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Aura mayra

Mayra Redin

Campinas/SP, 1982. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

É doutoranda em Artes pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro(UERJ), tendo concluído seu mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2009. Formou-se em Artes Visuais pela UFRGS, em 2011, e graduou-se no curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos(UNISINOS), em 2006. Em 2014, ao lado de Manoel Ricardo de Lima, foi selecionada para o Rumos Itaú Cultural, com o projeto de residência "Como rasurar a paisagem" e para o Rede da Funarte, com o projeto "Transição e queda: propostas para construção de meios", juntamente com os artistas Jonas Arrabal e Eduardo Montelli. Participou ainda das residências artísticas: CAMAC, na cidade de Marnay-sur-Seine, na França, em 2009; Prêmio Interações Florestais Terra Una, em Liberdade/MG, em 2010; Deslocamentos: vivência, arte e ambiente, em Olinda/PE, também, em 2010; Residência Artística do Festival do Atelier Livre de Porto Alegre, em 2011; e Programa de Autoresidência da Nuvem, RJ, em 2012. Em 2011, participou novamente do Interações Florestais Terra Una como artista convidada. Participa, regularmente, de exposições coletivas e individuais desde 2004. Publicou diversos textos relacionados à cultura, arte e educação além de ilustrar alguns livros também nestas áreas. Em sua trajetória artística, trabalha as questões relacionadas à imagem e à palavra pensando os limites entre o visível e o invisível.

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2014 - Projeto aprovado no Rumos Itaú Cultural 2013/2014, "Como Rasurar a Paisagem" (Residência Artística). 
2013 - Artista vencedora do 4º Prêmio Belvedere Paraty de Arte Contemporânea, com a obra "Rio".
2013 - Salão de Artes Visuais Novíssimos 2013, Galeria de Arte Ibeu, Rio de Janeiro/RJ. 
2010 - Prêmio Interações Florestais Residência Artística - Terra Una, MG, Brasil.

Formação acadêmica 
2012 - Doutoranda em Artes, Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)/RJ.

2011 - Graduação em Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS.

2009 - Mestrado em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS. 

2006 - Graduação em Psicologia, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Porto Alegre/RS. 

 

Exposições individuais 

2014 - Nada, porque é o começo da palavra esperança, Galeria de arte IBEU, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Observatório de Sereno, Central Galeria de Arte, São Paulo/SP.

2012  - Fio, junto a artista Ana Hupe, curadoria de Bernardo de Souza, Galeria Lunara, Porto Alegre/RS.

2011 - Por entre, Galeria Liana Brandão, São Leopoldo/RS.

2011 - Por entre, Galeria do quarto andar da Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas 

2014 - Livraria de artistas, curadoria de Constança Lucas e Jacqueline Aronis, Galeria Gravura Brasileira, São Paulo/SP. 

2014 - Exposição coletiva "Encontros carbônicos", curadoria de Marina Fraga e Pedro Urano, Largo das Artes, Rio de Janeiro/RJ. 

2014 - Exposição coletiva "Primeiro estudo: sobre amor", curadoria de Bernardo Mosqueira, Galeria Luciana Caravello, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Mostra Performatus, curadoria de Paulo da Mata e Tales Frey, Galeria Central, São Paulo/SP.

2013 - Novíssimos 2013, Galeria de Arte Ibeu, Rio de Janeiro/RJ. 

2013 - Double-Mouth, USF Verftet, Bergen/Noruega.

2013 - Artesul contemporâneo, SUBTE, Montevidéu/UR. 

2013 - Dupla-Boca, Galeria Cândido Portinari, Rio de Janeiro/RJ. 

2012 - Linha aparente, com curadoria de Raphael Fonseca, Galeria Sérgio Gonçalves, Rio de Janeiro/RJ. 

2012 - Feira Turnê Itinerante de arte impressa, organizada por Regina Melin, Maíra Dietrich e Fábio Morais, A bolha Editora, Fábrica da Behring, Rio de janeiro/RJ. 

2012 - Feira Turnê Itinerante de arte impressa, organizada por Regina Melin, Maíra Dietrich e Fábio Morais, Feira Tijuana da Galeria Vermelho, São Paulo/SP. 

