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Leticia lopes aura

Letícia Lopes

Campo Bom/RS, 1988. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS. 

Letícia Lopes nasceu em Campo Bom, RS, 1988. É bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2015). Participou de várias exposições coletivas, como: Faturas (Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016), Exigências do Desenho (Acervo Independente, Porto Alegre, RS, 2015), Arte.RS (Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2014), Polarizações – Região Sul (Atelier Subterrânea, Porto Alegre, RS, 2014), 1ª Exposição Coletiva (Acervo Independente, Porto Alegre, RS, 2014), 20º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande (Palácio das Artes, Praia Grande, SP, 2013). Foi selecionada pelo Programa RS Contemporâneo (2016), por meio do qual expôs individualmente Presença Sinistra, com curadoria de Marcelo Campos (UFRJ), no Santander Cultural. No ano anterior, foi contemplada com o Edital para Artes Visuais – Edição 2015 da Fundação Galeria Ecarta (Porto Alegre, RS) com a individual Ode a Phobos – Ou como É Bom Não Ter Memória. No mesmo ano, realizou a individual Exagerar Já É um Começo de Invenção, na Casa Paralela (Pelotas, RS) e, em 2014, participou do Concurso 3º Prêmio IEAVI com Em Minha Fome Mando Eu, na Fotogaleria Virgílio Calegari (Casa de Cultura Mário Quintana), exposição que lhe rendeu o Prêmio de Melhor Exposição (por salas).

"A gaúcha Letícia Lopes tem seu pictórico amparado no fragmento, no ver em cacos. No entanto, a atmosfera de mistério e, de modo ambivalente e deliberado, do cotidiano termina por construir uma obra altamente inventiva. Tal como explicitado no título de sua mais importante individual, Presença Sinistra (Santander Cultural, Porto Alegre, 2016), a tessitura de suas imagens também recolhidas em veículos diversos gera, vista em conjunto, uma sensação de desassossego no espectador, que se assemelha a um ator involuntário participando de uma narrativa sempre bifurcada e longe de um fim. Dioramas, o mundo pré-histórico, as páginas em desmanche de enciclopédias empilhadas em sebos, fotografias com contornos tíbios e os 'assuntos', materiais, texturas e procedimentos típicos da pintura, juntos, alimentam uma obra visual das mais inquietas." (Mario Gioia, 2017)

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2016 - Indicação na categoria "Artista revelação", pela exposição "Presença Sinistra", X Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS.

2016 - Indicação na categoria "Destaque em pintura", pela exposição "Presença Sinistra", X Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, Porto Alegre/RS.  

2014 - 3º Prêmio IEAVI, Instituto Estadual de Artes Visuais, Porto Alegre/RS.

Formação

2015 - Bacharel em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

 

Exposições individuais

2016 - Presença Sinistra, individual selecionada pelo Projeto RS Contemporâneo, curadoria de Marcelo Campos, Santander Cultural, Porto Alegre/RS.

2016 - Habita Fúrias, projeto de residência entre setembro e outubro, Garagem Aura, Porto Alegre/RS.

2015 - Ode a Phobos (ou como é bom não ter memória), Fundação Ecarta, Porto Alegre/RS.

2015 - Exagerar já é um começo de invenção, Casa Paralela, Pelotas/RS.

2014 - Em minha fome mando eu, 3º Prêmio IEAVI, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2013 - Daquilo que não sei fica este relato, Espaço Cultural Pinacoteca Café, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas

2017 - Devaneios, Galeria Aura, São Paulo/SP.

2017 - Novíssima Geração, Museu do Trabalho, Porto Alegre/RS.

2017 - Afinidades Eletivas (curadoria Daniela Name), C. GAleria, Rio de Janeiro/RJ.

2017 - Memória do que vem, futuro do que foi (curadoria Guilherme Dable), Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Passo Fundo/RS.

2017 - Arte contemporânea do Rio Grande do Sul, Czech Centres Prague, Praga/República Tcheca.

2017 - Scénario (curadoria Mario Gioia), Galeria Aura, São Paulo/SP.

2017 - Acervo Compulsório (Fundação Ecarta), Unifra, Centro Universitário Franciscano, Santa Maria/RS.

2016 - MOODBOARD, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2016 - The Unique Institutional Critique Pop-up Boutique - Open Call de Jonas Lund, Galeria Cavalo, Rio de Janeiro/RJ.

