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Lilian atelier

Lilian Maus

Salvador/BA, 1983. Vive e trabalha em Osório/RS, Porto Alegre/RS e Recife/PE.

Formada em Artes Visuais - Bacharelado e Licenciatura, no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestre em História, Teoria e Crítica de Arte e Doutora em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais dos Instituto de Artes da UFRGS. Artista, pesquisadora e gestora cultural. Sua última exposição individual foi "Expedição pela Paragem das Conchas" (Espaço Cultural UFCSPA, Porto Alegre), Projeto de tese doutoral. Ao longo da carreira expôs em Santiago/Chile (Galería Metropolitana, 2016); Buenos Aires (Studio 488 e Pasto, Curadoria Santiago Rueda, 2014); Oslo/Noruega (The Stenersen Museum, 2013),  Punta del Este/Uruguai (Centro Cultural Kavlin, 2013), Barranquilla/Colômbia (La Usurpadora, em 2012 e 2013); Bogotá (El Parche Artist Residency, 2012), Rochester, NY/Estados Unidos (High Falls Art Gallery, 2009) e Brasil. Seu último livro publicado intitula-se "A palavra está com elas" (2014). É professora e conferencista. Esteve à frente do espaço independente de arte Atelier Subterrânea (2006-2015), em Porto Alegre/RS.  Site: www.lilianmaus.art.br. Portfólio: www.flickr.com/lilianmaus

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Visita ao ateliê de Lilian Maus - Catálogo de Marcos Ribeiro

2016 - Indicação na categoria "Melhor exposição individual", pela mostra "Expedição pela paragem das conchas", X Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS. 

2015 - Indicada na categoria "Destaque em Textos, Catálogos e Livros Publicados", pelo livro "A palavra está com elas: diálogos sobre a inserção da mulher nas artes visuais", IX Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS.

2013 - Prêmio Mulheres nas Artes Visuais, Funarte Artes Visuais, MinC.

2012 - Prêmio Rede Nacional Funarte Artes Visuais (9ª edição), pelo Atelier Subterrânea, Funarte Artes Visuais/MinC/Petrobrás.

2012 - Finalista no prêmio Economia Criativa/MinC, Ministério da Cultura.

2011 - Prêmio Açorianos Destaque "Espaço Institucional", pelo trabalho realizado pelo Atelier Subterrânea em 2010, Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre - Setor de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS.

2011 - Prêmio Rede Nacional Funarte Artes Visuais - 8ª edição, Funarte - Artes Visuais e Ministério da Cultura.

2010 - Prêmio Conexão Artes Visuais 2010 - Funarte/MinC/Petrobrás, pelo Atelier Subterrânea, Funarte Artes Visuais/MinC/Petrobrás.

2009 - Prêmio Açorianos na Categoria Destaque em Projeto Alternativo de Artes Plásticas (2008) para o Atelier Subterrânea, Secretaria da Cultura - Prefeitura de Porto Alegre/RS.

2005 - Láurea Acadêmica, UFRGS, Porto Alegre/RS.

Exposições individuais

2017 - Soçobro, texto de Mário Fontanive, Paço dos Açorianos, Porto Alegre/RS.

2016 - Expedição pela Paragem das Conchas, curadoria da Bruna Fetter, UFCSPA, Porto Alegre/RS.

2016 - O jardim sensível, Galeria Pop-up Aura, Porto Alegre/RS.

2015 - Área de cultivo, Projeto Aura, Galeria Temporária Jubiá, Porto Alegre/RS.

2015 - No útero da linguagem, Projeto adidas Originals Superstar, parceria com a estilista Helen Rödel, curadoria de Lucas Ribeiro (Pexão), Complex Skatepark, Porto Alegre/RS.

2014 - Landscape ou anotações sobre o que escapa, Centro Cultural Benfica/ IAC - UFPE, Recife/PE,

2012 - Onde o desenho germina, Espaço Cultural ESPM, Porto Alegre/RS.

2011 - Área de cultivo, Galeria “A Sala” - IAD, Pelotas/RS.

