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Roberta Tassinari

Florianópolis/SC, 1983. Vive e trabalha em São Paulo/SP.

Roberta Tassinari tem participado do circuito de arte contemporânea desde 2009 através de salões de arte e exposições no Brasil e exterior. Entre alguns salões destaca-se: 66° Salão de Abril, ArteLondrina 4, 47º Salão de Arte contemporânea de Piracicaba, 21º Salão Anapolino e 43º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, no qual recebeu prêmio aquisição. No ano de 2014, fez a individual “Matéria: contenção e expansão” na Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS. No exterior, participou de exposições em Toronto e Veneza. Em 2013, realizou residência em Nova Iorque na School of Visual Arts. Em 2016, finalizou residência na FAAP, São Paulo/SP, e participa de individual no MASC – Museu de Arte de Santa Catarina e de coletiva no CCSP – Centro Cultural São Paulo. Sua pesquisa envolve a investigação da matéria principalmente através da cor. Além dos materiais tradicionais da arte, a artista utiliza como matéria-prima materiais próprios da indústria e da construção civil e cria obras que oscilam entre pintura e objeto.

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2015 - Prêmio aquisição, 43º Salão de arte contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2010 - Menção honrosa, XIX Encontro de Artes Plásticas de Atibaia/SP.

2010 - Prêmio Franklin Cascaes, categoria artista revelação do ano, Florianópolis/SC.

Exposições individuais

2016/2017 - Híbrido, MASC - Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis/SC. 

2016 - Articulação, Laboratório52, São Paulo/SP.

2015 - Módulo Cor, O Sítio Arte Educação Coworking, Florianópolis/SC.

2015 - Reverbera, MAB - Museu de Arte de Blumenau, Blumenau/SC.

2014 - Matéria: contenção e expansão, Galeria Iberê Camargo/Gasômetro, Porto Alegre/RS.

2010 - Croma, Museu Histórico de Santa Catarina, Florianópolis/SC.

2010 - Pinturas, Galeria Municipal de arte Victor Kursancew, Joinville/SC.

2010 - Plástica, Centro Cultural Jorge Zanatta, Criciúma/SC.

2010 - Plástica, Fundação Cultural Badesc, Florianópolis/SC.

2010 - Plástica, Museu de Arte de Goiânia, Goiânia/GO.

2010 - Plástica, Espaço Cultural Albano Hartz, Novo Hamburgo/RS.

2010 - Cor-Matéria, Museu de Arte contemporânea de Goiânia/GO.

 

Exposições coletivas

2016/2017- Atlas abstrato, CCSP - Centro cultural São Paulo/SP. 

2015 - Espaço, Geometria e Construção, Casa Açoriana, Florianópolis/SC.

2013 - I Mostra de Arte Contemporânea Lote 7, Fundação Hassis, Florianópolis/SC.

2012 - Arte na Cidade, curadoria de Fernando Boppré, Fundação Hassis, Florianópolis/SC.

 

Salões

2015 - ArteLondrina 4, Londrina/PR.

2015 - 47º Salão de Arte contemporânea de Piracicaba/SP.

2015 - Salão de Artes Visuais de vinhedo (SAV), Vinhedo/SP.

2015 - 21º Salão Anapolino, Anápolis/GO.

2015 - 43º Salão de Arte Contemporâneo Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2015 - 66º Salão de Abril, Fortaleza/CE.

2014 - 15º Salão Municipal de Artes Plásticas de João Pessoa/PB.

2014 - 16 º Salão de artes visuais de Natal/RN.

2012 - SARP - Salão de Arte de Ribeirão Preto/SP.

2012 - XX Salão Elke Hering, Blumenau/SC.

2011 - XIX Encontro de Artes Plásticas de Atibaia/SP.

2010 - 12º Salão Nacional de Itajaí/SC.

2009 - Arte Pará, Belém/PA.

 

Residências artísticas

2016 - FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo/SP.

2013 - SVA - School of visual Arts, Nova Iorque/EUA.

Roberta Tassinari e o olho que chama

Danilo da Silva Calegari

 

Roberta Tassinari nasceu e atua em Florianópolis. Sua formação na área de Publicidade (Unisul, 2005) foi paralelamente permeada pelas oficinas artísticas em desenho, cerâmica e pintura (Fundação Cultural Catarinense). Em passagem por Porto Alegre, ela se especializa em Expressão Gráfica (PUC, 2007) e em Design Gráfico (Unisinos, 2007). Constam igualmente em sua formação, um curso de pintura em Vancouver (Ecuad , 2007) e uma residência em Nova Iorque (SVA, 2013). Produzindo intensamente desde 2009, com exposições em diversos centros do Brasil, a artista problematiza questões relacionadas à natureza pictórica. Através da experimentação com a matéria e a cor, Roberta Tassinari faz com que sua pintura se desdobre e se expanda para fora do espaço biplanar da tela.

Cor matéria (2009) traz os questionamentos os quais Tassinari parece carregar consigo desde o início de seu percurso artístico. A série é constituída de utensílios do dia a dia, dos mais variados, adquiridos em lojas de departamento. Estes perdem sua função primordial para se transfigurarem em objetos artísticos (DANTO, 2005). Roberta os ordena através de uma montagem que mais do que evidenciar formas ocultas, as cria de modo inusitado, jogando com a sombra e as veladuras dos utensílios, dos plásticos e das boias.