2012 - Exposição Coletiva de lançamento da Galeria Virtual MUV Gallery, curadoria de Bernardo Mosqueira, www.muvgallery.com.br

2011 - Coletiva, Galeria ÍMPAR, São Paulo/SP. 

2011- Fazer um livro, CCMQ (prêmio IEAVI), Porto Alegre/RS. 

2011 - Gesto e regra, Fundação Ecarta, Porto Alegre/RS. 

2011 - Panorâmica, Galeria dos Arcos da Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS. 

2010 - Deslocamentos: vivência, arte e ambiente, Instituto de Arte Contemporânea (IAC), Recife/PE. 

2010 - Eu sou você, Hospital Psiquiátrico São Pedro, Porto Alegre/RS. 

2010 - Prospecta - Mostra de vídeos - FUNCARTE, Fundação Cultural Capitania das Artes, Natal/RN. 

2009 - Camac Open Studio, Centre d´art Marnay sur Seine art centre, Marnay-sur-Seine, França. 

2009 - CorpArtista, Galeria de mARte Bienal B, Porto Alegre/RS.

2004 - Vitrine, Espaço Ado Malagoli do Instituto de Artes da (UFRGS), Porto Alegre/RS. 

2003 - Porto Alegre em foco - Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS - Porto Alegre, RS, Brasil. 

 

Residências

2015 - Como Rasurar a Paisagem, Quixeramobim, no sertão do Ceará, e Tavares, no litoral do Rio Grande do Sul.

2013 - Programa de Autoresidência da Nuvem, Visconde de Mauá/ RJ. Projeto conjunto com o artista Bebeto Bahia Duarte, 28 de janeiro a 4 de fevereiro.

2012 - Programa de Autoresidência da Nuvem, Visconde de Mauá/RJ. http://nuvem.tk/wiki/index.php/Mayra_Martins_Redin 

2012 - Participou como Artista convidada da Residência promovida pela UFMG “Encomodo”, em Diamantina/MG. 

2011 - Artista convidada para participar da residência do Ateliê Livre de Porto Alegre junto às artistas Ana Flávia Baldisseroto e Cuca Medina, Festival de Arte do Ateliê Livre, Porto Alegre/RS.

2011 - Artista convidada para acompanhar o grupo de artistas selecionados no Prêmio Interações Florestais residência artística Terra Uma, Liberdade/MG. 

2010 - Participou e foi proponente da Residência Artística Deslocamentos: vivência, arte e ambiente,  REDE Nacional Artes Visuais FUNARTE, Olinda/Recife, PE. 

2010 - Participou da residência artística Terra UMA, Prêmio Interações Florestais, Liberdade/MG. 

2009 - Participou de residência artística, CAMAC (Centre d’Art Marnay-sur-Seine Art Centre), Marnay-sur-Seine, França. 

 

Salões

2010 - 2º Salão Municipal de Artes de São Leopoldo - Ginásio Municipal Celso Morbach, São Leopoldo, RS, Brasil. 

2005 - 19º Salão Jovem Artista RBS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) - Porto Alegre, RS, Brasil.

A soma das coisas, ou sobre o silêncio em Mayra Redin

Natália Quinderé

 

Mas como esperar salvar-nos naquilo que há de mais frágil?
Italo Calvino, Seis propostas para um novo milênio, p. 18.

Nada é suficiente. 
Daniel Maclvor, A primeira vista; in on it, p. 75.

1. Incêndio

Quando a biblioteca de seu pai pegou fogo, em 2010, escrituras e leituras de uma vida inteira desapareceram. Foi a bituca do cigarro de um dos assaltantes que provocou o incêndio, disseram os especialistas. Eles até tentaram apagar com uma mangueira, mas fugiram antes de serem apanhados. Deixaram para trás a gaiola e o som velho que gostariam de ter levado. O fogo já tinha subido aos céus, quando os vizinhos se deram conta. “No momento em que vi tudo destruído, quis fotografar”. Foi meio automático, diz Mayra,1 ao olhar a série de onze cartões-postais chamadaPenúltimas (2011).

