Aura paula scamparini perfil

Paula Scamparini

Araras/SP, 1980. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

Araras/SP, 1980. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

Trabalha com a ideia de paisagem como dispositivo, e o uso propositivo do conceito ecologia, o que permite observar/criar ecossistemas a partir de criação e/ou ativação de encontros, em diferentes contextos. 

Desde 2011 realiza projetos em diferentes cidades/países através de convites a participação em residências e/ou exposições.

Das exposições individuais destacam-se: Quase Galeria e Museu Nacional Soares dos Reis (Porto, PT, 2017) / GPL Contemporary Space IV  (Viena, 2015) / IBEU (RJ, 2015)/ GEDOK Munchen (Munique, 2014)/ Casa de Cultura da America Latina (DF,2014)

Das exposições  coletivas destacam-se: Galeria Athena Contemporânea (RJ,2017) / Galeria Blau Projects (SP, 2016) / Projeto A MESA (RJ, 2016)/ Carpe Diem Arte e Pesquisa (PT,2015) / Rathaus Galerie Munchen (AL-2015) / Kunstlerhaus Wien (AU,2014) / Fuorifestival (IT, 2015) / Bienal de Cerveira (PT, 2014) / Centro Municipal de Arte Helio Oiticica (RJ 2012)

Realizou residências em: Quase Galeria (Porto, PT, 2017) / Oficinas do Convento (PT, 2016) / Carpe Diem Arte e Pesquisa (PT, 2015) / GEDOK Munchen (AL, 2014) / La CourDieu (FR, 2012) / Bienal de Cerveira (PT, 2011).  

Possui obras nas coleções institucionais: Galeria IBEU-RJ / Biblioteca Mario de Andrade–RJ / Carpe Diem Arte e Pesquisa -PT / LaCourDieu–FR / Bienal de Cerveira-PT.

Ainda para 2018 prepara exposição em Viena, em cnjunto com a artista Sabine Groschup, para 2019 prepara individual no Rio de Janeiro (Oi Futuro Flamengo) e para 2020 individual para o Centro Atlântico de Arte Moderna, em Las Palmas de Gran Canária.

Graduada em Artes Visuais (Unicamp), Mestre e Doutora (UFRJ). Atualmente professora na Graduação da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora eventual na Escola de Artes Visuais EAV Parque Lage - RJ. Curadora associada à plataforma norte-americana baseada em Viena, VASA Project.



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Exposições individuais

2018 - barco sobre lona, Galeria Aura, São Paulo/SP.

2017 - Restauros, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto/Portugal.

2017 - Restorations, Quase Galeria, Porto/Portugal.

2015 - Mexeu com uma mexeu com todas, GPL Contemporary, Viena/Áustria.

2015 - 3amargem, Galeria IBEU, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Por entre o breu que as folhas formam, Galeria CAL, Brasília/GO.

2014 – Stationen, GEDOK Gallery, Munique/Alemanha.

 

Exposições coletivas selecionadas

2016 – Comensais#2, Projeto A MESA, Rio de Janeiro/RJ.

2016 - Formas de abandonar o corpo, Blau Projects, São Paulo/SP.

2016 - PÓ-s, Lavadores Oficinas do Convento, Montemor-o-novo/Portugal.

2016 - Indisciplinas, A fala (ação), Casa França Brasil, Rio de Janeiro/RJ.

2016 - Sarará (ação), Galeria Guaçuí, Juiz de Fora/MG.

2015 - Oca-Oxalá:made in Portugal, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa/Portugal.

2015 – Caleidoscópio, XXI FuoriFestival, Palazzo Mazzolari Mosca, Pesaro/Itália.

2015 - IDOL +, Rathausgalerie en Munchen, Munique/Alemanha.

2015 - Photo-Espana, Instantânea: Fotógrafos latino-americanos, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa/Portugal.

2015 - O que ouço é música, Espaço Pró-Música, Juiz de Fora/MG.

