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Aura michele martines

Michele Martines

Montenegro/RS, 1982. Vive e trabalha em Montenegro/RS.

Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria e Graduada em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Destacam-se em seu currículo as exposições individuais SituAção/Cor (2014), na Galeria Lemos de Sá, em Belo Horizonte, Ojalá (2013) realizada durante residência artística no projeto [R.A.T.], na Cidade do México e Ambiências na Parede (2011), realizada na Galeria da Fundarte, em Montenegro e no Paço Municipal, em Porto Alegre, com obras de sua pesquisa de mestrado em Artes Visuais (UFSM). Também realizou residência artística na França (2011). Recebeu os prêmios MMBH de Arte contemporânea (2013), II Concurso Itamaraty de Arte Contemporânea (2012), Salão Jovem Artista RBS - Santa Maria (2008), Incentivo à Criatividade CMPA (2006). Possui obras em coleções e acervos, como Museu de Artes do Rio Grande do Sul e Ministério das Relações Exteriores (DF).

Michele Martines geralmente trabalha com apropriação e manipulação de imagens preexistentes, combinando elementos de origens distintas em seu processo de instauração pictórica. A artista parte de questões de ordem social e antropológica, ligadas à cultura contemporânea, para desenvolver suas pinturas. Atualmente representa cenas do cotidiano urbano, construindo paisagens a partir de fotografias, pela inserção e subtração de elementos, refletindo conceitos de identidade, espaço e temporalidade. Também desenvolve a série “Abuso”, em que se apropria de imagens de modelos masculinos publicadas na internet, reapresentando-as em pinturas que são configuradas como peças publicitárias. Agrega um letreiro/anúncio à imagem fetiche associando esta a um produto e/ou ideia. O insólito olhar da pintora sobre o corpo masculino, finda por evocar questões de censura, pudor e mudança dos costumes na sociedade.

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2013 - Prêmio MMBH de Arte Contemporânea, Obra premiada: “Diz a carta, muda a estampa”, Belo Horizonte/BH.

2012 - II Concurso Itamaraty de Arte Contemporânea, Prêmio Aquisição: “Rito de passagem”, Brasília/DF.

2008 - 20º Salão Jovem Artista RBS TV, Regional Santa Maria: "Figuras picassianas em estados distintos", Porto Alegre/RS.

2008 - Salão de Artes Visuais SESI, 3º Prêmio: "Como você tem olhos grandes", Porto Alegre/RS.

2006 - 17º Salão de Artes Plásticas da CMPA, Incentivo à Criatividade: "Meu duplo observando minha pintura", Porto Alegre/RS.

Exposições individuais

2014 - Situação/Cor, Galeria Lemos de Sá, Belo Horizonte/MG.

2013 - Ojalá, aquí y allá, Sede Puerto Turin [R.A.T.], Cidade do México DF/México.

2012 - Do corpo para a casa, Fundação Casa das Artes, Bento Gonçalves/RS.

2011 - Ambiências na parede, Paço Municipal, Porto Alegre/RS.

2010 - Ambiências na parede, curadoria Marco de Araújo, FUNDARTE, Montenegro/RS.

2010 - (Re)vendo-nos, SESC, Gravataí/RS.

2009 - A coleção particular, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

2009 - Fantasias do cotidiano, Spazio di Arti AISM, Santa Maria/RS.

2007 - Reflexos híbridos, Museu de Arte de Montenegro,  Montenegro/RS.

2006 - Imagens imanentes, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

2006 - Essência e aparência, Galeria Clébio Sória – CMPA, Porto Alegre/RS.

 

Principais exposições coletivas

2015 - Fronteira (distâncias v), Casa de Cultura, Santana do Livramento/RS.

2014 - Útero, museu e domesticidade, curadoria de Ana Zavadil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2014 - A carta, curadoria de Renata Santini, Galeria da FUNDARTE e Museu de Arte de Montenegro/RS.

2014 - O cânone pobre, curadoria de Ana Zavadil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2013 - Heptagone, French Cultural Center, Boston/EUA.

