Maykson Cardoso conversa sobre curadoria e escrita

POSTADO: 30/07/2015

Maykson Cardoso conversa sobre curadoria e escrita

No presente diálogo com o pesquisador e curador, Maykson Cardoso, mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense, conversamos sobre as relações entre curadoria e a escrita, as diferenças entre texto crítico e texto curatorial e sobre a sua pesquisa que está desenvolvendo atualmente, conectando a postura do artista contemporâneo ao do arqueólogo. Confira abaixo o conteúdo completo.

Para você o que é curadoria?

MC: Eu poderia responder de muitas maneiras a mesma questão... Mas, por ora, gostaria de destacar que, para mim, a curadoria é um exercício que não se difere muito da escrita. Aliás, a curadoria é mesmo uma modalidade de escrita: implica reflexão, implica a solicitação de múltiplas referências e a conjugação, articulação delas em um determinado contexto. Neste sentido, o espaço expositivo – físico ou virtual – se oferece ao curador e ao artista como se fosse uma página em branco para aquele que escreve... E a gente sabe o que implica uma página em branco nesse caso: angústia, por um lado, mas, de outro, a potência de mil desdobramentos.

Poderia contar como se dá, normalmente, o desenvolvimento do conceito das mostras que realiza a curadoria?

MC: O “normalmente” da pergunta pressupõe que eu tenha realizado muitas mostras. Mas minha incursão na curadoria é tão recente que até aqui eu só pude realizar duas: uma mostra individual da artista carioca Adrianna eu, na Casa Porto – um Centro Cultural que fica nos arredores da Pedra do Sal, aqui no Rio de Janeiro – e, mais recentemente, uma mostra coletiva de vídeo-artistas brasileiros no XXXFuorifestival – um festival de cinema que acontece em Pésaro, na Itália. Portanto, aqui, só posso compartilhar um pouco dessas duas experiências que tive... Na ocasião da individual da Adrianna eu, fui convidado pela própria artista para pensar com ela em uma exposição que se adequasse ao espaço da Casa Porto. Era preciso que houvesse uma seleção das obras que integrariam a exposição... e era uma exposição importante pelo contexto em que aconteceria: na vizinhança da própria artista, com abertura agendada durante um evento anual que integra toda a comunidade dali. Naquele momento, pensamos que seria importante expor a trajetória dos “corações” – obras icônicas de Adrianna eu – e, a partir dessa decisão, fomos explorando os conceitos que eram mais pertinentes, que acreditávamos que ressoariam para o público e, ao mesmo tempo, que dessem a entender aquilo que motivou as nossas escolhas. Não tardou muito para que nos viesse o título, uma pérola sugerida pela querida Fernanda Lopes que nos lembrou de um trechinho de Água Viva, da Clarice Lispector, que diz que “o mais profundo pensamento é um coração batendo”. Foi uma referência cara para nós e especialmente para mim, que vim da área de Letras, da Literatura. E, sim, era um título longo, barrocamente longo, mas como sói ser as nossas almas, a minha e a de Adrianna eu. Já a mostra italiana me colocava outros desafios. Era uma mostra coletiva para a qual convidei artistas que já têm uma longa trajetória e artistas que estão se consolidando agora e que trazem questões importantes à cena contemporânea. Nessa “antologia”, havia projetos tão diferentes, poética e conceitualmente, que não poderia pensar em um tema ou conceito a priori para amarrá-los. Era preciso assumir aquela diversidade poética como um desafio. Fiquei um tempo pensando nisso... como poderia dar um sentido àquele suposto nonsense. Então, um dia, me veio à cabeça o caleidoscópio, esse dispositivo que reúne minúsculos cacos de vidro que são capazes de se juntar e oferecer para nós uma infinidade de imagens, desde que nos disponhamos a girá-lo. Na minha imaginação, nesse meu desejo de encontrar um eixo de sentido para a mostra, o vídeo de cada artista seria um desses caquinhos, de modo que cada espectador teria, alegoricamente, um caleidoscópio que contivesse todos os vídeos que pôde ver. Bastava, portanto, que ele girasse o seu caleidoscópio, isto é, que parasse e refletisse em todas as possíveis relações entre esses vídeos para que pudesse descobrir algumas imagens. Foi sob esse mote que a mostra se deu: a “Mostra Caleidoscópio”... Eu espero muito que ela tenha outros desdobramentos muito em breve.