2015 - Múltiplos Carpe Diem, Palácio das Artes, Porto/Portugal   

2014 - IDOL+, Kunstlerhaus Wien, Viena/Áustria.

2014 - Itinerância Bienal de Cerveira, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa/Portugal.

2014 - Coleção Múltiplos Carpe Diem, itinerante, Londres (TrainStation), NY, Berlim e Bruxelas.

2013 - 17a Bienal de Cerveira, Pavilhão Central, Vila Nova de Cerveira/Portugal.

2013 - Lugares ações processos, Centro de Arte Helio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - M.O.S.C.A. ARTCOM 2ª edição, Biblioteca José de Alencar CLA UFRJ, Rio de Janeiro/RJ.

2012 - Pela Via Das Dúvidas, Centro de arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ

2012 - Novíssimos 2012, Galeria de Arte IBEU, Rio de Janeiro/RJ.

2012 - Circuito Miguel Bombarda, Galeria PorAmorAArte, Porto/Portugal.

2011 - 16ª Bienal de Cerveira, Vila Nova de Cerveira/Portugal.

2011 - Ação em 3 tempos: experiência de leitura coletiva (performance), Fórum sede 16ª Bienal de Cerveira, Vila Nova de Cerveira/Portugal.

2011 - Deslimites da Arte Contemporânea, Parque das Ruinas, Rio de Janeiro/RJ.

 

Salões e residências:

2016 - Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo, Portugal.

2015 - Residência Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa/Portugal.

2014 – Residência Gedok Gallery / Domagk Ateliers, Munique/Alemanha.

2012 – Residência LaCourDieu, La Roche-en-Brenil, França.

2011 – Residência na 16ª Bienal de Cerveira, Vila Nova de Cerveira/Portugal.

barco sobre lona

Fernanda Lopes, maio de 2018

 

O navio começando a afundar depois de ser bombardeado. A ventania, que dá ainda mais dramaticidade à cena, é tanta que um dos operadores de câmera tem dificuldade de segurar o equipamento. O caos da tragédia que até então mobilizava nossa atenção e nossas emoções sofrem um corte conforme o enquadramento da imagem vai se ampliando, ampliando a ponto de relevar sua estrutura. Vemos os andaimes, uma grua, equipamentos de luz e som, parte da grande equipe de filmagem, ventiladores e até o sistema mecânico desenvolvido especialmente para reproduzir o balanço do mar, feito de plástico, durante as gravações em um estúdio. De volta à cena, vemos dois dos sobreviventes: em um pequeno barco está Orlando e um rinoceronte. "Como pode um bicho desse tamanho dentro de uma embarcação tão pequena?".

Não é à toa que Paula Scamparini considera a cena final de E la nave va (1983) de Frederico Fellini como uma das mais fortes imagens da história do cinema. Desde o início da sua produção, há quase 15 anos, a artista vem apresentando e ressignificando seu interesse pela ideia de construção – que, no caso dela, implica obrigatoriamente em um processo que considera também as possibilidades de desconstrução e a reconstrução. Seus trabalhos, desde as primeiras fotografias até as práticas mais recentes de ações, parcerias e residências artísticas, são como desafios para olhar, ler, ouvir, perceber. Desafios colocados primeiramente para ela mesma e depois estendidos para o público e também para o sistema de arte.  A partir de deslocamentos – que podem ser sutis ou intensos, conceituais ou literais – a artista propõe para si e para o outro a possibilidade de reinvenção da percepção do mundo a partir do tensionamento entre realidade e ficção (ou encenação), natural e artificial.

