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Natália Quinderé conversa sobre a mostra "Formas de abandonar o corpo – Parte 1"

POSTADO: 18/10/2016

Natália Quinderé conversa sobre a mostra "Formas de abandonar o corpo – Parte 1"

Em tempos de discussão de nossas práticas de relacionamento social, que são também políticas, o Blog Diálogos traz a curadora e pesquisadora de arte Natália Quinderé para nos contar como foi desenvolver o projeto expositivo “Formas de abandonar o corpo - Parte I”, selecionado no edital #03 C.LAB Mercosul da Blau Projects (SP). Nele, são traçadas relações entre a política e o amor, conceituado para além da afeição entre duas pessoas.  A mostra foi realizada entre os dias 23 de julho a 13 de agosto de 2016 e apresentou trabalhos dos artistas: Filipe Acácio, Marcel Gonnet, María Sábato, Mayra Martins Redin, Paula Scamparini e Steffania Paola, com expografia de Tiago Guimarães. Confira!

 

Como foi a elaboração do conceito curatorial para o edital #03 C.LAB Mercosul da Blau Projects?

NQ: Estou em um grupo de estudos na PUC-Rio, Barthes, com psicanalistas, artistas e designers, que estuda em várias camadas a produção de subjetividade. Já faz algum tempo que temos lido as aulas de Foucault, no Collège de France, especialmente as que discutem práticas de existência. Existe, na curadoria, um desejo de pensar uma tríade teórica: práticas da existência, o corpo utópico foucaultiano; a figura “o pontinho no nariz”, descrita por Barthes em Fragmentos do discurso amoroso; e o ensaio sobre o amor de Octavio Paz, em A chama dupla: amor e erotismo. São tópicos que engendraram meu desejo de escrever o projeto, que pairam sobre a exposição e na escolha dos trabalhos, mas que não são determinantes, no sentido de a exposição tentar reproduzir uma imagem ou analisar, por meio da reunião das obras, cada aspecto da tríade. Nada disso. Essa tríade também me serviu para pensar o amor como ideia transfigurada, tensa, imaginária, projetada no mundo e nas coisas e, finalmente, enquanto presença, acontecimento político. Neste momento em que repensar o sentido de política é crucial, Formas de abandonar o corpo – Parte 1 se materializa como um primeiro esboço, buscando discutir o amor e as suas relações convulsivas com a política.

Vista geral Formas de abandonar o corpo – Parte 1, Blau Projects, São Paulo, 23 de julho a 13 de agosto de 2016. Foto: Filipe Berndt.

Poderia comentar um pouco sobre as diferentes formas de amor trazidas pela seleção da mostra?

NQ: Não sei se são formas de amor. Quero me afastar da ideia do amor como encontro amoroso binário. Melhor seria dizer que são trabalhos que expõem práticas, situações, modos de viver, sempre plurais e, por isso, políticos. Em Classe média abaixo, por exemplo, Steffania Paola desenvolve uma narrativa visual que entrelaça a militância da mãe, nos primeiros anos de formação do PT, a fragmentos de sua infância (imagens e anotações), além de imagens históricas do partido (comícios). É um trabalho sobre mulher, muito além do par homem/mulher: atuação política, sexualidade, laços afetivos, memória, família. Tem algo bonito que Paz escreve em A Chama dupla: refletir sobre o amor traduz-se muitas vezes em modos de vida – uma arte de viver/morrer. Além de práticas políticas cotidianas (por vezes, invisíveis e, até, mais arriscadas), são modos de vida que me interessam. A referência ao amor, no projeto, esboça um lugar-limite de redenção e miséria coletiva. Cada trabalho possui muitas camadas que exploram esse lugar: a intimidade, o silêncio, a imaginação, a violência, a obsessão, o corpo, a opressão, a imagem projetada, o binômio arte/vida, etc.

Performance Lavagem Integral de María Sábato, Blau Projects, São Paulo, 23 de julho de 2016. Foto: Júlia Franco Braga.

Que relações políticas você percebe nas práticas amorosas discutidas nos trabalhos?

NQ: Em Claudia (2010), documentário de Marcel Gonnet, e em Classe média abaixo, esse lugar convulsivo desenhado da relação entre amor e política está, talvez, mais explícito. Claudia cumpre 26 anos de homicídio, que comete ao lado do namorado, e Marcel acompanha sua saída da prisão – mistura registros históricos, perdas familiares, conversa com especialistas sobre o sistema penitenciário. O documentário, ao acompanhar esse processo, produz um debate urgente sobre a validade coercitiva e de recuperação social dessa instituição, sempre amarrado a construções das relações afetivas e à marginalidade (no sentido de uma vida que está à margem). Em Classe média abaixo, observamos fragmentos da vida de uma mulher e, a partir deles, lampejos da formação de um partido de esquerda, agora, em ruínas – aqui, passado e presente se chocam (construção do PT; diretas já/golpe jurídico televisionado). Por outro lado, existem trabalhos que constroem a relação entre política e amor de maneira silenciosa. É o caso do espaço íntimo imaginado, presente na série A escuta da escuta e suas reverberações em Exercício para o infinito 2 e 4 de Mayra Martins Redin. São desenhos, objetos, exercícios aparentemente delicados, mas que carregam consigo uma força simbólica das relações que desconcerta. A escuta da escuta (pianos), em que duas miniaturas estão encaixadas, é um exemplo; e ainda o conjunto de coxas de argila de Paula Scamparini, moldadas literalmente nas coxas de várias pessoas –  uma parte foi exposta em conjunto, misturadas no chão da galeria ao mesmo tempo que outras ganharam outras partes da sala. O conjunto inédito forja um encontro mítico entre Dioniso e nossa história escravagista, na hipótese de que as telhas eram feitas nas coxas dos escravos. No trabalho de María, especialmente, na performance Lavagem Integral, em que se propõe lavar carros na rua, gosto de pensar na aproximação entre arte/vida, recorrente no trabalho da artista, atrelada à objetificação da mulher: o que uma artista precisa fazer para sobreviver? A relação entre o corpo da artista, mercado de arte e o próprio trabalho estão entremeadas. Finalmente, a performance Nada Machuca de Filipe Acácio, de força indescritível, gerada da liberdade e da renúncia do corpo que se joga. É o corpo que se arrisca na multidão e que, consequentemente, é notado. Lembro que todos ficaram um tempo em silêncio, depois da ação no dia da abertura.

