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Marco A. F.

Lajeado/RS, 1984. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS.

Marco A. F. é formado em Comunicação Social pela UNISINOS. Sua pesquisa em fotografia se concentra no estudo da paisagem e suas intersecções com memórias latentes no espaço geográfico. Em 2015, ganhou o VI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia na categoria "Tempo Movimento". Foi um dos ganhadores do XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia com o ensaio "Já não é mais verão", que resultou em sua primeira exposição individual, apresentada na Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre) e no Ateliê da Imagem (Rio de Janeiro). Com o mesmo ensaio, foi finalista do Prêmio Fundação Conrado Wessel de Arte 2013. Em parceria com o jornalista e crítico de arte Eduardo Veras, lançou em fevereiro de 2014 a publicação “Viagem pela linha invisível”, um relato sobre a fronteira do Brasil com a Argentina e o Uruguai.

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2015 - VI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.
2014 - Prêmio Fundação Conrado Wessel: Finalista.
2012 - XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.
2011 - Prêmio Blank Paper de Fotografia: Menção Honrosa - Espanha.

Exposições individuais

2015 - Viagem pela linha invisível, Festival Itinéraires des photographes voyageurs, Bordeaux/FR.

2014 - Já não é mais verão, Ateliê da Imagem, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Viagem pela linha invisível, Galeria Mascate, Porto Alegre/RS.

2013 - Já não é mais verão, Galeria Augusto Meyer, CCMQ, Porto Alegre/RS.

Exposições coletivas selecionadas

2015 - VI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, Casa das Onze Janelas, Belém/PA.

2015 - Fotolivros, uma edição atual, Sesc Vila Mariana, São Paulo/SP.

2014 - Polarizações - Região Sul, Atelier Subterrânea, Porto Alegre/RS.

2014 - V Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, Casa das Onze Janelas, Belém/PA.

2013 - Portfólio em foco, 9° Festival de Fotografia Paraty em Foco, Paraty/RJ.

2013 - Tanto Mar, K Galeria, Lisboa/Portugal.

2012 - Distâncias Ausentes, Madalena Centro de Estudos da Imagem, São Paulo/SP.

2012 - II Festival Expo Foto Costa Rica, Antigua Aduana, San José/Costa Rica.

2011 - Sociedade Anônima dos Artistas, Galeria Mascate, Porto Alegre/RS.

2011 - Projeção Perspectiva/Olhavê, 7° Festival de Fotografia Paraty em Foco, Paraty/RJ.

2011 - Panorâmica, Galeria dos Arcos, Porto Alegre/RS.

2009 - Africa em Nós, Museu Afro Brasil, São Paulo/SP.

2009 - Fotograma Livre, 3° FestFotoPoa, Porto Alegre/RS.

Viagem, refúgio, vestígio

Eduardo Veras

 

O final é um dos mais comoventes da história do cinema: o menino Antoine Doinel aproveita um momento de distração dos vigias, esgueira-se por debaixo da cerca e escapa do reformatório. Um longo travelling acompanha sua corrida pela estrada deserta. Quando o garoto finalmente chega à praia, a câmera o abandona por um instante para enquadrar o mar e percorrer a linha do horizonte. Pela faixa de areia, o jovem Doinel avança até a água. A onda lhe molha os pés, ele tenta apreender a paisagem ainda trôpego e sem fôlego, quando, em um movimento inesperado, seu rosto e a câmera se encontram. O enquadramento em preto e branco congela seu olhar. Em letras brancas, lê-se: “Fim”. 

Talvez as interpretações mais convincentes sejam aquelas que associem esse encontro – o menino, a praia, o espectador – com as possibilidades e impossibilidades que temos diante de nós quando nos sabemos à beira da vida adulta, ou quando nos percebemos sozinhos. O mar facilmente evoca uma série de substantivos pertinentes a esse quadro: a vastidão, o mistério, a fúria, a libertação. Leitura que não desmerece essa primeira sugere que o encontro com o mar sempre renova alguma esperança, ou pelo menos nos dá consciência do quanto é absurdo estar longe dele, o mar. Não por acaso, o protagonista de Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959) mora em Paris, distante da praia. Esse sentimento, o sentimento de querer encontrar o mar, de querer ver o mar, de ao menos molhar os pés, provavelmente é comum à maioria das pessoas que, no Ocidente ou no Oriente, vivem afastadas da costa. A praia nos convoca. É possível que compartilhemos uma pulsão primitiva de retorno ao oceano, onde tudo teria começado. Ou, quem sabe, seja só um desejo, histórica e lentamente construído, de experimentar o sol, a brisa, a água e o convívio com as boas almas que estiverem por lá.