Em Barco sobre lona as séries fotográficas realizadas entre 2014 e 2015 propõe a construção cênica como estratégia para colocar em dúvida a ideia que temos de realidade. Nos vemos ali, em frente ao que parecem ser registros fotográficos, ou seja, o congelamento de um instante que já passou,  mas não conseguimos ter certeza se o que estamos vendo é real ou ficção. Essas fotografias se interessam justamente pelo deslocamento e o desconforto desse espaço entre. Sua pesquisa mais recente renova e amplia seu olhar (e o nosso) para essas questões. Um colchão e pedaços de fantasias e adereços usados por escolas de samba, doados para a artista depois dos desfiles deste ano, são ao mesmo tempo material e personagem. Isopor, plumas e paetês, imprescindíveis para a materialização de reis, rainhas e mundos distantes, ou formas tão corriqueiras, agora nos chamam a atenção por sua dimensão desproporcional, deslocada, ilusória e fantasiosa, criando ruídos formais e conceituais no ambiente de uma galeria.

Paula Scamparini reforça nessa exposição o território da sua produção como o lugar da dúvida, e a dúvida como potência. Aqui, o que vemos são trabalhos que nos fazem pensar sobre construção da imagem, mas também a imagem como construção. A construção da história, e a história como construção. A construção da arte, e a arte como construção.

 

ship on canvas

Fernanda Lopes, may 2018

 

After the bombing the ship begins to sink. The gale, which adds further drama to the scene is such that one of the camera operators has difficulty holding the equipment. Our attention and emotions are in the grip of chaos and tragedy until the framing of the image begins to expand, expanding to the point of revealing the structure of the scene. We see the scaffolding, a crane, light and sound equipment, most of the film crew, ventilators and even the plastic mechanical system specially developed to create the movement of the sea during recordings in the studio. Back on the scene we see two of the shipwreck survivors: Orlando, in a small boat with a rhinoceros. "How can a creature of this size be in such a small vessel?"

It is no wonder Paula Scamparini considers the final scene of Frederico Fellini's And the ship sails on (1983) as one of the most powerful images in film history. Since the beginning of her production career almost 15 years ago, the artist has often presented and given new significance to her interest in the idea of ​​construction, a process that considers the possibilities of deconstruction and reconstruction at the same time. Her work, from her first photographs to her most recent practices, including actions, partnerships and artistic residencies, is a challenge to observe, read, listen and take notice.  A challenge firstly for herself which then extends to the public as well as to the art system. As a result of the displacements, which can be subtle or intense, conceptual or literal, the artist´s use of tension between reality and fiction (or staging), natural and artificial offers us the possibility of reinventing our perceptions of the world.

In the exhibition Ship on canvas, two photographic series (from 2014 and 2015) use a scenic uses a scenic construction as a strategy to create doubt about the ideas we have of reality. We see ourselves there, in front of what appears to be a photographic record, that is, the freezing of instances that have passed, but we cannot be sure whether what we are seeing is real or fiction. These photographs are interesting precisely because of the displacement and discomfort of the space. Her most recent research renews and amplifies her (and our) reading of these issues. A mattress together with pieces of fancy dress and props used by samba schools, donated to the artist at the end of this year's parades, are both material and character at the same time. Styrofoam, feathers and sequins, indispensable in the materialization of kings, queens and distant worlds as well as everyday ordinary forms, now draw attention to their disproportionate, displaced, illusory and fanciful dimensions, creating formal and conceptual noise in the gallery environment.

Ship on canvas reinforces the territory of Paula Scamparini's production as the place of doubt, and doubt as power. Here, what we see are works that make us think about the construction of the image, but also the image as construction.  Construction of history, and history as construction. Construction of art, and art as construction.

 

 

 

Restauros, retornos e recomeços – iconografia crítica em Paula Scamparini

Trecho de texto analítico, redigido acerca da exposição restauros, por Maria de Fátima Lambert, curadora das exposições.

