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Aura gafi fotoperfil

Guilherme Gafi

Santo André/SP, 1986. Vive e trabalha em Santo André/SP.

Seu primeiro contato/referência com a arte foi através do grafittistreetart, onde desenvolvia pinturas de grandes formatos pelas superfícies da cidade. Essas primeiras experiências/vivências serviram de suporte para seu trabalho plástico. Em 2006 iniciou a faculdade de Artes visuais, Licenciatura plena em Educação Artística – FAINC, Santo André, SP. Paralelamente com as pinturas na rua, sua pesquisa trouxe elementos do cotidiano urbano, se estendenod por colagens, desenhos e pinturas, apresentadas na sua primeira individual em 2010, no Museu de Santo André, SP.  Em 2012 foi selecionado para a coletiva “Processos Públicos” no Paço Das Artes, em São Paulo. No mesmo ano, ganhou o prêmio aquisição do “1° Salão de Artes Visuais de São Caetano Do Sul”. Em seguida, foi premiado no “15° Urbano”, Mostra de Arte Contemporânea – Fundação Das Artes e no “40° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto”. Fez sua 2°individual em 2013, “Processos Intermináveis”, Casa Do Olhar Luiz Sacilotto, em São Paulo. A partir de então, sua produção passou a incorporar diferentes técnicas e suportes, de modo a absorver elementos do contexto urbano. Seus primeiros murais trabalhavam com a ideia de uma paisagem desconstruída e fantástica. Posteriormente, estudos, desenhos e pinturas passaram a ser o centro de sua pesquisa, que se desdobrou em fotografia, objetos, assemblages e instalações. Em 2014 compôs o time de artistas em Residência “Espaço Atemporal”, Espaço APIS, na Lapa, no Rio de Janeiro. No ano de 2015, abriu a individual "DEPRIVATION", resultado da residência que realizou na Cidadela ArtDistrict CASACAIS, em Portugal.

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Guilherme GAFI na galeria Gravura Brasileira+2

Guilherme Augusto GAFI é entrevistado por Douglas Negrisolli

Agacê Skateboards x GAFI

“Deprivation” at Cidadela Art District - Residência Portugal

2014 – 42º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Salão de Exposições do Paço Municipal, Santo André/SP.

2012 - 1° Salão de Artes Visuais de São Caetano Do Sul, Pinacoteca de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul/SP.

Exposições individuais

2016 - Solo Project, Feira Parte De Arte Contemporânea, São Paulo/SP.

2016 - Agentes Concretos, Mural SESC, Santo André/SP.

2015 - DEPRIVATION, ExhibitionRoom - Pestana Cidadela Cascais Pousada e ArtDistrict, Cascais/Portugal.

2013 - Processos Intermináveis, Casa Do Olhar Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2013 - Processos Intermináveis e 21 anos de Alpharrabio, Espaço Cultural Alpharrabio, Santo André/SP.

2010 - Individual Guilherme Augusto – Gafi, Museu de Santo André, Santo André/SP.

 

Exposições coletivas selecionadas

2016 - TAL 016 | corpo ausência presença, Galeria TAL, Fábrica Bhering, Rio de Janeiro/RJ.

2016 - Exposição Portfolio #1, Galeria Gravura Brasileira, São Paulo/SP.

2016 - Exposição do Grupo ALUGA-SE, PARTE / Feira de Arte contemporânea, São Paulo/SP.

2015 - Exposição Casa da Vez: Salão de Exposições de Santo André, Santo André/SP.

2015 - Memórias e ações dos Salões De Arte Contemporânea de Santo André, Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André, Santo André/SP.

2015 - Atemporal na GRAPHOS: BRASIL, GroupExhibition, Rio de Janeiro/RJ.

2015 - 3° Bienal de Graffiti Fine Art, Parque Ibirapuera - Pavilhão das Culturas Brasileiras, São Paulo/SP.

2014 - Exposição do Grupo ALUGA-SE, Tramas Galeria de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Frequentes Conclusões Falsas, Galeria Orlando Lemos, Nova Lima/MG.

2014 - Espaço Atemporal, Espaço APIS, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Exposição Casa da Vez: Pinacoteca, Pinacoteca de São Bernardo do Campo, São Bernardo/SP.

2013 - 1° Mostra de Arte Urbana de Diadema, Centro Cultural de Diadema, Diadema/SP.

2013 - Mostra de Artistas Contemporâneos do ABC, Salão de Exposições do Teatro Municipal, Santo André/SP.

2013 - LAMB and Paralelo Exhibition, Paralelo Gallery, São Paulo/SP.

2013 - Trabalhadores dos Sonhos, Mural SESC Santana, São Paulo/SP.

2012 - 15° Urbano, Mostra de Arte Contemporânea, Fundação Das Artes, São Caetano do Sul/SP.