2013 - Relatos, curadoria de Stephanie Hemarkes, Galeria V.M. Contreras de la UAEM, Cuernavaca, Morelos/México.

2012 - Novas aquisições, Palácio Itamaraty, Brasília/DF.

2011 - Reflejos y perspectivas en las artes plásticas, Museo Provincial Timóteo Navarro, San Miguel de Tucumán/Argentina.

2010 - Corpos em cena, curadoria de Nara Cristina dos Santos e Rosangela Cherem, Fundação Hassis, Florianópolis/SC.

2008 - Narrativas contemporâneas: imagens, lugares e hibridismos, curadoria de Ana Albani de Carvalho, Museu de Arte de Santa Maria, Santa Maria/RS.

2007 - Desafios da proprioceptividade, curadoria de Andrea Hofstaetter, Museu de Arte de Montenegro, Montenegro/RS.

2006 - 5FOR5, curadoria de Marco de Araujo, Galeria da Fundarte, Montenegro/RS.

2005 - 4º Bienal de Arte e Cultura da UNE, Pavilhão da Bienal, São Paulo/SP.

2004 - Distâncias III, Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre/RS.

 

Salões

2013 - Prêmio MMBH de Arte Contemporânea – Moldura Minuto, Belo Horizonte/MG.

2012 - 28º Salão Nacional de Artes Plásticas – Embu das Artes, Centro Cultural Mestre Assis do Embu, Embu das Artes/SP.

2012 - II Concurso Itamaraty de Arte Contemporânea, Palácio Itamaraty, Brasília/DF.

2010 - 19º Salão de Artes Plásticas da CMPA, Porto Alegre/RS.

2009 - Salão de Arte de Mato Grosso do Sul, curadoria de Sergio Duarte, Museu de Arte Contemporânea, Campo Grande/MS.

2008 - 20º Salão Jovem Artista RBS TV, Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre/RS.

2008 - 20º Salão Jovem Artista RBS TV, Regional Santa Maria, Porto Alegre/RS.

2008 - 18º Salão de Artes Plásticas da CMPA, Porto Alegre/RS.

2008 - Salão de Artes Visuais SESI, Fiergs, Porto Alegre/RS.

2007 – Salão 10 x 10, FUNDARTE, Montenegro/RS.

2006 - 19º Salão Jovem Artista RBS TV, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2006 - 17º Salão de Artes Plásticas da CMPA, Porto Alegre/RS.

 

Residências artísticas

2013 - [R.A.T.], Residências Artísticas por Intercâmbio, Cidade do México DF/México.

2011 - CAMAC, Centre d’Art Marnay Art Centre, Marnay-sur-Seine/França.

Provocações ao olhar

Andrea Hofstaetter

 

“A observação é o princípio de minha prática pictórica.” Acompanho o trabalho de Michele Martines já há alguns anos e atesto que a afirmação permanece verdadeira, no sentido de fundar o trabalho da artista. O conceito de observação pode ser entendido, aqui, tanto como ato realizado pelo olho que deseja ver, quanto como do pensamento que deseja conhecer e entender o que é feito, como é feito e porque é feito, relacionando-o com a história e a memória da prática artística e pictórica.

À observação seguem-se outros processos na elaboração das séries que se sucedem desde 2003: seleção, apropriação, associação de elementos díspares e articulação dos mesmos no plano pictórico, num fazer lentamente elaborado, nas camadas de tinta que vão se sobrepondo e, quiçá, juntando-se a outras matérias em alguns momentos. É perceptível que as decisões no processo poético vão sendo tomadas com base em aspectos do que foi observado e de acordo com um direcionamento dado previamente por um feixe de intenções – que exerce um papel disparador já na escolha daquilo que vai ser observado.

