Andressa Cantergiani conversa com o Aura

POSTADO: 05/10/2015

Andressa Cantergiani conversa com o Aura

No cruzamento de sua atuação como artista, produtora e diretora da Galeria Península, Andressa Cantergiani nos fala sobre seus interesses como performer e quais são os benefícios e dificuldades enfrentados na gestão de uma instituição de arte independente. Além de elencar as principais ações que a Galeria vem desenvolvendo. Confira abaixo essa inspiradora conversa!

De que maneira se dá o cruzamento, e talvez a contaminação, entre os diversos papéis que assume no sistema da arte, como performer, produtora cultural e diretora da Galeria Península?

AC: A palavra cruzamento é maravilhosa para definir esse processo. Porque é assim mesmo que eles acontecem, de forma atravessada, cruzada, contaminada e afetiva. Me envolvo em todos os projetos que acontecem na Península, como produtora, gestora do espaço e também como artista, pois acabo tendo uma troca artística com todos os artistas que pela Península passam. Seja através de diálogos sobre a poética deles, sobre a minha, ou sobre a de outros artistas que admiramos e queremos nos aproximar. Para mim as relações no mundo da arte são uma forma de experiência artística também. As coisas andam muito juntas, se complementam, se fundem, se desdobram. Talvez a minha formação de artista ajude nesses meios de campo. Tenho formação acadêmica como artista, mas minha experiência profissional entre produção cultural e criação artística é bem parelha. Não tem como ser artista e não ser um pouco produtora no sistema de arte brasileiro.

Andressa Cantergiani, Inundação

Em seu trabalho poético, quais são as principais questões que busca discutir?

AC: Tenho me interessado cada vez mais pelas relações com a cidade e com o a geografia dos lugares. Geopoéticas, geopolíticas, arquiteturas, urbanismos, percursos, situacionismos. Identidade urbana e cultural ou a perda delas. Meus últimos trabalhos Inundação e Aterro falam disso.

A gravidade é um tema que me interessa bastante, como o corpo se modifica pelas leis da gravidade e como se relaciona com ela. Ela é desafio da minha próxima performance que se chamará Voo Livre. Bas Jan Arder, Yves Klein, Erik Wesselo, Fernando Sánchez, Chris Burden e Peter Garfield, é uma galera que me inspira bastante.

Também trabalho há algum tempo com questões de gênero, transgênero, do feminino, questões do ser/estar mulher na contemporaneidade. Dentro do tema gênero e sexualidade, tem me despertado o movimento postporn e pornoterrorista, que começou com a Annie Sprinkle nos anos de 1980.  Como subverter questões de gênero e também como a indústria do sexo se relaciona com o corpo.

O corpo é a minha matéria-prima. Então, todas essas questões sempre partem do corpo. O corpo como abrigo para a poética, mesmo ela se manifestando em forma de objeto poético e não enquanto ação.

Também sou apaixonada pela arte que sai da arte, a arte que sociabiliza, que educa, de artistas generosos como os eternos Joseph Beuys e Allan Kaprow, por exemplo, que fizeram do encontro e das proposições pedagógicas a riqueza da sua arte. Uma arte que revoluciona, que transforma corpos. Eu acredito nessa arte e são essas inspirações que eu busco trazer para perto da minha poética.

Andressa Cantergiani, Aterro

Para você, quais são os benefícios e dificuldades de gerir um espaço cultural independente?

AC: Primeiro vamos começar pela parte boa. Os benefícios, que são muitos! Conseguir fazer arte full time, na vida, é um luxo! Quando começo a reclamar, me dou conta das inúmeras vantagens que ter um espaço independente de arte me proporciona, eu mordo a língua. hehehe. A primeira coisa é a autonomia. Autonomia de escolher com o quê e com quem você vai trabalhar. Isso não tem preço! Tem tanta gente qualificada e interessante no Brasil e no mundo. Isso é incrível! Poder organizar uma programação que é coerente com o que se acredita em termos de arte contemporânea é outro luxo. Dentro da nossa escala, eu acho que a gente tem sido feliz. Segundo poder criar um espaço que possibilite o trânsito para outros artistas, críticos, curadores e pesquisadores e que possa também ser o seu ateliê de criação é demais. Poder crescer vendo o trabalho dos outros crescer também, investindo nesta troca afetiva, se aproximar de quem você quer se aproximar de verdade, é lindo demais. É um privilégio poder trabalhar com arte no Brasil e sobreviver disso. Bom, aí chegamos na dificuldade. Sobreviver de arte. A sustentabilidade do lugar é uma arena. A adesão das pessoas nas atividades propostas também nem sempre é suficiente para sustentar aquela atividade. Ter um espaço é uma luta diária. Estamos constantemente fazendo editais públicos e promovendo atividades. É um esforço contínuo e diário. Sobrevivemos desses eventos, algumas vendas de publicações e obras de arte. O mercado ainda é tímido em Porto Alegre. Mas temos que ser otimistas e construir este público que valorize o artista e sua produção. É um outro tipo de relação.

