Retrato perfil opc  a  o 1

Matheus Chiaratti

Birigui/SP, 1988. Vive e trabalha em São Paulo/SP.

O trabalho de Matheus Chiaratti lida com diversos meios: pintura, tecido, fotografia e literatura. Seu processo artístico nasce de referências da história da arte e literatura que servem como indícios disparadores para a experimentação do material.

No final de 2018, participou da residência Palazzo Monti, na Itália, onde pesquisou a fundo a vida e a obra do poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), resultando na sua primeira individual no país, rivolvita, na Galerie 21, em Livorno. Foi premiado, ainda no mesmo ano, com o prêmio aquisição no 46° Salão Luiz Sacilotto. Em 2019, apresentou duas exposições individuais no Brasil, uma no Rio de Janeiro, na Quadra, e a segunda em São Paulo, em projeto do escritório de consultoria em arte, Kura, em parceria com a Pinga.

É um dos criadores do arte_passagem, um projeto independente que convida regularmente artistas emergentes para intervirem em uma vitrine comercial na rua 7 de abril, em pleno centro de São Paulo.



2018 - Prêmio Aquisição 46º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP

Exposições individuais ​

2019 - os coroados, Kura e Pinga, São Paulo/SP

2019 - Umbigo do Desejo, Quadra, Rio de Janeiro/RJ

2019 - Rivolvita, Galerie21, Livorno/IT

2018 - Hotel Esfinge, arte_passagem, São Paulo/SP

2014 - Para espantar fantasmas, Centro Cultural, Birigui/SP

2013 - Delta Libros, Buenos Aires/AR

 

Exposições coletivas

2019 - Pazzo Palazzo, Palazzo Monti, Brescia/IT

2019 - Galerie21, Livorno/IT

2019 - Desconhecido, Liberdade, Memorial Dom Lucas, São João del Rei/MG

2018 - O Maravilhamento das Coisas, Galeria Sancovsky, São Paulo/SP

2017 - O Caminho da Estrada Real, uma mostra a dois com Daniel DiFerdinando, Breu, São Paulo/SP

2016 - SIM, uma mostra a dois com Julia Brandão, PHD Galeria, São Paulo/SP

2015 - Me Encantaría Sentir Algo, PHD Galeria, São Paulo/SP

2015 - Uno, Convoi, Buenos Aires/AR

 

​Residências e Salões

2020 - Pivô, São Paulo/SP

2018 - Palazzo Monti, Brescia,/IT 

2018 - 46º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP

 

Formação

2007-2012 - Imagem e Som, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

2010 - Facultad de Diseño, Arquitectura y Urbanismo, Universidad de Buenos Aires (UBA)

 

Cursos e acompanhamentos em Arte

2019 - Acoplamento de Arte: Gisela Motta e Leonardo Beserra, SESC Vila Mariana, São Paulo/SP

2019 - Grupo de Estudos Rimbaud: Claudio Willer, arte_passagem, São Paulo/SP

2017-2018 - Escola Entrópica: Paulo Miyada e Pedro França, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo/SP

2016 e 2018 - Oficina Literária com Marcelino Freire, Centro Cultural b_arco, São Paulo/SP

2016 - Estudos curatoriais: Galciani Neves, José Augusto Ribeiro, Benjamin Seroussi, Associação Cultural Videobrasil, São Paulo/SP

2014 - Oficina de pintura: Paulo Pasta. Instituto Tomie Ohtake, São Paulo/SP

2013 - Oficina de pintura: Mariana Ferrari, Buenos Aires/AR

2013 - Oficina de fotografia: Guillermo Ueno, Buenos Aires/AR

 2012 - Workshop com Martin Parr, 8º Paraty em Foco, Paraty/RJ

Umbigo do Desejo

Julie Dumont, maio de 2019

 

Amores falidos, volúveis e frágeis, desejos expressivos e velados; memórias de corpos, momentos e viagens, do Brasil caipira, religioso, dos seus enfeites e procissões coexistem ao lado de referências da literatura, da história da arte e da arte contemporânea e se fundem no campo pictórico de Matheus Chiaratti. ​

Umbigo do Desejo, primeira exposição individual do artista no Brasil, traz na forma de construções subjetivas livres, vivências e lembranças tornadas imagens cifradas, reinventando, entre abstração e figuração, histórias dentro da história. ​

A articulação de elementos na forma de rebus evoca uma construção técnica, quase cinematográfica da imagem. A proposta possibilita a captura e a revelação de uma essência maior daquilo que o olhar consegue capturar, dialogando assim com os conceitos desenvolvidos por Walter Benjamin a respeito da fotografia e do cinema que talvez não à toa constituíram a formação e o foco do artista antes de se dedicar à pintura.

