Entrevista com Fernanda Pequeno

POSTADO: 24/11/2015

Entrevista com Fernanda Pequeno

Nesta postagem do blog Diálogos, entrevistamos a doutora em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Fernanda Pequeno, que atua como curadora e crítica de arte desde 2005. Perguntamos como se deu a sua formação nessas duas áreas tão fundamentais para o sistema da arte; se é possível perceber pontos de convergência entre as curadorias que vem realizando; e as diferenças encontradas em se realizar um texto crítico e um texto curatorial. Leia abaixo a entrevista completa e compartilhe um pouco das experiências vivenciadas por Fernanda:

 

Na sua trajetória dentro da arte, como se iniciou a sua atuação como curadora e crítica? Como foi e/ou tem sido para você estabelecer uma base formativa para o exercício dessas atividades?

FP: Minha atuação como crítica de arte surgiu ainda na graduação, primeiramente em exercícios de escrita para a disciplina de historiografia e também num laboratório de crítica de arte que integrava. Posteriormente, ela se desenvolveu no estágio que realizava nas galerias de arte universitárias, pois além de participarmos das montagens, éramos convidados a escrever para o folder das exposições e a programação era pautada prioritariamente por arte contemporânea. Nessa época, também lia muito, pois ficava a maior parte da carga horária do estágio nas galerias. Lembro-me da alegria que senti ao ler o resultado do trabalho: ver o primeiro texto publicado e perceber que eu gostava de fazer aquilo me gerou uma enorme satisfação. 
A curadoria veio depois, quando eu já estava no mestrado, como um desdobramento desse exercício crítico. Deve ser por isso que pra mim a curadoria só pode existir se for a partir do diálogo, da cumplicidade com o trabalho de arte, o que também considero necessário ao exercício da escrita. Além disso, vejo o curador como um mediador entre o artista, a instituição e o público, ele tem uma função formativa. Por isso, a montagem precisa ser clara, espelhar o seu pensamento e as conexões que estabelece. O fato de ser professora também influenciou muito a minha opção profissional pois acredito que a curadoria compartilhe com a docência a função didática. Para mim, são dois suportes diferentes: a crítica se instaura no texto e a curadoria na montagem, que vejo como uma ilha de edição na qual se pode dificultar ou facilitar o acesso às obras, dependendo da configuração da mostra, do que você aproxima, do que afasta, da iluminação, da quantidade de trabalhos e de artistas etc. 
Em relação à segunda parte da pergunta, acredito que uma formação acadêmica em artes ou história da arte facilita que as conexões históricas sejam feitas mais naturalmente. Por outro lado, o primordial é a curiosidade, um perfil investigativo e crítico, que é imprescindível a qualquer pesquisador, e que pode ser despertado em outras formações, dentro ou não da área de humanas. Para os dois casos, o fundamental é ver os trabalhos e ler muito, se informar. Isso vai te dando um repertório visual e teórico, que são fundamentais. Assim como deixar-se afetar pelas obras, mas sem naturalizar essa proximidade, sem deixá-las cair numa zona neutra ou acomodada. Às vezes, se distanciar é necessário, para não permitir que a cumplicidade torne a obra opaca, refratária à crítica. 
Por fim, acho que numa época em que a fluidez e a maleabilidade são exigências, não podemos perder de vista que os aprofundamentos também se fazem necessários. Prezar pela qualidade em detrimento da quantidade é uma maneira de atuar eticamente, um comprometimento necessário para o exercício dessas duas atividades que não são simples de serem exercidas. O tempo urgente é o da tecnologia, o pensamento corre em outra velocidade, mais desacelerada.

Como é para você o processo de construção do conceito curatorial das exposições que organiza? Podem ser identificados pontos de convergência entre as mostras?

