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Leonardo Valle

Porto Alegre/RS, 1992. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS. 

Formou-se no curso de Bacharelado em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2014. Dedica-se principalmente ao desenho como prática propositiva e criativa, o que lhe permite manter uma olhar próximo, porém simultaneamente estranho, em relação ao que lhe é cotidiano e familiar. Expôs coletivamente no Acervo Independente em fevereiro de 2014, e realizou duas exposições individuais: uma no Ateliê Contextura em abril de 2014, intitulada Desenhos, do familiar ao estranho, objetos deslocados; e depois no Espaço Ado Malagoli, localizado dentro do Instituto de Artes da UFRGS, em agosto deste mesmo ano, chamada Bala na Agulha. Possui também uma pesquisa sobre design de superfície, tendo realizado experimentações com estamparia digital.

 

Pesquisa Poética

"Imagens que se transformam em objetos, peças dentro de um sistema construído pelo ato do desenho: parto de objetos de meu cotidiano particular – prendedores, brinquedos, miniaturas, máquinas – apropriando-se deles através da observação para depois deslocá-los de sua origem.

Tais objetos, referentes de um cotidiano antes familiar, são manipulados, submetidos a diversos procedimentos que desestabilizam seus contextos primários e estabelecem uma nova realidade espacial dentro do suporte escolhido e definido como desenho e/ou papel. Colagens, sobreposições, justaposições e repetições criam distintas situações de espacialidade em novos trabalhos, e os objetos e as imagens presentes em desenhos anteriores se reapresentam com novas funções e possibilidades de significado. No fazer deste conjunto de desenhos, acabo por criar uma situação de jogo, de montagem entre diferentes objetos e espacialidades que dialogam ou se opõem a trabalhos anteriores." (Leonardo Valle)

Exposições individuais

2014 - Desenhos, do familiar ao estranho, objetos deslocados, Espaço cultural Ateliê Contextura, Porto Alegre/RS.

2014 - Bala na Agulha, Espaço Ado Malagoli, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas

2013 - Desdobralenços, Espaço cultural Ateliê Contextura, Porto Alegre/RS.

2014 - Coletiva I, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2014 - Coletiva II, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2015 - Projétil, Pinacoteca Barão do Santo Ângelo, Porto Alegre/RS.

Bala na Agulha

Marcos Fioravante e Raquel Magalhães

 

Um menino distribuí seus brinquedos pelo chão da sala. Separa alguns, deixa outros na reserva, posiciona e reposiciona. Mal sabe a grandeza da guerra que seu gesto propõe. Desconhece o poder de sua estratégia. Aliás o que distingue a estratégia do jogo e a da guerra? Os desenhos de Leonardo Valle parecem partilhar desta tênue divisão. O desenho é tomado como campo de batalha, onde elementos diversos são colocados em constantes confrontos e reconciliações. Elementos estes que formam um arsenal de onde o artista retira cada torre, cavalo e peão ao seu dispor. Como os blocos de montar, que frequentemente aparecem em seu repertório, o artista monta, faz combinações, aproximações e distinções, busca encaixes, inventa-os. Determina. A manipulação está fortemente presente nesses desenhos através da escolha dos objetos, peças, brinquedos e ferramentas, todos na escala da mão, todos determinados a serem empregados para alguma finalidade, neste caso, a de operar com o desenho. Como num mapa, traça sua estratégia, inventa rotas, caminhos e desvios, apresenta a logística de seu processo neste território dentro do qual o desenho acontece. Nele, marca seus passos, as idas e vindas, o deslocamento constante de recuos, ganhos e perdas. O desenho se faz, assim, matriz e base de operações sobre a qual Valle imprime, acrescenta ou remove desenhos, digitaliza, reproduz e reutiliza imagens. Todas ações se tornam válidas, caminhos para atingir um objetivo, que tal como na estratégia militar, pode ser antevisto e planejado, permanecendo, no entanto, incerto. Mais uma vez, como o menino em sua brincadeira, posiciona um objeto contra o outro, separa exércitos inimigos e prepara o terreno para a luta. Corpos no chão, armas quebradas são empilhadas, sobrepondo-se. Linhas avançam empurrando outros corpos para trás, para o chão. Mortes e vitórias, todos apresentados a um mesmo tempo. A medida que olhamos o conjunto de imagens oferecidas, podemos ver diferentes momentos da partida acontecendo, o vencedor encara a derrota, o que estava soterrado emerge em um momento seguinte. Vemos o jogo do alto, bem como o comandante sobre a colina, ao mesmo tempo, percebemos cada objeto individualmente, cavaleiros chamados pelos nomes, em uníssono, cumprindo cada qual seu papel e marchando juntos. Somos levados para perto e para dentro deste território. Nos perdemos ali no meio, entre fragmentos e peças, brinquedos e armas. Diante desses desenhos, observamos de dentro da trincheira sob uma truncada trilha de jazz, e aguardamos, sem sucesso, ressoar o último disparo.

(Texto crítico realizado a partir da exposição Bala na Agulha de 2014, que aconteceu no espaço Ado Malagoli, Porto Alegre/RS.)