Scénario

artista(s): Giulia Bianchi, Marcella Madeira, Bruno Belo, Letícia Lopes, Lilian Maus
curadoria: Mario Gioia

Mario Gioia

Derivas e catalogações que mesclam memória, ficcional e real. Gestos em grande escala que criam um pictórico de demarcada liberdade e estranheza. Frames, stills e cenas de filmes de autor que por meio da pintura trazem um universo multifacetado de camadas, atmosferas e layers. Ambientes dispostos em fragmentos tais quais um curta de câmera solta e com luz frágil, a revelar figuras e circunstâncias surpreendentes e sedutoras. Uma coreografia de elementos, exacerbada por um movimento firme e hábil na linguagem empregada e que renova um dos mais tradicionais gêneros da história da arte. Uma abstração que encontra amparo em índices do figurativo e que é trabalhada com persistência para trazer algo a mais do que é apreendido a priori.

Scénario é a coletiva que abre o espaço físico da plataforma virtual Aura no circuito paulistano. Uma novidade salutar, ainda mais em dias de crise sentida nos mais diversos agentes do meio, que traz uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma felicidade com tal tarefa para a curadoria. A mostra se inspira em um dos significados da palavra francesa scénario, que é roteiro. Com finalidades cinematográficas, obviamente esses sentidos mais rijos transbordam para uma abordagem que toca outras áreas e que, dentro do campo ampliado das artes visuais, não deixa de construir pontes com o que se liga à proximidade da palavra em português. Ou seja, o lado cênico, de palco e de ‘atuações’ num mundo hipermediado não é minimizado. Para tanto, a pintura tem certa predominância, mas outros suportes e investigações são destacados, como o tridimensional, o desenho e o livro de artista.

Um bom ponto de partida para percorrer a narrativa não linear de Scénario é a obra de Lilian Maus. Para a individual Expedição pela Paragem das Conchas, realizada na UFCSPA, em Porto Alegre, no ano passado, a artista radicada no Sul criou um trabalho polissêmico, em que sua vivência no ateliê em Osório – onde um exuberante morro de Mata Atlântica não tem como ser posto de lado – se mescla a investigações pessoais e traça elos com a história local e com o corpus da história da arte. Assim, a necessidade de organizar e inventariar elementos dos mais distintos cria uma cartografia afetiva, instável, em que o movimento do observador – até com a utilização de uma lupa – sempre deve estar aberto ao surpreendente. De dados cartoriais a registros de fauna e flora, as 23 lagoas da região e, em especial, o Morro da Borússia são dispostos com vigor hoje no espaço de um cubo branco. É como se a natureza, por mais que tenha sua potência domesticada em detrimento de estratégias e atuações, em geral perniciosas, econômicas e políticas, não pudesse conter tal fluxo desse mundo mais atemporal. A poética da artista residiria, assim, em criar essas micronarrativas permeáveis e mínimas, como a jogar a favor do essencial.

Se Lilian tem esse roteiro pronto para ser sabotado, a exuberante plasticidade da obra de Viviane Teixeira tem sketches construídos apuradamente, mas que também não se fecham ao acidental advindo do processo. No cuidadoso grafismo de seus trabalhos gráficos, não deixam de estar presentes alguns atributos da sua peculiaridade pictórica – o trabalho cromático, o emprego de elementos não usuais, a atmosfera algo enigmática. Em algumas das peças, também o gráfico e o tridimensional se confundem, com suas definições mais conhecidas sendo borradas. E, em especial, as telas de grande escala geram leituras até de espanto – a acrílica disposta em generosos campos de cor é por vezes ‘corroída’ por uma outra materialidade, em que seu caráter arranhado, ruidoso, é decisivo na configuração de um ambiente extravagante e em que jogos de poder e do corpo acabam por criar uma contemporaneidade conflitiva e estridente.

Já a pesquisa visual de Bruno Belo cruza o fotográfico, o cinematográfico e o pictórico. Neste recorte, talvez ele seja o autor da obra que mais ateste nossa perplexidade com a circulação maximizada e com as velocidades e fluxos extremados de quase tudo que nos cerca. Coletor de imagens em fontes diversas – das excentricidades do Palácio da Quintandinha, em sua Petrópolis natal, onde ainda reside, a stills e cenas banais ou celebrizadas de filmes, curtas e audiovisuais, sem esquecer quadros de artistas que admira, como Peter Doig e Gerhard Richter –, cada trabalho por ele finalizado gera um movimento para dentro do que agora é delimitado por um chassi. Camadas, janelas, layers e, por que não?, links convivem em sua paleta versátil, que pode empregar cores mais derramadas e tons monocromáticos que evocam um tempo que não é o do hoje. Não à toa, uma das pinturas exibidas agora tem lastros em La Jetée (1962), curta indispensável do francês Chris Marker (1921-2012), que tem uma obra completamente resistente a classificações rígidas.

A gaúcha Letícia Lopes tem seu pictórico amparado no fragmento, no ver em cacos. No entanto, a atmosfera de mistério e, de modo ambivalente e deliberado, do cotidiano termina por construir uma obra altamente inventiva. Tal como explicitado no título de sua mais importante individual, Presença Sinistra (Santander Cultural, Porto Alegre, 2016), a tessitura de suas imagens também recolhidas em veículos diversos gera, vista em conjunto, uma sensação de desassossego no espectador, que se assemelha a um ator involuntário participando de uma narrativa sempre bifurcada e longe de um fim. Dioramas, o mundo pré-histórico, as páginas em desmanche de enciclopédias empilhadas em sebos, fotografias com contornos tíbios e os ‘assuntos’, materiais, texturas e procedimentos típicos da pintura, juntos, alimentam uma obra visual das mais inquietas.

A paulistana Giulia Bianchi desenvolve de maneira bem particular a sua pesquisa visual. Ao mesmo tempo que opta por trabalhar um gênero da pintura por vezes minimizado, a natureza-morta, cria composições de marcado tom cinematográfico quando retrata cachorros em grupo nos arrabaldes das metrópoles. Se ao vermos figos dispostos habilmente numa mesa posta, ou ostras sensualmente atraindo os compradores passantes, há um inegável trabalho à moda de um joalheiro, por exemplo, que burila e labuta sobre uma peça às vezes de diminuta presença (mas que não deixa de ter um brilho ostensivo). Já nas telas de tamanho ampliado, a habilidade de Giulia está em nos tragar para o centro da cena, no meio dos cães, com portes, cores e posturas variados. Por meio de um grande labor criado enfaticamente com os elementos da pintura, nas duas facetas comentadas, a artista cria uma espécie de coreografia em tão distintos elementos – alguns tão cheios de vida e nas ruas, outros quase congelados museograficamente – que parece empunhar uma câmera movediça e trêmula no lugar de pinceis, tintas, superfície e luz.

E Marcella Madeira opta por um trabalho menor, de câmara, persistente, repetitivo. Por vezes de escala maior, contudo em geral de pequenas dimensões, suas pinturas sobre a superfície de linho, por exemplo, geram interesse mais por elisão e síntese do que por gestos engrandecidos e em expansão. Em obras como Teatro, há uma sugerida figuração, mas muito fluida, nada sedimentada, com sutileza extrema. As pequenas composições ajudam a compor, dentro do panorama completo de Scénario, a valorização de poéticas, estratégias, investigações e procedimentos variados, todos de reiterada pungência e vitalidade.

EXPOSIÇÃO

31/03/2017 a 26/05/2017, de terça a sábado, das 14h às 19h

LOCAL

Galeria Aura (Rua Wisard, 397, São Paulo - SP)

ABERTURA

30/03/2017, a partir das 18h

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