Como é para você desenvolver os textos das mostras que atua como curador? Qual é o seu processo de criação textual?

MC: Eu apenas me preocupo com o fato de que o meu texto seja capaz de dar a entender as motivações da mostra.

Você percebe alguma diferença entre um texto curatorial e um texto de crítica de arte?

MC: Veja, nesse caso, estamos falando de dois gêneros textuais diferentes, de fato. O texto curatorial é mesmo um texto de apresentação da exposição que, em alguma medida, deve buscar meios de justificá-la, contudo, sem ter a pretensão de ter a última palavra sobre ela. Afinal, por que tal exposição é importante? A que veio? Aliás, essa pretensão de ter a última palavra sobre uma obra, uma exposição, tem muito mais a ver com uma postura autoritária. Há quem acredite que este seja o papel da crítica, de emitir um juízo sobre alguma coisa, de dizer algo capaz de conferir a essa coisa uma verdade, quando isso é o que menos interessa em relação a qualquer produção subjetiva. O lugar das produções subjetivas é mais o lugar do enigma e muito menos o lugar do segredo. Aprendi isso com o filósofo italiano Mario Perniola. Enquanto o pensamento do segredo se preocupa em tirar o véu que encobre a verdade – Ó, A VERDADE! – por trás das coisas, o pensamento do enigma despende toda a energia no processo de explicação da coisa em si... e há muitos caminhos possíveis para explicar tudo o que nos é oferecido como enigma. No final das contas, a única função de um texto crítico – agora falo lembrando o que Foucault disse em uma entrevista – não é outra senão a de fazer a obra existir, isto é, de convidá-la para um dedo de prosa.

Que questões, na produção artística contemporânea, mais lhe inquietam?

MC: Na minha dissertação de mestrado, realizada no Programa de Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense, ao estudar a poética do escritor uruguaio Rafael Courtoisie, entendi que a poesia podia ser uma espécie de “arqueologia do presente” – tomei emprestada essa ideia do Mario Benedetti que chamou Courtoisie, no prefácio de um de seus livros, de “sagaz arqueólogo do presente”. Essa “arqueologia”, para mim, consiste no fato de que o poeta observa os objetos do cotidiano, que costumamos ver apenas sob a ótica do utilitarismo, e pode estranhá-los e ressignificá-los através da poesia, tanto quanto um arqueólogo quando se depara com um objeto desconhecido em suas escavações e se empenha em explicá-los, segundo algumas hipóteses e critérios. Em 2013, quando comecei a explorar mais o campo das artes visuais – cheguei a trancar o mestrado para fazer cursos livres no Parque Lage para ver de perto o processo de criação desses outros modos de fazer poesia – eu queria continuar investigando essa mesma questão, de Duchamp, com o urinol e outros tantos objetos de nosso uso que se fizeram enigma, aos gestos mais corriqueiros que ganham outra dimensão quando repetidos à exaustão na dança-teatro de Pina Bausch ou em uma performance de Marina Abramovič. Foi por isso que, em 2014, escrevi o projeto de doutorado que me fez ingressar no Programa de Artes Visuais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, intitulado “O artista contemporâneo enquanto arqueólogo”. O arqueólogo assim, sem aquele genitivo “do presente” lá da minha dissertação, justamente para que eu pudesse pensar em outras questões da arqueologia enquanto tropo para compreendermos outros aspectos relativos à produção subjetiva da contemporaneidade, seja ela inscrita no que chamamos de literatura ou artes visuais. Finalmente, por várias questões de cunho pessoal, precisei deixar o doutorado, mas devo voltar em breve.

Entrevista por Talitha Motter

Fotografia de Alex Girardi - No lado esquerdo da fotografia, está presente um quadro da artista Viviane Teixeira, participante do Aura.

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categorias: Curadoria, Exposição