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Aura ubiratabraga

Ubiratã Braga

Porto Alegre/RS, 1965. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS.

Iniciou sua formação em 1986, estudando desenho com Carlos Pasquetti e têmpera e guache com Yeddo Titze. Em 1987, dedica-se à gravura em metal, tendo como mestre Armando Almeida, no Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Nesse ano, também ingressa no Instituto de Artes da UFRGS, concluindo sua formação acadêmica apenas em 2010. Em 1989, conquista Prêmio em Desenho no Salão COPESUL/MARGS – 30 Anos do Museu, em Porto Alegre. No ano seguinte, recebe o Grande Prêmio do 47º Salão Paranaense, em Curitiba (PR). Em 1990, realiza individual na Sala João Fahrion. Um ano depois, individual na Galeria Arte & Fato, em Porto Alegre. Em 1995 e em 1997, individuais na Galeria Bolsa de Arte, em Porto Alegre, e, ainda em 1997, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com texto de apresentação de Frederico Morais. No mesmo período, afasta-se gradualmente do circuito expositivo, retornando somente em 2013, com a exposição individual de desenhos e pinturas Céus de Chumbo sobre Horizontes de Ferro, com curadoria de Paula Ramos, que aconteceu no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – Galeria Xico Stockinger. A exposição lhe rendeu o Prêmio Açorianos de Artes Plásticas 2013 – Categoria Pintura. Ao longo de seus mais de 28 anos dedicados às artes visuais, participou de várias mostras coletivas e de salões no Brasil e no exterior. Possui obras em diversos acervos públicos, dentre os quais Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS), Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS e Museu de Arte Contemporânea do Paraná.

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Entrevista para a TVE sobre a exposição "Céus de chumbo sobre horizontes de ferro" - 2013 - MAC/RS.

2014 - Prêmio Açorianos - Categoria: Pintura - VII Prêmio Açorianos de Artes Plasticas 2013, Porto Alegre/RS.

1990 - Grande Prêmio - 47º Salão Paranaense, Museu de Arte Contemporâneo, Curitiba/PR.

1989 - Prêmio em Desenho - Salão Copesul/ MARGS – 35 anos Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS,

Formação

1986 - Curso de desenho com Carlos Pasquetti, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

1987 - Curso de desenho, Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, Porto Alegre/RS.

1987 - Materiais e seus aspectos construtivos com Zuleica Medeiros, Porto Alegre/RS.

1987 - Têmpera e guache com Yeddo Titze, Porto Alegre/RS.

1987 - Gravura em metal com Armando Almeida, Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, Porto Alegre/RS.

1987 - Ingressa no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre/RS.

 

Exposições individuais:

2013 - Céus de chumbo sobre horizontes de ferro - Pinturas e Desenhos, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

1997 - Pinturas - Ubiratã Braga, Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ.

1997 - Pinturas - Ubiratã Braga, Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre, Mostra Integrante da 1 Bienal do Mercosul, Porto Alegre/RS.

1995 - Pinturas - Ubiratã Braga, Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre, Porto Alegre/RS.

1991 - Pequenas Pinturas – Ubiratã Braga, Galeria Arte & Fato, Porto Alegre/RS.

1991 - Pinturas - Ubiratã Braga, Sala João Fahrion, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1990 - Galeria de Arte Badesul, Porto Alegre/RS.


Exposições coletivas:

2014 - 30 anos da Galeria Arte & Fato - Exposição e lançamento do livro comemorativo aos 30 da Galeria, Galeria Arte & Fato, Porto Alegre/RS.

2014 - Mostra VII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Sala Aldo Locatelli, Paço dos Açorianos, Porto Alegre/RS.

2012 - Idades Contemporâneas, Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre/RS.

2003 - Pintores no Solar – SEDAC, Secretaria do Estado da Cultura, Porto Alegre/RS.

2002 - Grandes Formatos, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

2000 - Visões do Desenho Contemporâneo – Eduardo Haesbaert, Flávio Gonçalves e Ubiratã Braga, Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

1999 - Projeto João Fahrion – 10 anos, Museu de Arte de Arte Contemporânea, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

1998 - Ciro Martins – 90 anos, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1998 - Vista de Porto Alegre x Um Novo Olhar, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1997 - II Porto Alegre em Buenos Aires, Centro Cultural Recoleta, Buenos Aires/AR.