A escuta da escuta (pianos) de Mayra Martins Redin, 5,5x9,5x5cm, objeto (miniaturas de piano), 2015.

Como foi pensado o cruzamento entre artistas brasileiros (Filipe Acácio, Mayra Martins Redin, Paula Scamparini e Steffania Paola) e argentinos na exposição (Marcel Gonnet e María Sábato)?

NQ: Embora seja um edital que pretende relacionar artistas brasileiros e de demais países do Mercosul, a reunião desses seis artistas partiu de uma seleção específica de trabalhos que já conhecia. Além de ter sido um desafio montar trabalhos inéditos (com o valor do prêmio) e poder acompanhar e discutir o processo, como nós-vermelho-dioniso de Paula Scamparini e Classe média abaixo de Steffania, foi uma oportunidade para pensar novos sentidos e propor outra montagem para os trabalhos que já tinham sido expostos em lugares distintos – como Regatta Weekend, modelo 84 e a performance Lavagem Integral de María Sábato e, ainda, a série A Escuta da escuta, atrelada aos Exercícios para o infinito de Mayra Martins Redin. O documentário Claudia de Marcel Gonnet participou de muitos festivais, mas nunca tinha sido trazido para uma galeria. A exibição dele, para mim, impunha outro ritmo para quem visitava a Blau. A performance de Filipe foi feita pela primeira vez em São Paulo. Depois, uma fotografia de Júlia Franco Braga, tirada no dia da performance na Blau, que captava o exato instante do artista suspenso no ar, completamente na horizontal em relação ao chão, foi exposta no restante dos dias da exposição.

Nada Machuca de Filipe Acácio, Blau Projects, São Paulo, 23 de julho de 2016. Foto: Júlia Franco Braga.

A partir das mostras que já desenvolveu, como percebe a figura do jovem curador no sistema da arte?

NQ: Formas de abandonar o corpo – Parte 1 foi meu primeiro projeto de curadoria em uma galeria comercial. Acho que é preciso ter em mente, em primeiro lugar, que existem várias maneiras de construir um pensamento sobre arte. A curadoria é apenas uma, entre muitas. Depois, a figura da “jovem curadora” talvez sirva para categorizar uma atuação e projetar uma imagem de persona, a meu ver, atrelada totalmente a um discurso de mercado. De maneira perversa, a tag supre uma necessidade: a de “achar” jovens artistas; jovens curadoras. A máquina não para. Confesso, tenho uma preguiça danada disso tudo e tento fugir. O legal da exposição na Blau, além da troca com os artistas, foi ter conseguido espacializar uma ideia, ainda que embrionária, a partir da reunião de trabalhos tão distintos. Quando conversei com Tiago Guimarães (fez a expografia e me ajudou a produzir a exposição), lhe expliquei que queria que os trabalhos tivessem certa autonomia entre si, produzissem um vazio que também faz parte da relação amor/política. Agora, claro, precisamos discutir juntos e de maneira crítica a precarização do trabalho de artistas, curadoras, produtoras, pesquisadoras, editoras, etc. Trabalhar de graça é um clichê comum no mercado da arte, ainda mais quando se é jovem. No entanto, a produção de valor ao redor das obras e do discurso que as envolve, tá ali, pairando, sempre vai para algum lado, gira ao redor de um nome, de alguém. Se falamos tanto de política, de arte política, é preciso construir novas relações de trabalho, mais justas. No final das contas, essa construção depende de nós que somos o sistema: da universidade até o mercado. Interromper a engrenagem. Unir forças. Cavar espaços. Discutir outras formas possíveis de visibilidade e de representação. 

Claudia de Marcel Gonnet, Blau Projects, São Paulo, 23 de julho a 13 de agosto de 2016. Foto: Paola Fabres.

Natália Quinderé é doutoranda em História e crítica de arte (PPGAV/ EBA/ UFRJ), com uma pesquisa sobre os museus de artista. Assinou a cocuradoria do "Jardim de Inverno", ao lado do então diretor da Casa França-Brasil Pablo Léon de La Barra, de agosto a setembro de 2015. Em 2016, ao lado da artista Ana Hupe, desenvolve projeto curatorial de "Leituras para mover o centro" – exposição de Hupe contemplada com o prêmio CCBB contemporâneo, no Rio de Janeiro.

Entrevista por Talitha Motter

 

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categorias: Curadoria, Exposição