Mesmo aqui, no Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, em um estado reconhecido pelo sem-sabor de sua orla, persiste a vontade de ir à praia: não importa que ela seja marrom, gelada, ventosa, sem coqueiros, sem palmeiras, sem belos acidentes geográficos. Mantém-se o gosto de simplesmente estar lá. Esse apetite, sabemos hoje, foi inventado por imigrantes europeus no último quarto de século dos anos 1800. Justamente na baixa temperatura das águas, alemães e italianos teriam notado as propriedades terapêuticas e curativas dos mergulhos, que já eram alardeadas nas praias mais frias da Europa, em especial as do Báltico.

Em uma minuciosa pesquisa sobre a chamada vilegiatura no Litoral Norte do estado, Joana Carolina Schossler observa que, em um período relativamente curto de tempo, o grande vazio – região inóspita, onde poucas famílias sobreviviam da pesca ou dos despojos dos naufrágios – se tornou o cenário dos veraneios. A temporada de praia, em um processo de distinção social, ganhou a dimensão de lazer burguês. A crescente industrialização e a urbanização do Rio Grande passaram a exigir que se vivesse nos centros civilizados e, ao mesmo tempo, que se almejasse gozar longe deles: “Do nervosismo da vida urbana, fazia parte a pretensão de sair do cotidiano eletrizante da cidade. Refúgios começaram a ser cada vez mais necessários […]”.

O advento das férias remuneradas na década de 1940 popularizou ainda mais a ambição de migrar, mesmo que provisoriamente, para o litoral. Ao longo da costa rio-grandense começaram a pipocar hotéis e associações de veranistas. Jornais e revistas fizeram campanhas de louvação aos ideais do turismo. Estradas e transportes se regularizaram. A praia consagrou-se, enfim, como lugar de novas sociabilidades: confluências, descobertas, romances. Geográfica e temporalmente, o veraneio fixou-se no nosso imaginário como um espaço e um tempo privilegiados.

Esse é apenas um dos pontos de vista desde onde se pode examinar o ensaio fotográfico Já não é mais verão. Como na cena final do filme de François Truffaut, ou como na tradição balneária do Rio Grande do Sul, as imagens construídas por  Marco A. F. estão atadas à utopia de respirar o ar praiano. Nas partes ou no todo, as fotografias evocam o anseio por aquela temporada e aquele lugar: o encontro, o reencontro, o refúgio. Na arqueologia do trabalho, porém, o que primeiro emerge é uma narrativa particular. 

Conta Marco A. F. que, menino, ele supunha que a casa da família, a casa de verdade, aquela que merecia ser chamada de “lar”, era a casa da praia. Eles seguidamente se mudavam de cidade e, portanto, de casa, mas a casa da praia permanecia a mesma. Foi lá que Marco passou, ao lado do pai, da mãe e dos irmãos, todos os veraneios da infância e da adolescência, desde o primeiro, antes mesmo de completar um ano. O pequeno apartamento de Tramandaí parecia, de fato, a sua casa; Tramandaí, a sua cidade. O resto do ano, acomodado ao ritmo da urbe, esse sim, é que tinha ares de passageiro, provisório: “Um interlúdio sem graça”.

O longo veraneio, de meados de dezembro às primeiras semanas de março, oferecia o que se podia querer: amizades, experiências, diversão. Ocorre que o tempo passa e tudo se transforma. Ano a ano, os verões foram se fazendo mais curtos – até quase desaparecerem. A casa de Tramandaí passou a ser assombrada por um passado que, a certa altura, nem estava mais lá.