Pintura (2010) é constituída de Amoeba aplicada verticalmente às paredes. Ao escorrer, o magenta e o alaranjado se esfloram, deixando o branco da parede aparecer. Por vezes, as cores se tocam por completo. Dessas veladuras e do branco que transparece entre elas, o efeito que se tem é o de uma cortina de cores que revela muito mais sobre a pintura do que esconde. Além disso, Pintura encontra o limite para seu avanço somente quando toca o chão. De quanto mais alto ela for aplicada, maior é a ação da gravidade e do acaso. É a gravidade que se ocupa em criar o rastro de cor e assim o acaso dá forma ao trabalho. Desse modo, Pintura dialoga livremente com a arquitetura do lugar onde ela acontece: no espaço.

Se nos atentarmos, Pintura nos revela um atributo interessante. Mesmo em se tratando de um trabalho que abandona as características formais da pintura– material estranho à técnica, ausência da tela, movimento – o escorrimento e o entrelaçamento das cores formam veladuras, profundidades, ou seja, um atributo da pintura formal.

Assim como Cor matéria e Pintura, a série iniciada em 2010, Plástica, continua com as reflexões acerca da matéria e da cor e de uma pintura que se desdobra no espaço. Do mesmo modo de Cor matéria, nessa série, a artista valoriza igualmente o uso de outros objetos banais. 
No caso de Plástica, a tridimensionalidade entra em cena com maior presença e os arranjos de utensílios adquirem mais volume, sombras e veladuras. Como se nessa série as formas dos objetos e seus efeitos aparecessem de modo menos tímido do que na série Cor matéria.  
Podemos assim nos ater a questão do olho. Na fala de Roberta, ela reiterou em diversas oportunidades que durante seus passeios pelas lojas de departamentos, era seu olho que chamava os objetos.

Ao observar os trabalhos dessas três séries, tanto Cor matéria quanto Plástica evidenciam a quase falta de gestualidade da artista. Ao contrário, já em Pintura, o gesto aparece com mais presença. A gravidade ou o acaso poderiam inclusive apontar certa subjetividade nos rastros de cores. Porém, eles ocorrem de maneira proposital: são resultados da escolha premeditada; do olhar racional que chama os objetos e da precisão na fatura de Tassinari. Isto se deve ao fato de que nos trabalhos de Roberta Tassinari, assim como o gesto, a subjetividade é quase ausente. Ao contrário, o que transparece nessas séries é um conjunto de operações coerentes e lógicas na busca por uma expansão da matéria e, principalmente, da cor.

Referência:

DANTO, A.C. A transfiguração do lugar-comum. Tradução de Vera Pereira. S.P: Cosac Naify, 2005. 

(Danilo da Silva Calegari  é mestrando da linha de Teoria e História das Artes Visuais no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais do CEART, Udesc - bolsista Capes 2014 - 2015. Trecho do texto "O olho que chama e a mão que traça" publicado no livro "Pensatas sobre arte e tempo, imagem e arquivo", 2017.) 

 

Forma, reforma, disforma, transforma i

Júlia Lima

 

“se nos cansamos das medidas fixas para os versos, da métrica regular e, por fim, também da rima, temos que encontrar alguma outra coisa para conferir ao poema o efeito de um todo.” Öyvind Fahlström ii

A poesia concreta nos anos 1950 desafiava as definições de linguagem e imagem, desbravando um campo híbrido entre o visual e a palavra. A espacialidade do papel era infiltrada por jogos semânticos e alegorias figurativas, e os poetas experimentavam com o abandono do verso, testando os limites gráficos e simbólicos do discurso. Analogamente, a nova série de Roberta Tassinari também resiste aos limites impostos pelos gêneros e suportes tradicionais da história da arte. Suas criações habitam as margens dos gêneros e estilos.

A artista tem seu ateliê como uma cozinha, ou um laboratório improvisado: cortando e recombinando embalagens plásticas diversas, monta moldes retangulares e aquadradados que servem para formatar o cimento, componente do concreto, essencial à construção civil e ordinariamente presente nos ambientes urbanos; é usado como estrutura, suporte e carne do trabalho. A substância ganha nova função, é submetida a experimentos, improvisos e articula novos significados. A mistura de água e cimento para as bases gera calor e como não há uma receita exata, as proporções não se repetem com precisão, o que implica em lidar com as imprevisibilidades da matéria a cada nova preparação. Os objetos são resultado de uma repetição mecânica que gera a cada investida resultados distintos que, ao mesmo tempo, seguem uma lógica interna própria, serial.

Com os blocos de cimento endurecidos, Tassinari decide incorporar (ou não) cada efeito inesperado e reação adversa, como bolhas, quebras, desníveis e incontáveis outras particularidades materiais das peças, que absorvem a umidade do ar, respondem à temperatura ambiente e impregnam-se da textura dos moldes. A partir desse resultado, cria composições cromáticas com encáustica, tinta polivinílica, resina, folha de ouro, entre outros, expandindo seu vocabulário plástico. A transparência é elemento essencial nessa adição de cor e massa sobre as placas, que ora absorvem o pigmento, ora o sustentam como volume sólido ou translúcido, em alternações de contaminação e acumulação pura. As folhas de ouro deslocam-se do contexto de valor e raridade para recobrir as superfícies de um material comum, prosaico, em associações inusitadas.

