Foto jacqueline lisboa

Luciana Paiva

Brasília/DF, 1982. Vive e trabalha em Brasília/DF.

Brasília/DF, 1982. Vive e trabalha em Brasília/DF.

Em sua produção, Luciana Paiva investiga as relações entre escrita e espaço a partir de mídias e materiais diversos, com principal interesse pelo uso dos elementos da escrita (livros, páginas e letras) como matéria. As obras da artista lidam com a visualidade e espacialização do texto, onde a leitura torna-se um evento a ser experimentado em diferentes escalas e situações. Também se interessa pela noção de justaposição, presente tanto na construção da linguagem quanto na configuração da paisagem urbana, partindo principalmente de sua paisagem local, a cidade de Brasília, para pensar nos desdobramentos das questões construtivas e no imaginário da utopia moderna.

Possui doutorado em Artes pela Universidade de Brasília com a tese: Frente-verso-vasto: por uma topografia da página (2018). Cursou o Programa Aprofundamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2011) e participou do Rumos de Artes Visuais 2011-2013. Recentemente, foi uma das artistas selecionadas para o 29º Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, realizando a exposição individual Cidade Partida, com acompanhamento crítico de Fabrícia Jordão. Dentre as principais coletivas que participou estão a mostra Triangular: arte deste século, novas aquisições para o acervo da CAL/UNB (2020); Estratégias do Feminino (2019); Rastros de Athos – 100 anos de Athos (2018) e O que vem com a aurora (2016). Foi indicada ao Prêmio Pipa em 2019 e 2011. Expõe regularmente desde 2004.



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2019 - II Salão Mestre D'Armas 2019 , 2º lugar, prêmio aquisição

2019 e 2011 - Indicação ao Prêmio Pipa 

2015 - Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, exposição coletiva À Vista, Paisagem em contorno

2014 - Premio Funarte de Arte Contemporânea 2014, curadoria da exposição DES tudo

2013 e 2011 - Rumos Artes Visuais, Itaú Cultural;

2008 e 2017 - Prêmio Atos Visuais, Funarte;

2005 - 14º Salão Anapolino de Arte, prêmio aquisição;

2005 - VIII Prêmio de Artes Visuais do Iate Clube de Brasília, prêmio revelação.

 

Exposições individuais

2019 - Cidade Partida, 2ª mostra da 29ª edição do Programa de exposições do Centro Cultural São Paulo, curadoria: Fabrícia Jordão. CCSP, São Paulo/SP.

2018 - Inverso, Galeria Alfinete, Brasília/DF

2015 - Entre o vértice e a margem, curadoria Marília Panitz, Galeria Alfinete, Brasília

2010 - All, Galeria Fayga Ostrower, Funarte, Brasília/DF

2010 - Criptografias, Galeria Subssolo, Espaço Piloto, UnB, Brasília/DF

2005 - Problemas de ótica e reflexão, Galeria de Bolso, CAL, Brasília/DF

 

Principais exposições coletivas

2020 - MUDA ocupação, curadoria: Ananda Giuliani, Isadora Dalle e Ludmila Alves, Casa de Cultura da América, Brasília –– DF

2019 - Estratégias do Feminino, curadoria: Fabrícia Jordão, Daniela Thomas, Helena Severo, Rita Faria, Farol Santander, Porto Alegre/RS

2019 - Triangular: arte deste século, aquisições recentes para o acervo da CAL/UNB, curadoria Ana Avelar e Gisele Lima, Casa Niemeyer, Brasília/DF

2019 - Linhas de força, superfícies em transe, curadoria Onice Moraes, Galeria Casa/Referência Galeria, Brasília/DF

2018 - Brasília Extemporânea, curadoria Ana Avelar, Casa Niemeyer, Brasília/DF

2018 - Arranjo, Central Galeria, São Paulo/SP

2018 - 100 anos de Athos, Rastros do Athos, curadoria Marília Panitz e André Severo, CCBB Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro

2017 - À vista: paisagem em contorno, curadoria Marília Panitz, Galeria Fayga Ostrower, Funarte, Brasília/DF

2016 - O que vem com a aurora, curadoria Bernardo Mosqueira, Casa Triângulo, São Paulo/SP

