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Samy Sfoggia

Porto Alegre/RS, 1984. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS.

É licenciada em História pela FAPA (2007), bacharel em Artes Visuais pela UFRGS (2014) e pós-graduada em Arte, Corpo e Educação pela mesma instituição (2009). Atualmente, é responsável pelo laboratório de fotografia do Instituto de Artes da UFRGS. Em 2012, atuou como bolsista de iniciação científica no projeto de pesquisa “Procedimentos de contato: desdobramentos da fotografia em imagem numérica na arte da atualidade”, coordenado pela professora Drª. Elaine Tedesco. Participou de diversas exposições coletivas e individuais e teve seu trabalho comentado em livros e revistas on-line. Foi vencedora do Concurso Garimpo 2014, da Revista DASartes. Em 2015, a Azulejo Arte Impressa publicou seu livro Drommer om Skov, com fotografias da série "Samy's dreaming about the forest". É possível adquirí-lo através do site: http://bit.ly/1fQ14CH​.

Acesse também o catálogo da exposição individual "Axxon N." realizada pelo Acervo Independente: https://issuu.com/acervoindependente/docs/cat__logo_axxon_n.

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2016 - Indicação na categoria "Destaque em fotografia", pela exposição "Axxon N.", X Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS. 

2015 - Indicação na categoria "Destaque em fotografia" pela exposição "Jest Sztuka Absurdu" (Fundação Ecarta), IX Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS.

2014 - Concurso Garimpo DASartes, Rio de Janeiro/RJ.

Exposições individuais

2016 – Axxon N., Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2015 – Needles & pins, Centro Cultural Kavlin, Punta del Este/Maldonado, Uruguai.

2014 – Jest sztuką absurdu, Galeria Ecarta, Porto Alegre/RS.

2013 – Verboten, Galeria do 4º andar da Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

2012 – R.E.M. (Rapid Eye Movement), Estúdio Galeria Mamute, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas 

2016 – Festival Interfoto Itu, Fábrica São Luiz, Itu/SP.

2016 – Festival DELAS – Mulheres na Arte, Ateliê Plano, Jundiaí/SP.

2016 – Um passo em falso no vazio, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2015 – In dreams I walk with you, Galleri Artcompaz, Frederiksberg/Denmark.

2015 – Convocatória em Foco 2015, 11º Festival Paraty em Foco, Paraty/RJ.

2015 – Fotos Contam Fatos, Galeria Vermelho, São Paulo/SP.

2015 – Sem Suporte, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2015 – Projétil, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre/RS.

2014 – 1ª Exposição coletiva, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2014 – Fresh Faces, Galeria Galpon, Porto Alegre/RS.

2013 – Arte Agora 2, Galeria Lourdina Jean Rabieh, São Paulo/SP.

2012 – Projeção Fotográfica #Mesa7, Recife/PE.

2012 – Contatos Imediatos, Centro Universitário Feevale, Novo Hamburgo/RS.

2012 – Mostra Videoarte Mamute, Santander Cultural, Porto Alegre/RS.

 

Salões

2016 – 24º Salão Curitibano de Artes Visuais, Centro de Integração do Clube Curitibano, Curitiba/PR.

2014 – 20º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre, Porto Alegre/RS.

O universo onírico de Samy Sfoggia: experimentalismo na fotografia contemporânea

Luísa Kiefer

 

Muito se debate sobre a fotografia contemporânea, se ela ainda pode ser pensada como fotografia, com tudo que advém dos processos analógicos – a captação da luz, sensibilização do negativo, revelação, impressão; ou se o meio digital, a composição da imagem por pixels, por dados eletrônicos, teria dado lugar a um novo e complexo campo de pesquisa. Para pensar essas questões, é preciso voltar no tempo. O experimentalismo da imagem fotográfica aparece pela primeira vez na história da arte no final do século XIX, com a popularização dessa técnica. O primeiro passo neste caminho foi dado com a fotografia alegórica. Com ela, artistas como Gustav Rejlander e Peter Henry Emerson, utilizavam-se das características pictóricas para compor suas imagens e valeram-se de seus temas e estilos na construção das cenas a serem capturadas pela câmara. Com isso, eles almejavam “conferir à imagem técnica a mesma função social e cultural da pintura e conseguir ser reconhecida como arte maior” (FABRIS, 2012, p.18).

