Entrevista com o artista Fabiano Devide

POSTADO: 02/06/2015

Entrevista com o artista Fabiano Devide

Fabiano Devide é um dos artistas selecionados pela “1ª Chamada de Portfólios” do Aura, sua página e suas obras disponíveis para aquisição na plataforma podem ser acessado neste link.

Na entrevista que segue, Fabiano comenta sobre como ingressou nas artes visuais, o seu processo de criação e as formas de contato com sua obra.

Conte um pouco sobre sua formação e seu início nas artes visuais.

FD: Eu comecei a pintar aos 11 anos, em Curitiba. Na escola, gostava das aulas de educação física e educação artística, nas quais me destacava. Meus pais então me matricularam no ateliê de pintura a óleo da artista Consuelo Fabrino, um curso de certa forma “acadêmico”. Olhávamos as fotos de uma pintura e tentávamos reproduzí-la numa tela pequena. Foi minha primeira aproximação com a atividade artística de forma sistemática [...]. Depois nos mudamos para Teresópolis e lá eu entrei para o ateliê de pintura do artista José Ramon, momento que também comecei a ter aulas de desenho com o artista plástico Ronaldo Antunes. As aulas eram mais organizadas e tínhamos um encontro semanal que tratava de uma técnica diferente: desenho a carvão, aquarela, pintura com acrílica… Mas paralelamente, aumentava meu envolvimento com as práticas esportivas e acabei me dedicando mais nesta área. Foi quando ingressei no curso de Educação Física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a arte ficou em segundo plano. Segui a carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado e passei a fazer uma investigação na área de Estudos de gênero no esporte, uma área relativamente nova no Brasil.

Em que momento você retomou às práticas artísticas?

FD: Quando me mudei para o Rio, conheci amigos que passaram pelos cursos do Parque Lage. [...] em 2009, eu já tinha entrado no Parque Lage e já vinha sofrendo um processo de contaminação. Meu olhar estava mudando e sentia que perdia a ingenuidade em relação ao que eu entendia como arte. [...] Como eu não tinha lastro de teoria e História da Arte, senti que precisava estudar. Passei a comprar livros e fazer cursos teóricos, como o Processo Criativo, com Charles Watson; e História da Arte Contemporânea, com Pedro França. Nessa época, [...] passei a encarar o trabalho artístico com mais dedicação. [...] iniciei uma investigação plástica direcionada [...]. Resolvi tratar no contexto da pintura, de questões que eu discutia no meio acadêmico. [...] Comecei a desenvolver um trabalho que tinha como objetivo explorar as relações entre gênero e identidades masculinas nas práticas corporais. Queria problematizar com a pintura, a questão do cruzamento de fronteiras: a luta como uma área de reserva masculina, mas que produz cenas que podem gerar uma interpretação plural; e a dança, que historicamente é uma área da reserva feminina, na qual os homens se inserem e por vezes, enfrentam uma série de preconceitos. Depois deste estudo, desenvolvi uma série que eu chamei de “Silêncios” [...]. Considero este momento um divisor de águas na minha recente trajetória, quando meu trabalho, de fato, passou a amadurecer e desenvolver uma linguagem. Os personagens que apareciam nos trabalhos anteriores em posturas ativas de luta ou de dança, começaram a aparecer sozinhos, estáticos, numa situação de reflexão e numa atmosfera fria. A paleta de cores do trabalho começou a se direcionar para os tons de cinza e azul… No fim daquele ano de 2011, [...] produzi alguns desenhos com impressão de carbono e quando retornei às aulas comecei uma série nova que mantinha essa a paleta de cores (cinza e azul) ainda com os personagens num certo isolamento, mas agora também em situações de confinamento. [...] Depois de desenvolver esses trabalhos passei a enviá-los para diversos salões e, em 2011, começaram a ser selecionados [...].

Sobre a paleta de cores do seu trabalho, a presença constante do azul e esse quê de penumbra…

FD: Uma fantasmagoria. Isso é intencional. Porque nos desenhos dessa série eu não preencho os personagens. Todo campo do espaço, do chão e das paredes é preenchido com tinta e dos personagens não, exatamente para falar do esvaziamento, daquele sujeito anônimo que está retratado ali e a não atribuição de nenhuma identidade a ele [...]

Conte um pouco sobre sua atuação no mundo institucional.

FD: [...] meu trabalho artístico tem intenções e uma delas, sem dúvida, é que as pessoas possam ver essa produção. Para isso, ou esses trabalhos tem que estar num salão, num espaço institucional, ou numa galeria. [...] Ainda não mantenho um ateliê fora [...]. Isso muitas vezes é complicado, porque sinto vontade de trabalhar com grandes formatos ou produzir simultaneamente vários trabalhos e não posso. Isso acaba freando o processo. Mas acredito também que o ateliê do artista [...] está na cabeça. [...] O que estou tentando fazer é conciliar. Minha vida acadêmica foi um projeto planejado e hoje [...] separo um tempo para produzir sem ansiedade. As pessoas na universidade sabem que me dedico à arte e alguns acompanham meu processo, indo nas exposições que participo ou até mesmo me convidando para falar sobre diálogos possíveis entre Esporte e Arte [...]. Acho que isso também me potencializa como professor porque abre outros canais como a sensibilidade e a percepção que são fundamentais à docência. A arte educa e sensibiliza. Quanto ao vínculo institucional no campo da Arte, [...] o processo, geralmente tem sido das pessoas conhecerem meus trabalhos em exposições, feiras ou pelo meu site. Fazem contato, conhecem o portfólio, visitam o ateliê e surgem os convites. [...] Construí um blog para escrever sobre meu processo criativo e compartilhá-lo com outros artistas em 2010, mas [...] de um projeto de portfólio, o site foi tomando vida própria: comecei a escrever sínteses de textos de história e crítica da arte que lia e passei a mostrar menos meus trabalhos nas postagens. Também publico sobre trabalhos de artistas que abordam a temática do esporte ou do gênero, dessa forma compartilho com meus alunos da universidade e outros artistas que se interessam por esta investigação. [...] Um artista não se faz em um ou dois anos. Há pouco tempo assisti um documentário sobre o Gehard Richter que apresenta o seu processo criativo. Quando você compara as pinturas dele de 20 anos atrás com o que ele faz hoje, você entende o processo de transformação que o artista passou até chegar na pintura abstrata… E ele levou trinta anos para chegar onde chegou…

Blog Fabiano Devide: www.fabianodevide.blogspot.com

Trechos de entrevista concedida à Bruna Bailune, em 2012, para o site COOOSMO Arte Contemporânea.

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categorias: Artista