FP: Em geral o conceito surge a partir de uma relação mais direta com um corpo de trabalhos ou de artistas. Dificilmente penso um recorte conceitual em si mesmo. Se desejo efetivar uma investigação mais teórica ou abstrata, escrevo. Mas se tenho uma proposição mais concreta, parto para a curadoria, que é uma maneira de materializar o pensamento no espaço, através da montagem, estabelecendo associações mais diretamente. Para mim, nas curadorias o conceito sempre vem ou depois ou conjuntamente com o interesse em trabalhar com determinadas obras, as duas coisas andam juntas. 
Creio que possa apontar pontos de convergência sim. Gosto muito de pensar a curadoria como um processo próximo ao da produção artística. Compartilhamos, curador e artista, angústias, incertezas, apostas. Em geral, as minhas curadorias focam no caráter mais processual e experimental da arte, um lado mais lúdico, menos objetual pois não gosto das certezas, prefiro as sutilezas, dúvidas e indagações. Aposto em montagens clean, mais silenciosas, já que o espaço da arte pode ser um contraponto ao atropelo contemporâneo. Me interessa também pensar em recortes conceituais que aproximem artistas de origens, formações e gerações diversas, o que torna as conexões mais desafiadoras.

A partir da sua prática de produção textual, pode-se perceber diferenças na construção de um texto em crítica de arte e de um texto curatorial?

FP: Ambos partem de um exercício crítico, analítico e também de uma parceria com o trabalho de arte, mas digamos que o primeiro seja mais isento e mesmo mais “livre”, a não ser que ele seja encomendado. No texto crítico, você pode e deve fazer avaliações, até mesmo negativas e, mesmo que faça as adaptações ou as concessões necessárias ou inerentes ao veículo que o publica (texto para folder ou livro, para revista, para jornal, para blog), a escolha do tema e o recorte são seus. Adequações ao perfil editorial e ao público-alvo também são necessárias, mas existem inúmeras maneiras de exercitar a escrita, sem perder de vista a responsabilidade com a mensagem original que deseja transmitir, afinal, a metáfora existe pra isso. O texto existe pra ser lido por outras pessoas, mas ele também possui uma visualidade: você pode explorar negritos, itálicos, caixa alta, espaçamentos, ou seja, o texto crítico possui um significante, além de seus significados, e embora ele parta da análise de um ou mais trabalhos, mantém certa autonomia em relação a eles. 
O texto curatorial implica necessariamente num comprometimento, numa parcialidade mais objetiva e direta, pois se você escolheu determinado artista ou obra para integrar uma exposição existe uma justificativa para tal e isso aparecerá na montagem e no texto. O que considero que torna mais difícil falar sobre o que incomoda na curadoria. Embora o texto curatorial e a montagem possam e devam problematizar questões, períodos, certezas, você não coloca uma obra numa exposição para desqualificá-la.
Para mim começar a realizar curadorias foi fundamental porque eu era muito tímida. Foi um exercício importante pois o curador possui uma atuação mais pública, está fisicamente presente, é uma espécie de relações públicas, faz pontes com as instituições e galerias, é convidado a falar em público e, no texto curatorial, você pode aprofundar as proposições presentes na própria montagem. O texto curatorial funciona como outro veículo ou suporte, outra maneira de exercitar o olhar sobre determinadas obras ou questões, explicitando ou sublinhando certos aspectos abordados na mostra. De todo modo, ele é um espelho da exposição, não há como separá-lo da montagem. O texto crítico te permite falar de projetos improváveis, não realizáveis, dos erros e dos processos, tem uma abertura maior, enquanto o curatorial aborda necessariamente os “resultados”, aquilo que está exposto. E tem mais, o texto crítico, mesmo sendo assinado, mantém o autor em certa invisibilidade: seu nome está presente, mas o seu corpo não necessariamente, o que gera uma espécie de anonimato. Afinal, como disse o Georges Bataille: “escrevo para apagar meu nome”...  De todo modo, os dois textos, crítico e curatorial, são feitos para durar. A exposição só é acessível para quem a visitou e as fotografias ou o tour virtual não substituem essa experiência pois ela tem uma duração específica: um fim de semana, um mês, três meses, já o texto fica... 

 

Para saber mais sobre as concepções da curadora e crítica de arte Fernanda Pequeno, acesse o artigo de sua autoria Curadoria: ensaios & experiências, que foi publicado na revista Concinnitas da UERJ.


Foto: Rafael Adorján

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Curadoria, Exposição