O Gabinete de Autæikon

artista(s): Alexandre Moreira

Ricardo André Frantz

Autaeikon (de autós, o mesmo, próprio, e eikon, ícone, imagem, retrato) é um personagem elusivo, transitando num território movediço e fugidio onde se dissolvem os limites entre o fato e a ficção. Parece pertencer mais propriamente ao domínio do folclore, aquele conhecimento cujos componentes derivam da realidade objetiva, mas são elaborados através de um sistema de referenciais que incorpora o mito, a crença, a tradição e a especulação como instrumentos de interpretação das evidências.

Autaeikon parece ser uma materialização da incerteza, de um senso de impermanência, de constante trânsito entre um estado e outro, de eterno devir. Parece também ser um testemunho da aceitação do princípio da entropia como parte natural e necessária da vida e do processo criativo, em que a perda, a destruição, a decomposição e o desvanecimento dos objetos e das memórias se tornam elementos por si mesmo significantes, “o botão do foda-se apertado e emperrado”, como disse Alexandre: uma imagem do desprendimento. Esses vestígios são a origem de reverberações em outros objetos e memórias, que por sua vez desencadeiam novas ações e novos reflexos, em esferas múltiplas, superpostas e intercambiantes, e assim ad infinitum.

Autaeikon se impõe como um personagem distinto de Alexandre Moreira, ou, melhor dizendo, como uma persona, através desses vestígios, desses reflexos e estilhaços de uma passagem incessante, que formam um complexo mosaico de sinais e símbolos e documentam uma existência que não obedece a nenhuma lógica linear. É como um caracol que carrega sua casa para onde vá, mas, à diferença do caracol, esta casa está em permanente demolição e reconstrução, recuperando momentos do passado, selecionando outros do presente, e fazendo projeções para um futuro cuja expressão não pode, no entanto, ser prevista com exatidão.

Ao mesmo tempo, da reunião de evidências emerge um moto mais ou menos constante, que é a busca por uma identidade em meio ao caos, uma busca que explica a função de Autaeikon como um emissário, um pesquisador itinerante, enviado pelo artista ao mundo externo – mundo cujos referenciais se tornam a cada dia mais relativos e contraditórios – para sondar sua complexidade e, esperançosamente, retornar com alguma informação valiosa para a ordenação e justificação interna do emitente. Mas também funciona como um lugar-tenente, pois Autaeikon é afirmativo no sentido de que os traços de sua passagem não são produto de quem deseja permanecer incógnito, mas sim de quem deseja dar-se a conhecer, deixando intencionalmente pistas a seu respeito e tentando de alguma forma modificar o seu ambiente e relacionar-se com os “Autaeikons alheios” que encontrar em seu caminho.

Alguns desses vestígios são agora reunidos em uma mostra que, assim como o personagem, é de definição difícil, sugerindo mais um inventário ou uma antologia de organização frouxa, mas não inteiramente casual, um pouco no modelo dos antigos gabinetes de curiosidades, como referiu Alexandre, os precursores dos museus, espaços onde os protocientistas reuniam elementos de procedência e natureza heteróclita, num tempo em que a ciência estava rearticulando e redefinindo suas categorias e não sabia exatamente em qual delas classificar seus achados.

Coerentemente, esta mostra não foi planejada e desenhada com antecipação. Os elementos que apresenta já foram expostos em outras oportunidades e em contextos diferentes, trazem variadas mutilações e marcas da passagem do tempo, muitos são apenas fragmentos (relíquias), e são, por isso, carregados de memórias. Aqui foram reunidos e organizados ao compasso de uma dança silenciosa e misteriosa, cuja materialização é tanto um autorretrato de Alexandre – o Autaeikon – como um reflexo da imprevisível e tantas vezes incontrolável e surpreendente dança da vida comum a todos nós.

DISCOTECAGEM

11/09/2015, às 21h

VISITAÇÃO

15/08/2015 a 30/09/2015

LOCAL

Espaço Cultural ESPM-Sul (Rua Guilherme Schell, 268 - POA/RS)

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