2016 - Acervo Contemporâneo, MAPA, curadoria Paulo Henrique Silva, Galeria Antonio Sibasolly, Anápolis/GO

2015 - Ondeandaaonda, curadoria: Wagner Barja, Galeria Alfinete/Museu Nacional, Brasília/DF

2014 - Pela superfície das páginas, curadoria: Júlio Martins, Espaço Cultural Marcantonio Vilaça TCU, Brasília/DF

2014 - Decifrações, curadoria Mario Gioia, Espaço Cultural ECCO, Brasília/DF

2014 - Duplo Olhar: um recorte da Coleção Sergio Carvalho, curadoria Denise Mattar, Paço das Artes, São Paulo/SP

2014 - Coisas vistas aqui e ali, sem óculos, curadoria Manoel Friques, Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro/RJ

2014 e 2013 - Circuito Triangulações, curadoria Alejandra Muñoz, Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (Brasíli/DF), MAMAM Recife/PE e Museu Carlos Costa Pinto (Salvador/BA).

2013 - Situações Narrativas, curadoria Marcus Lontra, Galeria Coleção de Arte, Rio de Janeiro/RJ

2013 e 2012 - Convite à viagem, curadoria Agnaldo Farias, Itaú Cultural (São Paulo/SP) e Paço Imperial (Rio de Janero/RJ) 

2012 - Intuição et Cetera, curadoria Paulo Myada, Matias Monteiro e Vânia Leal, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife/PE

2012 - (In)possíveis, Programa Aprofundamento 2011, Escola de Artes Visuais do Parque Lage EAV, Rio de Janeiro/RJ

2011 - [Des]equilíbrios e [im]perfeições, Galeria Coleção de Arte/Luciana Conde, curadoria Marcus Lontr, Rio de Janeiro/RJ

2010 - Aos ventos que virão... Brasília (1960 - 2010), curadoria Fernando Cocchiarale, Espaço Cultural ECCO

2009 - Prêmio Energias na Arte, curadoria Agnaldo Farias, Instituto Cultural Tomie Othake, São Paulo/SP

2007 - O círculo, curadoria: Wagner Barja, Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, Brasília/DF

2007 - E o parangolé, o que tem a ver com o museu?, curadoria Marília Panitz e Renata Azambuja, Galeria Parangolé, Espaço Cultural Renato Russo (508 sul), Brasília/DF

2005 - Mostra Situações Brasília - Mirações, curadoria Marília Panitz e Evandro Sales, centro Cultural Brasil Espanha, Brasília/DF

Sobre fracassos, falências e inversos

Fabrícia Jordão, 2019

[Exposição Cidade Partida, contemplada na 29ª edição do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo]

O conjunto selecionado por Luciana Paiva para compor a 2ª Mostra da Temporada de Exposição do CCSP nos oferece como que o centro nevrálgico da sua poética1. A recorrência dos procedimentos formais, bem como o caráter interconectado das séries aqui apresentadas, nos possibilita pensar esse conjunto como parte de um continuum poético-relacional. Somos conduzidos da palavra para a imagem, da abstração da forma para a forma da abstração, da desconstrução para a construção, da frente ao verso e deste ao reverso.

Para compreendermos melhor os procedimentos da artista, é importante escutá-la quando nos diz “tenho uma necessidade de síntese na utilização dos elementos que escolho porque acho que isso potencializa as escolhas. Neste sentido há um viés mais formal que conceitual, pois eles não partem exatamente de uma ideia, no máximo da ideia de eleger coisas.2". 

Impressiona a maneira como Luciana, em busca dessa síntese, potencializa o particular das “coisas que elege”. Em uma ambígua taxonomia do urbano, a artista transita do gesto iconoclasta que viola, fere, decompõe, desconstrói a unidade da página para o gesto amoroso de acomodar, juntar, justapor, sobrepor esses fragmentos em imagens construídas a partir da depuração estrutural e da destituição do valor indicial de fotografias que realiza, como é possível observar em a cidade, geometria do fracasso (2019).