Poderia contar um pouco sobre as atividades que a Galeria Península vem desenvolvendo? Tem alguma delas que destacaria?

AC: Hoje eu dou destaque para a nossa atuação autônoma e de como nos relacionamos com o espaço e práticas artísticas contemporâneas. Identifico muito o que estamos vivendo com o que o Reinaldo Laddaga chama de estética da emergência. A formação de outra cultura das artes que evidencia o desenvolvimento de projetos artísticos que se articulam em redes de colaboração entre pessoas de diversas origens e formações, operando as relações de alteridade no reconhecimento da diferença dos sujeitos coletivos e de indivíduos. Assumindo, como ele fala, formas de produção colaborativa complexas e hibridizadas de caráter transdisciplinar em “comunidades experimentais”. Essas novas ecologias culturais estão predispondo outras regras que geram modos representacionais em formas de socialização experimentais.

A Península está com cara nova. O espaço, além do ambiente expositivo, conta agora com um ateliê e uma pequena biblioteca.  Somos três artistas residentes (eu, Denis Rodriguez e Leonardo Remor). Dividimos o ateliê e também recebemos artistas, curadores e pesquisadores convidados. Resolvemos criar um espaço que se aprofunde mais na prática artística e no processo da arte contemporânea do que lidar somente com o produto final dela. Queremos viver a diferença, a dúvida, a experimentação, tudo isso sendo reverberado em arte. Acompanhar a criação sempre foi o que eu mais gostei. Acho que a Península surgiu desse sonho. Fico feliz de agora, depois de um ano e meio, conseguir chegar a essa configuração. Criação, pesquisa, curadoria, educação e exposição como parte de uma experiência ampla e indissociável.

O Ateliê aberto do projeto JOGOS DE APROXIMAÇÃO que abriremos na terça que vem, dia 06 OUT é a prova dessa nova estética emergencial. Explico melhor na questão a seguir.

E sobre o futuro, o que estão planejando para o espaço?

AC: No dia 6 OUT, entre 14h e 20h, inauguraremos o ateliê aberto da Galeria Península, com um brinde de boas vindas para os artistas que chegaram de outras cidades: Oi Adrián! Oi Alice! Viva vocês!, é o nome desse primeiro encontro.  JOGOS DE APROXIMAÇÃO é como nomeamos os encontros que vem ocorrendo na Península desde julho e que, agora, tornam-se abertos ao público. A vontade de pensar em voz alta, de conhecer melhor pesquisadores e artistas da cidade, de produzir relações, acontecimentos e encontros é o que move esse projeto. Acreditamos que é fundamental a existência de espaços que possibilitem fazer, pensar, trocar, discordar e compor. Com esta convicção, nos propomos a abrir as portas da galeria para ampliar e compartilhar essas vontades.

Entre 7 OUT e 23 OUT, a galeria abre-se toda para a criação, torna o processo de pesquisa dos seus residentes, aberto à visitação.

No dia 24 OUT, acontece mais um brinde especial: a ABERTURA DE ENCERRAMENTO do projeto. Nessa ocasião, a galeria irá apresentar até o dia 7 NOV o que se viveu, se experimentou e praticou ali.

Dia 08 NOV, receberemos os artistas BARBARA KAPLAN e MARIANO DAL VERME de Buenos Aires. Eles ficarão 10 dias em residência e dia 18 NOV abriremos uma exposição que ficará até o carnaval de 2016.

A partir de Março de 2016, bastante coisa interessante e nova está por vir. Mas por enquanto ainda é tudo segredo!

Foto 1 e 3 - Mariana Villa Real

Foto 2 - Carina Sehn

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Economia Criativa, Artista, Galeria de Arte