Assim como na poesia concreta, não há normas fixas para desenvolver o trabalho, não há métrica pré-definida que o estruture, não há necessidade de rima ou ritmo precisos. Algumas tentativas frustradas intermeiam-se com soluções potentes que surpreendem a própria artista. Ela aventura-se de forma intuitiva nessas massas e misturas, com mais ou menos êxito a cada nova experiência. Não há projeto prévio nem traçado ou esquema, mas uma sensibilidade imediata com a materialidade e a força dos ingredientes, que assim como em uma cozinha espontânea, podem tanto transformar-se em produtos saborosos, bem resolvidos, articulados, como desandar em harmonizações estranhas e insossas. 

As peças que sobrevivem ao embate da artista com seus materiais desviam-se das definições categóricas estanques da arte, como pintura, escultura e objeto; abstração, paisagem e concreção geométrica. Não se encaixam na estrita ordem da pintura – não são unilaterais e seu volume e corpulência evocam a tradição da escultura. Também não são rigorosamente escultóricas, uma vez que não resultam da literal adição ou subtração de matéria, como quando se lida com argila ou mármore. São inerentemente tridimensionais, mas há sempre um dos lados ao qual não temos acesso, o fundo, e os trabalhos descansam contra a parede assim como qualquer pintura. No entanto, como nos objetos-ativos de Willys de Castro iii, as laterais informam tanto quanto os planos frontais, são carregadas de dimensão, concretude e cor. Essas pinturas-objetos não funcionam apenas quando encaradas de frente, vistas da esquerda para a direita ou de cima para baixo – a leitura das obras é livre e o olhar pode percorrer as cinco superfícies para relacionar-se com as composições.

Estas obras não tem título, não há narrativa subjacente ou metafórica; há, sim, uma relação metonímica entre os elementos empregados, os ingredientes que relacionam-se contiguamente, material e conceitualmente, conteúdo e forma indissociáveis. Como um som que nunca pode ser repetido, ou um pequeno haicai, Roberta Tassinari estrutura peças únicas e seriais, constrói poesia com a matéria, transforma os materiais e é transformada por eles.

i Trecho de poema de José Lino Grünewald, um dos integrantes do grupo Noigandres, pioneiro na poesia concreta no Brasil.

ii Artista sueco nascido no Brasil, Fahlström foi um dos primeiros artistas a escrever em defesa da poesia concreta [Manifesto para a poesia concreta, 1953].

iii Artista brasileiro central em movimentos de vanguarda como o Concretismo e o Neoconcretismo.

(Texto realizado para a exposição Híbrido.)

 

Contemporâneo Imemorial

Rosangela Cherem


Trocando a pintura de cavalete e a arte retiniana pelas sutilezas do conceito, a abordagem de Roberta Tassinari escapa da moldura e da própria superfície biplanar, mas faz persistir inquietações pictóricas, desdobradas tanto em termos de poética como de fatura, ou seja, tanto no que diz respeito às noções operatórias, como procedimentos formais e técnicos. Assim, o problema do coeficiente criativo, ou seja, a distância entre a concepção e à materialização do pensamento artístico, torna-se parte da questão que tomou para encarar e dar consistência através de seus trabalhos.

Recorrendo à premeditação, mas acolhendo os resultados inesperados, sua gestualidade não é apenas manual, mas exige um movimento constante e inteiro do corpo em relação à distância e à altura em que a obra se encontra disposta. Destituindo os objetos compositivos de suas funções previamente conhecidas, surgem planos de cor e veladuras, alterando formas e cores através de novos encontros e combinações. A continuidade desta linha investigativa vem produzindo uma nova série de objetos, sendo que cada um deles busca uma composição cromática a partir de objetos diferentes, devidamente posicionados em planos distintos. O Sendo apresentadas diferentes densidades de transparências, cada cor predominante possibilita variações tonais. Enquanto situações cromáticas diferentes e sutis são dadas a ver, os elementos saem de dentro da estrutura que as envolve e ganham espaço. O que aparecia de modo mais tímido nos trabalhos dos anos anteriores agora está mais explícito.

Embora esteja avançando e amadurecendo em seu pensamento plástico, o que esta jovem artista permite alcançar é também um paradoxo. De um lado, implica a compreensão de que para sonhar é preciso esquecer a matéria vivida no estado diurno, fazendo com que ela seja processada e nos permita adentrar nos estranhos segredos que nos habitam, que persistem e insistem em nosso destino, percorrendo nossas consistências e obstinações. De outro, faz pensar que a criação artística seja talvez um tipo particular de sonho, em que aquele que sonha tangencia a matéria dos inumeráveis sonhos que lhes precederam. Ou seja, ao perseguir suas inquietações plásticas, não seria constitutivo e próprio do gesto artístico precisamente fazer voltar as questões irresolutas que nasceram com aquele que, desde um tempo imemorial, imaginava e criava blocos de percepções e sensibilidades a que mais tarde chamou de arte? Se assim for, Roberta Tassinari faz voltar na arte contemporânea os mais longínquos problemas da pintura: do que é feita a luz e a cor? quais são as formas pictóricas e do que elas podem ser feitas? O que uma pintura pode nos fazer ver, o que ela ilumina e até onde ela pode nos lançar?