2012 - #001, Galeria Nano, São Bernardo Do Campo/SP.

2012 - Processos Públicos, Paço Das Artes, São Paulo/SP.

 

Salões e residências:

2015 - Residência DEPRIVATION, ExhibitionRoom - Pestana Cidadela Cascais Pousada e ArtDistrict, Cascais/Portugal. [http://www.cidadelaartdistrict.com/#cad]

2015 – Residência Atemporal na GRAPHOS: BRASIL, GroupExhibition, Rio de Janeiro/RJ.

2014 – SAV – Salão de Artes Visuais de Vinhedo, Salão de Exposições do Centro Cultural Engenheiro Guerino Mario Pescarini, Vinhedo/SP.

2014 - 13º Salão Nacional de Arte de Jataí, Museu de Arte Contemporânea, Jataí/GO.

2014 – 42º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Salão de Exposições do Paço Municipal, Santo André/SP.

2012 - 1° Salão de Artes Visuais de São Caetano Do Sul, Pinacoteca de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul/SP.

2012 - 40° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Salão de Exposições do Teatro Municipal, Santo André/SP.

Texto de Paulo Gallina, 2017

SOLUÇÕES DURADOURAS é uma cidade imaginária reconstruída a partir das sensações que grandes metrópoles conseguem produzir. Um meio urbano elaborado pela memória e sensibilidade de seus visitantes. A partir da colagem mental que funda cidades dentro de indivíduos, curador e artista procuraram explicitar os movimentos plásticos que aproximam os sujeitos das imagens, sem que estas retratem exatamente o que se vê fora do espaço de galerias e museus contemporâneos.

Assim como é a pintura ou a memória, a cidade revela-se como uma assemblagem de materiais reunidos dentro de uma composição. O processo de Guilherme GAFI subverte a expectativa do observador de se encontrar com uma pintura que reproduz o mundo como ele é visto. O resultado desta pesquisa é uma obra que é a cidade, ao invés de simplesmente transformá-la em imagem.

GAFI cria sensações – impressões capazes de remeterem a vida urbana – ao se apropriar de materiais cotidianos à vida de qualquer cidadão de uma metrópole. Placas metálicas e chapas de madeira são a base sobre a qual as pinturas de Guilherme GAFI se desenvolvem, orientando a memória dos sujeitos a repensar uma presença inaudita destes materiais transformados em pintura. As telas do artista, por assim dizer, são o reflexo da vida e dos encontros imprevisíveis produzidos pelo hábito de se viver.

Os azuis de Guilherme podem ser céus assim como a cor laranja pode relembrar os impedimentos urbanos. Sendo manchas coloridas, livres da referencia da imagem, os matizes escolhidos comentam como a memória individual atravessa o olhar. Porque apenas através da percepção de cada um que se é capaz de acessar a pesquisa deste artista. As dobras em papel e folha metálica – materiais muito diversos em suas reações quando dobrados – reiteram a capacidade da memória de alterar a percepção por pequenas imprecisões.

 

 

NO CAMINHO DE GAFI

Ronald Polito

Juiz de fora, outubro de 2015

 

Quem surge no meio do caminho é Guilherme Augusto (Gafi), jovem artistaplástico de São Paulo, nascido em Santo André, onde vive, que tem apresentado um trabalho intenso e diverso, com facetas que se desdobram, coerente e promissor. Ainda não se sabe exatamente a que lugares tantas pesquisas vão levar, se ele conseguirá ir em frente em suas interrogações e rupturas, mas o que já renderam merece nota.

Pode-se dizer que um dos substratos centrais de seus trabalhos é a condição do indivíduo na cidade. Leia-se: certo indivíduo em determinada circunstância urbana e os objetos que os medeiam. É a apresentação desse indivíduo em sua operosidade e manifestações, e indivíduo que também é, em última instância, o próprio artista em suas tentativas de reconhecimento de si e do seu mundo, ambos transmutando ao longo do trabalho. E não seria impossível ou desinteressante conectar as obras que vem fazendo a dados biográficos precisos, estabelecendo diversas pontes que ele próprio define ao falar dos caminhos que escolheu, mas aqui não é exatamente o que importa: o artista a ser considerado é mais uma construção, um personagem. Digo isso porque, a rigor, Gafi vem da streetart, do grafite pelas ruas de Santo André.  Mas não há uma relação direta ou mecânica entre seu trabalho de grafite e as obras que passou a produzir em seu ateliê, mesmo que nelas vejamos redimensionados certos procedimentos que adotava em suas pinturas de rua.