É nesse rastro que despontará o movimento pictorialista, que tem na figura do americano Alfred Stieglitz um de seus principais representantes. “Stieglitz demonstra seu desejo de afirmar a foto como uma forma moderna de arte”, como pontua Fabris (2012, p.46) Se o primeiro impulso era produzir fotografias que estivessem o mais próximas possível da pintura – como o próprio nome do movimento sugere –, considerando para isso as suas características, temas, materiais e acabamentos, por outro lado, foi à custa do experimentalismo técnico trazido por ele que a fotografia pôde verdadeiramente buscar e encontrar a sua autonomia. Assim, o pictorialismo, de forma controversa, acabou por libertar a fotografia do desejo de semelhança à pintura e foi responsável por abrir espaço à fotografia no campo artístico, inserindo-a nas coleções de museus e nas grandes exposições e inaugurando os debates sobre imagem e representação do real, que levariam ao estabelecimento da fotografia moderna.

Esta reflexão ganha corpo a partir de um olhar sobre um conjunto de obras da artista Samy Sfoggia. Imagens híbridas, que ficam entre a fotografia, o desenho, a gravura e a colagem, nos remetem a um repertório de referências históricas, convidando-nos a lançar um olhar anacrônico para suas obras, para refletir sobre a relação entre fotografia e arte. Tal exercício é, também, um convite à revisão da história da arte que, desde o seu princípio, relegou à fotografia um lugar à parte das “belas artes”.

Samy vive e trabalha em Porto Alegre. É formada em artes visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Sua primeira formação foi em História, tendo passado também por uma especialização em Arte, Corpo e Educação, na qual dedicou-se a analisar a obra do cineasta David Lynch, e um mestrado em Literatura Comparada – este último interrompido no meio. Esta breve biografia revela as etapas, referências e influências do seu percurso, que estão presentes e constituem a sua poética, mesmo que percebida, pelo público, implicitamente. 

"Normalmente começo a produzir as séries justamente quando eu deveria estar fazendo algo burocrático. Acredito que, assim como eu, muitas pessoas passam anos reprimindo sentimentos. Ao invés de ir a um terapeuta, resolvi produzir imagens com base nas minhas experiências. De certa forma, acho que funcionou." (SFOGGIA, 2016).

A liberdade de criar e, principalmente, experimentar com e a partir do meio fotográfico é o ponto central de sua obra. A câmera fotográfica analógica e o filme são o seu ponto de partida, desencadeando um processo posterior de manipulação manual e digital. O processo de revelação no laboratório é, para Samy, um de seus principais interesses e é de onde surge o princípio de suas imagens.

"O que sempre me interessou na fotografia analógica foi o trabalho no laboratório, não tanto pela ampliação das imagens, mas sim pelo processo de revelação do filme, que era o momento no qual eu podia fazer experiências modificando o tempo de ação ou a ordem dos químicos, deixando que o “acaso” também estivesse presente no processo de trabalho."(SFOGGIA, 2016).

Uma segunda etapa, pós-revelação, divide-se entre a interferência direta no negativo, colagens e sobreposições, e a digitalização desse para, a partir disso, manipular a imagem digitalmente. Ou então, digitalizar o negativo, imprimir a imagem, manipular, redigitalizar, manipular digitalmente, imprimir novamente... Não há uma regra, há o desejo de experimentar os limites da imagem e da fotografia, das sobreposições e da criação de camadas de sentido. Tanto o negativo quanto a imagem impressa podem ser trabalhados manualmente com os mais variados meios: alfinetes, agulhas, lápis, canetas, arames, pregos, colagens, cola, tintas de todos os tipos, parafina de vela, etc. Nas mãos de Samy, qualquer material é passível de tornar-se instrumento artístico. Algumas vezes, a imagem interferida é o produto final. É ela que será exposta, com todos os elementos e rastros, como o caso da série Samy’s dreaming about the forest. As imagens finais desta série foram digitalizadas apenas para compor o livro Drømmer on Skov, publicado em 2015, pela Azulejo Arte Impressa.