(Texto realizado para a exposição Plástica.)

 

Texto para exposição Croma

Marcelo Pereira Seixas

 

De que trata esta obra com a qual Roberta Tassinari ocupa um dos espaços do Museu Histórico de Santa Catarina, em Florianópolis, nesta exposição que ela chama de Croma? O título, em princípio, nos remete a uma gramática própria da pintura, haja vista ser este um termo associado não só à noção de pureza cromática, como, também, à da ausência do branco na diluição de uma cor para a obtenção de um meio tom.

Entre quatro pilares de ferro do espaço expositivo do Museu Histórico, são dispostos algumas dezenas de bóias infláveis – nas cores rosa neon, rosa fosco e rosa translúcido – em diferentes escalas que, suspensas por fios de nylon, espalham-se compondo o ambiente. Trata-se de um trabalho eminentemente retiniano e, inerentes a ele, espacialidade e temporalidade são os aspectos que mais facilmente podem ser identificados. Conforme variam a localização do espectador e a luminosidade do ambiente, as bóias – que poderiam ser vistas como massas de cor – vão assumindo novas configurações e, na medida em que se agrupam em diferentes sobreposições ou justaposições, vão compondo infinitas combinações. Estruturado pelas bóias que Roberta cuidadosamente distribui, este arranjo espacial pode ser visto como uma pintura espacial caleidoscópica (ou uma instalação como preferem alguns) que está sempre por fazer-se. Inconclusa diante das tantas variáveis que regem sua lógica interna constitui-se num trabalho que nunca se esgota, sempre se renovando a cada situação.

Neste trabalho, a artista/pesquisadora vale-se do uso especial e muito particular daquelas lições pictóricas aprendidas já faz algum tempo. Segura dos procedimentos adotados, não só pretende desdobrar aspectos referentes à cor, luz, transparência, veladura, e todos aqueles aspectos próprios do discurso da pintura, como, também, descontextualizar muitas das suas operações básicas. Fica-nos claro que, ao ousar tal gesto de ruptura, de superação, de insurgência mesmo, consegue ir muito mais além, ao ponto de transpor todos aqueles limites e fronteiras mais arcaicos que ainda insistem e persistem na lógica do confinamento que nos é imposta pela via das categorias tradicionais da arte. 

De certo é que não haveria empecilho algum em pensarmos nesta recente proposição de Roberta como algo pertencente ao campo da pintura, entretanto, ao fazê-lo, deve-se ter em mente tratar-se de um trabalho que procura expandir e dilatar conceitos. A atualidade desta obra consiste, justamente, do uso que faz de outros eixos além daqueles já demasiadamente saturados da superfície plana cartesiana e de sua exigente necessidade de um espaço expositivo ideal; contrário a isto, se utiliza de variáveis outras como aquelas que, há algum tempo, já foram requisitadas pela arte contemporânea (leiam-se aí as relações espaço/tempo, público/obra, entre outras), todas elas facilmente identificáveis, ou, melhor ainda, os elementos constitutivos que a complementam.

Então, a proposta pictórica que Roberta Tassinari nos apresenta pode ser entendida tal qual um dispositivo instaurador de um jogo visual que objetiva a desestabilização de supostas verdades e valores que, todavia, permeiam o discurso da pintura. Ao promover esta situação de esgarçamento de fronteiras e limites, este trabalho revela-nos, não só a potência que o caracteriza, como, também, a relevância com que está impregnado.

(Texto realizado para a exposição Croma.)

 

Texto para exposição Cor-matéria

Fernando Lindote

 

Nas estruturas de Roberta Tassinari, a cor parece inchar, dobrar e se redobrar através das situações surgidas pela junção de elementos encontrados. Ao escolher elementos comuns do contexto dos objetos utilitários, Roberta pretende operar uma disfunção inicial para, a partir do esvaziamento do que conhecemos desses elementos, recuperá-los em nova chave. A eficácia da operação se dá na medida em que esses elementos, rearmados pelas estruturas que Roberta inventa, submergem na cor. A partir daí há um esquecimento da utilidade anterior e um aparecimento, na duração da observação das obras, de outra ordem: a cor imanente que perpassa plástico, folha, borracha e se espalha pelo espaço circundante.

Talvez o que o trabalho de Roberta aspire seja a invenção de cores. Cores que estão presentes, em partes, espalhadas e fragmentadas nas coisas do mundo. Cores que estão num estado de potência, porém ainda desarticuladas. Cores que necessitam de uma materialidade, de um corpo. E é esse corpo que Roberta parece articular e unir através da sobreposição de materiais opacos ou transparentes, moles ou rígidos, translúcidos ou dobrados, escondidos ou evidentes. Esse corpo-cor que incha, dobra e se estende no sofrimento e na alegria da existência no mundo manifestado.

(Texto realizado para exposição Cor-matéria.)