2016 - Faturas, Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2016 - Planos Densos, Paço Municipal, Porto Alegre/RS.

2015 - Exigências do Desenho, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2014 - 1ª Exposição Coletiva, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2014 - Das cores ao nosso redor, Espaço Ado Malagoli, Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre/RS.

2014 - Polarizações – Região Sul,  Atelier Subterrânea, Porto Alegre/RS.

2014 - Arte.RS, Memorial do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2014 - Retrospectiva Prêmio IEAVI, Sala Augusto Meyer, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre/RS.

2013 - Mercado Paralelo, Casa Paralela, Pelotas/RS.

 

Salões

2013 - 20º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande, Palácio das Artes, Praia Grande/SP.

Presença sinistra – Letícia Lopes

Marcelo Campos

 

“... e o presente está com toda a insistência presente,

como que de joelhos rezando por você...”

(Rainer Maria Rilke – Cartas sobre Cézanne [1])

 

A exposição Presença sinistra, de Letícia Lopes, é constituída pela jovem produção da artista, pautada na transversalidade entre desenho e pintura. Graduada em Artes pela UFRGS, a artista evidencia trajetórias e interesses com o frescor de uma pesquisa multidirecionada. Por um viés marcadamente imagético, fotografias, mensagens escritas, palavras, sobras de anotações configuram e irradiam um mundo codificado, onde se faz necessário escolher, editar, separar, hierarquizar informações nas mais variadas superfícies da reprodutibilidade. Dicionários de ciências, editoriais de moda, imagens do cosmos, manequins, materiais de construção fazem parte de uma espécie de tessitura, no ateliê e na produção da artista, que ora pode se revelar em pinturas, ora se amplia em desenhos de caderno ou na orquestração de objetos de modo mais instalativo. Com isso, a produção de Letícia Lopes parece mirar a pintura, mas colocando-a em contexto, num intrincado processo de trazer imagens à luz, ao mesmo tempo que as retira das narrativas textuais, deixando flashes quase inexplicáveis, em alto contraste, já que nas imagens apaga-se o entorno da cena.

A primeira idéia a sobrevir, a partir do titulo da atual exposição, é “presença”. A presença, tratando-se de pintura, se faz como mecanismo de revelação. Paul Klee já afirmava que a tarefa da pintura é “tornar visível”, trazer à luz, evidenciar. Portanto, pintura e presença formam um binômio inseparável. Mas a presença guarda, de outro modo, configurações mágicas, a prestidigitação, a tarefa de tirar coisas de lugares inimagináveis, inexplicáveis. Imagem e magia se relacionam, talvez, como na afirmação de alguns teóricos, na sociedade ocidental, a partir da encarnação do sudário cristão, que Verônica revela ao mundo como uma prova, uma presença, justificando a fé nas imagens. Um terceiro mote da idéia de presença pode surgir quando pensamos na arte como um fenômeno, um acontecimento inalienável, insubstituível, tal qual definia a fenomenologia de Merleau-Ponty. Uma presença estruturante, então, é aquela parte inalcançável que um trabalho de arte promove no encontro da obra com o espectador.

“Presença”, na arte de Letícia, acaba por conduzir-nos a posições mais específicas, onde aquele que observa pode, aos poucos, estar diante de revelações. Um grão da imagem contem informações as quais não nos damos conta de início, mas que podem revelar fatos, ocorridos, como, por exemplo, o detalhe de um crime. Aqui, a artista se coloca bastante interessada numa idéia cara à imagem e muito repetida nas teorias da arte, a idéia do punctum que está presente no cinema de Michelangelo Antonioni com o filme Blow Up, como Guilherme Dable destaca em texto sobre a artista [2]. O punctum, para Roland Barthes, é uma espécie de átomo, fragmento, da fotografia, constituído ao acaso, mas que me fere, me afeta. Assim, Antonioni ao cinematografar a cena de uma parque, aproximando, cada vez mais, a imagem, consegue descobrir um corpo morto. Muito se fala sobre este fenômeno que nos afeta. A produção de Letícia Lopes é toda dedicada a estes elementos, a imagem de um menino negro, em contraste com o claro céu, uma criança vestindo um traje típico, o preto e branco de uma zebra que também se repete no listrado de uma persiana. Pelos, pedaços de estátuas, azulejos, cobogós são elementos encontrados no ateliê da artista. Tratamos do punctum, mas Barthes nos oferece um outro termo, o studium,  que se faz na compreensão imediata, mais reconhecível, decodificável. O studium seria equivalente a uma visão geral, a um contexto, a ser atravessado pela flecha, pelo inesperado do punctum [3]. Olhar a pintura de Letícia é fazer esta dupla compreensão, ser atraído pelo reconhecível e obstaculizado por configurações inusitadas.