Em outros momentos, uma vez pronta a imagem, com as interferências e camadas, ela é novamente digitalizada e aí, sim, impressa a versão final. É o caso da série Rapid Eye Movement, de 2012. Neste caso, a imagem bidimensional condensa as camadas e as etapas do fazer. Desvendar o processo, bem como compreender a natureza da imagem – se fotografia, desenho ou gravura – torna-se um interessante jogo de atenção e percepção.

De sua formação em História e sua passagem pela literatura comparada, persiste a relação com as palavras e a linguagem, responsáveis também por criar a atmosfera onírica de suas obras. Frases e/ou pequenos textos aparecem nos títulos ou como parte da imagem. A linguagem e a narrativa compõem, assim, mais uma das camadas de sua poética, funcionam como mais um elemento que se soma às camadas de sentido aglutinadas na imagem.

"De alguma forma, sempre tento fazer com que o texto esteja presente no trabalho. No início, restringia apenas aos títulos das imagens. Eles são, normalmente, atribuídos aleatoriamente, como em um jogo, ou seja, frases em diferentes idiomas desconectadas do seu sentido habitual são associadas às imagens. Isso também é um artifício que remete a um estado onírico, visto que quando uma pessoa sonha que está lendo, por exemplo, é comum que as frases fiquem embaralhadas e que ela não consiga discernir o que está escrito. Quando uma palavra ou uma frase é colada à imagem, ela pode remeter a tantas outras coisas que, ao invés de explicar ou dar sentido ao trabalho, ela acaba confundindo e causando curiosidade do motivo dela estar ali." (SFOGGIA, 2016).

A presença da palavra, bem como as colagens, as interferências com elementos variados e a sobreposição de negativos e imagens, também pode nos remeter ao uso dessas, e da própria fotografia, pelos artistas do dadaísmo e do surrealismo – este último, um dos movimentos da história da arte que mais interessam à artista. Entretanto, o resulto poético de Samy nos remete a um universo mais íntimo e subjetivo; mais escuro, tanto no sentido literal – suas obras são quase sempre em preto e branco, com fortes contrastes que nos dão uma lembrança do cinema expressionista alemão e do cinema noir – quanto no figurado – como a própria artista afirma, seus trabalhos partem de um lugar consciente da subjetividade, dos sentimentos, dos medos e angústias.

Entre o literal e o figurado, narrativa e ficção estão fortemente presentes em suas montagens, construindo uma atmosfera densa de um universo onírico que traz algo de fantástico e, por vezes, macabro às suas imagens. É como se cenas de sonhos, ou filmes de terror reais, ou partes do nosso inconsciente-consciente viessem à tona, e, censurados, eles vêm rasurados, costurados, remendados. Há algo de dor e, ao mesmo tempo, de alívio, de catarse. Não é à toa que a artista tem uma de suas principais referências no cinema de David Lynch e na literatura de Franz Kafka.

Assim, os elementos que compõem a poiética e a poética de Samy podem provocar uma discussão não apenas acerca da fotografia de hoje e sua relação com a história da arte, mas, ao mesmo tempo, colocar em debate o lugar e o papel da fotografia na contemporaneidade, quando técnicas analógicas, manuais, digitais e virtuais estão ao nosso dispor para experimentar e descobrir não somente um caminho poético, como também sobre os tempos em que vivemos. “A fotografia eletrônica não constitui uma simples transformação da fotografia fotoquímica, mas introduz toda uma nova categoria de imagens que já devem ser consideradas ‘pós-fotográficas’”, afirma Fontcuberta (2012, p.62). Indo ao encontro das reflexões do fotógrafo catalão acerca de uma pós-fotografia, talvez pudéssemos propor não mais pós, mas uma metafotografia,1 ambígua, entre a linguagem analógica e a digital, levando a uma reflexão sobre o que é a fotografia contemporânea. Propor a ideia de uma metafotografia, seria pensar em termos de uma fotografia que se volta para si mesma, como no momento do pictorialismo, para se descobrir a partir de cruzamentos – entre meios e disciplinas, entre texto e imagem, entre narrativa e linguagem – e de experiências.