 

Texto para exposição Pinturas

Fernando Boppré

 

“Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.” Primeira Lei de Newton

roberta tassinari dá a ver um mundo decaído. uma pintura que se precipita. ainda assim, suave, translúcida. o gosto em ver essas cores é inegável. o desejo de tocá-las ainda maior.

uma pintura em movimento, quase cinema. porque há aqui o movimento implícito (do alto para baixo). e existe um resto, um excedente dessa operação da artista que se acumula diante de nossos pés.

nos filmes: há trechos que ficam de fora. em contrapartida, na pintura de roberta tassinari: a sobra é incorporada, faz-se obra por meio do excesso.

se pensarmos em todo o esforço da história da pintura, ao menos até o século XIX, em fazer caber as linhas e as cores no espaço delimitado de um quadro (sendo a pintura em tela a principal representante desse desejo e claude monet o sujeito que o frustrou ao fazer seus barcos atravessarem o limite das molduras e depositar esse resto de imagem no vazio). se tivermos em mente também o não menos laborioso desafio que o cinema se lançou ao decidir enquadrar as ações de modo a caberem na tela de projeção. assim, o trabalho de roberta tassinari será desconcertante. porque não diz respeito ao quadro, à tela branca de projeção. ele desliza no terreno do improvável.

e ainda: ao contrário de nossos pés, que servem para sustentar o peso de um corpo em constante luta contra a gravidade, estes trabalhos apostam na queda, na justaposição da força da gravidade com seu próprio gesto. afinal, ao posicionar-se no alto do painel para ali depositar e fazer cair a amoeba (trata-se da famosa geleca, brinquedo infantil, mas que se torna instrumento plástico no processo da artista), o que ela faz é dizer: “sim, estou aqui com meu corpo, aplicando essa massa de cor; no entanto, além do meu corpo há o acaso, que vai sobredeterminar o desenho que essa cor ganhará até alcançar o solo”. e é nessa conjunção entre o acaso e o desejo da artista que surge esse belo trabalho. porque sim, a beleza está aqui, travestida de arte contemporânea.

(Texto realizado para exposição Pinturas.)

 

Texto para exposição Reverbera

João Otávio Neves Filho - Janga

 

Descobrindo a poesia de materiais inusitados e aparentemente prosaicos, tais como chapas cimentícias, poliéster, fitas adesivas ou compensado de madeira, Roberta Tassinari cria quadros-objetos e estruturas de parede em relevo que evocam um mundo em permanente mutação.

A experimentação das reações da cor interagindo sobre suportes diferenciados, ásperos, foscos, absorventes, translúcidos ou opacos tem sido uma constante em seu processo criativo onde a escolha dos materiais possui papel fundamental.

O caráter processual mesclado a reflexos da art-minimal e a influências da arte povera, são algumas das características dos trabalhos dessa artista, cuja depurada e organizada inteligência plástica apóia-se num vigoroso sentido do desenho, responsável pelo sempre presente equilíbrio que paira num clima de digna serenidade.

Num sistema pictórico de relações ou correspondências cromáticas e formas, descobre a cor como energia criadora do espaço.

De natureza tranqüila e meditativa, esses trabalhos exploram a tensão formal resultante da consciente organização entre os espaços vazios e silenciosos, e as luminosas faixas de cor translúcidas e transparentes que se intercalam com planos opacos e neutros.

Transitando entre positivo-negativo, liberdade-controle, a articulação desses elementos plásticos cria entre seus interstícios contra-imagens cuja fluidez e ritmo produzem um lirismo vibrante quase musical.

Extraindo luz dos materiais, a superposição dessas barras transparentes de cor, aplicadas sobre papel poliéster e fitas adesivas, estruturam-se em relevos cujos desdobramentos virtuais projetam o espaço pictórico imaginário até o espaço real circundante.

Nas obras cujos suportes são as placas cimentícias ou a madeira compensada, Roberta, sempre pautada pelo mesmo processo criador, dialoga com os materiais, investiga as possibilidades expressivas e as alterações da cor aplicada com spray sobre fitas adesivas em diversos suportes. Nas pinturas sobre poliéster, os relevos de parede criados pela volumetria do papel pareciam querer avançar como setas para o espaço circundante conforme já observamos. Já nas placas cimentícias o aspecto objetual das superfícies abauladas se impõe.

A imaginação e o caráter predominantemente processual das obras de Roberta Tassinari exigem que o observador complete o processo de observação. É como se a artista nos dissesse que os quadro-objetos não estão contidos apenas ali no suportes mas essencialmente nos olhos e na mente de quem os fez e os vê.

(João Otávio Neves Filho é membro da ABC-AICA. Texto realizado para exposição Reverbera.) 

Entre o mínimo de interferência e o máximo de sutileza

Rosângela Miranda Cherem

 

Como você fez sua escolha pela vida artística?

Paralelo ao curso de publicidade e propaganda busquei uma formação complementar em oficinas oferecidas no CIC ou cursos livres oferecidos na cidade – pintura, desenho, cerâmica e fotografia. Depois de formada fui morar em Porto Alegre para fazer pós-graduação. Continuei buscando complementar minha formação nos cursos oferecidos na cidade: aulas de história da arte, com a Maria Helena Bernardes, o processo criativo com Charles Watson, aulas particulares de pintura com a Gaby Benedict e disciplinas isoladas no curso de artes visuais da UFRGS. No ano seguinte fui para o Canadá estudar inglês e também fiz curso de pintura. Essas experiências me fizeram perceber que meu caminho profissional estava ligado à criação, mas não à criação publicitária – considerando briefing, cliente, etc – e sim aos meus interesses vinculados ao mundo da arte.