Ao observarmos o processo de Letícia Lopes uma outra situação compositiva se evidencia, a colagem. Letícia nos informa que sua produção inicial começara com escalas pequenas. O guia das proporções era o recorte das revistas. Muitos pedaços pequenos de papeis se acumulavam na pesquisa. Na transferência para um novo ateliê, a artista pôde gerar proporções maiores. Agora, a colagem se tornou mais ideológica, já que se pode comparar escalas na decisão do que deve ser ampliado ou chegar ao mínimo, ao furtivo de um quase rabisco. A viabilidade do ateliê trouxe a escala da imagem, da pintura e dos objetos, direcionada ao corpo inteiro do espectador e da artista. É curioso pensar que mesmo ao recortar a parte de um todo, estratégia da colagem, o assunto protagonista, o que domina a representação, é esquivo, opaco, forjado por várias estratégias visuais.

Nos cadernos da artista, as imagens alternam-se com palavras, anotações, e ganham uma expressividade mais forte, mais liberta da finalização, deixando-nos com a grata sensação dos rascunhos. O esboço, como a coxia dos teatros, tem magia própria, gera interesse e curiosidade, muitas vezes, ofuscadas pelo acabamento final. Por isso, um elemento constante, nas pesquisas de Letícia, são as fitas adesivas. Vemo-las sujas de cores intensas, fluorescentes, como se resultantes dos embates, onde se optou por coberturas ampliadas, pela certeza de campos de cor (color fields) que a fita tratou de proteger nas superfícies bidimensionais. Mascaramentos em pinturas contemporâneas são muito recorrentes. A tarefa de recortar parte da obra cria, diretamente, a opção de descontextualizar. Letícia afirma que sente certo conforto com a idéia de “desmemoriação”. Arrancam-se referências do tempo e dos lugares, oferecendo-as a um clima de pintura. O interesse, assim, na apropriação de uma figura, pode, muitas vezes, vir, apenas, pela cor. As imagens, deste modo, estão fadadas à “lógica da sensação”, como nos termos de Gilles Deleuze ao tratar da pintura de Francis Bacon. Sacrifica-se, algumas vezes, a figura na oferta do citado clima para a pintura. Se há fitas adesivas, algo se deu na necessidade de juntar, unir partes heteróclitas, de naturezas distintas.  Na colagem, dirá Rosalind Krauss sobre Picasso, o signo nunca está estático, pois circula. Na pintura de Letícia Lopes, ora nos lembramos da vida nos desertos, nas savanas, ora nos perdemos nas volutas de um ornamento.

No segundo termo que intitula a presente exposição, outras relações podem ser tratadas. A palavra “sinistra” ativa interesses enluarados, lugares obscuros, que confirmam atrações pela opacidade da imagem. Os valores da opacidade foram fundamentais na produção modernista, momento onde a pintura pode tratar de si mesma, criando um obstáculo entre a realidade retiniana e o resultado da observação dos artistas diante da paisagem. Com a idéia da opacidade, as pinturas das vanguardas históricas do século XX passaram a ser equações pictóricas. Diante da paisagem, por exemplo, Mondrian abstrai a imagem de uma árvore até chegar às linhas ortogonais, verticais e horizontais, aplicando, na pintura, apenas as cores primárias, elementares, estruturais. Criou-se, com isso, uma opacidade que se tornou independente do próprio motivo inicial da representação. Em Letícia Lopes, a opacidade vem de outra ordem. Cria-se uma sedução muito maior ao efeito dramático da narrativa gerado pelo desconforto das já citadas descontextualizações. Há, então, uma dedicada atenção por pinturas noturnas, penumbrosas, fato pouco explorado na história da arte brasileira, mas que recrudesce desde a iniciante produção de Di Cavalcanti à atual fatura de Rodrigo Andrade, passando por Oswaldo Goeldi e Nuno Ramos, entre outros.