Entre as fotografias de vistas gerais do incêndio, alternam-se registros de emaranhados de restos de livros e páginas soltas queimadas, de detalhes do caminho do fogo nas paredes e nos móveis de madeira. Cada cartão-postal isolado – chamado Penúltima – parece dissolver a gravidade do evento. A ruína da biblioteca do pai de Mayra possui uma beleza constrangedora. “Lembro que depois de um tempo olhei para essas imagens e achei tudo muito bonito, apesar de existir também uma dor enorme: nunca mais poderei entender como meu pai organizava sua biblioteca”.

Essa série de postais é um nó cego da produção de Mayra. Por um lado, o ano de Penúltimas marca tanto o fim das proposições e publicação em pequena tiragem, de Histórias de observatórios,2 como o começo de um conjunto de experiências visuais relacionadas ao papel da escuta, desenvolvidos inicialmente na residência artística Nuvem (2012) e expostos ano passado na Galeria Ibeu, no Rio de Janeiro.3 Por outro lado, Penúltimas parece ser uma espécie de ponto de inflexão de sua produção na medida em que aponta para características vitais de seus trabalhos de maneira singular: a importância do lugar, da literatura, do silêncio.

 

2. Prospecção sentimental

Para colher chuva no mar: 
tente boiar. 
O seu corpo é o papel.
(REDIN, 2013a, p.17)

Durante 2008 e 2011, Mayra desenvolve um conjunto de proposições, Histórias de observatórios, em que captura e observa por meio da montagem de superfícies distintas precipitações atmosféricas: a chuva, a neve, o sereno, a maresia. Na coleta da chuva, sua primeira proposição, Mayra ainda não sabia qual corpo ou corpos esse projeto teria. Foi apenas no Observatório de neve, proposto em uma residência na França, que o projeto de reunir um conjunto de observatórios distintos começou a ser desenhado.4 Embora não soubesse a direção que o trabalho tomaria na primeira coleta, Mayra escolheu registrar esse acontecimento por meio de sobreposições de fragmentos descritivos, pequenos poemas, imagens e sons. As superfícies transformaram-se de acordo com as coletas: para a chuva, o papel; para a neve e o sereno, o tule; para a maresia, a placa de vidro.

A criação dos observatórios e os registros múltiplos engendrados por Mayra são exercícios poéticos de desconstrução e reconstrução de coisas que percebemos apenas como um conjunto: a gota de chuva, o floco de neve, a gotícula de orvalho, a partícula d’água que se evapora do mar. Diferentemente do trabalho da artista carioca Brígida Baltar, que, entre 1994 e 2001, se propõe coletar em roupas especiais e com recipientes de vidros distintos, a neblina, o orvalho e a maresia (Projeto Umidades), os observatórios criados por Mayra não parecem travar um diálogo sobre a impossibilidade da ação. Eles são tão efêmeros quanto esses fenômenos naturais.

Daí a criação de exercícios poéticos de apreensão desses acontecimentos. Mayra torna visível o que nos parece invisível – “Ele (o sereno), ainda preso ao filó, logo mais vai se soltar e chegar à terra. Eu não vou ver este movimento.” (REDIN, 2013b, p.128). Seus escritos são anotações de um trabalho de campo sentimental. Eles narram as características dos observatórios, as aventuras das expedições em lugares distintos e, por vezes, longínquos, as condições do céu e da terra, suas sensações, com quem ela estava. O acontecimento toma forma, enfim, mediante a justaposição de imagens, de sons e de escritas. Nos trabalhos posteriores de Mayra, o lugar da palavra invade outras superfícies, ensaia novas formas de relação para além da escrita.

Em Nada (porque o começo da palavra é esperança) (2013), Mayra apropria-se da literatura, do livro como instrumento de criação. Apaga com tinta branca todos os “jotas” da narrativa Nadja de André Breton e ressignifica esta entidade ora mulher ora desejo, por meio do sentido de vazio, do Nada. Já em Você vê que o vermelho não tem mais,5 ainda de 2013, o uso da palavra e do livro reivindica a construção de uma memória ao mesmo tempo social e familiar. Imagens da versão espanhola de O Livro vermelho de Mao Tsé-Tung sem capa nem suas primeiras páginas (arrancadas, por seu pai, para escamotear a vigilância da época da ditadura brasileira) são misturadas a relatos pontuais do pai de Mayra sobre o livro.