A fotografia é um meio que auxilia neste ato de ver, na medida em que atua na transformação em imagem daquilo que estará presente na pintura, anteriormente à sua transposição para o suporte pictórico. A escolha da fotografia como referente é intencional, no sentido de relacionar dados da realidade com o plano da representação, pois o que é dado pela imagem fotográfica já não é mais a coisa em si, senão uma imagem possível da coisa. Com a atuação sobre essa possibilidade de imagem surge ainda uma outra, engendrada pelo uso dos meios da pintura, que é de outra ordem, mais visceral. Aliam-se, no processo poético em questão, procedimentos de distintas naturezas: uma parte do fazer é mediada pelo uso da máquina fotográfica e de outros aparatos tecnológicos (como a projeção, por exemplo), e outra parte é construída pelo labor manual inerente às práticas do desenho e da pintura. Em ambas, se faz presente a subjetividade da artista, que escolhe o que e como fotografar e o que e como pintar, a partir das fotografias.

Observando a série Cenas urbanas, sabemos de antemão, pelos títulos, e por elementos constantes nas telas, que se tratam de vistas da paisagem urbana, frequentada e fotografada por alguém que esteve lá – pelos escritos da artista sabemos que ela mesma fotografa lugares que visita, com intenção de fazer suas pinturas. Poderemos até reconhecer alguns dos lugares, se os conhecermos. Mas não será o mesmo lugar que conhecemos. O tratamento dado à imagem produz um efeito de estranhamento. O modo de utilizar a cor, especialmente, produz uma outra visão do que é familiar. Cria-se uma visão particular da realidade, que não é mais aquilo que representa. Talvez seja mais da ordem do real, entendido como aquilo que subjaz ao olhar, como o que escapa, que é fluido e não se deixa fixar.

Poderíamos associar as sensações produzidas por esta série a algumas produzidas por pinturas de Edward Hopper ou de Giorgio De Chirico? Penso nos vazios que entremeiam as figuras, no corpo se deslocando pelo espaço arquitetônico, fugaz e absorto em elucubrações indecifráveis, projetando ou não suas sombras e desfilando seu anonimato. Mas, aqui, de maneira mais leve, matizada pela suavidade da paleta utilizada. Estas figuras contam alguma história? De quem é esta memória? Os “orelhões”, os postes de luz, as caixas de correio e outros apetrechos do cenário urbano estão lá, impondo-se à passagem dos corpos e à passagem de nosso olhar desejoso por ver. Nesta série somos confrontados com nosso desejo de ver os detalhes, as minúcias, de apreciar aquilo que o olhar atento da pintora nos ajuda a enxergar, através de seus filtros de luz, de cor, de foco...  Mas só enxergamos aquilo que nos é dado a ver pelas escolhas da artista. Talvez sejamos impedidos de ver o que mais nos interessaria, em função destas escolhas. Há um jogo aí, entre o que procuramos e o que encontramos para olhar. Queremos ver uma caixa de correio em primeiro plano, ao lado de um poste enferrujado e na frente de uma lixeira cor de laranja? Ou estes elementos barram nossa sede de olhar mais além? Para o quê?

De igual forma, na série Abuso, em que o que se põe em primeiro plano é o corpo masculino, há um jogo do olhar. Aqui, a figura do corpo sobressai, ocupando quase a totalidade da tela. Mas, em vários trabalhos da série, é uma figura que se mostra e se esconde, ao mesmo tempo. Quer-nos capturar, mas não se dá em sua inteireza. Mesmo quando o corpo se apresenta em sua inteireza, outros elementos, estranhos, impedem de o vermos na totalidade. Se a artista compõe uma espécie de catálogo, com idealizações contemporâneas da figura masculina, nos confunde ao associá-las a elementos publicitários de certos produtos comerciais – todos eles associados a algum dos sentidos do corpo, que atenderiam, pois, a outros desejos e a outras pulsões que não apenas ao olhar. A que apelos nos remetem estas imagens? Acresce que os letreiros remetem a embalagens de produtos estrangeiros, com design reconhecível em produtos de meados do século XX ou até anteriores.