De volta à Florianópolis, em 2008, decidi fazer mestrado em artes visuais. Procurei o artista Fernando Lindote para me ajudar a elaborar um projeto de pesquisa. Nesse primeiro ano não fui aprovada, mas fiz algumas disciplinas como aluna especial, e continuei no grupo de orientações coordenado pelo Fernando e lá fiquei até 2013, quando o grupo terminou. Em 2010 iniciei o mestrado em artes visuais, orientada pela Regina Melim, na linha de processos artísticos contemporâneos, onde tive a oportunidade de fazer uma pesquisa teórico-prática sobre minha produção, que recém havia começado. E isso foi fundamental para que eu pudesse entender quais questões eram importantes pra mim, o que me interessaria pesquisar.

Quais as principais exposições que você participou?

O ArtePará, em Belém, em 2009 foi o meu primeiro salão. Foi a primeira oportunidade de ver meu trabalho fora do ateliê e um contexto expositivo. No ano seguinte, 2010, fiz a instalação Croma, no Museu Histórico de Santa Catarina que me possibilitou pensar muitas questões para o trabalho. Em 2012 participei da exposição Plano-espaço no Museu de Arte de Joinville, com as artistas que também faziam parte do grupo de orientações do Lindote: Flávia Duzzo, Karina Zen, Sonia Beltrame, Neide Campos. Convidamos também a Luciana Knabben, que não era do grupo, mas o trabalho dela possibilitava um diálogo com a proposta expositiva. Atualmente, estou com a exposição MóduloCor, no O Sítio, cuja proposta consiste em apresentar alguns trabalhos que desenvolvi durante uma residência artística em NY em 2013, e outros trabalhos mais recentes que dialogam com a relação da modulação da cor e da luz através da matéria.

Quais as principais questões ou conceitos que comparecem ao longo de seu trabalho?

A exposição Reverbera, que ocorreu no MAB em março de 2015, apresentou três grupos de trabalhos. O que há em comum entre eles é que eles iniciam a partir da experimentação de algum material encontrado, através das suas propriedades ou a partir da busca por um material específico para atender a uma determinada demanda. O que me interessa investigar é a contensão e a expansão da cor a partir das especificidades de diferentes materiais: opacidade, translucidez, peso, leveza e luminosidade. Há uma característica que está presente nos três grupos de trabalho que é resultante de um mesmo procedimento. O uso da fita adesiva, para isolar as áreas a serem pintadas, reforça a materialidade de cada elemento. As faixas de cor são feitas com tinta spray para que a superfície fique uniforme e evidencie as propriedades matéricas. A placa cimentícia apresenta uma cor fosca e opaca que opera em oposição à faixa de cor luminosa e translúcida que foi pintada sobre ela. A fixação na parede se dá por parafusos que deixa o material pesado e rígido suspenso, mas que por apresentar certa curvatura e estar afastado parede, favorece o abaloamento da peça distorcendo sua superfície. Busquei um material que tivesse uma característica mais quente e com uma tonalidade mais rebaixada para desenvolver uma estrutura com chapa de acrílico. O compensado atende a esta demanda e opera em oposição a cor luminosa do acrílico que se expande, tanto para a própria placa de madeira como para a parede em que está instalado. O papel poliéster apresenta uma translucidez que é interrompida pela fita adesiva opaca, ou que tem sua cor alterada pelas faixas pintadas. Trata-se de um material maleável que possibilita que sua superfície seja manipulada/curvada/dobrada favorecendo situações cromáticas. 

Atualmente estou com a exposição Módulo Cor, no O Sítio na qual selecionei trabalhos que, ainda que se apresentem em diferentes linguagens, representam um mesmo raciocínio. Para compor esta exposição priorizei os trabalhos que mantém um diálogo centrado nas questões da modulação da cor e da luz através da matéria. Para desenvolver minha pesquisa, opto pelo uso de materiais cujas propriedades me possibilitam articular elementos do campo da pintura bem como explorar suas potencialidades plásticas e expressivas, tais como: transparência/opacidade, peso/leveza, flexibilidade/rigidez, volume/planaridade. Estes podem tanto pertencer aos modos tradicionais de pintura - tinta e tela – como ser feitos para outros fins: silicone, madeira balsa, fita adesiva, entre outros. Apresento também nesta exposição trabalhos desenvolvidos durante a residência artística que participei em Nova Iorque em 2013, cuja proposta foi desenvolver trabalhos com os materiais comprados no comércio local: fitas adesivas, acrílicos em diversas cores e formatos, tecidos, alfinetes, tintas, plásticos, entre tantos outros. Essa pesquisa foi um desdobramento da minha prática no ateliê, cujo interesse se voltava para materiais que tinham uma cor vibrante e uma plasticidade que poderia ser explorada. Durante a residência pude ampliar meu repertório e agregar outras camadas de significação ao trabalho.