 

3. À escuta

Embora seja possível circunscrever Mayra dentro de uma trama contemporânea de artistas visuais que trabalham com a palavra e são influenciados pela literatura, como as artistas Elida Tessler (sua ex-professora da graduação), Laura Erber e Rosana Ricalde, a meu ver, são nos exercícios em que a palavra torna-se rarefeita, por vezes, ausente, que essas influências agregam uma força poética incontornável para os trabalhos de Mayra. Em Penúltimas, por exemplo, o incêndio da biblioteca, a impossibilidade real de rever os livros, manuscritos de seu pai – professor universitário aposentado que parece sempre ter militado pela educação – transforma-se em possibilidade de escrita, de envio de notícias através de cada cartão-postal da série.

Seus últimos trabalhos, relacionados ao tema da escuta, localizam-se nesse uso da palavra sempre suspensa e ilegível, além de reverberarem na sua dupla formação: Mayra é artista e psicóloga. Em 2012, na residência artística Nuvem, desenvolve uma proposição sobre a escuta: “Procure encostar sua orelha na orelha de outra pessoa. A parte da frente do seu ombro esquerdo encontra a parte da frente do ombro esquerdo de outra pessoa [...]”.6 Dessa proposição, chamada A escuta da escuta, nascem desenhos de traços delicados (piano sobre piano, casa dentro de casa, porta da casa na frente da porta d’outra casa) e ainda objetos, como as duas conchas de “orelhas” coladas uma na outra: A surdez de quem ouve (cantos) (2013).

Nesse sentido, a influência da literatura, da escrita e da palavra, em Mayra, parece estar próxima do que Natália Brizuela (2014) define como “uma literatura fora de si”. Em seu pequenino livro, Depois da fotografia, Brizuela analisa a literatura contemporânea partindo da Escola Dinâmica de Escritores, fundada por Mario Bellatin, em 2000, na Cidade do México. Na escola para escritores, a única interdição é não escrever. No decorrer do livro, Brizuela tece considerações mais próximas da relação entre literatura e fotografia. No entanto, o que está em debate, ali, é a dissolução das fronteiras entre artes visuais e literatura, assim como uma tentativa de dissecar novas formas de narrativas, praticadas por artistas visuais.

 

4. Aposta-se

Ao sair da casa de Mayra, em um dia de domingo ensolarado, reli a primeira proposta de Calvino de sua série de cinco conferências, “Leveza”. Além de dissertar sobre uma série de escritores que escrevem sobre as coisas invisíveis e leves do mundo (a poeira, os átomos, os pássaros, o ar, Mercúrio, etc.), Calvino entrelaça como nas demais conferências a leveza a seu oposto, o peso.

Neste ponto devemos recordar que se a ideia de um mundo constituído de átomos sem peso nos impressiona é porque temos a experiência do peso das coisas; assim como não podemos admirar a leveza da linguagem se não soubermos admirar igualmente a linguagem dotada de peso. (CALVINO, 1990, p.27).

Penúltimas e a série A escuta da escuta alcançam esse lugar, desenhado por Calvino há trinta anos, onde leveza e peso encontram-se.

Mayra Redin foi a artista escolhida pela Arte ConTexto para ocupar a seção Aposta desta edição. O objetivo da seção é escrever sobre artistas cujos trabalhos estejam atrelados à temática de cada edição – nesse caso, a relação poética existente com os espaços que nos rodeiam. Assim, é interessante retomar a etimologia da palavra aposta no intuito de suprimir seu sentido expresso frequentemente na ideia de uma jovem artista em que se prevê um futuro promissor. Aposta, etimologicamente, significa “soma ou coisa que se põe em jogo”; “coisas postas”. No caso dos trabalhos de Mayra, o que está em jogo, o que é exposto, são somas de coisas do mundo que jamais podem ser totalizadas ou completamente agarradas.