1 De forma resumida, a ideia de uma metafotografia parte do pensamento proposto pelos filósofos contemporâneos, Timotheus Vermeulen e Robin van den Akker, em 2010, acerca de uma metamodernidade. Para eles, não estaríamos mais vivendo sob um regime do pós-modernismo, nem de um pós-pós-modernismo e também não de um retorno à modernidade. O termo metamodernidade propõe que os tempos atuais oscilam entre desejos e aspirações tipicamente modernos, de desejo de futuro, e, por outro lado, desejos do pós-modernismo, do retorno às grandes narrativas e às tradições.

Referências:

FABRIS, Annateresa. O desafio do olhar – Fotografia e artes visuais no período das vanguardas históricas. Vol. 1. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

FONTCUBERTA, Joan. A câmera de Pandora: a fotografi@ depois da fotografia. São Paulo: Gustavo Gili, 2012.

SFOGGIA, Samy. Entrevista com a artista, concedida por e-mail, em 11 de fevereiro de 2016.

(Texto publicado na edição n.9 da revista Arte ConTexto - http://artcontexto.com.br/artigo-edicao09_aposta.html)

 

Uma arqueologia visual

Annateresa Fabris

 

“Das Fremde in mir” (O estrangeiro em mim, 2012), título de uma das séries apresentadas na exposição “Jest sztuka absurdu”, parece ser uma boa introdução aos objetivos perseguidos por Samy Sfoggia. Ao colocar-se sob o signo da “arte do absurdo”, a artista brasileira dá a ver a intenção de fazer das próprias fotografias e desenhos “‘frames’ de um inconsciente deliberadamente incoerente e ilógico”. A evocação do “estrangeiro” permite aproximar as obras apresentadas na Fundação Ecarta (Porto Alegre, 23 de setembro – 2 de novembro) do conceito freudiano de “estranho”, ou seja, de “algo que é secretamente familiar, que foi submetido à repressão e depois voltou”. O uso de imagens fotográficas, provenientes do próprio arquivo pessoal ou captadas na internet, é congenial à busca desse “estranho”, pois elas remetem a realidades familiares tornadas inquietantes pelas manipulações a que a artista as submete.

O traço distintivo de Sfoggia é, com efeito, a concepção da fotografia não como tomada, e sim como um longo processo de manipulação, pelo qual a imagem, longe de afirmar-se por si, se configura como uma representação residual, repleta de fantasmas e visões, não raro, traumáticas. Para obter esse efeito de estranhamento, a artista, depois de digitalizar os negativos, manipula as imagens num editor. É nesse momento que ocorre um sem número de intervenções, que vão da distorção de figuras à prática da colagem, da sobreposição de camadas ao uso do desenho e à inversão de cores. Novas intervenções são realizadas depois da impressão da imagem resultante em papel fotográfico. Sfoggia risca o papel com agulhas, fura-o, mancha-o com tinta, faz desenhos com caneta e linha; em seguida, realiza uma nova digitalização, cujo resultado é uma reimpressão da imagem em formato maior.

A descrição do processo, feita pela própria artista, não deixa de evocar o conceito de “arte mestiça”, proposto por François Laplantine e Alexis Nouss. A reflexão dos autores sobre a colagem como portadora de um duplo objetivo – reflexo da realidade (pelo uso de materiais preexistentes) e criação de uma nova realidade (pelo choque da aproximação) pode ser transposta para o trabalho de Sfoggia. Neste, a imagem fotográfica manipulada e reconfigurada traz a marca da justaposição de fragmentos, que remetem a um processo de livre associação, baseado na contiguidade e na analogia, mas não numa sucessão lógica. “Das Fremde in mir” é um exercício de justaposição de fragmentos icônicos incongruentes, norteados pela “lógica do absurdo” e pela vontade explícita de propor uma interpretação das fissuras contemporâneas a partir da exploração do “tênue espaço entre o real e o simulado”, para usarmos uma expressão de Martha Rosler.