De forma paralela, a palavra permeia o corpus de obras: letras aparecem ou se esvaziam enquanto os títulos dos trabalhos sugerem e associam referências artísticas e pessoais, acrescentando pautas como afeto, sexualidade, tradição e natureza. A importância da palavra está ainda enfatizada por uma caixa de acrílico na qual quase 900 páginas de conversa de whatsapp entre dois amantes estabelecem um elo formal entre o objeto de arte e a escrita, abrindo a narrativa que de outro modo se esconde. As páginas da obra, simples impressões, podem ser manuseadas pelo espectador a revelar um momento de extrema intimidade. ​

Nos bordados, o embate entre as origens caipiras e a vida de Chiaratti numa metrópole como São Paulo se expressa. O próprio objeto evoca de fato a parafernália católica e contém ao mesmo tempo alusões a obras de artistas como Rivane Neuenschwander e Leonilson, ao caos do desejo e seus opostos.

Os desenhos esboçam os elementos desenvolvidos nas pinturas, onde misturam-se, num jogo de espelhos, as imagens que constituem o vocabulário pictórico de Matheus: barroco das igrejas, paisagens do interior Paulista, fragmentos de corpos e rostos familiares ou de figuras da literatura, estatuários remanescentes da Itália, águas azuis do desejo ou ainda ambientes evocando a frieza impessoal de lugares de encontros furtivos contrastados às cores quentes de uma África imaginária.

Na pintura de Matheus Chiaratti, as lembranças íntimas estão tratadas como segredos e, portanto, guardadas com cuidado. Assim como no percurso da obra do artista, a exposição está construída na forma de um diário e desvela num emaranhado de formas e símbolos a ambiguidade dos sentimentos e situações de mundos intrincados e afetivos. Nesta construção, a imagem e a linguagem se condensam e abrem, apesar do enredo formado, uma fenda onde o indizível aparece. Conversando com o sonho de Freud ou o desejo do Lacan, Umbigo do Desejo revela o fascínio do artista pelas origens das pulsões, do primitivo e do íntimo através da textura, da cor, dos padrões e dos vazios; zonas de invisibilidades ou chaves da narrativa escondida. 

 

 

 

Projeto Diálogo entre Arte e Moda | Pinga e Kura

​Thais Teotonio, julho de 2019

[...]

A eternização nostálgica da história da arte clássica retorna, aqui, em seu estado já digesto - a narrativa proposta por Chiaratti para a ocupação da Pinga existe enquanto um constante exercício de memória. Ícones de um imaginário comum tecem uma fábula recriada, um jogo de ressignificação se faz enquanto desdobramento de tal experiência. ​

Vasos de aparência gasta ganham pinturas de cores vibrantes; como adesivo, as figuras ora integram ora destoam da temporalidade remota da peça. Acompanhando o sutil confronto entre suporte e desenho, a plasticidade das formas se destaca no linho e a retratação de símbolos clássicos da cultura greco-romana visitam o contemporâneo partilhando o mesmo contraste temporal. Ao mesmo tempo, pequenos retratos refletem rostos pela loja facilmente conhecidos e desconhecidos, os personagens habitam em uma esfera ambígua, em um estopim para a formulação dessa mitologia pelo espectador. ​

Corpos estáticos, idealizados e petrificados compartilham um plano único composto por alegorias: a conexão com o universo têxtil se dá em um inconsciente de manequins, panejamentos, estampas e texturas que reaparecem dentro de um contexto límitrofe entre arte e moda. ​

Atravessando tal fronteira, Matheus Chiaratti adentra a Pinga em todas suas camadas, uma edição produzida com exclusividade inaugura a expansão de margens antes estabelecidas. Escaravleho / Scarab / Gab / Poente nasce do encontro entre a mitologia egípcia, o artista e a loja. A representação de uma das formas do Sol é dada através do deus Khepra, o escaravelho. Frequente na joalheria egípcia antiga, tal amuleto é associado à ideia de uma ressurreição e imortalidade, lapidado em amazonita a joia é acompanhada de um lenço amarelo e vermelho, representativo do sol poente, fazendo com que o conjunto carregue um ciclo em si mesmo. Com o mesmo material do lenço, sedas aparecem no ambiente em maior escala, arquitetonicamente os tecidos tingidos atravessam o espaço configurando novas áreas, novas paisagens expandem o universo desse conto para sua concretização no real. ​

Uma intervenção que nasce já intitulada pelo artista, os coroados são homenagens traçadas pela eternização de suas formas em um ato de solidificação, uma fábula necessária para exprimir e petrificar instantes entre o passado e presente, pessoal e coletivo. 

×