1  Mayra Redin nasceu em 1982, em Campinas (São Paulo). Atualmente, mora no Rio de Janeiro e faz doutorado em Artes, na Universidade Estadual (UERJ). Em 2014, ao lado de Manoel Ricardo de Lima, foi selecionada para o Rumos Itaú Cultural, com o projeto de residência Como rasurar a paisagem. No mesmo ano, outro projeto em parceria com os artistas Jonas Arrabal e Eduardo Montelli é selecionado para o Rede da Funarte (Transição e queda: propostas para construção de meios).

2  Em meados de 2013, Mayra publica o conjunto de proposições completo, chamado Histórias de observatórios, pela Confraria do Vento.

3  A exposição Nada, porque é começo da palavra esperança, com curadoria de Bernardo Mosqueira, esteve montada de 16 de outubro a 7 de novembro de 2014.

4  Além da publicação do livro, o projeto dos observatórios está disponível no sítio eletrônico: . Acesso em: 23 mar. 2015.

5  Assistência do poeta e professor da UNIRIO, Manoel Ricardo de Lima.

6  Disponível em: goo.gl/uYm1ZA. Acesso em: 20 mar. 2015.

(Natália Quinderé é doutoranda em História e Crítica de Arte - PPGAV/EBA/UFRJ, estuda os museus de artista. Suas áreas de interesse são: articulações entre arte e técnica, história da arte e ficção, teoria da arte e análise de procedimentos artísticos, no decorrer do século 20 e 21. Desde janeiro de 2014, é coeditora executiva da revista Arte & Ensaios - PPGAV/EBA/UFRJ. Texto completo publicado na edição n.6 de mar. de 2015 da Arte ConTexto, disponível em: http://artcontexto.com.br/aposta-edicao06_natalia.html).

 

A inelutável “presença” do vazio: diálogos

Suianni Cordeiro Macedo

Quase dois meses e o vazio parecia que chegara para ficar e, com isso, a página em branco perdurava. Já acreditávamos que este artigo não seria possível. Como escrever sobre aquilo que está, também, para além dos limites vocabulares? Como falar de uma obra de arte sem domá-la através da palavra? O diálogo no vazio entre Mayra Martins Redin e Yves Klein ocupava a nossa página em branco.

Olhar o vazio, sentir o vazio, pensar o vazio. O vazio atravessa todas as coisas, pois é capaz de transportar em si todas as coisas. Mas o vazio, justamente por transpassar a existência das coisas, é presença. Traz à visualidade o que não pode ser visto de nenhum outro modo. Redin e Klein dialogam nesse espaço do possível, do variável e do mutável. A composição resulta num diálogo através do tempo, e que não respeita as condicionantes da física newtoniana do espaço/tempo. Nas camadas de tempos desiguais (os vazios de Yves Klein são do início da década de 1960 e os de Mayra Martins Redin, de 2009), o vazio se atualiza – apenas no sentido de se tornar novamente presença, pois é um tema atual que concerne à existência da própria arte bem como de todos nós.

Existe, portanto, duas formas de nos relacionarmos com o vazio, como aponta Georges Didi-Huberman: por um lado, preenchendo-o, o que nada mais é que refutá-lo, encobri-lo; por outro lado, podemos penetrar na sua consistência, na sua imaterialidade duvidosa, o que é, em certa medida, desvelá-lo [2]. É dessa última forma que o vazio habita a arte, e de dentro nos espia; logo, o que vemos também nos olha, para parafrasearmos Didi-Huberman. Convidamos, então, nossos leitores a adentrar esse denso vazio a partir do diálogo proposto pela obra de Redin.

Os trabalhos de Yves Klein da série Le vide, postos em conversação por Redin, assumem uma força consciente e consistente de revelar uma abertura. Uma abertura do possível num visível impossível: saltar no vazio ou entrar em uma parede branca são ações impossíveis apenas naquela forma do visível que se limita a reproduzir a aparente realidade [3]. Na arte de Klein, o espaço entre o chão e o corpo ou entre o corpo e o muro branco são infinitos. E igualmente infinitos são os sentidos que acontecem no plano da virtualidade.

