FERNANDA LOPES CONVERSA SOBRE CURADORIA COM O AURA

POSTADO: 25/05/2015

FERNANDA LOPES CONVERSA SOBRE CURADORIA COM O AURA

O Blog Diálogos começa hoje uma série de postagens voltadas diretamente para a questão da curadoria. A partir de depoimentos de diferentes curadores, com distintas trajetórias, pretendemos entender como cada um percebe essa maneira de atuar no mundo da arte. Neste diálogo, trouxemos a curadora e pesquisadora em arte, Fernanda Lopes, para comentar sobre esse conceito e também sobre exposições que esteve envolvida.

Para você o que é curadoria?

FL: Para mim é sempre uma pergunta, um investigação,  um exercício. Eu vejo muito como uma tentativa ou uma oportunidade de dividir um ponto de vista com os artistas e com o público, especializado ou não. Não me interessa uma curadoria que traga uma resposta pronta, fechada. Acho que é um momento de risco mesmo, de se abrir para a dúvida, para uma possibilidade.

Poderia comentar sobre uma exposição que visitaste e que considera memorável? O que lhe marcou?

FL: Uma das minhas lembranças mais antigas é de ver Cruzeiro do Sul do Cildo Meireles no Museu de Arte Moderna do Rio. Era uma exposição de instalações da coleção Gilberto Chateaubriand, se não me engano. Tinham peças incríveis do Waltercio Caldas, do José Damasceno, mas esse trabalho do Cildo foi muito impressionante para mim. Eu não sabia que aquilo era possível em arte – a maneira como o trabalho se apropria do espaço e do corpo das pessoas sendo materialmente tão pequeno. Nesse sentido, a primeira vez que vi um trabalho do Richard Serra, na Bienal de Veneza de 2001, também foi um impacto. Até hoje são dois artistas de quem gosto muito. Mais recentemente, a exposição panorâmica da obra do Milton Machado no Centro Cultural Banco do Brasil (Rio de Janeiro e Belo Horizonte) também me chamou muito a atenção. Pude levar turmas de alunos para ver a mostra e as reações e comentários sobre o trabalho geraram discussões muito ricas nas aulas. O mesmo aconteceu com a mostra do Geraldo de Barros no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. A individual da Fernanda Gomes no Centro Cultural São Paulo também foi muito marcante para mim.

Entre as mostras que realizou, há alguma que se destacaria entre as outras? Que considera especial de alguma maneira? Por quê?

FL: Eu tive a oportunidade de trabalhar como assistente de curadoria de muita gente bacana, mas na verdade fiz poucas curadorias minhas. Entre as que são assinadas por mim, eu acho que não conseguiria escolher uma. O que me interessa muito e mais me estimula é a troca com os artistas. Talvez minha formação e atuação como jornalista tenha forte papel nisso. Eu sempre gostei de visitar exposição em montagem, ir a ateliês, conversar com os artistas e curadores. Eu gosto dessa cozinha. E aí sob esse aspecto tanto faz se é uma exposição coletiva ou individual. Nos últimos anos, tive muita sorte de trabalhar em exposições individuais de artistas que gosto muito, mas talvez a coletiva Aparição, realizada em 2014 na Galeria Athena Contemporânea (RJ) tenha um papel especial para mim, ao reunir artistas com quem queria trabalhar há algum tempo, cujos trabalhos me interessam muito, e em um processo de troca que foi muito rico para mim.

Quais são as questões que mais lhe inquietam na arte contemporânea?

FL: Não sei... Muitas vezes essas "questões" já viraram algo como etiquetas, umas formas pré-fabricadas, pré-estabelecidas, onde você tem que se encaixar ou ser encaixado de alguma maneira. Talvez o que me inquiete mais sejam trabalhos que ainda estão à procura, que ainda tem um "pedaço" faltando, ainda estão buscando fazer sentido... Mais do que aqueles trabalhos que trazem respostas certas, prontas, bem acabadas. A dúvida é um lugar desconfortável, mas muito potente eu acho.

Foto - Marcelo Quinderé

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Curadoria, Exposição