O clima de irrealidade que emana das imagens é reportado por Sfoggia a um quadro de referências preciso, que inclui pesadelos pessoais, a cinematografia de David Linch, as experiências do fotógrafo eslovaco Tono Stano, cuja série “White shadow” (2008) é apreciada por ela por seus resultados bizarros, e a literatura de Franz Kafka e Sigismund Krzyzanowski. A novela “O quadraturin” (1926) , (1) na qual o autor russo imagina o crescimento acelerado de um cômodo de 8 m2 graças ao uso de uma substância especial, serve de ponto de partida para duas obras presentes na mostra da Fundação Ecarta. Na montagem fotográfica “Sutúlin e o quadraturin” (2014), os efeitos do produto milagroso são visíveis nos dois tamanhos apresentados pela figura humana que se destaca numa paisagem urbana. Se os desenhos com linha e as intervenções que evocam a pintura conferem à montagem um caráter estranho, este é realçado pela aposição de alfinetes, os quais deveriam conferir à imagem o caráter de um objeto 3D, de acordo com a artista.

O aspecto anacrônico de muitas das obras apresentadas na exposição reforça seu elo com o conceito de “estranho”, se for lembrado que Sigmund Freud ressaltava o caso dos artistas que se movem no mundo da realidade comum para produzir sentimentos insólitos, cujos efeitos podem ser aumentados ou multiplicados, de maneira a produzir eventos “que nunca ou muito raramente, acontecem de fato” na vida cotidiana. Nem mesmo uma obra como a montagem fotográfica “#3945#” (2012), que rememora a Segunda Guerra Mundial, escapa desse quadro de referências. A presença de rostos borrados ou lembrando máscaras, associada a imagens de campos de extermínio, remete a um quadro traumático que, ao atualizar uma realidade (aparentemente) obsoleta, gera uma espécie de arqueologia visual.

Uma das obras mais inquietantes de Sfoggia é o desenho com colagem fotográfica “Doppelgänger” (2014), ao qual pode ser aplicado outro conceito freudiano: o do duplo como outro aspecto do ser, que atua de modo diferente do original. Atuando entre desenho e fotografia – e, logo, mobilizando outra possibilidade da “arte mestiça” assinalada por Icleia Borsa Cattani –, a artista transforma a justaposição de meios e imagens numa representação estranha, em que o recalque do qual a figura do duplo é portador assume um aspecto fantasmático.

O mal-estar visual e psíquico que impregna a mostra da Fundação Ecarta é um convite a detectar naquele conjunto de imagens sombrias e alógicas uma ideia dicotômica de realidade, feita de claros e escuros, pesadelos e visões rotineiras, recalques e epifanias. O real e o simulado que se confrontam e se fundem num movimento contínuo podem ser vistos como elementos de uma narrativa para a qual são igualmente determinantes os eventos exteriores e os fantasmas do inconsciente. Dessa tensão contínua brota a singular arqueologia de Sfoggia, artista a ser seguida com atenção, já que seus signos “estranhos” apontam para uma estratégia de resistência à banalização da visualidade contemporânea.

(Texto publicado no Arte & Crítica / Jornal da abca, n° 32, Ano XII, dez. 2014.)

 

Rasgar e perfurar

Flávio Gonçalves

 

As fotografias e desenhos de Samy Sfoggia são construções que se debruçam tanto sobre suas próprias fotografias quando daquelas que a cercam. Para isso é preciso um tempo outro que revisite e reordene esse material. A manipulação e a fatura lenta, aproximando fragmentos, invertendo valores, procuram revelar um sentido novo, uma nova fantasia, partindo da mesma artesania que produz o negativo fotográfico. Essa atração pela manipulação e pela construção, pela mancha e pela marca, é expressão anacrônica que nossa imaginação responde à distância estabelecida pelas tecnologias ao nosso mais íntimo refúgio. Precisamos do contato e do toque.

A fotografia encontra o desenho através do choque e da rasura; sofre com as perfurações, com a voracidade da colagem que tudo quer reunir e contrapor. Ela que responde com um só golpe, trazendo num só movimento toda uma cena, deve se desdobrar em múltiplos momentos, no tecer lento e desigual da ordem gráfica. A questão é para a artista tanto de origem quanto temporal. Se no seu fundamento desenho e fotografia compartilham uma essência projetiva, seu tempo é definitivamente oposto, assim como seu modo.