 

[...] As imagens nos azulejos de Paula Scamparini procedem de várias fontes, como atrás se mencionou. Às ilustrações dos Manuais de História, usados ainda hoje nas Escolas brasileiras, acrescem as deturpações que proliferam nos meios de comunicação social, impressa ou audiovisual, redes sociais e webgráficas, assumindo contornos ingovernáveis. O exercício de direito de posse sobre as imagens transtorna quaisquer teorias e atuações anteriores à Internet. É o mito de posse, uma gula paradoxal, como referi em contextos de escrita análogos.

Por outro lado, os 3 + 1 vídeos que se mostram no Hall e na Sala da Quase Galeria, respetivamente Capitães do Mato, De repente, Rexisto e Reinação, todos de 2017. Os conteúdos videográficos remetem para depoimentos, intermediados ou diretos, realizados em contextos díspares e trabalhando cenários envolventes. As narrativas e relatos enredam-se entre o quotidiano real e histórico e as efabulações transpostas entre fronteiras, interseccionando mundos. Haverá que entrar nos sons, entendimentos e raciocínios acoplados às emoções, disponibilizando-se a entrar na pele do outro, não como estranho mas como amigo silencioso e ponderado, lembrando Maurice Blanchot (Pour l’Amitié, 1996).No Museu Nacional Soares dos Reis mostram-se três momentos da obra produzida por Paula Scamparini na sua residência artística no Porto. A sua lição de História, não procede de conhecimentos apreendidos numa viagem como estrangeira, lembrando por exemplo Maria Graham e os seus escritos em Viagem ao Brasil, nos inícios do séc. XIX e constatando as incongruências da sociedade brasileira de então.

1º momento: Sala onde reside a famosa pintura intitulada Mártir Cristão, do pintor Victoriano Braga, apresentam-se clichés onde se recolhem excertos de notícias escolhidas por Paula Scamparini, cumprindo o intuito declamatório sobre seus referentes. São matérias-primas de ideias e afirmações que servem propósitos estéticos e artísticos efetivamente interventivos.

2º momento: Sala de Marques de Oliveira onde a topo, Céfalo e Prócris dominam, vemos um tapete de azulejos remontados seguindo critérios categoriais, onde se destacam “figuras-problemáticas” (assim as denomina a artista), tais como: o Capitão do Mato, Amas-de-leite, Negras Livres, Carregadores, Indígenas, Missões Jesuítas – domínio cultural e religioso…

Trata-se se figurações desenvolvidas a partir de existências reais, com suas causas e consequências, num enredo aparentemente gerido entre o real e o imaginário, onde as doses de exotismo entram em rota de colisão com a lucidez desapaixonada do rigor ético da História em reapreciação e “descontaminação acrítica”, por assim dizer.

3º momento: Sala de bustos autoria de Francisco Franco, a artista brasileira expõem os livros, os Manuais de História abertos nas páginas, que exibem as ilustrações que transpôs para os Azulejos. Estão protegidos do tempo pela tampa de vidro que impede sejam folheados. As ilustrações estão congeladas nas suas páginas, impedidas duplamente perante o público que não as pode tocar. Como não se toca a história no seu amago, apenas se acredita estar a fazê-lo.

O tapete ou painel de azulejos é uma síntese, estendendo-se com espessuras, texturas e apagamentos que simulam, perante o olhar do visitante, uma topografia mobilizada, que oscila entre tempos e espaços, povoada de pessoas, todas elas, gerando movimentações intestinas na História e pela Arte.

 

 

 

oca oxalá: made in portugal

Texto curatorial de Lourenço Egreja, 2015

 

Paula Scamparini desenvolveu no Carpe Diem uma obra para a sala azul do Palácio Pombal. A obra em formato instalação consiste numa pesquisa centrada nos reflexos da colonização na sociedade contemporânea brasileira a partir de livros escolares actuais no Brasil. A obra tem dois momentos. O momento visual onde podemos observar as imagens retiradas dos livros sobre azulejos chacota e dispostas no espaço, agrupada em temas como navegações, escravidão, missões jesuítas, escravização, quotidiano colonial, mapas, retratos, resistência negra e indígena. Há ainda o momento sonoro, no qual um índio narra em 2015 a história de sua terra como seria contada às crianças. A parte sonora é acompanhada pelo texto de Clarisse Meireles que contextualiza a história contada.