2010 - Tramas diárias, Museu do Trabalho, Porto Alegre/RS.

2007 - Nas entrelinhas do diário, Studio Clio, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas selecionadas

2017 - Aura na SP-Arte, stand SC16, Pavilhão da Bienal, São Paulo/SP.

2017 - Scénario, curadoria Mario Gioia, Galeria Aura, São Paulo/SP.

2017 - Alinhando desorientando: desenhos no MACRS 25 anos, MACRS, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2014 - Da matéria sensível, curadoria Bruna Fetter, MACRS, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2014 - Visão de emergência, curadoria Marcelo Campos, na Galeria Colecionador, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Polarizações região sul, Atelier Subterrânea e Prisma, Porto Alegre/RS.

2014 - Como refazer o mundo, curadoria de Divino Sobral, Galeria Luiz Landeiro, Salvador/BA.

2014 - Fiftyfifty (50/50) … la chimba!, curadoria de Santiago Rueda, STUDIO 488 e PASTO, Buenos Aires/AR.

2014 - Artistas do Atelier Subterrânea, org. Hugo Rodrigues, centro Ordovás, Caxias do Sul/RS.

2014 - Viveiros, org. Marilice Corona e Flávio Gonçalves, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre/RS.

2013 - As tramas do tempo na arte contemporânea: Estética ou Poética?, curadoria de Daniela Bousso, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto/SP.

2013 - Antes y Después – aniversário de La Usurpadora, curadoria Maria Izabel Rueda, Espaço Independente La Usurpadora, Puerto Colombia/Colômbia.

2013 - Exibição de vídeo na mostra “Colomborama”, curadoria Marius Wang e Olga Robayo, The Stenersen Museum, Oslo/Noruega.

2013 - A Imagem da Palavra, org. IEAVI, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2013 - “ENTRE”, curadoria Ana Zavadill, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2012 - Las chicas solo quieren divertirse, curadoria María Isabel Rueda, La Usurpadora, em Barranquilla/Colômbia.

2012 - Exposição Novas Aquisições – Pinacoteca Aldo Locatelli, no Paço dos Açorianos, Porto Alegre/RS.

2012 - Instâncias do Desenho - Atelier Subterrânea, Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ e Galeria Logo, São Paulo/SP.

2012 - A imagem da Palavra, org. IEAVI, Espaço SUBT, Montevidéu/UR.

2012 - Abre Alas - A Gentil Carioca, Centro Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ

2011 - Água Viva, curadoria de Marcelo Campos, Galeria Amarelonegro, Rio de Janeiro/RJ.

2009 - Oi Expressões, curadoria de Marcello Dantas, Parque Redenção, Porto Alegre/RS.

2009 - Small Show, High Falls Art Gallery, Rochester/NY/USA.

2009 - Nós na Fita, Galeria FitaTape - Complexo Master, Porto Alegre/RS.

 

Salões e residências:

2017 - Residência na Worm Gallery, Valparaíso/Chile.

2015/2016 - Residência no Caribe Colombiano: El Parche Artist Residency, Palomino/Colômbia.

2015 - 21º Salão Anapolino de Arte, curadoria Paulo Henrique Silva, MAPA, Anápolis/GO.

2012 - Residência móvel “Free-way”, realizada em parceria com Rodrigo John, deslocamentos no Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte (Prêmio Rede Nacional Funarte Artes Visuais), parceria com espaços independentes Alpendre, Fortaleza/CE, e Casa da Ribeira, Natal/RN.

2012 - Residência na Colômbia (Seleção Intercâmbios e Difusão Cultural – MinC), parceria com os espaços artísticos independentes El Parche Artist Residency (Bogotá), Taller 7 (Medellín) e La Usurpadora (Puerto Colombia).

2011 - Salão de Abril, Fortaleza/CE.

2011 - Residência internacional para Artistas/gestores latino-americanos, realizada pelo Capacete Entretenimentos (Prêmio Rede Nacional Funarte Artes Visuais), nas cidades de São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ e Belo Horizonte/MG.