Esse conjunto de trabalhos compõem o plano mais amplo das experiências do artista em torno das zonas imateriais de sensibilidade pictórica. Klein buscava alcançar algo que estivesse além da materialidade das obras de arte em si mesmas (incluso todos os valores financeiros a elas agregados). Pouco mais de um ano depois da série Le vide, Klein vendia parcelas dessas sensibilidades pictóricas, ou seja, vendia algo que não se pode vender; vendia zonas de sensibilidade pictórica como quem vende terrenos no céu. Mas o fazia para que se acordasse nos sujeitos a percepção de uma falta; uma falta estranhamente preenchível pelo vazio. O vazio que nos olha através da obra, mas não é, nem poderia ser, a própria obra. Ir a uma galeria e ver o vazio é esteticamente pleno.

Em seu diálogo, Redin retoma aquilo que existe de fundamental na arte, ao levar Klein para passear pelas praias de Nice. São outros vazios que aí se abrem. Na rochosa praia, no céu pálido do mediterrâneo, Klein caminha não mais ao encontro da fria parede de galeria.

No romance Ao Farol, Virginia Woolf descreve o desaparecimento de uma personagem através dos elementos que permanecem. Os objetos de sua antiga proprietária que “[…] largados pelos armários – um par de sapatos, um boné de caça, saias desbotadas e casacos – conservam a forma humana e deixam entrever no vazio como outrora estiveram ativos e plenos de vida; como outrora mãos ocuparam-se de colchetes e botões […]” [4]. A emoção origina-se em constatar o desaparecimento através daquilo que persiste em existir apesar do seu dono, apesar de seu desuso e de seu abandono. A falta não é, porém, de um corpo, mas sim da vida e de suas pulsões. Redin, ao transportar Yves Klein, não o homem, mas a sua arte, nos permite ver a forma de sua ausência; a ausência das questões plásticas e estéticas ainda tão atuais pautadas pelo artista. Essas ausências nos permitem rever o invisível que habita a obra, e pensar outros possíveis sentidos: vazios. Daí a posição de Didi-Huberman em relação a uma cisão no visível; ao acatarmos essa cisão, podemos seguir o conselho de Joyce citado por ele, que sugere fecharmos os olhos ao visível para encontrar outras experiências estéticas (imateriais, como desejava Klein). 


Notas
[1] JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antônio Houaiss. Lisboa: Difel, 2009, p. 32.
[2] DIDI-HUBERMAN, Georges. Ce que nous voyons, ce que nous regarde. Paris: Éditions de Minuit, 1992.
[3] Cito aqui duas obras em particular: “Le Saut dans le vide” e “La Salle du vide“. A série completa pode ser vista em: . Acessado em: 15/05/2014. 
[4] WOOLF, Virginia. Ao Farol. Porto Alegre: L&PM, 2013, p. 110

 

Anotações de superfície contra a ‘vida miserável’

Manoel Ricardo de Lima

 

A seção quinzenal ”Terceiro Caderno“, de Carlos Augusto Lima e Manoel Ricardo de Lima, é sempre publicada nos dias 10 e 25 de cada mês. O nome da coluna é retirado do heterônimo fabuloso de Pessoa, António Mora, que escreveu os “Cadernos de reconstrução pagã ou Cadernos de Reação Pagã ou Cadernos [quinzenais] de Cultura Superior”. O “Terceiro Caderno” pode ser atribuído também a Ricardo Reis. Ou seja, transparência e fingimento.

“O modo faz o percurso fora do percurso, margina-o
de um sabor estranho mas que dá à contemplação a
parte mais veloz do voo. Faço como tu.”
Maria Gabriela Llansol, O raio sobre o lápis

1.
O último livro de Italo Calvino foi Palomar. O nome é retirado de um observatório que tinha ali o maior telescópio do mundo e incorporado a um personagem que, diante da radicalidade para a observação do mínimo, descola completamente o seu corpo de qualquer vinculação à vida miserável. Esta é a forma de vida que aparece no desenho mais convincente dos que só conseguem apostar em seus próprios sintomas de repetição; por exemplo, nas doenças cegas do enfado burocrático ou das manutenções de poder reproduzidas pelos discursos simplórios de automatização. Palomar, às avessas, é aquele que pensa no mundo sem ele, que “procura imaginar o mundo antes dos olhos” e no mundo que “amanhã por uma catástrofe ou corrosão se torne cego”. Cega, a vida miserável se cumpre, inautêntica, no mundo da máscara; como no pequeno poema-instrução de Yoko Ono “Peça da Máscara”:

Faça uma máscara maior que sua cara.
Lustre a máscara todo dia.
Pela manhã, lave a máscara em vez
de lavar a cara.
Quando alguém quiser beijar você,
deixe que beije a máscara.