1997 - 26 x 26 Coletiva de Artes, Casa 26, Equipe de Artes, Porto Alegre/RS.

1996 - 1º Porto Alegre em Montevidéu, Átrio da Intendência de Montevidéu, Montevidéu/UR.

1996 - Arte Sul, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

1996 - 25X25, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre/RS.

1995 - 24 Quadros por Segundo, Usina do gasômetro, Porto Alegre/RS.

1995 - Arte Beneficente, Espaço Cultural Encol, Porto Alegre/RS.

1995 - Águas de Março, Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre/RS.

1994 - 51º Salão Paranaense, Museu de Arte Contemporânea, Curitiba/PR.

1994 - Pinturas e Desenhos, Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

1994 - Salão de Arte de Porto Alegre, Centro Municipal de Cultura, Porto Alegre/RS.

1994 - Contemporâneos Figura e Abstração, Galeria Alencastro Guimarães, Porto Alegre/RS.

1994 - Time Verde Amarelo, Centro Cultural de Rio Grande, Rio Grande/RS.

1994 - 10º Salão Nacional do Desenho, Museu de Arte Contemporânea, Curitiba/PR.

1994 - Prova dos Nove, Galeria Arte & Fato, Porto Alegre/RS.

1994 - Jovem Pintura Figurativa, Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre/RS.

1994 - Coletiva, Centro Cultural de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul/RS.

1993 - Projeto Presença, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1993 - Contemporâneos, Escola de Belas Artes, Cachoeira do Sul/RS.

1993 - Na Casa de Todos, Casa de Cultura de Taquara, Taquara/RS.

1992 - Desenho Sul Contemporâneo, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre /RS.

1992 - Contemporâneos, Escola de Belas Artes, Cachoeira do Sul/RS.

1992 - Na Casa de Todos, Casa de Cultura de Taquara, Taquara/RS.

1991- Atelier Livre 30 Anos, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1991 - Catálogo Geral, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1990 - 47 Salão Paranaense, Museu de Arte Contemporânea, Curitiba/PR.

1990 - Van Gogh – 100 Anos, Galeria Van Gogh, Pelotas/RS.

1990 - 9º Salão da Câmara de Porto Alegre, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1989 - Salão Copesul/MARGS – 35 anos, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1988 - Salão Nacional Universitário de Arte Contemporânea – 80 Anos do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, Porto Alegre/RS.

1988 - Exposição Itinerante, Museu Paulo Firpo, Dom Pedrito/RS.

1988 - Exposição Itinerante, Casa de Cultura Pedro Wayne, Bagé/RS.

1987 - Nada em Comum, Espaço Cultural Livraria Sulina, Porto Alegre/RS.

Ubiratã Braga - Céus de Chumbo Horizonte de Ferro - Pinturas e Desenhos - MAC/2013

Paula Ramos

 

Espaços picturais densos e simbólicos, resultado nao de um projeto ou uma intenção pré-estabelecida, mas do enfrentamento com os suportes e materiais, com a própria trajetória artística . Lentos e exigentes no processo, ora gritantes, ora sussurrantes na forma os desenhos e pinturas de Ubiratã Braga (Porto Alegre, RS, 1965) nascem como campos de experiência formal e expressão dos afetos. Dão visibilidade, cada qual a seu modo a um turbilhão de sentimentos, compreensões e lembranças que movem o artista em sua tentativa de instaurar ordem ao que emerge como caos.

Céus de chumbo sobre horizontes de ferro, marca o retorno de Ubiratã Braga aos ambientes expositivos, após 15 anos sem expor individualmente. Resultado de um processo permanente de reflexão e dúvida, os trabalhos desdobram aspectos marcantes da poética do artista, como a figuração, as sobreposições e sedimentações, bem como o caráter confessional, convidando-nos a observar as camadas e tempos que os tornaram possíveis.

(Paula Ramos é crítica de arte, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Texto de 2013.)