2008 - Salão do Jovem Artista, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

 

Publicações:

2015 - Co-organização “Subterrânea: Notas Entrópicas” (org. Isabel Waquil), Ed. Pubblicato, Porto Alegre/RS.

2014 - Organização e introdução de “A Palavra está com elas/The ladies have the floor”, entrevistas de Isabel Waquil, Ed. Panorama Crítico, Porto Alegre/RS.

2013 - Organização e coautoria de introdução de “VETOR: Subterrânea como plataforma de residências artísticas”, entrevistas de Isabel Waquil, Ed. Panorama Crítico, Porto Alegre/RS.

2012 - Organização e introdução de “Onde o desenho germina”, Ed. Panorama Crítico, Porto Alegre/RS.

2010 - Organização e introdução de “Atelier Subterrânea”, Ed. Panorama Crítico, Porto Alegre/RS.

2010 - Concedeu entrevistas e publicou textos em: “Espaços Independentes”, Ed. Atelier 397, São Paulo/SP; “Coletivos”, Felipe Scovino, Renato Rezende, Ed. Circuitos, Rio de Janeiro/RJ.

Viagem ao interior

Mário Furtado Fontanive

 

Quando a Lilian iniciou o doutorado, ela resolveu que iria para Osório, seria mais correto dizer que ela resolveu voltar para Osório, cidade onde passou parte da infância. Quis se afastar dos ruídos da cidade, de todos os ruídos, desde os físicos até os simbólicos. Buscava um silêncio, silêncio ou solidão são retiros onde talvez possamos ter uma medida melhor de nossas buscas. No silêncio ouvimos sons que normalmente estão escondidos sob camadas de outros sons, fazemos silêncio para escutar murmúrios, perceber discretos índices normalmente inescrutáveis. O silêncio é talvez um espelho onde podemos mergulhar mais atentos. Como disse o poeta, todo estado da alma é uma paisagem, tudo contém muito se os olhos bem olharem. Os silêncios, os vazios têm potências e o artista pode tornar político o que está escondido, abafado pelo barulho cotidiano.

Em Osório a Lilian teve o encontro com este silêncio próprio da paisagem interior, mas, além disto, encontrou o silêncio de outras paisagens, daquela da infância, da geografia, da natureza e da história. No início desse retorno, ela trabalhou no atelier, mas logo teve o interesse despertado pelo lugar. O artista precisa manter uma certa distância do objeto de sua atenção, não é interessante que sufoque o que está diante dele com concepções preestabelecidas. Deve deixar o objeto falar e, assim, o ambiente foi apresentando várias vozes para ela, ou é possível afirmar: várias vozes desveladas por ela. A arte produzida se mostrou sob muitas faces.

Uma paisagem pode ser traduzida como a história do desenvolvimento das atenções e das ações de cada um em determinado lugar. É fruto de um aprendizado, e esse aprendizado está vinculado às relações com o lugar e com o tempo. Podemos dizer também que a formação da atenção e da consequente construção das paisagens por nós percebidas está vinculada à memória das nossas ações nos lugares. A Lilian estabeleceu um encontro das ações dela com outros atores, com outras vidas. As paisagens são leituras particulares dessas alteridades derivadas desses encontros.

Um dos encontros da Lilian foi com as histórias do lugar: ruínas, lendas, jornais, filmes, mapas, entre outras coisas que chamaram a atenção da artista e se tornaram objeto de trabalho. As lagoas do litoral norte gaúcho são interligadas por canais, onde é possível navegar de norte a sul de barco. Uma das histórias dessas navegações trata do naufrágio do barco Bento Gonçalves, em 1947. A artista cercou este evento com o levantamento de documentos históricos,  a criação de registros próprios e a reconstituição do trajeto original do barco naufragado que ela realizou juntamente com o pescador José Ricardo, no barco Beija-flor. Em um encontro de passado e presente, com fotos e relatos da época e também o seu próprio registro fotográfico, a artista cria uma narrativa densa sobre o imaginário do lugar. O que significa compreender? Para Hannah Arendt, a compreensão é um processo complexo que, diferentemente do processo científico, nunca gera resultados inequívocos. A compreensão é necessariamente autocompreensão, a verdadeira compreensão sempre retorna aos pressupostos e juízos, modificando aquele que observa. O trabalho da Lilian é mostrar este processo, o processo de tornar uma geografia um lugar, de habitar um lugar. Ela colhe coisas e recolhe suas próprias metamorfoses nos seus trabalhos. Dissolve o conhecido no desconhecido, a imaginação pode dizer respeito à densidade do real apreendida pela constante mudança e variação das narrativas. Esta é a paisagem dos trabalhos da Lilian.