Afora estas questões, que conexões se estabelecem com a realidade nesta proposição? As imagens têm um apelo realista, querem nos convencer a uma escolha, (partindo da ideia de catálogo, presente no trabalho, e incluindo a ideia de coleção, na medida em que nos oferece para ver aquilo que o olhar da artista selecionou e determinou configurar no rol do que escolheu para pintar), porém nos apresentam o produto de uma construção pessoal, minuciosamente composta a partir de outras imagens, de fotografias ou da internet. Estão, portanto, distantes de qualquer referente da realidade. São fantasia, ficção, verossimilhança. Não obstante, operam com elementos do desejo e, portanto, do real, como entendido pela teoria psicanalítica. Aproximam-se, de certa forma, dos ideais antigos de busca pela beleza ideal, atingível somente no plano das ideias.

Esta série surge de uma trajetória de produção em que a artista se projetou em figuras femininas, com referência na história da arte, e com alusões à intimidade de sua vida cotidiana, desembocando na inversão da tradicional relação pintor e modelo. Agora é a pintora que retrata a figura masculina, idealizada, objeto do desejo feminino. E o âmbito da intimidade pessoal se desdobra na intimidade do outro – alteridade – emoldurada pela figuração geométrica de azulejos de quartos de banho, correspondentes ao que pode ser entendido como um cenário privativo, que só se revela na medida em que deseja se revelar.

O trabalho de Michele Martines provoca a criação de um campo reflexivo, de reverberações entre elementos diversos, com a marca da ambiguidade, nos remetendo à ambiguidade presente em nós mesmos e nos proporcionando a criação de projeções pessoais, especulares e fantasmáticas. Oportuniza, também, o estabelecimento de relações entre produções contemporâneas e históricas no campo da pintura e de outras formas de representação, que põem em jogo o olhar.

(Andrea Hofstaetter é professora doutora do Departamento de Artes Visuais/IA/UFRGS. Texto de 2016.)

 

Revista Dasartes # 45 - Garimpo

Elisa Maia

 

“Tobias”, “Renato” e “Miguel” pertencem à série de pinturas intitulada “Abuso”, de Michele Martines. Cada uma das telas, batizada com um nome próprio, exibe uma figura masculina em uma situação que remete aos anúncios publicitários. Para compô-las, Michele parte de imagens fotográficas pesquisadas na internet, mesclando-as e manipulando-as de forma a alterar as legendas, as cores e padronagens de acordo com a proposta de cada trabalho. Com a referência em mãos, a artista parte para a pintura, meio que define como um “amor verdadeiro” -  “sempre senti prazer no fazer manual, em misturar cores, arrastar o pincel sobre a tela e vencer o desafio da imagem”, conta.

Ao pintar corpos de homens, Michele parece inverter a lógica da extensa iconografia na qual a mulher figura como objeto do olhar masculino. Desde as pinturas renascentistas até as campanhas publicitárias, que lançam mão de corpos atraentes como elementos centrais de persuasão, predominou uma relação na qual o homem participa como o sujeito que olha, enquanto a mulher, cuja imagem foi associada às noções de beleza, graça e suavidade, comparece como objeto deste olhar. A artista conta que a série Abuso foi então motivada por um questionamento - “por que a beleza física do corpo masculino ainda é tão pouco explorada na pintura?”

A linguagem publicitária explora a mercantilização do corpo para produzir uma excitação voyeurística. Em alguns casos, a imagem da mulher é equiparada ao próprio produto anunciado, ou pelo menos ao prazer ou à sensação proporcionados pelo seu consumo, como ocorre no caso emblemático dos anúncios de cerveja direcionados ao público masculino. Michele se apropria desta linguagem e parodia esta estratégia ao retratar o torso nu sexualmente atraente de um homem negro em um anúncio de chocolate, popularmente um fetiche feminino. Desta forma, sua série explora a capacidade de reificação das imagens, mas ao eleger corpos masculinos, desafia o repertório hegemônico - “Quero expor estes homens lado a lado, para que sejam admirados, comparados e escolhidos. Como se o espectador estivesse diante de um catálogo”, conta Michele.

(Texto publicado na revista Dasartes n.45 - http://bit.ly/1QueRJV)

> Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS

> [R.A.T.], Cidade do México DF/México.

> Ministério das Relações Exteriores, Brasília/DF.

> Fundação Casa das Artes, Bento Gonçalves/RS.

> Museu de Arte de Montenegro, Montenegro/RS.