Frantz e a questão da pintura

POSTADO: 14/10/2015

Frantz e a questão da pintura

O blog Diálogos, desta vez, traz o depoimento do artista Frantz, atuante no campo das artes há mais de 30 anos. A partir de suas palavras, adentramos em como seu processo de criação tem se desenvolvido, de forma sempre renovadora, mas no qual permeia um questionamento constante sobre os limiares da pintura. Confira abaixo e conheça mais sobre sua produção:

Como foi a sua inserção no universo artístico? Quando se percebeu como um artista?

F: Bem, de certa forma eu brinco com essa ideia, mas na verdade é isto, a minha aproximação da arte se deu pelas pessoas. No fundo, gostava das conversas, debates, questionamentos, etc., me fascinava muito com o universo que cercava os artistas e o que faziam, isso é lá pelos meus 13/15 anos.

Queria ser igual, participar, pintar, desenhar, discutir. Foi quando surgiu a questão de desenhar, pintar, ver exposições, cada vez ver mais coisas, e o universo se expandia, aí sim eu queria participar desse universo.

Ao mesmo tempo que desejava ser perfeito, desenhar e pintar de forma extremamente figurativa, pintava e desenhava de tudo, desenhava compulsivamente e também tinha a ansiedade de explorar outras facetas. Então, de repente, com 18 anos, sou convidado a realizar uma exposição individual no MARGS, que se tornou emblemática (Pichações). De uma hora para outra era artista, foi ótimo, mas ao mesmo tempo complicado e perigoso.

Ser aceito tão novo, de uma forma ou de outra, cria uma situação de acomodação, parece que tudo o que você faz é bom, mas na verdade a gente tem de parar, repensar, rever o que se faz, os processos, estar sempre em movimento, interno e externo.

Enfim, me percebi querendo participar e estar em um grupo. Mas é também maluco ser chamado de artista, o que hoje me leva a uma reflexão: a gente existe, nós somos artistas, ou é o meio, os processos de legitimação que nos colocam como sendo? Acredito muito mais nessa situação, mas o bom é que nos resta sempre o pensar e o fazer, e assim creio que hora ou outra este trabalho virá à tona.

Frantz_Soartes_Aura

O que você entende por pintura?

F: Além do clássico conhecimento das artesanias, do fazer, das habilidades técnicas, aliás, muito além disso, a capacidade de intercalar tudo, liquidificar estas informações e se aventurar em um desafio, onde cor, espaço, fazer, não fazer, olhar, descobrir, descortinar ideias são essenciais.

Meu trabalho, depois de anos pesquisando técnicas, cores, pigmentos, acima de tudo, é uma aventura de esgarçamento do que é pintura.

Brincar com isso tudo para mim é arte, por um acaso e por paixão ocorre mais no campo da pintura. Não sei se entendo, mas busco cada vez mais me perguntar, questionar e ironizar com o que é pintura.

Quanto mais me pergunto, mais caminhos se abrem e menos certezas ficam, há mais dúvidas para novas perguntas e novos desafios. Aliás, dizer isto é pintura é fácil, ali há cor em uma superfície, portanto é pintura, mas é essa a pintura que me interessa, o que lá está dá pra se chamar de arte, aí nesse ponto as coisas complicam e se tornam interessantes.

Como são escolhidos os lugares que reveste com tecido para que, dessa forma, possa captar rastros da ação do tempo e do agir nesses ambientes?

F: Esse trabalho iniciou com a necessidade de proteção do espaço, de não deixar sujar a sala de ateliê; dos restos, pensei em trabalhar sobre eles, mas não conseguia interferir, eles me bastavam e se bastavam.

Depois de anos forrando o meu ateliê, onde inúmeras pessoas trabalhavam, que compartilhava com outros artistas, vi que certas coisas se repetiam, foi quando comecei a propor a artistas mais próximos de mim, mais por afinidade pessoal, do que por uma intenção.

Afinal forrar um ateliê de um cara que trabalha muito com tintas diluídas é muito diferente daquele que trabalha com pastas de óleo, aí começa um novo desafio, um novo dilema, pois a distância e as diferenças se impõem.

Não dá para esquecer que é necessário, para quem tem o ateliê forrado, um certo desprendimento, não prestar atenção naquilo que lá está. Mas a mim é muito importante aguçar ao máximo a percepção de um espaço desconhecido, e ver o que dali pode sair, é necessário um desprendimento meu, pois por vezes o material fica por anos (muitas vezes, mais de cinco anos) distante, acontecendo a pintura. Aliás, uma pintura demorada no fazer e no escolher o que deve ser aproveitado.

Muitas vezes, a primeira impressão da chegada ao atelier é que daquele material não renderá nada, mas com calma, com aguçamento da percepção, do olhar sobre o material, observando a lona, pensando no corte, acho os espaços, como num quebra-cabeça. Quando se acha algo, se identifica algo, coisas começam a brotar e inúmeras possibilidades se mostram. Nesse momento, outra dificuldade vem à tona, o que aproveitar, o que cortar e como cortar, e o trabalho, a pintura, acontece nessa decisão, não por uma ou outra pincelada, mas por um corte.

Como você percebe o diálogo constituído por todos artistas, alunos ou outros agentes que deixam vestígios de suas trajetórias processuais nessas superfícies que após utiliza em sua obra?

F: Gosto e funciona quando ele não é percebido, quando a lona que esta lá, vira apenas piso e parede, quando o artista usa o espaço, sem se preocupar, sem interagir como obra, mas como espaço de sua rotina de trabalho, aí funciona, mas já houve casos onde ele se colocou como autor. Nesses casos, não tem como aproveitar, fica tudo muito evidente, fica chato.

Nos últimos anos, já não gostava do material oriundo do meu ateliê, pois alguns alunos, sabendo que eu iria aproveitar aquilo tudo, procuravam, derramar, manchar, pintar algo nas paredes, e esta intencionalidade tirava o que de mais essencial tem no que estou fazendo.

De que maneira se dão os recortes e as edições do material coletado para a realização de seus trabalhos?

F: Esse é um trabalho longo e, por vezes, penoso, um parto a fórceps.

É algo de abrir, olhar, pensar, fotografar, repetir isso à exaustão. E, de repente, está lá, pego e corto, olho, e é ou não aquilo. Um corte é fatal, ele resolve ou acaba com tudo.

Há também situações onde creio ter resolvido, mas a lona fica lá, fico observando, guardo, volto a colocar na parede, ou, por vezes, fica estendida no meio da minha sala de casa, até decidir o que devo e tenho de cortar, e a certeza inicial não é mais aquela, pois outras possibilidades surgem.

Aliás, pensando o processo de forma sucinta, primeiro queria pegar e ter uma base para pintura; depois aquilo virou a pintura, mas sobravam metros de tela, que para mostrar em um bastidor eram muito insignificantes; aí de repente dobrando vieram os livros; depois em pequenas beiradas de tela, surgiram as paisagens; e sempre vem surgindo coisas novas.

Aliás, espero que sempre surjam e consiga continuar encontrando algo para garimpar.

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Artista