Tanto o procedimento de “eleger coisas” quanto o devir desconstrutivo podem ser observados nas séries inverso (2018/2019) e o A partido e a linguagem falida (2019). No caso de inverso, após ser isolado, rotacionado e fragmentado, o caractere é acomodado em armações de madeira vazadas e passam a flutuar no ar. Já em o A partido e a linguagem falida, o salto de escala impressionante ressalta o aspecto escultórico das letras cuidadosamente “embaralhadas” tal qual uma colagem tridimensional. Nas duas séries, a artista ao desmantelar o desígnio “meio” da palavra, lhe extraindo o elemento estruturante, a letra, parece querer evidenciar o caráter ontologicamente imagético por trás de cada palavra, nos lembrando, assim como propõe o jovem Albert Camus em Esperança do mundo, que só se pensa por imagens.

O continuum poético-relacional que unifica as séries aqui expostas também agrega um caráter instalativo ao conjunto. Ao serem ativadas simultaneamente e de maneira interdependentes a cidade, geometria do fracasso; o A partido e a linguagem falida e inverso, parecem ecoar duas tradições caras à história da arte e da arquitetura brasileiras: a construtiva e a moderna. Não nos esqueçamos de que Luciana nasceu, vive e trabalha em Brasília, sendo, portanto, constantemente lembrada das perversidades, contradições e fracassos que sustentam, simbólica e concretamente, a ideia de Brasil permanentemente alimentado e atualizado por meio desses projetos. No entanto, como evidenciam os títulos escolhidos para nomear as séries e os procedimentos desconstrutivos da artista, aqui o eco dessas duas tradições longe de nos projetar em uma ideia de passado, que se funda em uma promessa nunca efetivada do Brasil como um “país do futuro”, parece nos interrogar acerca dos fracassos, das falências e dos inversos dessa utopia coletiva.

Conjunto constituído por: a cidade, geometria do fracasso (2019), série de colagens realizada com base em registros fotográficos da cidade de São Paulo; o A partido e a linguagem falida (2019), instalação com letras de metal; e a série inverso (2018/2019), caracteres de metal, rotacionados, enquadrados em armações de madeira e suspensos no espaço.

2 Entrevista concedida à REVISTA LUGARES, Fundação Iberê Camargo, 2011. Disponível aqui

 

O percurso da página (ou entre o vértice e a margem)

Marília Panitz, 2015

Os olhos percorrem as superfícies (brancas) impressas (em preto) em um ato quase automático (para nós, ocidentais, da esquerda para direita) quer compreendamos a língua (ou a linguagem) ou não… Não há o que fazer, já estamos sujeitados a isso (que bom). Este é o movimento das pupilas, pendular, ad infinitum.

E se o livro em questão nos oferece resistência (suas armadilhas)? Interrompemos, voltamos a ler, voltamos as páginas para rever o que já sabemos… ou, abandonamos a leitura… Essa angústia todo leitor conhece.

Mas, e se o obstáculo é físico (azul da cor das folhas de proteção daquela longínqua Letraset1)? Luciana Paiva nos provoca com seus tecidos dentro do livro. Desmesuras. Trançados horizontais que escapam das páginas, seguem seu caminho como frases sem palavras. Independentes da norma. Para lá da margem…

Há também uma parede de páginas - uma lembrança da arquitetura japonesa, com estrutura de madeira leve e recobrimento de papel: O branco abre parênteses sobre a pauta entre o vértice e a margem. Nas páginas que preenchem o espaço, janelas de frases (às vezes de parágrafos) por onde passa a luz. Entramos nas páginas. Pura materialidade… Entramos no interior da parede…pura sombra…

No mais, é deixar-se capturar pelas Armadilhas onde palavra vira letra. Presente mas impenetrável. Essa é uma marca do trabalho da artista: o suporte de sua poética é, recorrentemente, o livro. Mas não se trata de ler! O contato com o objeto-livro, aqui, é mais corpóreo.

A leitura é eventual, fragmentos que capturam nossa atenção, mas jamais decodificação. São livros de invenção. Requisitam do observador a adesão a colagem e a construção de sua própria narrativa. Como pontua o vídeo de animação na entrada da galeria: páginas ao vento… Boa leitura!

