Voltaremos outros sob o mesmo sol

artista(s): Carolina Marostica
curadoria: Ulisses Carrilho

Carolina Marostica

Voltaremos outros sob o mesmo sol

 

Todos os corpos giram ao seu redor

a partir de "Voltaremos outros sob o mesmo sol", de Carolina Marostica

 

                                                                                  Eis o homem: jogando nos sapatos a culpa dos pés.

 Samuel Beckett, "Esperando Godot"

 

Células tronco são células sem especificidade o bastante para transformarem-se em quaisquer tipos de células, presentes nos órgãos mais importantes dos mamíferos, com capacidade de autorenovar-se para produzir mais células de si mesmas. Shinya Yamanaka, cientista japonês, criou células tronco embrionárias pluripotentes a partir de células multipotentes, efetivamente apagando as diferenças entre células adultas e embrionárias, o que lhe valeu o prêmio Nobel em 2006. Muito embora não inaugure um campo estrito de investigação na medicina, o uso destas células para tratar de órgãos e tecidos injuriados que precisam de renovação, ilumina uma série de hipóteses, a partir da possibilidade de duplicar-se, repetir-se, substituindo métodos mais invasivos como enxertos ou transplantes. Esta capacidade das células tronco embrionárias em repetir-se diferentemente é chamada pelos cientistas, não à toa, de plasticidade.

Com os caninos afiados, a filósofa francesa Catherine Malabou rumina tais verdades biológicas para pensar a plasticidade à luz do conceito de repetição na abordagem de Jacques Derrida. A autora comenta a conferência "The Ends of Man" [Os Fins do Homem] proferido em Nova York, em 1968, por ocasião do seminário Filosofia e Antropologia. Nele o autor insiste nas dificuldades de abrirmos um espaço que separe as inúmeras diferenças que escondem o termo "humano"– nacionais, éticas, culturais ou gêneros – a uma possível universalidade, à partir da sua perspectiva mais aberta. Devemos ler o "fim" do homem como um duplo dúbio e vacilante: ao passo que atestam a desaparição do humano afirmam também que assumimos um momento de plenitude. O humano acessaria este estágio ao evocar sua desaparição. Eis então a natureza apocalíptica do humano: sua destruição é sua verdade, na sua morte e na sua completude, dissolução e êxito que ainda estão por vir. A iminência do colapso quando não amedronta, é rebatida pela calamidade já instaurada – não há plano ou estratégia a ser desfiada, senão uma crise que se impõe. Alvorece uma última expectativa: todos os outros corpos, como planetas, planetas anões, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram ao seu redor. O sol. O mesmo sol.

Embrenhada nos escritos que compõem o imaginário da artista, dormia à espreita a frase que intitula esta mostra. Em "Voltaremos outros sob o mesmo sol" encontramos no verbo voltar um eco de tal ideia de repetição, usada por Malabou e seus convivas, para discorrer a possibilidade de um superhumano, de um pós-humano ou de uma transhumanidade. A frase, como a mostra, carrega em suas cores as tintas de uma era embrenhada na investigação de um ecossistema futuro ou passado, de um porvir corporificado ou um passado liquefeito, das cores aberrantes que pulsam vidas que subvertem os contornos conhecidos e terrenos em vez de representar os desastres e as catástrofes. Mas também sentimo-nos encharcados, pares daqueles que estão submersos, próximos àquilo que é invisível – ou daquilo que os olhos não alcançam, que está para além da linguagem. Imaginar o futuro convoca o passado – hoje é sempre ontem – e cada espaço é sempre um acúmulo desigual dos tempos.

Os materiais não se organizam, mas parecem ser afetados pelo processo de mutação e alojamento, como pequenas colônias que se multiplicam por frestas ou corpos que pendem do teto como estalactites. Os processos escultóricos presentes na mostra ressoam como a recorrência de tentativas de domesticação do corpo, numa alusão a processos evolutivos, deformações e mutações, com acabamentos viscosos e reflexivos. Superfícies que revelam brilhos denotam mais uma faceta da corporalidade da pintura, tão disfarçada ao longo da história da arte. 

Do conflito entre o que o conhecimento científico nos mostra e o que construímos como nossa identidade ocidental, separando natural e artificial, surge uma simbiose e interdependência entre natureza e cultura, sugerida pela dinâmica material empregada pela artista a partir do uso de materiais sintéticos em processos escultóricos. São eles, os materiais, que indagam o que nos diferencia e o que nos aproxima desses corpos artificiais. A discussão das cores, que na trajetória de Carolina Marostica origina-se no campo da pintura, revela um uso singular do espaço, a partir de excessos exorbitantes e que aludem a transbordamentos e sedimentação. 

Numa mirada atenta pelos escritos de Carolina Marostica, a palavra corpo passa a surgir incessantemente. A constatação dessa regularidade – uma repetição – dá a pensar: verificando, num primeiro passo, a presença de dois corpos que se inter-relacionam: "o corpo da obra e o meu corpo". Devido à interdependência destes, é leviano abordá-los separadamente. No entanto, há um terceiro corpo, que por ora nos interessa: aquele que surge quando a obra é exposta. Para Marostica, este corpo-espectador é considerado já na construção das obras, que não oferecem-se à simples apreciação. Nas palavras da artista, falar em corpo é falar do mundo material –em oposição ao imaterial–, do sensível –em oposição ao inteligível–, de instintivo –em oposição ao racional–, do natural –em oposição ao civilizado–, do efêmero –em oposição ao eterno.

Para Malabou, residiria no poder plástico a capacidade de desenvolvermo-nos fora de nossos próprios padrões, de transformar e incorporar ao um aquilo que é passado ou estrangeiro, curar feridas, substituir o que foi perdido, recriar moldes quebrados. Mas nós realmente desejamos que este outro humano venha? A filósofa desponta que frente à cultura das novidades e inovações, a abertura desta questão é tremulante e oferece a possibilidade de esculpirmos um humano que vem, aquele que criará novas genealogias, desprovido da culpa original, pronto para jogar de novo – repetir, mas repetir diferente.

 

Ulisses Carrilho

 

 

SERVIÇO:

Abertura: 26/07/2018, quinta-feira, das 19h às 22h

Visitação: 27/07/2018 a 22/08/2018

Onde: Galeria Aura Arte Contemporânea – Rua Wisard, 397 – Vila Madalena – São Paulo, SP.

Telefone Galeria: (11) 3034-3825 (Funcionamento, de terça a sexta das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h)

Site Galeria: www.aura.art.br

LOCAL

Galeria Aura (Rua Wisard, 397, São Paulo - SP)

ABERTURA

26/07/2018, das 19h às 22h

VISITAÇÃO

27/07/2018 a 22/08/2018, de terça a sexta das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h

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Ulisses Carrilho

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