Economia criativa: uma forma de tornar o mercado “mais humano”?

POSTADO: 01/12/2015

Economia criativa: uma forma de tornar o mercado “mais humano”?

Louise Scoz, diretora da empresa parceira do Aura "Observatório Inteligência de Mercado", preparou um texto para o blog Diálogos que discute a possibilidade da economia criativa tornar mais humano o mercado econômico brasileiro. A pesquisa completa faz parte de sua apresentação na “XI Reunião de Antropologia do Mercosul” (30/11 a 04/12, Montevidéu/UR), evento organizado pelo Anthropologies of Art Network. Confira abaixo:

 

Economia criativa: uma forma de tornar o mercado “mais humano”?                

Por Louise Scoz

A preocupação tradicional da economia é como os indivíduos utilizam recursos finitos para saciar necessidades infinitas, sendo que um problema econômico começa a ser definido por perguntas como: o que produzir? Quando produzir? Em que quantidade produzir? Para quem produzir? Já no universo da arte essas questões estão distantes. Agentes não parecem se questionar vividamente sobre “o que produzir”, “quando produzir”, “em que quantidade e para quem se destina essa produção”. Dificilmente enxergam a si mesmos como indivíduos divididos entre escolhas racionais, pensadas de modo a maximizar sua utilidade. O mercado da arte também não pode ser pensado no registro da economia de mercado, mas parte de um sistema de arte que opera através de instâncias de consagração que legitimam transações monetárias.

Durante a pesquisa realizada junto a agentes – técnicos, empresários e investidores que atuam dentro e fora das fronteiras do Brasil –, envolvidos em empresas startup vinculadas à Economia Criativa, tive extenso contato com policy makers dedicados à formulação de políticas públicas ligadas a setores de tecnologia e informação no país, articulados nos Observatórios de Economia Criativa implementados em universidades federais brasileiras desde 2013. Todos estavam especialmente interessados em uma categoria emergente da economia, a chamada Economia Criativa. O argumento central era que o investimento em Criatividade era uma saída viável a médio e longo prazo para questões estratégicas relacionadas ao desenvolvimento, que não era mais compreendido em um registro simplesmente numérico de performance de setores da economia, mas sim como um paradigma que englobava necessariamente os desafios contemporâneos relacionados ao meio ambiente, ao social e à cultura.

Tornar o mercado mais “humano”, diziam eles, passava necessariamente pela reflexão sobre como absorver a dimensão substantiva e adjetiva da experiência humana para dentro da economia e, assim, estimular ferramentas capazes de tornar o mundo um lugar mais diverso, inclusivo e próspero. Para tanto, setores artísticos não deveriam mais ocupar um lugar periférico na economia de mercado, mas sim nortear políticas econômicas que não afetariam somente a operação do mercado das artes: elas seriam o próprio modelo para pensar desenvolvimento e economia como um todo. Isso porque seriam campos de expressividade humana capazes de fornecer bases reflexivas para pensar, imaginar o futuro, incentivando a economia a criar maneiras para fazer esse amanhã acontecer.

Quando falamos de Economia Criativa, a ideia de criatividade passa a ser investida não somente de sentido moral, mas, sobretudo econômico e político e a operar como modo específico de produção, governança e subjetivação. Essa nova economia não seria mais impulsionada por economistas e indústrias, mas por sujeitos em busca de autorrealização criativa que, segundo definições usadas por seus divulgadores, ao fazer uso de um potencial abundante e comum ao humano, expandem os limites da ação econômica.

Acredito que esse debate ainda precisa ser amadurecido. Acredito que o primeiro passo é refletir sobre o que significa chamar uma economia de criativa. O antropólogo Douglas Holmes, que realizou uma extensa etnografia no Banco Central Britânico, propõe uma ideia interessante que uso como inspiração para pensar essa questão: o conceito de Economia das Palavras. Esse é um termo que busca sensibilizar os leitores para um processo técnico importante dentro deste contexto econômico contemporâneo: a atenção dada para o modo como ideias econômicas são comunicadas ao grande público. Não se trata de um simples processo de divulgação, mas sim de persuasão. Economistas enxergam palavras como ferramentas importantes na implementação de regimes econômicos e monetários, escolhendo termos para compor relatórios, matérias jornalísticas e apresentações que provocam grande repercussão para estimular os indivíduos a investirem, pouparem, se lançarem em novos empreendimentos, buscarem formação em uma determinada especialidade técnica “promissora”.

Criatividade é um desses termos de efeito. A grande ambição contemporânea é aliar realização pessoal à realização profissional. Entretanto, é possível perceber que a promoção da Economia Criativa caminha lado a lado com a expansão de mecanismos legais de posse de informação e conhecimento; com o aumento de barreiras técnicas, tecnológicas e financeiras para manutenção da competitividade e crescente assimetria econômica entre países com forte gestão; e com a regulação e criação de bens e serviços de base tecnológica, operados por direito de propriedade intelectual, que acabam por padronizar iniciativas ao invés de viabilizar novas formas de ação econômica.

O Brasil não possui hoje uma base sólida legal e econômica capaz de sedimentar a Economia Criativa. No entanto, talvez isso não deva ser visto com pesar, mas sim com esperança. Ainda temos a possibilidade de conceber um modelo capaz de realmente absorver a pluralidade de contextos de atuação profissional e realmente responder às demandas financeiras, sociais e reflexivas não só do mercado da arte, mas da economia como um todo.

 

Leia também a postagem do blog Conversa com Louise Scoz.

Fonte imagem: http://bit.ly/1sQzomA

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categorias: Mercado de Arte, Economia Criativa