A fragmentação do ato de inscrever do desenho recupera mais a memória do seu próprio fazer do que é registro da memória. A foto vela sobre nossas lembranças, mas para fazer-nos um com elas é preciso rasgar, perfurar, deglutir; se apropriar de modo irreversível refazendo o sentido da experiência. Pulsão dionisíaca sobre um mundo apolíneo de imagens, diria o filósofo, que se exprime melhor pela possessão.

(Flávio Gonçalves é doutor em Artes pela Universidade de Paris I - Sorbonne)

 

R.E.M.

Elaine Tedesco 

 

Samy Sfoggia é uma jovem artista que tem desenvolvido um instigante trabalho em fotografia. Seu processo de criação emprega fotografias de seu arquivo pessoal, bem como a apropriação de imagens disponíveis na internet. Parte das características da fotografia de base química em preto e branco, joga com as proximidades e com as distâncias específicas dessa forma de fotografar e de revelar imagens, e vai além: explora as múltiplas possibilidades de manipulação oferecidas pelo sistema digital em um processo híbrido associado ao fazer manual, desenhando sobre as imagens virtuais e, também, depois de impressas. A série R.E.M. (Rapid Eye Movement) traz indicativos de uma narrativa noturna, com clima de suspense. São imagens sombrias, as quais remetem ao acordar logo após um pesadelo. Segundo Samy, “uma tentativa de construir espécies de ‘frames’ de um inconsciente deliberadamente incoerente e ilógico.” Sua proposta, em uma associação histórica, faz lembrar Man Ray, que igualmente acionava o uso do laboratório como um lugar de agenciamentos automáticos, com tempo para os acasos. Na atualidade, essa forma de fazer está articulada com as reflexões sobre a fotografia contemporânea, cito como referência o pensamento de Françoise Soulages quando define a fotografia a partir de sua fotograficidade, ou seja, das relações entre o irreversível e o inacabável. Para a artista que trata a fotografia como um material de trabalho, o momento de captura importa pouco, muito mais interessante é o inacabável trabalho possível a partir dos registros existentes.

(Elaine Tedesco é doutora em Poéticas Visuais pela UFRGS. Texto de 2012.)

 

Rapid Eye Movemente | Bababadalgharaghtak-amminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunn-trovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!​

Ronaldo Entler

 

Às vezes, um gesto que diríamos ser estranho à fotografia pode revelar outra parte de sua natureza: antes de ser “técnica”, a fotografia é “imagem” e, como tal, não resiste à sua vocação de vasculhar o que está além do visível. O estranho, como nos lembra Freud, não é o que está absolutamente distante. Ele tem a ver com o lapso que permite enxergar a si mesmo como outro, uma fissura por onde transborda aquilo que foi preciso alienar para forjar uma identidade.

Foi necessário recalcar um tanto do imaginário para supor que a fotografia caberia num instante captado das aparências do real. O olhar que insiste em durar sobre essa imagem sabe que ela é feita de muitas camadas. E aqui, particularmente,  vemos um gesto extenso de criação que escava e revolve sua superfície para libertar fantasmas que o pensamento técnico desejou um dia esconder.

Este trabalho é feito da sobreposição de procedimentos, imagens e idiomas, mas também de tempos distintos: há nele algo do atrevimento técnico das vanguardas; há a visão de uma natureza obscura, ao mesmo graciosa e violenta, que é própria das sociedades arcaicas; e, claro, há muito do universo dos sonhos, essa que foi provavelmente a primeira imagem que experimentamos na vida.

 

Rapid Eye Movement (2012-14) e Bababadalgha-raghtak(…)! (2014) são duas séries criadas a partir de experimentações com a fotografia. Os trabalhos de Samy Sfoggia são resultado de um extenso processo de construção que envolve, além de imagens de seu acervo, apropriação, colagem e desenho, entre outros procedimentos. Suas pesquisas estabelecem também um forte diálogo com o cinema e com a literatura. Os títulos das séries, assim como das obras, são retirados de livros publicados em diversos idiomas.


(Texto publicado pela Icônica - http://www.iconica.com.br/site/paragem/samy-sfoggia-bababadalgharaghtakam/)