Ainda, os livros escolares de onde foram retiradas as imagens estão disponíveis para consulta na biblioteca do Carpe Diem.

Complementam e atualizam a obra a revista Le Monde Diplomatique Brasil de agosto de 2015, que discute a questao de classes no Brasil atual, e o jornal Extra de 8 de julho de 2015, que expõe um episodio de violência pública nas ruas do Brasil.

 

oca oxalá: made in portugal

Por Clarisse Meirelles

 

“Minha pátria é a língua portuguesa”, afirmou Fernando Pessoa. A pátria de Carlos Doetyro Tukano, cuja voz ouvimos aqui, é, portanto, a língua Tukano – nome igualmente de sua etnia.

Provavelmente, esta língua-pátria terá sido escutada pela maior parte dos visitantes pela primeira vez. E talvez só não venha a ser a última graças a gravações como esta, que podem tornar imortais vozes, línguas e histórias.

Imortais sim. Vivas, não necessariamente. No Brasil existem pouco menos de um milhão de índios, pertencentes a 243 povos e falando 150 línguas diferentes. Hoje quase um terço desta população indígena vive em centros urbanos. E as cidades, como definiu o pesquisador José Ribamar Bessa Freire, são cemitérios de línguas indígenas.

É preciso lembrar que, para povos de tradição oral, sem sistema de escrita, a perda da língua equivale à perda da própria memória dos povos. A língua é a força que atravessa o tempo transmitindo o conjunto de crenças e valores de cada povo, de geração em geração, relatando mitos fundadores e atribuindo significados – e onde pouco importam datas precisas ou feitos individuais, como consta na História do “homem branco”.

Carlos conta que os Tukano são uma das 27 etnias que, há séculos, povoam a bacia do Alto Rio Negro, extremo noroeste do Brasil, no estado do Amazonas, quase fronteira com a Colômbia – a nação Tukano, aliás, foi cindida em duas com o estabelecimento das fronteiras: os do lado brasileiro são tukanos orientais, os colombianos, ocidentais.

A região, de difícil acesso, passa a interessar mais à colonização portuguesa a partir da primeira metade do século XVIII, quando os colonizadores começam a subir a floresta em busca de mão de obra escrava. O contato com o homem branco se acelera a partir do fim do século XIX, com a chegada de missionários franciscanos. Estes combatiam as atividades dos pajés (líderes espirituais), desrespeitavam e ridicularizavam as tradições. Como eram poucos, foram facilmente expulsos pelos índios.

Porém, a partir dos anos 1920, os Salesianos ali se estabeleceram e permaneceram por décadas, cumprindo uma espécie de missão jesuítica renovada, a quase meio século do “descobrimento” do Brasil pelos portugueses. Os salesianos atravessaram diferentes governos, que financiavam a construção de escolas, incentivando um ambicioso projeto “civilizador”. Missionários italianos, alemães, espanhóis e ucranianos rezavam missas em latim e desprezavam e reprimiam os costumes, o sistema de crenças e as línguas locais.

É em 1971 que Carlos Tukano vai para a escola dos Salesianos, no vilarejo de Pari-cachoeira. Tinha 11 anos. Aprendeu a ler e escrever a língua portuguesa. E descobriu o que era índio. “Nunca sairá da minha cabeça a imagem da Primeira missa no Brasil (tela de Victor Meirelles): os índios nas árvores e ao redor de Pedro Alvares Cabral e outros portugueses. Até então, eu não sabia que era índio. Era Tukano”.

Como todos os meninos e meninas, Carlos Tukano passou a usar roupas, aprendeu a ter vergonha de andar nu e a sentir culpa de participar dos rituais de seu povo: “coisa do diabo” – a quem foi, também, apresentado na escola.