 

Uma obra que faz agitar a alma e tremer a carne

Cristiano Goldschmidt

 

O artista Ubiratã Braga (Porto Alegre, RS, 1965) leva uma vida modesta que não reflete, de forma alguma, o conjunto de sua obra. Avesso a vernissages e badalações que costumam fazer parte do circuito das artes visuais, ele prefere ficar em casa, um apartamento pequeno e aconchegante no andar térreo de um edifício de três andares no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. No escritório, onde recebe amigos e visitantes, chama atenção e impressiona sua coleção particular, que contempla obras de diversos artistas (e que divide espaço com peças de sua própria autoria). São desenhos, pinturas e esculturas adquiridos ao longo de vários anos. “Se eu, enquanto artista, não consumir arte, como poderei incentivar ou cobrar que outros profissionais o façam?”, questiona.

O ateliê funciona em dois espaços localizados nos fundos do imóvel. O pátio, de tamanho considerável e atmosfera agradável, onde além de pintar ele cultiva cactos e suculentas, separa o apartamento da sala que fica no limite final do terreno. É lá que Ubiratã dedica parte de seu tempo entre telas, tintas, pincéis, papéis e demais materiais que utiliza para dar vida a sua arte.

Se grande parte do material utilizado na sua produção encontra guarida entre as quatro paredes e o teto do ateliê, é no desguarnecido pátio do jardim que a ação do sol e da chuva se encarrega de preparar e deixar no ponto pigmentos como a ferrugem de pregos e outros metais que são utilizados de forma recorrente em suas telas. Quando o tempo permite, é também neste espaço externo que ele se dedica às telas, esticando-as em uma mesa que facilmente sai do ateliê e para ele volta, no chão ou na parte interna do muro do jardim.  Por opção, ele não conta com a ajuda de auxiliares. Como companhia diária, apenas dois cães.

Depois de 15 anos sem expor individualmente, Céus de chumbo sobre horizontes de ferro(Destaque em Pintura – Prêmio Açorianos de Artes Plásticas 2013), com curadoria de Paula Ramos, marcou a volta do artista ao circuito expositivo em agosto de 2013, ocupando a Galeria Xico Stockinger do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre.

A ausência de uma década e meia dos espaços expositivos foi uma decisão do próprio Ubiratã Braga, que aproveitou para repensar algumas questões após a boa repercussão de sua última grande exposição individual, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de janeiro, em 1997. Antes disso, seu currículo já contava com dezenas de exposições, entre coletivas e individuais, além de importantes prêmios, como o Prêmio Viagem ao Exterior, do Museu de Arte Contemporânea de Curitiba (PR), por ocasião do 47º Salão Paranaense, em 1990.

O longo período longe dos espaços expositivos não repercutiu negativamente na consolidada carreira do artista, que continuou produzindo e vendendo. Entre os clientes, além de conhecidos empresários e colecionadores, amigos e antigos colegas dos tempos de faculdade.

Seu retorno ao universo expositivo, em agosto de 2013, possibilitou aos mais jovens a oportunidade de conhecer um dos maiores artistas contemporâneos da atualidade. Ao público que já conhecia seu trabalho, proporcionou um reencontro com sua obra, “[…] convidando-o a um papel indeciso de leitor-espectador e propondo-lhe pensamentos-emoções, pois a emoção é esse movimento que faz a alma agitar-se, propagando-se espontaneamente de alma em alma.” (FOUCAULT, 2011, p. 99).

O que vemos é o que vemos, mas o que não vemos também nos interessa.

Entregar-se à contemplação das obras de Ubiratã Braga não é apenas se deparar com telas grandes de cores neutras ou vibrantes. Sua arte exige do interlocutor uma dedicação que ultrapassa aquela passada de olhos performática e habitual de grande parte dos frequentadores de espaços expositivos, cuja atenção geralmente está mais voltada para a circulação dos garçons dos vernissages que para o menu das obras expostas.

Embora haja exceções, as telas e os desenhos do artista dificilmente recebem legendas. Ele prefere deixar ao público a tarefa, árdua ou prazerosa, de com elas estabelecer um diálogo. Um exercício de desvelamento pelo qual o interlocutor possa lhe dizer não necessariamente o que vê, mas o que nelas encontra, o que sente e o que pensa. A grandeza do que nos oferece Ubiratã Braga reside na possibilidade das várias leituras que podem desvelar não só a alma do artista, mas a daqueles que se propõem a olhar para, falar de, ou sobre sua obra.

