Entrevista com o artista Osvaldo Carvalho

POSTADO: 16/06/2015

Entrevista com o artista Osvaldo Carvalho

Osvaldo Carvalho, artista da plataforma Aura, comenta sobre a série de pinturas “Fabulário” e sobre as principais questões com que trabalha em sua obra. 

Por que “Fabulário”? Poderia contar um pouco de como é seu processo de criação? Em suas telas podem ser percebidos diversos elementos, como texturas coloridas, animais, alimentos, objetos do cotidiano, crianças. Como é elaborado esse universo referencial?

OC: A pintura sempre esteve presente em minha carreira, mas de maneira subsidiária, servia ao escopo de um pensamento maior de trabalhos em que vinha resolver uma situação específica de uma ideia como na série Dealer em que pintava a óleo placas de compra, venda e aluguel de arte. Até então não havia um compromisso exclusivo com esse meio, mesmo já tendo feito pequenas incursões na área. Em 2010, ao observar os arquivos virtuais que criei com imagens variadas de objetos, de pessoas, de lugares, materiais diversos, eu comecei a fazer relações entre eles, aparentemente aleatórias, e pouco a pouco fui percebendo suas ligações ao longo das pesquisas que desenvolvi sobre todo esse universo da internet com milhões de informações. Fabulário surge nesse esteio, com as consultas que fazemos diariamente sobre os mais amplos assuntos e que nos guiam por caminhos/saltos inesperados em links que muitas vezes não parecem fazer sentido. É como entendo a criação das fábulas contemporâneas surgidas pela internet, digamos também que é uma "busca" por um tema que, de repente, me apareça enquanto "navego", e aí vêm aquelas "correlações" malucas em que começamos pesquisando sobre quarto de bebê e acabamos com acidente de carro, passando por brinquedos, bichos, tiroteio, etc (tela Love me!). Ou então sobre coca-cola e terminar em galinhas, passando por ratos, por crianças que perderam suas mães, brinquedos, etc. (tela Maroon). Ou sobre Tarzan e descobrir um gorila verde (tela Johnny) e por aí segue.

Para você qual é o papel da palavra em seus quadros? Como as frases “What love is?” ou “Danger. Do not cross.”

OC: A palavra sempre esteve presente nos meus primórdios artísticos (risos). De fato, sempre gostei de escrever e entendo que a palavra alimenta outras circunstâncias do pensamento, outras esferas do raciocínio e pode ser uma chave de entranda para a percepção do meu trabalho; não será a única, obviamente, mas trará um, digamos, alento, ao observador.

Existe um motivo especial para o uso do inglês, que também aparece no nome do quadro “Johnny”?

OC: A utilização é provocativa. Não raro encontramos “puristas” que insistem no uso exclusivo da língua pátria, mas são os mesmos que vão a shoppings, usam laptops, fazem links de ideias, usam facebook, pen drive, smartphone, postam, deletam, e por aí vai. Esse conflito me pareceu mais ressaltado quando, na minha pesquisa por imagens no google, percebi que o universo de imagens apresentadas se expande se a pesquisa for realizada em inglês. Daí para os títulos foi só um pulo.

Na entrevista para o blog “ArtArte” de 2012, comenta que a forma de funcionamento das relações humanas talvez seja a sua questão em arte. Ainda percebe dessa maneira? Poderia comentar mais sobre isso?

OC: Sim, é verdade, meu pensamento está sempre voltado para como o outro irá, por exemplo, receber minha obra, não penso minha arte pela arte, mas como um contato que farei com as pessoas, uma abordagem sobre um assunto, uma análise de relações em última instância. Essa série expõe isso, porque as imagens que eu recebo de uma pesquisa estão, intimamente, relacionadas com o que o outro colocou à mostra. Se eu pesquisar doce/candy, encontro não apenas receitas, bolos, cakes, mas música (vide, Iggy Pop), e por aí vai. O que para você é relevante como tema, pode ser assunto secundário no outro, e vice-versa, mas estarão lado a lado na pesquisa de imagens da internet, entende isso?

Percebe-se, como bem coloca Marco Antonio Portela, uma tensão em seus trabalhos. Telas convidativas, vibrantes, coloridas, com elementos carismáticos como um porquinho dormindo sorridente, mas que logo vai virar presunto. Há essa procura pela tensão? Como entende isso?

OC: Como disse acima, a tensão está na manifestação pessoal em que para uns a violência é um fetiche e para outros uma aberração. Há quem adore postar/baixar imagens de acidentes, por exemplo, e quem tenha repulsa e até considere desnecessário aquilo. Mas a grande rede não tem exceções. A tensão é clara se você busca saber sobre pets e vê não apenas cãezinhos fofinhos, mas também maus tratos de animais, essa “tensão” é explícita! Minhas telas são uma releitura dessa amostragem conflituosa com que nos deparamos a todo momento. 

Entrevista concedida à Talitha Motter no mês de janeiro de 2015, em decorrência da exposição "Fabulário", realizada na Galeria de Arte Meninos de Luz (RJ).

No Aura, Osvaldo apresenta pinturas da série Pequenas Dissensões. Confira!

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categorias: Artista