 24/02/2016

Michele Martines conta sobre seu processo de criação

A artista integrante da Aura Michele Martines conta neste post do blog Diálogos sobre como se dá seu processo criativo, destacando seu prazer em fazer pintura, em vencer o desafio da imagem. Das características que perpassam a sua obra, pode-se ainda mencionar a pesquisa de diferentes sistemas de representação da história da arte, a exploração de situações do cotidiano, a apropriação e a manipulação de imagens. Leia a conversa e conheça mais sobre a produção de Michele:

 

Por que pintura?

MM: Realizo pinturas com características realistas e a proposta em si poderia ser resolvida em outras mídias. A pintura, para mim, é um amor verdadeiro. Sempre senti prazer no fazer manual, em misturar cores, arrastar o pincel sobre a tela e vencer o desafio da imagem. Encontro prazer mesmo na tragédia de quando tudo parece estar terrivelmente disforme. De repente acontece o momento mágico em que a imagem passa a atingir o resultado desejado. A pintura me convence e me satisfaz. Agrega-se a isso o prazer também em ver pintura, em apreciar trabalhos de outros pintores, em estudar a tradição pictórica, tudo que envolve pintura me interessa.

Em pinturas como as da série Ambiências na Parede há uma investigação de diferentes sistemas de representação existentes na história da arte. Como percebe essa pesquisa no teu trabalho, mais voltada a questões do fazer artístico?

MM: Em Ambiências na Parede cometi uma penca de graves violações das “leis artísticas”. Meu trabalho tem uma forte relação com a fotografia, que geralmente utilizo como referencial, e, portanto, com a perspectiva renascentista. A ideia para a série Ambiências na Parede surgiu num momento de descontração, eu estava com uma folha de papel A4 onde havia colado a fotografia de uma de minhas pinturas. Desenhei com um lápis a continuação da imagem representada na pintura. Aquilo me levou a refletir sobre o enquadramento, o recorte da imagem e os indícios do que ficou de fora. No renascimento, a pintura tinha o desenho como base, o desenho era o esqueleto que dava sustento, a carne/pintura. Então pensei em expor minhas pinturas com linhas na parede que dariam uma ideia de continuação desses desenhos que estariam cobertos pela pintura. Dessa forma, apropriei-me da parede como parte da obra. O espaço onde ela seria instalada passou a ter maior importância. Aqui já havia dois contrapontos: pintura realista (3D) x desenho linear, espaço de representação x espaço real. Essas obras representavam cenas cotidianas em ambientes domésticos, sempre protagonizadas por figuras femininas – que em minha série anterior (Fantasias do Cotidiano) eram apropriadas de pinturas eruditas e dos clássicos contos de fadas – em Ambiências na Parede optei por criar personagens com características “picassianas”. O terceiro contraponto: a perspectiva cubista, que quebrou radicalmente com a perspectiva linear utilizada na arte ocidental desde o renascimento. Gosto do resultado plástico dessa salada “imagística”, ainda pretendo retomar essa produção.

De que forma se dá o processo de instauração das imagens presentes em tua produção? Há modificações durante a construção das obras?

MM: Componho minhas imagens a partir de fotografias de minha autoria e imagens da mídia, coletadas nos mais diversos meios. Comumente uso mais de uma imagem de referência. Eu gosto de desenhar, mas vamos admitir que a fotografia liberou os pintores de terem que ser bons desenhistas para serem bons pintores. Tem pinturas em que utilizei cinco fotografias de situações distintas para compor uma cena. Meu processo de construção parte de uma ideia base, mas ela vai sendo transformada à medida que a pintura vai evoluindo. Costumo levar dias para concluir uma obra, sendo que novas ideias surgem e elementos podem ser inseridos durante esse processo.

Poderia nos contar um pouco sobre como começou a série Abuso e como tem sido trabalhar nesse conjunto novo de pinturas?

MM: Eu acho que iniciei a série Abuso porque estou há muito tempo sem namorado. Assim que arrumar um, eu prometo que paro. (risos) Aliás, tenho que agradecer o meu amigo artista, Fabrízio Rodrigues, por ter me sugerido pintar homens. O estranho foi que rolou uma breve autocensura da minha parte. Homens? Refleti sobre a ideia. Tantas mulheres já foram registradas pelos pinceis de dezenas, centenas, milhares de pintores talentosos. Imagens femininas exibidas em importantes coleções de arte pelo mundo. E os homens? Na minha sincera opinião, ainda mais belos do que nós mulheres, quantas pintoras realizaram uma série colocando a beleza do corpo masculino em primeiro plano? Na série Abuso, configuro as pinturas como se fossem cartazes, como se aqueles homens estivessem ali para anunciar um produto ou uma ideia, mas os corpos chamam mais atenção do que o letreiro, sendo eles o verdadeiro anúncio. Abuso trata de maneira bem humorada de questões relacionadas a gênero, pudor, valores e costumes da sociedade. Procuro elaborar imagens sedutoras e carregadas de ironia. No momento atual, penso que o corpo masculino em minhas pinturas evoca o corpo feminino ainda por este ter sido já tantas vezes exibido/explorado. Creio que futuramente isso pode ser diferente.

E como percebe a série Abuso em relação às demais séries que vem trabalhando?

MM: Em minha primeira série de pinturas, intitulada (Re)Vendo-nos (2004/2005), fiz uso da apropriação e manipulação, contrapondo imagens de cunho social à slogans publicitários. Posteriormente, na série Fantasias do Cotidiano, passei a pintar cenas cotidianas que eram protagonizadas por personagens femininos inseridos em meus espaços íntimos. Eram obras autorreferenciais e, talvez por isso, a personagem central era sempre uma mulher. Creio que Abuso tem relação com esses trabalhos. As mulheres representadas em minhas obras costumavam ser justamente nus femininos apropriados de pinturas consagradas da História da Arte (Tiziano, Courbet, Renoir, Velázquez, etc.). Em Abuso, penso que a pintura tem importância como mídia clássica por, entre outros motivos, retribuir às homenagens ao corpo feminino realizadas por inúmeros pintores-homens ao longo da História da Arte.

Acesse as obras de Michele Martines na galeria da Aura, clicando aqui.

Leia também a matéria da seção Garimpo da revista DASartes n.45 sobre a artista.

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Artista, Pintura