Letraset era o nome da companhia que produzia as famosas letras para decalque a seco, transferidas por pressão. Popularmente, o nome foi transferido para o decalque.

 

L(uciana)-and-escape

Ge Orthof, 2011

[Artigo para a Revista Lugares, Fundação Iberê Camargo] 

Não, nada de piqueniques! O enkanto das paisagens numa tela é que elas não têm cheiro, nem temperaturas, nem ruídos, nem mosquitos. Nada, enfim, do que acontece nas desconfortáveis paisagens reais. Quando estive no Rio, o P.M.C., meu colega, amigo e editor, se ofereceu para "uma tarde destas" me mostrar o Rio. Agradeci-lhe horrorizado: - Não, muito obrigado, Paulinho! Eu sou evoluído: o que mais me agrada no Rio são os túneis... Creio que ele suspirou de alivio. Pois, bem que ele devia saber, como poeta de verdade, que nunca se deve ser apresentado a uma paisagem. É uma situação embaraçosa. Nem ao menos se lhe pode dizer: "Muito prazer em conhecê-la, minha senhora!

Quintana, Mario. Paisagem. In Na Volta da Esquina. Porto Alegre: RBS/Editora Globo, 1979 p. 45

Que artista é essa que, em tempos de excessos, habita morada tão austera? Luciana Paiva não depura coisa ou pensamento. Luciana pousa em seco. Suas ações derivam de táticas de um pensamento em precisão. Momento vértice que pinça (cirurgicamente) uma imagem antes de seu escape. Aço Judd (Donald), lira Tuttle (Richard) e pegadas Long (Richard) constituem o prumo necessário para receber essa artista, cuja obra opõe-se ao imediatismo da fruição da arte pelo entretenimento.

Em sua série L-and-escape, criada especialmente para a Revista Lugares, Luciana revela linhas de escape de sua morada—essa paisagem do íntimo—e nos apresenta todo o potencial de sua ação: dobrar uma linha (ou pensamento) com o olhar. Mudança abrupta de direção e sentido, a ação de revelar o ângulo em “L” nos oferece, de uma só vez, a possibilidade de associar suas imagens com o seu nome, o nome da revista e o nome de sua obra. Somos induzidos a saborear LLL…ongamente a dobra em L…, LLL…uciana, LLL… ugares, LLL…-and-escape. LLL…inha vincada que trava a língua tagarela e voraz das falas em superfície. Em sentido contrário, Luciana amplifica a escuta do vinco latente—invisível e inaudível—nessa ligadura improvável entre um livro, uma casa e um museu. Mecanismo eficaz para promover um curto-circuito (centelha de diminuta distância) de associações possíveis para paisagens reveladas na quina da arquitetura do museu, da parede de sua casa, da página de seu livro (que não está, mas que posso ler, à maneira de Francis Ponge).

Qual o enkanto em degustar com a LLL…íngua do olho esse canto de parede? Espichar o tempo? Revelar o que antes não poderíamos ver—os tons de tinta, o descascado da trêmula linha—por falta de enquadramento? (à maneira de Wim Wenders). Que paisagem é essa que a artista nos aponta e que escapa à sua natural condição de panorama para dentro do túnel que Quintana gostava de olhar? Paisagem emoldurada, paisagem entubada, ralentada, still cinematográfico onde a câmera desliza v.a.g.a.r.o.s.a.m.e.n.t.e pelo quarto afastando nosso olhar do crime (ou dos amantes) para nos lançar em um off-road invertido. Paisagem dobrada para dentro, que percebemos pelo canto dos olhos, pela esquina da visão. Luciana nos espanta com a concretude enxuta de seu dispositivo de captura arquitetônica: sofisticada e paradoxal costura entre o desamparo e o aconchego de sua paisagem escapada; não há sobras, o que enfrentamos, são dobras em densidades de ver. 

Fundação Vera Chaves Barcellos (RS)

Centro Cultural São Paulo (SP)

Casa de Cultura da América Latina- CAL/UnB (DF)

Secretaria de Cultura do Distrito Federal / Museu Nacional de Brasília (DF) 

Secretaria de Cultura de Anápolis/Galeria Antonio Sibasolly (GO)

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