É esse importante contato com o público, seja ele esporádico, seja frequente, que faz com que sua obra, repleta de símbolos e significados nem sempre compreensíveis, saia do anonimato, encurtando caminhos e diminuindo distâncias, fazendo com que ela, mesmo que não volte a ser vista, nunca mais esteja sozinha, marcando uma presença atemporal, porque, como nos diz Didi-Huberman, “o que nos cativa empaticamente em toda imagem – ‘livre’, ‘artística’ ou ‘moderna’ – seria uma força de atração vinda de sua própria obscuridade, ou seja, da perduração dos símbolos que trabalham nela” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 357).

O trabalho de Ubiratã ganha importância na medida em que consegue aprisionar o observador que se depara com sua obra arrebatadora, como acontece com aquele que se vê diante desta tela de 2013: Sem título, Acrílica, óleo e pigmentos sobre tela, 134 x 280 cm.

O fascínio provocado no espectador de sua obra não depende tão somente dela. Requer um engajamento do interlocutor. Não que a obra por si só não se sustente, mas porque precisamos de tempo e dedicação para que ela possa nos fazer perceber as presenças que nela constam e indicar as ausências que também ali se encontram.

Mesmo que identifiquemos elementos facilmente reconhecíveis, como os pregos, presentes em outros trabalhos do artista, ao dedicar-lhe o tempo necessário (variável de um indivíduo a outro), podemos nos questionar se o que enxergamos na obra é realmente aquilo que vemos ou aquilo que supostamente o artista quisera nos induzir a ver.

Podemos nos perguntar se os pensamentos que contornam a obra, como objeto passível de diferentes olhares e questionamentos – no calor da emoção contemplativa ou na racionalidade fria pós-análise –, pertencem de fato àqueles que se propuseram a dissecá-la, ou ao artista que, ao oferecê-la ao público, mesmo não pretendendo, apontou para um possível caminho confortável de entendimento, como se – gratuitamente – nos entregasse um texto pronto.

Em todo caso, o próprio artista deixa claro não ser essa sua intenção quando nos apresenta suas telas “Sem título”. Para ele, a ausência de legendas, neste caso e em grande parte de sua produção, justifica-se por sua intenção oposta, a de não querer explicar ou “dizer o que há na imagem como se tivesse medo de ela não mostrar o suficiente por si mesma” (FOUCAULT, 2011, p. 98).

A excitação causada pela ausência na obra de Ubiratã Braga transforma-se em angústia na medida em que mergulhamos no infinito de suas telas. Infinito de perspectivas, de múltiplas possibilidades, de diferentes caminhos e enredos que apresentam o que o interlocutor se permitiu vislumbrar. Aqui devemos considerar que o ato de entrega ao exercício contemplativo de uma obra de arte não deve ser – necessariamente – um exercício de análise cartesiana. O prazer do encontro está no descompromisso, na despretensiosa entrega que faz agitar a alma e tremer a carne. E quando isso acontece, podemos de alguma forma dividir a autoria da obra com o artista.

Ao debruçar-me sobre a tela de 2008 que apresenta uma figura humana supostamente de contornos femininos, procurei nas ausências desvendar um emaranhado de interrogações que acabaram por me levar a outra questão já levantada por Michel Foucault, “como reaprender não simplesmente a decifrar ou a alterar as imagens que nos são impostas, mas a fabricá-las de todas as maneiras?” (FOUCAULT, 2009, p. 349).

Apesar de aparentemente feminina, a imagem esconde-se atrás de si mesma. Há nela também uma intenção oculta. Uma presença marcada fortemente pela tentativa de comunicação impossibilitada por algo ainda a ser descoberto. Uma figura extraordinária que murmura a necessidade de um descortinamento. Como se aquilo que vemos acenasse para algo existente em outro plano. Como se estivéssemos em lados opostos. Frente a frente na insuficiência de elementos reconhecíveis.

Uma figura cuja angústia está estampada na ausência de uma face que nos olha de soslaio, mas que não se dá a ver. Face que aparentemente se multiplica em outras quatro que circundam a primeira. Ou seriam essas imagens novos e estranhos elementos a acompanhá-la? Talvez a figura central deseje apenas comunicar sua passagem de um universo a outro, indicando o encerramento de um ciclo e o início de outro.