Em Letícia Lopes, a presença sinistra faz parte da pintura noturna. Este fato é deflagrado, como dito anteriormente, pelo interesse por usar flash. O flash muda o que está na sua frente. Criam-se aparições de folhagens, desenhos inusitados, cores instantâneas. A idéia do instantâneo aparece não como captura de um momento, mas a partir de um interesse por fantasmagorias. Parece que o flash, na produção da artista, pode exibir coisas invisíveis, flagrantes. Omiti-se todo o restante. E um ar de mistério e enigma coloca a narratividade da artista aproximada ao cinema.

Em seu trabalho de conclusão do curso de graduação em artes, Letícia nos oferece algumas pistas de interesse, as quais podemos perscrutar e, concomitantemente, usar como vetores para o porvir, principalmente numa tríade de conceitos: estratégia, lugar e tempo. Sobre a estratégia de pesquisa, um modus operandi, Letícia nos informa: “muito do desenvolver do meu trabalho depende dessa atmosfera de suspense, por isso uso termos como “crime”, “pistas”, “caça”.” Assim, ampliam-se as observações sobre uma espécie de “tipologia” das imagens, algo a ser pré-estruturado, quase numa metodologia de pesquisa, na educação do olhar. De outro modo, o uso do verbo “descontextualizar”, retirar coisas de seus lugares de origem, torna-se importante para a artista que considera: “os procedimentos e técnicas pictóricas podem responder independentes entre si”. Mas a pintura, a arte, também inaugura lugares “não só em relação à disposição dessas imagens”, dirá a artista, “mas também à apresentação de fatura na pintura.” Afirmamos, assim, que a própria pintura gera seu próprio acontecimento, instaura uma história. No terceiro termo, o tempo, a artista nos esclarece: “tendo a apresentar imagens de obras de arte da antiguidade clássica e medieval, registros de artefatos de povos indígenas e “primitivos” de praticamente todos os continentes, juntamente a fotos de editoriais de moda, padrões decorativos vitorianos e fragmentos de pinturas modernistas; ou fotografias de animais selvagens “ [4].

Observar o frescor de uma produção nascente é congregar de reflexões depois de uma pós-história, pois olhamos o mundo historicizado da arte com o desejo de ouvir ecos. Vivemos nesta expectativa, pelo menos, há meio século. Na pós-história, dirá Flusser, a “consciência imagística” do mundo se conforma a um “contexto de cenas”. Não distinguimos mais a realidade vivida ou mediada por superfícies bidimensionais [5].

[1] Rilke, Rainer Maria. Cartas sobre Cézanne. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p. 25.

[2] Dable, Guilherme, Letícia Lopes, visita ao ateliê. Disponível em: http://www.aura.art.br/artistas/leticia-lopes, consulta em março de 2016

[3] Barthes, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Lisboa: Edições 70, 2006.

[4] Lopes, Letícia. Ode a Phobos (ou como é bom não ter memória). Porto Alegre:  UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE ARTES BACHARELADO EM ARTES VISUAIS , Orientadora: Prof.a Dr.a Adriane Hernandez, pp. 7; 27; 30.

[5] Flusser, Villém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar, São Paulo: Annablume, 2011,  p. 115.

(Texto realizado para a exposição Presença Sinistra.)

 

Fabulações a respeito do trabalho da Letícia Arais Lopes

Nico Rocha

 

Esse texto é uma forma de percurso de alguém que aborda a produção da artista e faz sua parte entrando no jogo por ela proposto. Resolvi imaginar qual o seu percurso para além do que já foi falado acerca do papel da imagem e o lugar da pintura. Então fui buscar um outro ponto de observação, de onde pudesse imaginar os meandros do processo de criação de Letícia Arais, e hipotizar sobre seu processo, no que ela comenta, e no que pode ser encontrado no trabalho.

É um processo intuitivo, e, portanto, tende a não ser focado, ele se baseia em um procedimento em rede que leva junto para o trabalho bem mais do que é pensado para estar ali presente, isso sempre acontece, mas em trabalhos construídos com base nos processos intuitivos de condução isso é predominante.