(Mário Furtado Fontanive é professor doutor do Depto. Design/UFRGS, texto realizado para exposição Soçobro, 2017.)

 

Lilian Maus: vontade de nomeação

Marcelo Campos

 

A quem cabe nomear e classificar a paisagem? Toda paisagem se faz na relação de seus componentes e o grande desafio é perceber, separar, ordenar algo que nos impele na sua totalidade. A paisagem, segundo Cauquelin, é um imperativo: “olhe isto, é uma paisagem!” e, nesta qualidade, temos que “ver o que está diante de meus olhos”. Lilian Maus (RS), na exposição “Landscape ou anotações sobre o que escapa” se empenha em nomear a paisagem. Assim, vai indiciando morfologicamente fenômenos naturais como nuvens, marés, estrelas, arco-íris. Tal dedicação gera desenhos, vídeos, fotografias, onde o que nos é familiar, corriqueiro, como o hábito de desenhar em cadernos infantis, se torna um advento. A observação de aviões da esquadrilha da fumaça, no ar, merecerá, com isso, destaque. Mas qual será a imagem a qual poder-se-á atribuir um nome? A arte, há muito, se utiliza de subterfúgios para associar sensações, movimentos, tensões a nomes, como se tratássemos de características da sua fisicalidade. Dizemos que uma pintura tem ritmo, uma fotografia vibrações, uma cor é cítrica. Mas esses termos não são da natureza daquelas matérias. Lilian Maus, nos trabalhos atuais, lança-se à possibilidade de predicar a arte. Sim, a arte precisa de predicados, como nos esclarecera Marcel Duchamp, Arthur Danto, entre outros. E a artista lança-se à tarefa dos nefelibatas, aqueles que vêem coisas em nuvens.

No intervalo entre nomeação e imagem, Lilian Maus cria séries predicativas: as estrelas são do mar, cadentes, pertencem ao caderno escolar, são vistas na superfície das lagoas. Mas do que estamos diante? A produção de Maus atenta-se, sobretudo, ao desenho, à possibilidade de observar no estriado da imagem, um mar revolto, ou de perceber que a liquefação de uma cor pode configurar uma imagem impactante, como um arco-íris. E assim, a arte de Lilian Maus vai se configurando entre imagens e nomeações, matérias e alterações. Nos trabalhos apresentados, segundo a artista, tudo começa com a “observação do vento em fricção com as nuvens”. Lilian vê coisas em nuvens. E depois traça a mesma observação junto ao mar. Mas, em tudo, o vento é protagonista. O vento, aquilo que pode promover a transubstanciação, fazer as coisas se transformarem. E o estado da matéria, ao qual a artista se dedica, está exibido como imagem. Com isso, uma outra pergunta sobrevém. Do que é feita a imagem? Antes de tudo, como nos esclarecem Hans Belting e Jean Luc-Nancy, de rastros, vestígios. E agora entendemos o porquê das marcas que Lilian Maus insiste em nos ofertar. Tais rastros, marcas exibem-se antes da possibilidade de tornarem-se signo. E a artista é consciente de que a imagem exerce poder antes de qualquer sentido. Por isso, o nome das coisas funciona como uma espécie de acordo, a palavra escrita, a exigência de credibilidade. 

