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Do que não cabe na pintura

Curadoria: Julia Lima

A suposta facilidade visual da pintura é uma ideia um tanto distorcida que figura em certos discursos sobre a história da arte, como se esse fosse o suporte mais instantaneamente palatável entre as possibilidades (i)materiais, cada vez mais radicais, que se apresentam na arte contemporânea. O advento da performance, da arte conceitual, da intervenção urbana não são suficientes para justificar a hipotética superação da mídia – que hoje pode se configurar como um campo aberto, do grafite e do pixo ao digital, passando pela gravura, pela fotografia e pela instalação. A arte é um organismo vivo, que se adapta, avança e darwinianamente sobrevive por sua capacidade de mutação, e essas transformações desvelam um imenso horizonte para a expansão dessa plasticidade, que ainda respira. Tal abertura, no entanto, não se apresenta como subterfúgio para dizer que tudo vale, mas sim que a lógica por trás do meio tem capilaridade e contamina outros suportes que são, assim, subvertidos e usados como sustentação do pictórico.

As obras de Gabriel Nehemy são pinturas mais que pinturas. As composições nos oferecem algo além da tela e tinta que, a princípio, não conseguimos identificar. As abstrações já foram incorporadas à nossa alfabetização visual e o estranhamento vem só ao perceber que existe algum excesso que não se manifesta nas perspectivas tradicionais da tela como janela para o mundo ou assumida como superfície, a gestualidade como expressão máxima. Em seu processo criativo, Nehemy pinta empregando um procedimento de colagem que mistura padrões geométricos e estampas, fotos e até tecidos, numa argamassa de pigmentos e texturas que confere corpo e relevamento à tela. Alguns trabalhos, como Entremeios, revelam pequenas aberturas para uma outra dimensão por entre a agitada composição: imagens fotográficas de componentes da arquitetura urbana em plena degradação, encontrados ao acaso, emergem (ou são engolidos) em um ou outro ponto do plano. Estrias negativas de cores vibrantes, feitas com máscara de fita adesiva – que ocasionalmente permanecem coladas, quase esquecidas – tentam estruturar os muitos elementos que convivem ali. Contudo, essa cacofonia visual e plástica ganha uma camada final, equalizada por apagamentos claros, brancos e beges que tentam abaixar o som e conter o que transborda.

Em certo momento, entre acúmulos de colagem e de pintura, impôs-se ao artista um impulso de retorno à ordem, o que o levou a dar meia volta e repisar as próprias pegadas – ele passou, então, a descolar toda matéria que havia sido adicionada junto da tinta, escavando e desenterrando os pedaços de papel e retalhos têxteis por debaixo das grossas massas coloridas e revelando os fundos. Em Da Lama ao Caos, a vontade de criar respiros disputa com a gana de interferir uma vez mais, e pinceladas brutas de tonalidade escura desenham uma topografia imaginada. Recorrentemente, Nehemy intercala pigmentos fluorescentes e tonalidades pálidas, criando tensões entre pulsos cromáticos contrastantes e entre a pincelada livre e a listra rígida. Em The Last Day, o artista apropria-se do trabalho de um outro artista como base para a ação do pincel. Confunde-se a matéria, mas nunca as cores e os gestos; as pinceladas largas e convulsas, o espaço negativo criado pela máscara de fita e a tonalidade fluorescente em inserções pontuais continuam presentes, costurando toda sua produção.

Os trabalhos presentes nessa exposição são manifestações de algo que extrapola e não cabe, como dois corpos que não conseguem ocupar um mesmo espaço. Daí o esforço, em determinado momento, de retirar tudo ao final, descamando a pele para revelar a carne. O que sobra é mais do que a superfície, é a presença da ausência que Gabriel Nehemy opera intencionalmente para ordenar e conviver com o caos.

Julia Lima

LOCAL

Galeria Aura (Rua Wisard, 397, São Paulo - SP)

ABERTURA

30/11/2017, às 18h

EXPOSIÇÃO

30/11/2017 - De terça a sexta-feira das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h

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Julia Lima

  • LOCAL
  • Galeria Aura (Rua Wisard, 397, São Paulo - SP)

  • ABERTURA
  • 30/11/2017, às 18h

  • EXPOSIÇÃO
  • 30/11/2017 - De terça a sexta-feira das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h

  • REALIZAÇÃO
  • Aura Arte Contemporânea

  • CURADORIA
  • Julia Lima

GABRIEL NEHEMY

DO QUE NÃO CABE NA PINTURA

 

Gabriel Nehemy apresenta na Galeria Aura trabalhos em pintura que nos oferecem algo além do material. Com curadoria de Julia Lima, a exposição “Do que não cabe na pintura” tem abertura dia 30/11, às 18h na Galeria Aura Arte Contemporânea.

 

SOBRE GABRIEL NEHEMY

Nasceu em São Paulo, em 1979. É formado em Publicidade e Propaganda pela Fundação Armando Álvares Penteado. Em 2007 ganhou o prêmio aquisição no Salão de Piracicaba tendo sua obra na coleção permanente da Pinacoteca Municipal. Em 2014 foi um dos escolhidos para o programa de exposição promovido pelo ministério da Cultura de Ribeirão Preto, onde participou de exposição no Museu da Cidade (Marp). Nehemy aborda em seus trabalhos questões como o desgaste, o tempo, o excesso de informações e o caos.

 

GALERIA AURA  ARTE

Criada em abril de 2015, A Aura busca representar artistas que estejam vinculados com os processos do nosso tempo, com olhares atentos à experiência do contemporâneo. “Por isso, muitas vezes, nos centramos na escolha de jovens artistas que estão no germinar de suas descobertas, conectando-se de forma pulsante com esse contexto. Por outro lado, temos artistas que apresentam uma trajetória mais longa no cenário artístico, como é o caso do Antonio Bokel. Nele, nos impacta a capacidade de pensar e de transmutar o urbano. São telas e esculturas que jogam com as camadas da cidade, que dão ou não visibilidade, e também brincam com o movimento e a espontaneidade”, diz a diretora Bruna Bailune. Atualmente, divide-se em duas frentes: a galeria em São Paulo, que realiza exposições de seus artistas representados, e a plataforma on-line (www.aura.art.br), cujo objetivo é divulgar de maneira mais ampla e democrática a produção de jovens artistas brasileiros. A Aura também atua na criação e execução de diversos projetos artísticos. Desde a sua criação, realizou quinze mostras entre Porto Alegre e São Paulo – além de ter participado de feiras de arte e apoiado projetos expositivos. Foi indicada ao IX Prêmio Açorianos de Artes Plásticas (2015), na categoria Destaque em Espaço Institucional, Público ou Privado, de Divulgação Artística em Porto Alegre/RS.

 

SERVIÇO:

Abertura: 30 de novembro de 2017, quinta-feira, das 18h às 22h

Visitação: De terça a sexta-feira das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h

Onde: Galeria Aura Arte Contemporânea – Rua Wisard, 397 – Vila Madalena – São Paulo, SP.

Telefone Galeria: (11) 3034-3825

Site Galeria: www.aura.art.br