Para além dos castigos físicos, o ambiente era de extrema violência simbólica. Como só era permitido falar português, as crianças recém-chegadas tinham que ficar caladas. A escola devia apagar aquelas línguas consideradas bárbaras. A cada volta para casa, nas férias, a comunicação se quebrava: as crianças não queriam mais falar a língua materna e os pais não entendiam o português. Carlos Tukano recorda achar estranhos os costumes dos pais: comer no chão, andar nu, não haver banheiro.

Em 1979, felizmente, a crise do petróleo estanca as verbas governamentais brasileiras, e os Salesianos começam a desativar os internatos. No ano seguinte, a Congregação é denunciada pelo crime de etnocídio no Tribunal Russell, reunido em Amsterdã. Hoje, as escolas em terras indígenas no Brasil são bilíngues.

Carlos Tukano, que vive no Rio de Janeiro desde 1997, é casado e pai de duas filhas, e é líder da Associação (política) Indígena Aldeia Maracanã, diz saber rezar uma missa em latim “di cuore”, e se ressente por pertencer à última geração que teve a intromissão da religiosidade e cultura branca após ainda alguns anos vivendo em isolamento na aldeia. Pode-se dizer que o que os portugueses nomearam índio seja hoje de um conceito ultrapassado, morto aos poucos pela cultura dominante. Hoje, parece-nos, culturas estas parece-nos, em plena fragilidade histórica.

 

 

 

3amargem

Texto curatorial de Fernanda Lopes, 2015

 

A instalação audiovisual 3amargem toma a Galeria IBEU - situada em meio à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, RJ, num segundo andar envidraçado - como ponto de partida. O visitante é convidado a se sentar em uma das 18 cadeiras emprestadas dos apartamentos de moradores dos apartamentos com janelas avistáveis desde a galeria, e dispostas em fila diante das mesmas janelas. Em paralelo são transmitidos via rádio livre – procedimento ilegal no Brasil, e cujo raio alcançou os limites do bairro de Copacabana - relatos de moradores locais, histórias de vida que expõem crenças, modos de vida, preconceitos e sonhos. Histórias privadas são postas a público, mas seus protagonistas são anônimos. Durante a abertura da exposição moradores colaboradores puderam inverter seu lugar ao também observar os visitantes da exposição desde suas janelas, ao ouvir em casa ao mesmo áudio que o visitante da galeria. Para além da galeria, pequenos rádios de pilha espalhados por alguns locais – bancas de jornal, charutaria, café e portarias, transmitiram, no curso da exposição, as histórias anônimas para aqueles que por ali passaram. Completam a exposição anotações de intervenções realizadas em apartamentos e negócios vizinhos, e relatos reais e ficcionais dos entrevistados em papel, produzidos durante os meses de trabalho in loco da artista.

 

 

 

série palavras

Texto curatorial de Fernanda Lopes, 2014

 

A série foto-instalativa Palavras (12 imagens) é realizada durante estadia em La Roche-en-Brenil, região central da França, num momento em que a crise econômica de 2012 atravessava e assustava a Europa.

La Roche, assim como muitas das vilas e pequenas cidades próximas a ela, é uma espécie de estação de veraneio para franceses, que deixam a cidade grande para um repouso em meio à natureza. É também morada fixa para poucos franceses que ali nasceram ou escolheram a vida simples do campo. Neste período casas em inúmeras vilas exibiam placas de vende-se, fixadas em paredes e portões sobre os quais o mato já avançava. A igreja, assim como as casas, permaneceu fechada por todo o período. O único negócio aberto constantemente era o café à beira da estrada, que atendia sobretudo caminhoneiros e viajantes.