Notemos o círculo na altura de sua cintura e o gesto de suas mãos como se conduzissem (sem forçar, porque o gesto não aparenta usar de força) o emergir do corpo a um novo plano. Sem considerarmos aqui, porque a isso não nos cabe conjecturas, a que plano ela se dirige ou é conduzida. E no rito de passagem que nos remete ao leve movimento de uma bailarina, ao atravessar o círculo que a conduz de um plano a outro, ela deixa para trás, como que num processo de purificação da alma e do corpo, as angústias e os males de toda uma vida pregressa. Então, pela morte ela alcança o renascimento.

Tudo isso não sem antes uma última tentativa de contato, como se a partida prematura a impossibilitara de dizer coisas que precisavam ainda ser ditas. Ali, na superfície da tela, um corpo em transição que busca se livrar de um sufocamento causado pelo silêncio imposto repentinamente a uma alma que se encontra entre a escuridão do túmulo e a luz de um palco. A tênue linha que separa o sofrimento da liberdade que se avizinha. A tomada de consciência se expressa agora não mais em sussurros, mas num salto libertador que aponta para o abandono de ressentimentos e para o reconhecimento de um corpo que ficará no passado e de um espírito que logo conhecerá a leveza e a paz proporcionada pela separação do corpo e da alma, da matéria e do espírito. É chegada a hora do paraíso.

E quando o momento da cisão chega, para além da saudade que fica ainda lhe resta uma ponta de esperança. O desejo da permanência. E descobrimos então que durante todo o tempo aquela angústia pode ter sido não outra coisa que uma ansiedade, uma insegurança do próprio interlocutor admitindo suas falhas, suas fraquezas, seus medos e sua incapacidade de aceitar a possibilidade de uma provável, imprevisível e repentina ausência sua sem qualquer chance de despedida. É nesse momento que, valendo-nos de Georges Didi-Huberman, perguntamos:

“Que fazer diante disso? Que fazer nessa cisão? Poderemos soçobrar, eu diria, na lucidez, supondo que a atitude lúcida, no caso, se chame melancolia. Poderemos, ao contrário, tentar tapar os buracos, suturar a angústia que se abre em nós diante do túmulo, e por isso mesmo nos abre em dois. Ora, suturar a angústia não consiste senão em recalcar, ou seja, acreditar preencher o vazio pondo cada termo da cisão num espaço fechado, limpo e bem guardado pela razão – uma razão miserável, convém dizer. Dois casos de figuras se apresentam em nossa fábula. O primeiro seria permanecer aquém da cisão aberta pelo que nos olha no que vemos. Atitude equivalente a pretender ater-se ao que é visto. É acreditar – digo bem: acreditar – que todo o resto não mais nos olharia. É decidir, diante de um túmulo, permanecer em seu volume enquanto tal, o volume visível, e postular o resto como inexistente, rejeitar o resto ao domínio de uma invisibilidade sem nome” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 38).

Por mais que sua obra esteja aberta a diferentes leituras, e que cada interlocutor possa ter opiniões divergentes sobre o grau do impacto causado pela mesma, o que Ubiratã Braga nos oferece não passa despercebido, não causa indiferença. Sua aura, presente ou “oculta”, é o que efetivamente dá sentido (múltiplos sentidos) ao resultado primoroso de seu trabalho. Uma obra “desafetada” e sublime – que apresenta um artista com um domínio técnico sutil e magistral – que transforma em acontecimento único o momento daqueles que se entregam a contemplação de qualquer uma de suas peças.

Depois de mergulhar suficientemente fundo, descobrimos que o que há de singular em sua obra provém inteiramente de sua espontaneidade – como podemos ver nesta outra tela de 2008, abaixo. Nela, a implacável capacidade do artista que transforma percepções de mundo (e principalmente experiências) em construção artística. E pela identificação afetiva o interlocutor recebe como recompensa a liberdade de poder estabelecer uma relação viva e inequívoca com a contemporaneidade ali estampada.

