Favicon 53c4217df509e8880074b6dd49fcda0a9119b0db701d41d3cefd130ec3895c95

A hora mágica

Curadoria: Gabriela Motta

A Hora Mágica

1 Imagem

O que nos faz escolher uma imagem dentre outras?

A investigação começa, o texto, perguntando-se sobre o que aproximam as imagens adotadas por Letícia Lopes na construção de suas pinturas.

Suas referências mostram-se às vezes com clareza, outras de modo discreto, mas espelham em si mesmas um olhar que identifica na produção visual da humanidade a figuração de possibilidades, o que poderia vir a ser visível nas imagens. Inscrições rupestres, cenas rituais, artefatos simbólicos, editoriais de moda, a representação sempre insuficiente de corpos celestes e do espaço sideral, abismam-se no jogo proposto pela artista de imagens assombradas.

Um ritual noturno realizado no Taiti. Ao pé da página, um comentário, uma citação de algo que Paul Gauguin teria dito sobre a cena ao presenciá-la na mítica viagem realizada pelo pintor no final do século XIX. A imagem em questão, agora pintura de Letícia Lopes, foi encontrada nas páginas de uma revista Life dos anos 1970. A tela traz também, (ou seria, sobretudo?) as marcas esbranquiçadas de papel envelhecido, gasto, desbotado, nos vincos onde foi dobrado.

De fato, Gauguin, Taiti, revista Life, nada disso se depreende exatamente da pintura que temos diante de nós. Vêem-se vultos, uma paisagem noturna iluminada por tochas. Vemos o tom alaranjado do fogo refletido na água que se move, ecoando o movimento de quem entra no rio. Montanhas às margens. Ao mesmo tempo, as marcas do agora, a pintura que denuncia sua condição de pintura: gestos, falhas, borrifos escorridos de tinta, incisões não acidentais na superfície da tela, nos trazem de volta para a sua presença no tempo e no espaço. Ainda entre os elementos que podemos identificar, um resto de céu a revelar que há muito o que não vemos.

2 Imaginário

Aquilo que não vemos, imaginamos. Imaginamos também o que vemos, mas esse seria outro assunto. Um texto, uma história, um tempo passado ou futuro, imagens, produzem em nós figurações, espécies de memórias inventadas a alimentar um imaginário. Nessa distância entre o conhecido e o imaginado, distância estabelecida pelo caráter mental da imaginação, está a espessura da existência, o mundo inteiro se equilibra enquanto invenção e ruptura.

Nuvens, montanhas no crepúsculo. Como se a espreita, uma baleia que praticamente não cabe na tela, paradoxalmente, parece esconder-se entre ameaçadora e amedrontada. Moby Dick ou Leviatã afinal, nos vê antes que nós a ela. Sob os elementos da pintura, cores brilhantes deixam-se intuir. A organicidade do óleo se faz presente e, em algum instante, não distinguimos mais mar e pincelada, nuvem e gesto, baleia e mancha. A suspensão de sentidos que a ambiguidade da imagem consegue alcançar liberta seus elementos de seus significados primeiros.

Para além das suas qualidades expressivas, essa obra imaginada da literatura e da mitologia, como se insistindo na espiral de histórias que geram imagens que, por sua vez, engendram novas narrativas e assim sucessivamente, nos leva a um fascinante episódio envolvendo o processo de criação da obra de Herman Melville. Segundo consta, enquanto preparava-se para escrever Moby Dick, Melville anotou em um texto de Thomas Beale: os quadros de Turner foram sugeridos por este livro[1]. O comentário faz referência à série de quatro pinturas de baleias e baleeiros feitas por William Turner entre 1845 e 1846. Moby Dick é lançado em 1851, meses depois da morte de Turner.

Dois artistas, um pintor e um escritor, têm acesso ao mesmo texto antes de realizarem suas próprias obras. O escritor sabe do pintor, sabe que este leu o mesmo livro que agora está em suas mãos. Ninguém sabe se o escritor viu as telas do pintor. Mas sabemos que ele as imaginou.

3 Magia

Entre aquilo que exerce fascínio e um campo que estuda os segredos da natureza, a noção de magia, e mesmo o uso dessa palavra, carrega sempre uma relação com algo inominável ou oculto. Nesse sentido, é acolhedor perceber que tanto imagem quanto imaginário e magia possuem uma raiz comum. No entanto, este núcleo de sentido compartilhado por tais conceitos não apóia-se no indizível ou no irrepresentável, mas defende sobretudo a existência permanente de uma parcela de desconhecimento nosso em relação às imagens que vemos, que lemos. 

A hora mágica, expressão própria do cinema e da fotografia, refere-se aquele momento em que o sol está baixo o suficiente para a luz atravessar a atmosfera por uma distância maior fazendo com que os elementos retratados fiquem mais brilhantes, como se suspensos por uma atmosfera mágica. Na exposição de Letícia Lopes, a hora mágica é ponto de partida e ponto de chegada. Suas obras afirmam a irredutibilidade das imagens ao seus referentes, rasgam os limites entre inscrição, gesto, encenação, abrindo fissuras no encadeamento lógico da história da arte.