O lugar ao qual a arte de Lilian Maus se dedica permanecerá em suspensão, insular, desertificado, qual as imagens do cosmos que são calculadas, numeradas, nomeadas, mas que “ostentam sempre uma falsa evidência fotográfica”, como afirma Belting. O fato é que “imagem e signo ou palavra continuam ainda a ser os pilares em tudo o que queremos compreender do mundo”.

(Marcelo Campos é crítico de arte e curador. Texto de 2014.)

 

O desenho como área de cultivo

Flávio Gonçalves

 

I

Para os antigos uma imagem servia a instruir, lembrar e emocionar. Ela tinha ainda o poder de transitus, permitindo que pudéssemos contemplar a partir dela as coisas invisíveis, o mundo sensível transfigurado em presença. Vivemos ainda os mistérios da imagem, já que a nossa voracidade em relação a ela é maior que o nosso entendimento. Aquela que surge da inscrição gráfica, o desenho, é a que nos aventuramos desde a infância; e que faz renascer em nós essa antiga tríade que nos temporaliza.

Os desenhos de Lilian Maus começam pela água através dos caminhos que o líquido cria em contato com o papel. Se existe um plano outro é o de esperar que ela evapore e que a mancha indique por onde prosseguir; e se possa adicionar mais camadas, cores, fazendo do fundo berço, nascedouro do trabalho. A memória da água é diferente da memória do gesto, e isso faz com que em seu trabalho a artista cultive os dois por fortuna e por leveza.

Um desenho talvez não precise esperar para secar, imediato que é.  Mas é preciso esperar que ele brote, cresça e lentamente se revele. Um tempo para que a ideia se aceite como nova, para que a aceitemos como nossa. As metáforas de semeadura, crescimento e disseminação fazem com que pensemos a inscrição gráfica ainda mais como um espaço para o cultivo das ideias, para a revelação de memórias.

 

II

O sulco, a vala, o buraco de onde uma imagem nasce nos reposiciona em relação a nossa origem. Do mesmo modo que os encontros nos fazem pensar de onde partimos. O futuro é o modo temporal da projeção, onde conduzimos e somos conduzidos. Assim, o universo de referências construído pelo artista é alimentado por esses encontros e esses caminhos, da coleta daquilo que pode estar em perspectiva com seu modo de olhar o mundo, atualizando sua sensibilidade. A percepção desse material promove ainda outros deslocamentos, fazendo com que essas referências coletadas despertem relações pouco evidentes quando vistas de forma parcial ou isolada.

Lilian gosta de pensar que seus trabalhos formam um jardim (e me vejo olhando para os pátios, pois o jardim dos outros é sempre mais misterioso que o nosso). Talvez por isso o desenho seja seu instrumento de trato, um meio onde a leveza ganha gravidade. É assim que vejo suas letras e frases em plástico, grudadas em linhas e ramas, esperando um leitor que lhes dê sentido, que ande em torno e que as trate como hera, símbolo do contínuo que são.

Dos encontros da artista, Lilian reuniu séries como Área de cultivo, onde são fotografadas manchas, fungos e outras culturas que nos lembram o modo como seus desenhos, aos poucos, fecundam e germinam a folha de papel. O que a artista põe em relação são esses processos ao acaso que formam a periferia da nossa atenção, e que ela transforma em ação e determinação. Um trabalho simples que a arte procura nos fazer perceber: por vezes algo do tempo se condensa em nós, vira matéria, pesa e desaparece.

(Flávio Gonçalves é doutor em Artes Plásticas pela Universidade de Paris I, Pantheon-Sorbonne (2000) e professor associado do Insituto de Artes da UFRGS. Texto de 2011.)

> Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto/SP

> Coleção Mônica e George Kornis, Rio de Janeiro/RJ

> Pinacoteca Barão de Santo Ângelo – UFRGS, Porto Alegre/RS.

> Museu do Trabalho – artista selecionada para participar do Consórcio de Gravura, 2010, Porto Alegre/RS.

> Pinacoteca Aldo Locatelli – Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS.

> MACRS, Porto Alegre/RS.

> Instituto Estadual de Artes Visuais (IEAVI), Porto Alegre/RS.