Sem conclusões finais, mas especulativas porque a obra aberta nos permite especulações, podemos ir mais longe e dizer que existe um olhar diante do qual se evidencia uma vida a procura de afeto e abrigo. Uma linha que mostra o distanciamento de dois corpos, mas que também pode ser a linha condutora através da qual se ensaia uma reaproximação entre dois que buscam um desejado reencontro. Não há ali qualquer ameaça. Há uma intensidade festiva que mostra nos traços o entusiasmo no fluxo deste deslocamento, que pode ou não conduzi-los a uma reconciliação. É pelas memórias afetivas que a vida nos mostra quando podemos ir mais longe e operar transformações profundas e ousadas. No turbilhão das relações que se estabelecem, não é a toa que o refúgio seguro da cumplicidade seja também a indubitável redenção que a grande maioria busca. E por nos mostrar isso tão magnificamente o artista merece já de antemão ser felicitado.

Um artista cuidadoso e atento que busca alcançar o máximo do que pode em grandeza, beleza e perfeição, apresentando-nos como resultado final uma obra de características que se desdobram, com traços e elementos nem sempre evidentes num primeiro olhar, mas continuamente diversos. Na experiência contemplativa das suas telas temos a sensação de participar de um cerimonial perturbador de caráter naturalmente fascinante. Uma obra complexa e dinâmica cuja metamorfose visual constitui nosso mundo – imaginário ou real.

Mesmo que seja difícil compreender a capacidade transformadora de sua arte, fica claro se tratar de alguém que tem como principal atributo a facilidade de lidar com formas que nos olham e que se permitem ver – ainda que por caminhos ou mecanismos nem sempre confortáveis. Aliás, o que cativa no espetáculo imprevisível de suas obras é o poucas vezes transparente contexto das experiências que resultam no que elas nos apresentam. Não importa. O que importa, afinal, é a maneira inteiramente envolvente e verdadeira que o artista tem de nos dizer, como Walter Benjamin, que “tudo o que é percebido e tem caráter sensível é algo que nos atinge.” (BENJAMIN, 2012, p. 207).

 

Bibliografia:

FOUCAULT, Michel. O Pensamento, a Emoção. In: ______. Ditos e Escritos VII – Arte,epistemologia, filosofia, e história da medicina. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011, p. 94-101.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Da empatia ao símbolo: Vischer, Carlyle, Vignoli. In: ______. A imagem sobrevivente. História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p. 355-368.

FOUCAULT, Michel. A pintura fotogênica. In: ______. Ditos e Escritos III – Estética: literatura, pintura, música e cinema. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. p. 346-355.

DIDI-HUBERMAM, Georges. A inelutável cisão do ver. O evitamento do vazio: crença ou tautologia. In: ______. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 29-48.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: ______. Magia e técnica, arte e política. (Obras escolhidas, v. 1). São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 179-212.

(Texto de 2014.)

 

PREFÁCIO A PINTURA DE UBIRATÃ BRAGA

Paulo Gomes

 

Inútil buscar uma referência no real para suas paisagens, assim como também é inútil buscar uma compreensão objetiva e externa de toda sua pintura. Quais caminhos devemos tomar então: buscar, num olhar retrospectivo , seus trabalhos antigos procurando recorrências formais e semânticas ; estudar a Paisagem enquanto gênero e seu desenvolvimento e tentar inserir o artista; fazer uma leitura iconográfica com auxilio de manuais de decifração ? Parecem todos caminhos estéreis, pois qualquer um deles redundara num exercício formalista sem a menor parte do alcance das suas pinturas, já que “ o principio plástico dum quadro protege-o da exegese interessada” segundo o poeta Murilo Mendes.

 

CORPO A CORPO

Esta é uma pintura confessional “por que o homem que conhece a intensidade de suas impressões; que sente cada detalhe do dia como se ele fosse seu único dia; que consiste – não se pode exprimir de outra forma – justamente – justamente no exagero , mas q não combate esta predisposição, pois para ele importa a ênfase, a nitidez e a concretude de todas as coisas que perfazem a vida – esse homem poderia explodir ou mesmo partir-se em pedaços se não se tranquilizasse num diário” (Caneti,55). Tudo parece obvio, mas ocorre que, em Ubiratã Braga, isto ocorre de maneira inversa do normal; possuidor do domínio dos meios expressivos ele nega-os a cada novo trabalho. O que o estimula é a dificuldade de reinventar as impressões de cada dia . Seu repertório de imagens comporta poucos itens, mas articulados de maneira nova e surpreendente a cada trabalho; um ir e vir incessante e aparentemente desordenado. Aqui que se compreende o caráter confessional, pois “um quadro é sem dúvida uma operação manual – mas é o resultado de inúmeras antecedentes operações visuais e mentais”. (Murilo Mendes, 170)