 

Gabriela Motta

 

[1] As referências sobre a relação de Melville e Turner foram retiradas do sítio  da exposição Turner’s Whaling Pictures, realizada em 2016 no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. https://www.metmuseum.org/press/exhibitions/2016/turners-whaling-pictures

 

LOCAL

Galeria Aura (Rua Wisard, 397 - Vila Madalena, São Paulo/SP)

ABERTURA

05/04/2018, às 19h

VISITAÇÃO

De 06/04/2018 até 02/05/2018, de terça à seta-feira, das 10h às 19h e sábados das 11h às 17h

Work end07667
Work end07716
Work end07962
Work end07873
Work end07855
Work end07851
Work end07833
Work end07821
Work end07799
Work end07801
Work end07781
Work end07789
Work end07775
Work end07765
Work end07752
Work end07750
Work end07957
Thumb aura gabriela motta

Gabriela Motta

  • LOCAL
  • Galeria Aura (Rua Wisard, 397 - Vila Madalena, São Paulo/SP)

  • ABERTURA
  • 05/04/2018, às 19h

  • VISITAÇÃO
  • De 06/04/2018 até 02/05/2018, de terça à seta-feira, das 10h às 19h e sábados das 11h às 17h

  • REALIZAÇÃO
  • Aura Arte Contemporânea

  • CURADORIA
  • Gabriela Motta

LETÍCIA LOPES

A HORA MÁGICA

A Galeria Aura, na Vila Madalena, abre, no próximo dia 6 de abril, a exposição “A Hora Mágica”, da artista Leticia Lopes, com curadoria de Gabriela Motta. O título da mostra remete a uma expressão usada no cinema e na fotografia para designar o momento do nascer ou pôr do sol no qual a luz fica mais difusa e as cores mais saturadas, o que gera uma ambiguidade: uma atmosfera mágica na qual é impossível saber se o dia está começando ou terminando. 

A partir de suas observações em relação as narrativas atribuídas às imagens que compõem a história da arte, Letícia Lopes organiza suas próprias imagens-pintura em torno de alguns temas universais identificáveis nessas leituras. Cenas de rituais pré históricos ou de rituais do universo da arte contemporânea, por exemplo, como a performance de Joseph Beuys com seu Coiote, alinham-se numa discussão que aponta justamente para a arbitrariedade das classificações e para a o reconhecimento das manifestações estéticas enquanto linguagem. 

Seguindo a mesma lógica de imagens ambíguas, a artista também apresenta a série “Constelações”, que traz telas empilhadas e imagens sobrepostas. Essas pinturas podem ser vistas como nuvens de hidrogênio, poeira cósmica e gases ionizados que se formam a partir de restos de estrelas, universo simbólico que sempre pautou a humanidade em suas buscas cientificas e espirituais. Assim como nos demais trabalhos da exposição, essas pinturas encarnam nossas sempre renovadas – e fracassadas – tentativas de nomear e dar a conhecer o mundo em sua totalidade.

“A intenção é falar que, no fim das contas, continuamos pintando e vendo o que queremos pintar e ver, não necessariamente o que as coisas são, pois não sabemos o que são as coisas nem nada sobre o mundo. As representações são uma maneira de entender que lugar é esse no qual vivemos e quem somos”, explica Leticia Lopes.

Sobre Leticia Lopes 
Letícia Lopes nasceu em Campo Bom, RS, 1988. É bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2015). Participou de várias exposições coletivas, como: Faturas (Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016), Exigências do Desenho (Acervo Independente, Porto Alegre, RS, 2015), Arte.RS (Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2014), Polarizações – Região Sul (Atelier Subterrânea, Porto Alegre, RS, 2014), 1ª Exposição Coletiva (Acervo Independente, Porto Alegre, RS, 2014), 20º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande (Palácio das Artes, Praia Grande, SP, 2013). Foi selecionada pelo Programa RS Contemporâneo (2016), por meio do qual expôs individualmente Presença Sinistra, com curadoria de Marcelo Campos (UFRJ), no Santander Cultural. No ano anterior, foi contemplada com o Edital para Artes Visuais – Edição 2015 da Fundação Galeria Ecarta (Porto Alegre, RS) com a individual Ode a Phobos – Ou como É Bom Não Ter Memória. No mesmo ano, realizou a individual Exagerar Já É um Começo de Invenção, na Casa Paralela (Pelotas, RS) e, em 2014, participou do Concurso 3º Prêmio IEAVI com Em Minha Fome Mando Eu, na Fotogaleria Virgílio Calegari (Casa de Cultura Mário Quintana), exposição que lhe rendeu o Prêmio de Melhor Exposição (por salas). Pinturas delinquentes: revelações noturnas à margem da tolerância estética ocidental (e suas infiltrações bem-sucedidas)", publicado pela Cactus Edições ano passado foi selecionado pelo Festival de Fotolivros da Revista Zum, e agora faz parte do acervo da biblioteca do Instituto Moreira Salles de São Paulo 

Sobre a Aura
A galeria, sob direção de Bruna Bailune, compromete-se em localizar trabalhos intrigantes pensados por jovens artistas, em viabilizar e apoiar suas apresentações e, em paralelo, oferecer uma agenda de formação e capacitação tanto voltada aos interessados pelo universo da criação, como a quem busca a compreensão sobre a prática de colecionismo. 
Em 2018, a galeria traz uma programação de exposições de artistas mulheres, boa parte delas também com curadoria feminina, o que reforça um de seus principais pilares, que é trabalhar de forma inovadora, apoiar novos talentos e estimular o colecionismo.

 

SERVIÇO:

Abertura: 05 de abril de 2018, quinta-feira, das 19h às 22h

Visitação: De até 06 de abril de 2018 a 02 de maio de 2018, de terça a sexta das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h

Onde: Galeria Aura Arte – Rua Wisard, 397 – Vila Madalena – São Paulo, SP.

Telefone Galeria: (11) 3034-3825 (Funcionamento, de terça a sexta das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h)

Site Galeria: www.aura.art.br