BRUNA FETTER CONVERSA SOBRE CURADORIA

POSTADO: 13/07/2015

BRUNA FETTER CONVERSA SOBRE CURADORIA

Neste post do Blog Diálogos, a curadora Bruna Fetter, doutoranda em História, Teoria e Crítica pelo PPGAV da UFRGS, expõe aspectos do que considera uma curadoria, quais foram as exposições que mais lhe marcaram e o que a inquieta em relação à arte contemporânea. Confira abaixo!

Para você o que é curadoria?

BF: Para mim curadoria é pesquisa. E ela pode se manifestar de diversas formas. Exposição é apenas um dos muitos formatos possíveis, o mais recorrente. Mas o que conta mesmo são as soluções encontradas (tanto poéticas como as bastante práticas) para lidar com um determinado tema ou conceito, a abordagem específica, o conhecimento do contexto, a exploração das potencialidades ali contidas. Tenho tido muito interesse em me dedicar mais a programas de residências e a publicações, do que a exposições em si. Ou seja, a projetos que permitam o acompanhamento muito próximo do processo de criação artística, de dialogar com o artista. E daí que insisto na importância da pesquisa. Sem ela, as soluções encontradas, as saídas propostas, acabam se tornando repetitivas.

Como é organizar uma exposição? Conte-nos um pouco o funcionamento desse processo, desde a concepção da ideia inicial, convite de artistas até o dia da desmontagem.

BF: Cada exposição tem suas particularidades e complexidade e não sei se gosto de generalizar o processo. Mas meus projetos costumam partir de inquietações internas, dúvidas que vou pensando e explorando ao longo do tempo e que um dia estão maduras o suficiente para serem materializadas e ganharem o mundo. Eu, particularmente, gosto muito de dois momentos do processo: a fase inicial, quando tudo são ideias e possibilidades, quando as conversas e trocas com artistas ainda estão em um nível totalmente abstrato; e depois a montagem, quando todas essas ideias se corporificam, alguns conceitos se confirmam e muitas surpresas surgem.

Poderia comentar sobre uma exposição que visitaste e que considera memorável? O que lhe marcou?

BF: Talvez das experiências mais impactantes que tive nos últimos tempos foi visitar a exposição individual do Sol LeWitt, A Wall Drawing Retrospective, no MASS MoCA (Massachussets Museum of Contemporary Art). Essa mostra, realizada em parceria com a Universidade de Yale, foi um grande esforço levado a cabo no ano de 2008. Ela ocupa três andares do anexo do museu, cada andar uma década de sua produção, e apresenta mais de 100 dos desenhos de parede do artista. A ideia é a retrospectiva ficar em cartaz até 2033 e isso por si só já demonstra o comprometimento com a História da Arte e a valorização da pesquisa realizada para desenvolver a exposição. É uma absoluta imersão no pensamento e na poética de LeWitt, que faleceu poucos meses antes da abertura da mostra e acompanhou todo o processo de produção da exposição e parte da montagem. É emocionante, de se perder por horas ali dentro, de tirar o fôlego mesmo. (Para quem ficou curioso: http://www.massmoca.org/lewitt/).

Entre as mostras que realizou, há alguma que se destacaria entre as outras? Que considera especial de alguma maneira? Por quê?

BF: Todo projeto te marca de uma forma diferente, e acho que isso sempre está relacionado aos desafios de cada momento. Uma mostra que tive grande prazer de realizar foi “Cuidadosamente, através”, individual do Rommulo Vieira Conceição na FUNARTE de São Paulo, a qual compartilhei a curadoria com Angélica de Moraes. Eu estava passando por uma grande transição na minha carreira e ter Angélica e Rommulo tão próximos foi algo transformador. Aprendi muito a partir dessas trocas. Outro projeto, totalmente diferente, que me fez muito feliz também, foi “Da matéria sensível – afeto e forma no acervo do MAC/RS”. Esse convite feito pelo então diretor do Museu, André Venzon, me proporcionou a experiência de trabalhar a partir do acervo do museu, que tem déficits, mas também muita coisa boa. O desafio de desenvolver a exposição veio de buscar pensar uma mostra que apresentasse desde obras icônicas da coleção até aquisições mais recentes, sem preferência por mídias específicas, e pensando em um recorte transgeracional.

Quais são as questões que mais lhe inquietam na arte contemporânea?

BF: Atualmente, o que mais me inquieta na arte contemporânea é a abundância. Sei que isso pode soar um pouco rabugento, mas o excesso tem me incomodado bastante nos últimos tempos. Não pelo excesso em si, mas sim porque tenho atentado para uma certa falta de comprometimento com a produção, que qualquer coisa pode virar obra. Sou absolutamente a favor de explorar processos e práticas, de não necessariamente ter um objeto como resultado final, mas vejo que muito tem sido feito sem compromisso com a experiência estética em si, em como ela nos afeta, sua potência visual. Processo é processo. Processo também pode e deve ser obra, desde que isso faça sentido no contexto da obra. Vejo muita coisa feita meio às pressas, sem um amadurecimento, sem apuro estético, mas sendo considerado obra. Todo artista deveria passar por um cuidadoso processo de edição da sua produção antes de sair expondo.

Entrevista por Talitha Motter

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categorias: Curadoria, Exposição