 

PERSPECTIVA

Abandonada pelos pintores no inicio do século e retomada com a emergência da geração pós-conceitual, "a ciência nova da projeção das grandezas tridimensionais sobre o plano bidimensional do quadro: a ciência geométrica (..) pela qual a prima veritá é também cosa mentale" (Bosi, 75) é introduzida pelo Artista na pintura através da paisagem - campo de ação de massas pictóricas que movimentam céus, terras e águas, ordenadas por imprecisas linhas de horizonte. A perspectiva ordena o caos pictórico, dando-lhe profundidade e conservando a idéia primordial do simbolismo da paisagem: expor uma ordem cósmica. Aqui a paisagem é ideal, não se funda sobre uma paisagem real. Sua configuração sinuosa, abrupta e dura, de poucas cores dominantes, gera o sentimento de ordenação do caos: clareza e fecundidade a despeito da impressão de desolação de seus elementos - troncos e cercas rompidas ou quebradas, encruzilhadas que desorientam o olhar, céus tormentosos, torres ou faróis que não iluminam o entorno, mas iluminam-se em turbilhões. A paisagem com a perspectiva dão ordem ao caos criador.

 

SINAIS E NÚMEROS

Indicam a direção do olhar, deslocam 0 espectador da simples fruição emocional para a compreensão do ato de pintar. O artista impõe sua atividade, a equação de Magritte - isto não é uma paisagem ou um retrato, isto é uma pintura. Não deixam o olho viajar, impõe a sucessão numérica, as setas, os escritos e os turbilhões controlam o fato artístico, negam o corpo a corpo que vemos e propõem o controle das emoções, a observação do fazer artístico.

 

FIGURAS

O homem, o santo, o animal. A cabeça que explode e se desmancha, o santo risonho e impassível mesmo esquartejado, o cervo – beleza, graça e agilidade. São dois modos de por figuras: num ela é só linha, desenhada sobre a superfície pictórica, não havendo, portanto a dicotomia entre a figura e o fundo. Perde sua materialidade individualizadora ao se integrar no todo da tela-paisagem. A figura é o espaço. Noutro ela é plana e fechada – uso do recurso da colagem, eliminando a profundidade.  A planaridade é exaltada e o discurso ocorre na superfície. O olhar não pode mais penetrar na tela, fica vagando até encontrar os sinais e números que a orientarão. O espaço é superfície.

 

POR FIM

Podemos ficar viajando pelas telas de Ubiratã Braga, recorrer aos livros p saber que o cervo é o símbolo da renovação e crescimento cíclicos, que a paisagens é constituída por forças internas que se desdobram em formas ordenadas quantitativamente e qualitativamente, que números ordenam e significam, que mesmo santos esquartejados em forma de cruz ainda sorriem. Inútil viagem. Há nesta pintura “uma espécie de meditação plástica tão intensa como uma meditação filosófica” (Murilo Mendes), onde “as imagens são mais imperiosas que as idéias” (Bachelard) e também q “a imagem da imaginação não esta sujeita a uma verificação pela realidade” (idem), pois “a verdade da arte é uma verdade de corpo e alma” (Bosi). Um prefácio colagem, vamos às Pinturas.

(Paulo Gomes é artista plástico, mestre e doutor em Artes Visuais – Poéticas Visuais pela UFRGS. Curador-geral do projeto Pedro Weingärtner.  Professor de História, Teoria e Critica da Arte na UFRGS - Departamento de Artes Visuais, curador independente, autor de vários textos e livros sobre arte e cultura brasileira. Texto de setembro de 1995.)

> Museu de Arte contemporânea do Paraná, MAC/PR, Curitiba/PR.

> Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS/RS, Porto Alegre/RS.

> Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, MAC/RS, Porto Alegre/RS.

> Pinacoteca Barão de Santo Ângelo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.