2.
Prosa do Observatório é título de um livro de Julio Cortazar para rasgar ao meio a vida miserável com seres e tempos que vêm de um litoral da terra: enguias, estrelas, estrias, mistérios, desmedidas etc: “Ainda não aprendemos a ter relações amorosas, a respirar o pólen da vida, a despojar a morte de seu traje de culpas e de dívidas; ainda há muitas guerras pela frente, Acteão, as presas tornarão a se cravar em tuas coxas, em teu sexo, em tua garganta; ainda não encontramos o ritmo da serpente negra, estamos na mera pele do mundo e do homem.”

3.
Histórias de Observatório é o título de um livro de Mayra Martins Redin recém publicado [Editora Confraria do Vento, 2014]. Mayra é uma artista visual que pende para o poema, uma poeta que pende para as artes visuais. Num desaprumo da linha, o confim, é uma artista que sugere e lança o seu trabalho numa imagem expandida da observação para o que não tem importância, para as pendências do que está fora da pele do homem mas que, ao mesmo tempo, rasa e imediatamente, se gruda e se mimetiza a ela. Quando a pele é própria e também inespecífica naquilo que, dos mais variados modos, imaginamos ser. Algo muito próximo, por exemplo, das experiências de Calvino com Palomar e das de Cortazar com os seres e tempos que toma como moduladores de nossa condição absolutamente precária. É aí que a contemplação é a parte mais veloz do voo. E diz ela: “O que não se vai, fica. / Escrevo porque resto / e observo o resto do que imprimo”. Depois, numa página, encontramos apenas a seguinte frase solta e firme: “observo o resto do que dilui”. E, mais adiante, em duas páginas, duas linhas que remetem a ideia da nota de rodapé, seguidas: “feitos que somos de superfície // escrevo porque resta”.

4.
Em 2011 essas histórias apareceram em 4 pequenos cadernos de notas, dentro de um mesmo envelope plástico, refazendo o percurso e o traço dessa coleta: observatórios de chuva, de neve, de sereno e de maresia. Reunidos agora num denso volume amarelo, um livro que oscila entre a impressão fixa e despossessão do impresso, a série de suas anotações assume um lugar de atlas dividido em 4 partes. É esta armadilha da série convulsa [que é composta com plena delicadeza] que insere o gesto e a potência das ações, as fotografias das ações e os textos nas páginas do livro.

5.
As anotações dessas histórias provocam um desvio e uma impertinência generosa com o pensamento: ela são quase-ensaios-informes. Assim, ler e ver [porque ler é ver, ver é ler] cada anotação em separado, OU nas fotografias OU nos textos que estão espalhados por todo o livro numa rememoração das ações, é retirar a tensão do que é o LIVRO como objeto de invenção em todo o trabalho de Mayra Redin. E, muito mais ainda, é retirar também o caráter de composição do quanto ela procura elaborar todo o seu trabalho num plano para e com o indistinto. Tocar essas Histórias de Observatório como espectador-leitor é aproximar o corpo através das peles contaminadas e contaminadoras – as páginas do livro e todos os nossos poros sem nome – de uma deliberação que vem do “sabor estranho”, ou seja, do “faço como tu”. Por isso imagino que o trabalho de Mayra Redin não é de captura [que é um desses verbos de precisão do estado moderno fundado a partir do que estabelece militarmente entre o medo e a sujeição], mas talvez o de propor um contágio, modos de percurso fora do percurso por onde esses breves elementos escolhidos [a chuva, a neve, o sereno, a maresia junto ao papel, ao filó, ao tule, ao vidro] podem ser percebidos nas fotografias E nos textos / nos textos E nas fotografias naquilo que são: anotação, transparência e passagem para UM OUTRO contra a vida miserável.