De certa forma os trabalhos propõem um jogo semelhante para o observador. Assim como a artista enfeixa neles mais do que consciente e intencionalmente colige no trabalho, nós nos aproximamos dele por muitas vias ali presentes, insuspeitas, e que trazem novos significados. Como percursos deixados ali para serem seguidos, em um trabalho que é fruto de uma multiplicidade de ângulos de observação, de diferentes leituras e entradas.
O trabalho nasce das relações estabelecidas entre os elementos selecionados; foto, objeto, objeto composto (hierarquias internas...), desenho, fragmentos de imagens próprias e por ela apropriadas. São nós de uma estrutura multicamada unidos por ´elásticos´ operados pela artista. Recursividade, coisas dentro de coisas e ainda dentro de coisas. O trabalho que se constitui em múltiplas camadas, e em abismo.

Essa mesma estrutura que constrói as relações entre os elementos envolvidos, se projeta centrifugamente, propagando-se ao entorno imediato. Esse entorno é utilizado então por Letícia como um poderoso indutor das suas constelações. Em um contraponto centrípeto, de fora para dentro, portas, fenestrações, curvas e ressaltos, ritmos da arquitetura do lugar são envolvidos no jogo de articulação formal gerando semânticas particulares. O trabalho respira e dialoga, entre o entorno e o núcleo, dissolvendo essa dicotomia em uma forma de proposição em aberto.

A visão do seu ateliê indicia sua forma de trabalho. É um meio denso onde ela constrói sua teia de relações como modo de exacerbar as conexões prováveis pela visão de possíveis confluências e pelo exercício de contínua articulação e ordenamento, tudo comandado pela observação arguta desses desdobramentos.

As imagens reunidas em seu ateliê foram pinçadas pela intuição da artista que as acha, coleta, recolhe, e ali se encontram pela sua força expressiva ou simbólica. Elas vão constituindo o seu universo iconográfico em um determinado momento, juntamente com os desenhos e elementos pictóricos produzidos paralelamente. Assim, nesse agrupamento, as unidades colocadas a interagir na parede, disputam a atenção e propõem-se com uma noção de sentido e significação, e de direções interpretativas possíveis.

Podemos imaginar que existam pelo menos três fases nesse processo; a da seleção, algo naquelas imagens lhe chama a atenção, indica interesses, deflagra suspeitas e presságios acerca do que possam vir a constituir uma vez colocadas em relação; da reunião, pois o conjunto que permanece na parede corresponde a uma fração do seu acervo, do seu universo das imagens, um conjunto que é filtrado para ser colocado em operação. A terceira parte, da articulação, onde elas estão continuamente se propondo em grupos associados que se dissolvem e recompõem nas múltiplas proposições ali contidas.

É uma forma de constelar, uma maneira de pensar a reunião dos componentes, onde a forma de agrupar tem um peso equivalente ao porquê daquelas peças estarem ali reunidas. Uma determina e é determinada pela outra, como Leticia comenta “… revela-se na aproximação e reorganização de várias imagens, como também está latente: está apenas à espera da próxima imagem, coisa ou desenho que lhe completará o significado. ”

Seu processo de trabalho busca respostas para algumas questões que seriam primordiais para esse jogo; que peças componentes se adaptam e compõem uma nova organização? Qual estrutura formal é semanticamente mais intensa? Quais são as convergências que derivam das imagens presentes e da estrutura de articulação dessas imagens e tokens?

Talvez sejam indagações mais próximas a um jogo do tipo onde está mais quente ou está mais frio, em que todos os sentidos e intuições da Letícia são utilizados como alertas para os mínimos indícios que levem à construção do trabalho. Pequenas ações podem fazer essa construção desmoronar, mas quando colimados adquirem uma consistência interpretativa muito forte e se propõem como condição de existência.

É a força de uma ligação que é mutável e frágil, que uma vez coesa, tem uma imensa força expressiva. Uma busca da condição de enfeixamento onde coisas manipuladas, mantidas em equilíbrio instável, geram leituras alternativas em um processo recursivo e em abismo. Esse ponto de instabilidade, continuamente mutante na estratégia de enfeixamento, dá intensidade e profundidade ao trabalho.

Esse é o jogo de caça e escuta, uma busca. Detectar uma condição crescente de insondável densidade comunicacional e expressiva, que indica o quanto esse jogo do achar uma configuração mais intensa está na base da sua investigação. Onde ela mesma questiona as diferentes mudanças de direção que o andamento das suas montagens imprime a um trabalho que dinamicamente se reconstrói e redireciona a interpretação.
Movendo-se no visível, baseada em sua leitura intuitiva, subterrânea, nos momentos da constituição das constelações, na busca de insondáveis sentidos, a artista pressagia.