Quando se dispôs a narrar essa história, Marco A. F. contava com diferentes possibilidades: reunir fotografias de infância, buscar imagens de arquivo, ou recriar algumas cenas. Escolheu fotografar no inverno. Não que esse litoral, escasso em belezas, se faça mais inspirador em dias fechados.

Certamente, a luz do inverno se mostra mais propícia para a fotografia. A baixa temporada, com ruas despovoadas e a beira da praia ainda mais erma, facilita os enquadramentos. A melancolia cara à estação favorece a reflexão e o pensamento criativo. Mas ainda, e mais uma vez, não se trata disso. O que calha, de fato, é que já não é mais verão – e não é mais verão de diferentes maneiras e por diferentes motivos.

A infância não está mais lá. Não é possível recompor sejam suas glórias ou seus descontentamentos. O próprio litoral já não é mais o mesmo. Os balneários se afiguram cada vez mais parecidos com as grandes cidades. Em alguns deles, a indústria da construção civil se expandiu de maneira ainda menos racional do que nas metrópoles. O arruamento encobriu cômoros. Casarios de madeira foram postos abaixo. Os condomínios fechados, com lagos artificiais e muralhas eletrificadas, reinventam as mais eficientes paranoias urbanas.    

Se já não é mais verão, talvez o inverno possa, se não restaurar o que foi, ao menos repetir a ilusão da espera.

Se os veraneios do século XXI cada vez mais se distanciam daqueles que acompanharam a conquista do “grande vazio” em carro de boi, os invernos mais recentes quem sabe ainda se afinam, ao menos um pouco, com os do passado.

A câmera de Marco A. F. registra os céus nublados, a longa faixa de areia, as ruas solitárias, as janelas fechadas, os objetos domésticos encobertos por lençóis e toalhas, os vestígios daquilo que ainda não foi totalmente carregado pelo vento e nem corroído pela maresia. Todos esses elementos posam solenes – hieráticos – diante do fotógrafo. Em lugar do pretenso glamour estival, o silêncio.

Tanto o formato quadrado, já clássico, do negativo 6X6, quanto a frontalidade das composições reafirmam a solenidade dos posicionamentos. São retratos, ainda que em nenhum deles se reconheça a figura humana (mesmo que ela se insinue, quase como vestígio, em cada uma dessas imagens).

Também o inverno, a condição de que já não é mais verão, se apresenta como vestígio. Imaginemosvestígio em um sentido que não é de todo estranho àquele proposto por Jean-Luc Nancy. Sugere o pensador francês que, cada vez mais, a arte é seu próprio vestígio, um vestígio que se abre para a própria arte, como uma “fumaça sem fogo”. O vestígio, na arte, seria como o resto de um passo, não como uma busca, mas como um passo que se coloca no rastro de outro passo:

”[…] o vestígio dá testemunho de um passo, de uma marcha, de uma dança ou de um salto, de uma sucessão, de um impulso, de uma recaída, de um ir-ou-vir, de um transire. Não é uma ruína, que é o resto sulcado de uma presença, é apenas um toque diretamente no solo.”

As fotos que Marco A. F. fez em Tramandaí não tratam de ruína, nem de escombro, nem mesmo daquilo que se entende por decadência, talvez nem mesmo por abandono. São, antes, a evocação de um desejo que não se realiza, a não ser como memória. Elas remetem, antes, a um tempo suspenso, à espera. A narrativa que elas engendram, como a própria história, segundo a sugestão de Nancy, não é feita de progresso, mas de passagem, sucessão, aparição, desaparecimento, acontecimento. Essas fotos funcionam como um intermezzo silencioso, alusão ao verão que já se foi e, com alguma esperança, aos que estiverem por vir.

 

Referências

NANCY, Jean-Luc. “O vestígio da arte”. In: HUCHET, Stéphane (org.). Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.

SCHOSSLER, Joana Carolina. As nossas praias: os primórdios da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul (1900-1950). Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2010.

(Eduardo Veras é professor Adjunto do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atua como crítico e historiador de arte. Texto disponível em: http://janaoemaisverao.tumblr.com/sobre)