As instalações de papel se dão a partir de anotações próprias, em português, e de falas dos poucos – e descrentes – habitantes locais com quem pude conversar neste período de pequenas viagens diárias de carro pela região. Formadas por fios de histórias, meus silêncios e suas falas se misturam aos cenários locais, numa espécie de busca por, ao popular cômodos, casas e caminhos, recriar a presença então vazia destes espaços que aguardavam serem habitados, talvez no próximo verão, talvez por novos visitantes ou moradores. Talvez estrangeiros falantes de outras línguas, como eu mesma.

Nas cidades ao redor, foi possível realizar instalações em um café, uma igreja, uma residência-museu antes pertencente a um escritor francês, além do jardim e das árvores do Castelo onde acontecia a residência.

Chegou um momento em que a fotografia já parecia não fazer tanto sentido para Paula Scamparini. Cor, luz, enquadramento. Estava tudo ali, mas ainda sim parecia faltar algo naquele meio com o qual trabalhava desde 2002, sete anos antes, quando ainda estudante de arte. Talvez algo que povoasse aqueles lugares por onde a artista passava e que estavam congelados em suas imagens. Revirando seus guardados procurando nas suas próprias coisas outros caminhos, encontrou seus escritos. Escritos que sempre a acompanharam como parte do processo de construção e o imaginário dos trabalhos, mas que nunca foram vistos pela artista como uma obra em si.

O ponto de partida podia ser qualquer coisa que chamasse sua atenção, e que ia se desdobrando a partir de suas observações e associações, criando a partir de uma “tempestade de palavras”, como gosta de chamar, uma escrita fabular. As paisagens fictícias criadas em trabalhos anteriores como Sequências de nus (2006), onde linhas acidentais, como fios de cabelo no azulejo do banheiro, formavam horizontes e paisagens imaginárias, encontravam naquele momento eco e reverberavam nas linhas, agora no papel, que formavam palavras e a partir delas novas linhas-horizontes, para a produção.

O primeiro exercício de colocar as palavras no mundo foram leituras coletivas, realizadas entre 2010 e 2011. Textos escritos quando Paula se mudou para o Rio de Janeiro fazer mestrado, em 2004, foram impressos em folhas de papel e depois recortados em tiras, coladas uma depois da outra, tirando a leitura da folha de papel e levando-a para pequenos rolos, também chamados de tripas ou linhas pela artista. A leitura implicava no desenrolar dessa estrutura e depois de um tempo, passando por várias mãos, sob vários olhares, aquela linha de palavras percorria quase toda sala, e já não era mais possível saber onde aquela escrita começava. Redesenhando o espaço, esse processo também redesenhava a escrita.

As palavras, até então veículos para o pensamento, ganham presença física. Ainda presas às folhas, as tiras criam novos espaços e territórios, levantadas em alturas diferentes deram origem a Montanhas (2011) e Margens (2011); e cruzadas, como uma costura, em O castelo dos destinos cruzados (2011). Já em formato de rolos, as Penélopes se apropriam dos espaços existente, penduradas em paredes ou janelas, desenroladas sobre a mesa, ou em forma de ações em espaços abertos ou fechados.

Dentro desse processo, as experiências em residências artísticas assumem um importante papel: tirar a obra e o pensamento do conforto do espaço conhecido do ateliê em direção a uma paisagem desconhecida. Foi durante a residência no Instituto La CourDieu, no interior da França, que o interesse pela fotografia, em suspensão desde 2009 e a partir daí se apresentando como registro das ações e objetos feitos pela artista, voltou a se manifestar. Naquela paisagem europeia, inusitada, isolada, silenciosa muito distante da realidade tropical, Paula encontrou o lugar ideal para suas instalações fotográficas. Ali, sua escrita deixou de ser objeto para ser personagem, e o espaço deixou de ser real para se apresentar como cenários, lugares narrativos, fabulares, onde acontecem histórias que não existem, inventadas pela artista. Todos os livros que li, Arcadia, Les bibelots, Le curieux cabinet d’histoires: de jules a ma chere georges e Il castello dei destini incrociati (todas de 2012) são algumas delas. Ali, nas tiras de papel desenroladas, estão todas as palavras da artista. Mas ainda aqui não é possível ler, só imaginar."

