Conversa com Michelle Sommer

POSTADO: 25/01/2016

Conversa com Michelle Sommer

Michelle Sommer, pesquisadora e curadora de arte, a partir da entrevista do blog Diálogos, discute sobre as novas formas de apresentação pública da arte contemporânea, destacando a presença de propostas expositivas que fogem aos modelos mais vinculados à tradição modernista. Abre-se espaço para concepções experimentais e colaborativas, possibilitando outras formas de interação com a arte. Leia abaixo e confira:

 

Como percebe as funções sociais que as exposições de arte podem assumir? Quais seriam essas formas de atuação na sociedade?

MS: Essa é uma pergunta bastante complexa que se liga, diretamente, ao ponto de interrogação sobre autonomia da arte e o dilema da sua (des)função. Tomando o nosso contexto, de imediato ocorre-me o quanto e como a crítica de arte brasileira debateu essa pergunta. Do pensador Mário Pedrosa e seus apontamentos sobre “arte proletária” no início da sua trajetória crítica nos anos de 1930 à Aracy Amaral na publicação “Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970”, essa discussão tem nos acompanhado.  Agora, principalmente nessa década, retomamos com força total a pergunta frente à nossa crise – sobretudo de representação – para (re)pensarmos a arte indissociável do seu contexto social e as possíveis novas perspectivas nessa esfera. Sem dúvida, aí a exposição tem um papel fundamental.

Em relação a esse formato de apresentação pública de trabalhos de arte – a exposição – parece-me que estamos em um momento de clash entre continuidades e rupturas de modelos. De um lado temos uma tradição modernista de proposições expositivas e, de outro, a emergência de proposições em formatos híbridos e alternativos aos modelos relativamente estáveis e estáticos, que tendem à concepção de eventos e à criação de situações para discutir arte e possibilitar outras formas de engajamento.  Considerando que, a finalidade primeira de uma exposição é (ou deveria ser), o seu compromisso múltiplo, diverso e horizontal para a discussão de proposições artísticas em âmbito público – seja em espaços institucionais ou independentes – a exposição não é separável da esfera social. No entanto, torna-se importante atentar para não atribuir à exposição uma função social determinada que possa torná-la ferramenta de instrumentalização ideológica.

E o curador? Que papéis possui nesse processo?

MS: Em exposições, o curador pode ser um potente catalisador desse processo de mediação entre artista-público; atuando como o hífen nessa ligação. O curador pode atuar como o elemento conector e potencial contribuinte para as possíveis conexões entre o discursivo e o exibível em apresentações públicas de proposições artísticas. Não vou problematizar aqui os limites e potencialidades dessa mediação – que são muitos – porém, acredito que após a consolidação da figura do curador, estamos em tempo de redirecionamentos das práticas artísticas para configurações mais abertas e horizontais, plenas em experimentação para novas construções. Particularmente, acredito que modelos de curadoria verticais, de autorias reivindicadas, impositivas e eminentemente discursivas precisam ser revistas em prol de criações efetivamente colaborativas, na prática.

Para você, é possível elaborar novas maneiras de apresentação pública da arte? Poderia citar alguns exemplos? Dentro de um contexto, de inúmeras intervenções artísticas no espaço urbano. O que pensa do encontro entre a arte e a cidade, sempre sendo refeito das mais variadas formas?

MS: Sem dúvida: estamos em um momento profícuo de criação de outras possibilidades de apresentação pública de arte. Em minha tese de doutorado em andamento em História, Teoria e Crítica de Arte (PPGAV_UFRGS com estágio em estudos expositivos na Universidade de Artes Londes / Central Saint Martins), articulo práticas curatoriais e espaciais para discutir exposições contemporâneas. O ponto de partida da discussão pauta-se no espírito da dialética “site / non-site”, de Robert Smithson (1968), transposta para o acoplamento “exposição (exhibition) / contraexposição (counter exhibition)”  para então explorar a construção da dimensão pública de apresentação da arte atual. A pesquisa avança no sentido de questionar o cânone expositivo pautado em uma modelo modernista para então explorar novas possibilidades de ressignificação conceitual de “exposição” rumo à produção de subjetividades coletivas em uma perspectiva híbrida. Nessa pergunta que me acompanha – qual é o topos expositivo contemporâneo? – percebo a potência de construções experimentais, realizadas principalmente no contexto nacional. Aqui, cito três exposições ocorridas no Rio de Janeiro, em 2014 e 2015, que caminham nessa direção: Fumées; Permanências e Destruições e Museu do Homem Diagonal. Fumées, idealizado pela dupla francesa Zoé Dubus e Romain Dumesnil, teve como palco o abandonado Hotel Paris, no centro do Rio de Janeiro, e é um projeto que se define como uma um misto de exposição e manifestação de artes sonoras e cênicas com o objetivo de ofertar uma plataforma de experimentação entre artistas emergentes e já reconhecidos pelo sistema das artes, incentivando formas não-institucionais de circulação. Permanências e Destruições, com curadoria de João Paulo Quintela, ocorreu em espaços cariocas que passaram por processos de degradação que tornaram-se possibilidades para fomentar a experimentação em territórios não familiares, destituídos de sua função original, propondo novos trajetos que emergem da observação e sobretudo de estar, permanecer. Já em o Museu do Homem Diagonal, de Renata Lucas, vencedor do Absolut Art Award de 2013, a artista problematiza a gentrificação da região portuária carioca propondo um percurso transversal que percorre a paisagem urbana alterada, questionando os usos do espaço presente frente ao seu passado recente.  Em comum, esses projetos – exposições-evento site-specific – apresentam-se como eventos singulares que lançam luz sobre o tempo presente e estão em diálogo pleno com o espaço que ocupam. As exposições são fundamentais para pensar a arte contemporânea.

 

Michelle Sommer é doutoranda em História, Teoria e Crítica de Arte no PPGAV/UFRGS (2012-2016) com estágio doutoral junto à University of Arts London, Central Saint Martins (2015) na área de estudos expositivos, com bolsas CNPQ e CAPES, respectivamente. É mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo PROPUR/UFRGS na área de cidade, cultura e política e arquiteta e urbanista pela PUCRS. É autora do livro Territorialidade Negra: a herança africana em Porto Alegre, uma abordagem sócio-espacial (2011) e Práticas Contemporâneas do Mover-se (2015), resultante de premiação pública Rumos Itaú Cultural 2013-2014. Atualmente é integrante do corpo docente na Escola Parque Lage / RJ e, em conjunto com Gabriel Pérez-Barreiro, prepara exposição sobre o pensamento crítico de Mário Pedrosa para o Museu Reina Sofia / Madri para 2017. Contribui regularmente para a realização de projetos em artes visuais em formatos diversos, no âmbito institucional e circuito independente e tem interesse nos seguintes temas: história das exposições, práticas curatoriais, estudos expositivos contemporâneos e novas formas de apresentação pública de trabalhos de arte. Atua no ensino, pesquisa e curadoria de artes visuais.

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Curadoria, Exposição