(Nico Rocha é artista, arquiteto e professor do Instituto de Artes da UFRGS. Texto realizado para a exposição Ode a Phobos (ou como é bom não ter memória).)

 

Letícia Lopes, visita ao ateliê

Guilherme Dable

 

"Julgo que sei olhar, se é que sei alguma coisa, e que todo olhar resume falsidade, porque é o que nos lança pra fora de nós próprios, sem a mínima garantia. (...) De qualquer modo, se se prevê de antemão essa provável falsidade, o olhar torna-se possível; basta talvez escolher entre o olhar e o olhado, despir as coisas de tanta roupa estranha. E naturalmente, tudo isto é muito mais difícil." Blow Up, Cortázar.

 

Visitar o ateliê de um artista é sempre esclarecedor: é a melhor oportunidade para conhecer seus processos, inquietações e obsessões; é o lugar onde tudo deveria, de alguma forma, estar às claras, mesmo que, em alguns casos, no meio de alguma espécie de caos. É comum que as coisas venham a emergir de alguma forma de acúmulo, sejam coleções de imagens, livros, anotações ou estudos.

O ateliê da Letícia é, como pode-se imaginar quando olhamos seu trabalho, carregado das mais diversas fontes: livros antigos, objetos diversos, muitas vezes encontrados quebrados ou manipulados pela artista, peles de animais, e muitos, muitos fragmentos de imagens. Na parede utilizada para a pintura, pequenos agrupamentos de imagens, medindo poucos centímetros, se encontram justapostas (‘combinadas’ não seria a palavra ideal), que prescrutei longamente enquanto ela organizava os conjuntos de pequenas pinturas na mesa ao lado.

O protagonista de Blow-up, movido pela curiosidade, amplia sucessivas vezes um negativo para descobrir um fato terrível, um possível crime que ocorria no plano de fundo da cena que fotografara. De certa forma, Letícia explode a escala de seus diminutos documentos de trabalho também movida pelo mistério encerrado em cada fragmento, mas ela apropria-se deles para criar novos mistérios ao transfigurá-los através da linguagem da pintura. Recortes de convites de exposição, ilustrações de animais selvagens, fragmentos encontrados em periódicos garimpados em sebos, entre tantas outras fontes nessa espécie de Atlas imersivo que é seu pequeno ateliê, são operadores de um jogo visual que Letícia se engaja de modo assertivo e entusiasmado construindo suas pinturas. Fica claro que ela não faz escolhas fáceis em suas fontes imagéticas: um fragmento de partitura, nos apresentando apenas duas notas; a estranha ilustração de coelho, em tons muito escuros, que remete, assim como a partitura, ao repertório de imagens de Jasper Johns; uma cabeça de zebra, claramente pintada a partir de uma ilustração; e, como único ponto de cor, duas pedras de luz dourada sobre um fundo turquesa. É interessante pensar que a referência musical se dá também na maneira em que Letícia articula esses pequenos módulos, algumas vezes desenhando na parede atrás deles, como uma espécie de notação para o olhar. Há, em todos os módulos, a busca por um ritmo visual, uma pausa que pode ser um pequeno monocromo cinza junto de uma flor que parece derreter, ou ainda o que parece um detalhe de figura humana pintada em um amarelo-limão, contraposta a um padrão decorativo em alto contraste. Se me cabe mais uma referência à cultura pop, eu imagino que Letícia, em algum momento, traduza seu entusiasmo em uma expressão facial como a de Iggy Pop na capa do fundamental Lust For Life: um riso largo, quase maníaco, com um olhar que devora o mundo.

Flores, ladrilhos, gatos, lobos, pássaros, partituras, coelhos: são todas coisas que a mente já conhece. Letícia nos reapresenta essas imagens vestidas de uma estranheza que nos pede um minuto a mais, para que possamos nos dar conta das operações que ela nos propõe ao nos reencontrarmos com nossa própria memória. Em um mundo onde não há mais espera, a capacidade de surpreender é mais do que um começo de invenção.

(Texto de Guilherme Dable, realizado para a exposição “Exagerar já é um começo de invenção", no verão de 2015.)