 

 

 

sobre carapuças e luz na obra de Paula Scamparini

Texto curatorial de Sonia Salcedo del Castillo, 2014

 

Egos misteriosos como águas sombrias, carentes de feixes. Ah! Vislumbro um jogo, quase brincadeira luminosa e clara, de mitológicos deuses mensageiros sedutores eternos, feitos Mercúrio ou Afrodite, quiçá de fabulares seres de chapéus e asas como gnomos ou fadas. Mágico esse olhar sobre a natureza em sua beleza jovial pulsante de desejos, sonhos, delírios insones infames de puros e totais prazeres... Sim: à fecunda maneira de Hera...

Palavra alguma seria capaz de falar daquelas cores-luz que lembram Peter Pan ou Sininho. [Sai jacaré tic-tac... aqui não há ponteiros... Somos espaços descompromissados do tempo quais pontos prontos à onda quântica, a grande senhora dos lugares...

Num lapso, há breu na sombra entre as folhas, há carapuças estranhas sinistras a espreita, o lago nos olha como espelho sem lua e ao farfalhar dos galhos o medo se esconde e pulsa...

Solitária visão, solitária palavra sem som, palavras, palavras... nem todos os livros que li saberiam dize-las... portanto há muito o que fazer ver... e, assim, muito por inventar...

Dai colo, recorto, suprimo, sugiro, resgato e até me aproprio...

... almejando um mergulho na natureza (aqui também, arte), sublimo o pequeno diante do grande! Posso deitar-me na relva e ter como abrigo a ursa maior, como quer Bachelard... Nenhum capricho nisso. Apenas vontade, desejo ou necessidade de dizer: mim

 

 

 

as 23 noites

Texto curatorial de Bernardo Mosqueira

 

A produção recente, pulsante, de Paula Scamparini caminha em paralelo à sua pesquisa teórica sobre a paisagem. Seu trabalho, aqui, faz parte da série “as 23 noites”, reverberação maior do período em que a artista viveu em residência em Portugal.

Lendo os recortes que formam o trabalho, percebe-se que configuram uma espécie de paisagem de gente, de momentos, impressões e reflexões. A estrutura formal fragmentada, fluida, frágil e tocante reflete a origem primeira e o processo deste trabalho. A folha de papel que é pele e é corda vocal é preenchida com desejo de outro e de elegibilidade. O quanto, em tudo que é linguagem, se perde no caminho? O maior interesse de Paula talvez seja o contato verdadeiro, as trocas intímas com o outro: como domínio e destino do trabalho, sendo estimulada e estimulando despertares.

 

 

 

do ilegível

Texto curatorial de Fernanda Lopes, 2012

 

Desde 2009 a produção de Paula Scamparini vem se estruturando a partir de investigações acerca da palavra tornada imagem. Inicialmente oferecidos em dispositivos para leitura, os escritos da artista aos poucos encontram lugar em ações no espaço, apresentando-se como peças-objetos, e com o tempo, adquirindo caráter escultórico em montagens no espaço. Do ilegível começa em 2012, durante a residência artística realizada no Instituto La CourDieu no interior da França. A partir do deslocamento físico a escrita de textos cria imagens fabulares a partir daquilo que é visto e vivido pela artista. Em seu processo de trabalho a escrita se redimensiona em peças em papel, editadas, impressas, e ordenadas de maneira a habitarem o espaço, em uma espécie de retorno à paisagem. Aqui, os locais de produção das escritas recebem a instalação de seus escritos, que vêm transformar efemeramente a paisagem mesma. Pela primeira vez, Paula reúne, em uma proposta expositiva, fotografias e escritos, que se articulam em novo dimen

2018 - Ninho, Fundação Vera Chaves Barcellos, Viamão/RS

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