Atualmente meu interesse se volta para a experimentação de materiais que podem ser modelados e articulados favorecendo o surgimento de relações pictóricas. Em alguns trabalhos utilizo o silicone para obter uma massa que envolve a camada inferior e modula a superfície pictórica. A cor do silicone, translúcida, deixa ver a camada inferior que ora é pintada e ora preserva o branco da tela. Há o questionamento da planaridade do suporte naqueles em que construo uma camada espessa com tinta serigráfica que é isolada com fita crepe e ao ser removida deixa um degrau na superfície. Nestes trabalhos a matéria depositada na superfície possui tal espessura que ultrapassa os limites da borda tela.

Quero salientar que a relação entre os materiais tenciona e altera a dinâmica pictórica de cada trabalho. A composição desses, em sua maioria, decorre de certa negociação entre seus elementos internos: alternância das cores escuras e claras, variações de luminosidade, de massa de tinta. A cor pulsa ou se contrai, o que pode ocorrer tanto por meio da cor pintada ou da cor coletada do mundo.

Como é sua rotina de trabalho?

Flexível. Tento trabalhar das 9 às 12 e das 14:00 as 18-19h. Trabalhar envolve atividades e funções diversas além da prática/ do fazer artístico, como por exemplo: comprar material, organizar o ambiente de trabalho, pesquisar, olhar o que já foi feito – por mim e por outros – ver o que funciona, pensar sobre. Faz parte da rotina também montar proposta de exposição para editais e enviar portfólios para participar de salão. 

Falemos de seu arquivo particular: qual é sua principal fonte imagética e pessoal, como você escolhe os materiais e as formas que comparecem em seu trabalho? há filmes, revistas, obras, músicas, lugares, pessoas, situações que alimentam? de que modo isso acontece?

A fonte dos meus trabalhos vem do cotidiano, da vida, da indústria, da natureza. Ás vezes um paralelepípedo pode me interessar pelo seu volume e superfície e a partir dai iniciar uma pesquisa com outros materiais. O mesmo pode ocorrer a partir de uma nova cor de spray ou de uma chapa de acrílico. Olho para os objetos do mundo ignorando a função deles. O que me interessa é a sua cor, forma, vazios, maleabilidade, e a partir daí penso de que modo posso potencializar essas características. A minha cartela de cores é bem específica. Gosto de cores que têm pouco branco em sua composição, ou seja, cores saturadas. Cores que apresentam uma vibratilidade alta. Costumo chamá-las de cores luz. E também tenho me interessado por utilizar essas cores com outras opostas, as cores sombra, que são os cinzas e marrons. Juntas, elas criam um degrau cromático onde uma favorece a outra.

Algo que tem me inquietado, já faz um tempo, é o lado oposto ao por do sol. A cada segundo as cores presentes na atmosfera mudam. Não tem como apreendê-las, nem capturá-las por muito tempo. Elas parecem que nunca se repetem, em cada lugar ocorrem de um jeito. Talvez o que eu busque no trabalho é isso: a construção de uma cor que ocorre pela soma de todas as outras que já foram usadas em trabalhos anteriores. É a construção de uma cor que ocorre através da sobreposição das outras.Eu não misturo as cores antes de ir para o trabalho. Uso as cores puras, cruas, o surgimento de novas cores ocorre no próprio trabalho. Por isso me interessam materiais transparentes e translúcidos, pois eles favorecem o surgimento de novas ores. E isso é algo sutil, requer um tempo de observação em cada trabalho.

Como você alimenta seu repertório quanto às referências artísticas?

Pesquiso muito o trabalho de outros artistas. Estudo mesmo. Observo muito o trabalho, leio tudo que encontro a respeito: livros, entrevistas, textos críticos, vídeos no youtube. Aí vou entendendo o que tem no trabalho deles que me interessa e por que interessa. E por aí vai. Ao mesmo tempo, como meu trabalho consiste na investigação da matéria, estou sempre atenta a possíveis materiais que podem virar matéria-prima: novas cores de tintas (acrílica, spray, guache, etc), silicones para diferentes usos – o que acarreta em pequenas diferenças de tonalidades – madeiras ou derivados, plásticos coloridos, papéis translúcidos, PVC, placas de cimento, etc. Qualquer loja pode ser que tenha algum tipo de material que eu possa vir a utilizar: Desde agropecuárias – que tem nylons coloridos vibrantes –, lojas de materiais de construção, lojas de 1,99, e também loja especializada em materiais artísticos.

Que tipo de embasamento conceitual e poético você faz?

Richard Wollheim é um teórico que me interessou bastante, principalmente na época do mestrado. Josef Albers tem um estudo das cores que me ajuda a pensar de que modo elas se relacionam. Por exemplo: ele afirma que existem três fatores que influenciam uma cor: o anteparo, a luz e o entorno. Isso é fundamental para pensar meu trabalho e o modo como articulo os elementos. Israel Pedrosa também tem uma pesquisa sobre os aspectos físicos da cor, e de que modo elas se classificam, o que contêm na sua composição, etc. igualmente, gosto de ler textos críticos sobre os artistas que tenho como referência. Isso ajuda a pensar quais as questões do meu trabalho. Entre eles, costumo acompanhar o trabalho de Tadeu Chiarelli, Alberto Tassinari, Angélica de Moraes, Cauê Alves, Rodrigo Naves, Paulo Sèrgio Duarte, Felipe Scovino, Raphael Fonseca... Além disso, tive a oportunidade de convidar algumas pessoas para escreverem sobre meu trabalho, o que possibilita um entendimento mais amplo do que proponho. Rosângela Cherem conhece meu ateliê e coloca questões que contribuem para o entendimento da minha pesquisa plástica, inclusive, escreveu um texto para o catálogo da exposição Plástica. Fernando Lindote escreveu sobre a exposição Cor-matéria, que realizei em 2010 e foi quem me acompanhou durante cinco anos, sendo fundamental na minha formação como artista. Marcelo Seixas, meu colega de mestrado, me presenteou num texto para a exposição Croma, realizada em 2010 no MHSC. E também o artista conhecido como Janga, recentemente escreveu um texto crítico muito pertinente sobre a exposição Reverbera, que fiz no MAB em março/2015. É muito bom encontrar os pares de pensamento. Isso só estimula a pesquisa e enriquece o trabalho.

Que tipo de estudo formal ou de fatura você realiza?

Analiso as características físicas de cada material. Se for tela, percebo como é a trama, se é grossa ou fina e o que é mais importante pra mim naquele momento. O mesmo ocorre com os outros materiais, como o papel poliéster, por exemplo, que possui certa translucidez - deixa ver o que tem por baixo, mas de uma forma alterada - e tem um caimento leve. Experimentei algumas relações com esse papel, até chegar na fita adesiva como elemento cromático, além de uma faixa de cor pintada com tinta spray que ora fica totalmente aparente e ora fica encoberta pelo papel. Essa sobreposição faz com que a superfície coberta de tinta tenha sua cor rebaixada e, de um modo mais turvo, reverbera. Assim, procuro fazer trabalhos monocromáticos para que seja possível a decomposição daquela cor, a partir de diferentes materiais e diferentes superfícies.

Quais são suas principais referências artísticas?

Me interesso muito pelo trabalho de artistas brasileiros relacionados ao neoconcretismo como Hélio Oiticica, particularmente no livro Aspiro ao Grande Labirinto; bem como Lygia Clark e Ligia Pape. Aloísio Carvão também é importante, pois de certa forma inaugura uma tradição da pintura no campo expandido. Os trabalhos de Luiz Henrique Schwanke, artista catarinense, também são importantes para a minha pesquisa. Jac Leirner tem um trabalho e um discurso muito claro sobre o que faz. Ela diz algo que resume boa parte do que me interessa sobre a importância de explorar as potencialidades plásticas do material. Paulo Pasta também me influencia. Gosto de pensar o modo como ele se utiliza da cor para falar sobre outras coisas. Os artistas do grupo Casa Sete têm influenciado o que estou pesquisando mais recentemente, o Paulo Monteiro com suas pinturas moles e o Rodrigo Andrade com o aspecto matérico da pintura. Sérgio Sister com as séries de trabalho Caixas de feira, Ripas e Pontaletes me ajuda a pensar o modo ele relaciona as cores sem tirar a potência de cada uma delas.

A canadense Jéssica Stockholder foi uma referência fundamental bem no começo. O modo como cada elemento era articulado no trabalho dela me ajudou a pensar de que forma eu poderia, por exemplo, suspender ou prender meus trabalhos de modo que o gancho, o prego, o parafuso ou a fita utilizados dialogassem e fossem coerentes com o trabalho. James Turrel, Olafour Eliasson e Carlos Cruz Diez me ensinam como pensar a cor-luz modificando os espaços.

Como os seus trabalhos têm início e como eles se desdobram?

A pesquisa inicia pelo material. Eu compro material a partir das características da sua superfície: transparência/opacidade; se tem brilho ou se é fosco; se tem elasticidade, se eu posso manipulá-lo ou se é rígido. É importante que esses materiais sejam novos, sem uso anterior. Pois dessa forma eles não possuem memória, nem minha nem de ninguém. Me dei conta disso quando comecei a ganhar alguns materiais e percebi que não conseguiria utilizá-los, pois havia informações de uso de quem havia me dado. Um amassado, uma parte mais gasta do que a houve, desbotado. Isso tudo é memória. E não quero isso. Quero partir do zero para tentar neutralizar qualquer dado pessoal daqueles materiais ou objetos. Então, experimento um material em relação ao outro, busco articulações entre eles, de modo que crie uma tensão entre as partes. E faço isso muitas vezes. Depois disso, analiso o que de fato parece interessante pra mim e o que posso descartar. Nesse processo vai muita coisa fora. Não consigo planejar ou pensar numa composição final. A composição é resultado das relações internas que surgiram dentro do trabalho. É uma consequência. E às vezes um erro pode ser uma nova possibilidade para o trabalho. Por isso é importante deixar o material se pronunciar. O que tem que prevalecer é a vontade do material. Eu faço um mínimo de interferência para que os materiais mantenham o máximo de potência.

(Entrevista publicada originalmente na revista Palímdromo, v.7, n.14, ago/dez 2015 - http://www.revistas.udesc.br/index.php/palindromo/article/view/6979 ) 

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