Essa obsessão pelo personagem esclarece a extensa pesquisa de retratos, pintados com tinta acrílica sobre suportes diversos, alguns precários, e nessa galeria sobressaem os autorretratos. A uni-los, a desaparição do rosto, sua ausência, anote-se, escondendo inúmeros quase-rostos pelos quais o retratado chegou a passar, ou bloqueada abruptamente a possibilidade de seu reconhecimento pelo emprego de “vendas” sobre os olhos, grandes jatos de tinta que cruzam a tela como tarjas de um extremo a outro, ou pela presença de óculos escuros, bem como a descaracterização, a falta de suporte para situá-los em qualquer campo da experiência, os fundos que ampliam a indefinição de onde se situam. O resultado é felizmente ambíguo: irreconhecíveis,massimultaneamente protegidos em sua individualidade (muitos de seus retratos e autorretratos podem ser vistos no link <http://guilhermeaugustogafi.blogspot.com.br/>). Aqui destacarei um, que me parece particularmente indicativo de uma sinalização.

A pintura oscila entre alguns procedimentos, adotando tanto linguagens gerais da área, como os expressionismos e o pop, como recursos da pichação e dos grafites urbanos (spray), campo de trabalho que Gafipesquisou por muito tempo, como já dito (um bom número de grafites seus pode ser visto em: www.flickr.com/photos/gafilherme/5978481663/in/photostream/; a propósito, Gafi participou da 3a Bienal Internacional de Graffiti Fine Art, ocorrida no parque Ibirapuera, em São Paulo, de que falaremos adiante).Seu título, “João”, dá bem a medida dos personagens populares, comuns que o artista persegue. A escolha desse retrato, talvez não o melhor realizado, se justifica também porque ele parece incluir mais um índice de ambiguidade para a caracterização do indivíduo. É um dos poucos a trazer outro elemento na tela, um chapéu, de mago, de festa, de bobo, que não encontra apoio em sua vestimenta, também de difícil caracterização. Outro retrato que também porta um elemento seria aquele em que a cabeça do indivíduo sugere estar dentro de um capacete espacial ou de escafandrista.

Os tantos autorretratos, se não permitiram o autorreconhecimento da face do artista, pelo menos o conduziram, como nesse retrato que vimos, a uma situação, mas muito mais articulada, com diversos elementos sintetizados. Portanto, uma situação aqui entendida como um indivíduo que afinal se situa num lugar, caracterizado de algum modo e em certas posições corporais.

A vestimenta para circunstâncias de alta contaminação é um primeiro resultado animador das condições em que deve operar o artista agora, num entorno ameaçador, que é sempre uma superposição de arruinamentos e em crescimento, objetivando apagar sua imagem, submergi-lo e incorporá-lo à massa total. É claro que as coisas não ocorrem de estalo, esse retrato se situa numa série (<https://www.flickr.com/photos/gafilherme/5959113000/in/photostream/>), que pode atrair outras séries inclusive temporalmente anteriores (como as diversas pinturas apenas da máscara), que se intercomunica com séries fotográficas em que podemos ver Gafi pintando com uma longa vestimenta plástica amarela, ou fotografias de operários usando roupas e capacetes amarelos... Também chama a atenção nas acrílicas o recurso de seccionar o campo apresentado, que mantém sua unidade pela disposição “realista” das partes. O retratado passa a ser um conjunto, talvez mais esclarecido acerca de seu desconjunto básico.

O passo seguinte, e que implicou algumas rupturas, foi então tratar dos homens em sua operosidade, os diversos trabalhadores urbanos (operários da construção civil, garis...), uma escolha que, por si, já sinaliza suas preocupações gerais. Mas agora são séries de aquarelas com colagens, que abordam diversas situações de trabalho e de configuração do espaço urbano e dos objetos que cercam essas atividades. Percebe-se uma dupla mudança no sentido de uma maior definição: tanto os personagens agora são mais claramente apresentados, como também se realizam com uma técnica apurada, que busca um alto padrão de certo realismo. Como se para tratar de algo tão importante fosse necessária uma apresentação exata.Por outro lado, persistem continuidades problemáticas e produtivas. A mais evidente é a própria continuidade da pesquisa com retratos. E se nos retratos e autorretratos anteriores o rosto não se concluía, nas aquarelas ele está simplesmente ausente, indicando mais uma vez a impossibilidade ou a impropriedade que seria revelarmos qualquer face, parecendo ser mais a segunda opção o que ocorre. Mas há ainda uma outra recorrência menos evidente, contudo importante, para entendermos outras intenções em pauta. Diz respeito à própria natureza dos materiais empregados, ambígua, de alta e baixa qualidade. Nos retratos e autorretratos, o suporte em jornal, nas aquarelas, as colagens com fita adesiva para embalagens. O mesmo problema de duração e desgaste, ecoando a efemeridade da arte como questão valiosa a ser mantida no horizonte do artista. Em ambas as experiências, acrílica e aquarela, digamos que os homens estão “a salvo”, pois neles está empregado o material mais durável que se usou.

Mas é preciso observar ainda um pouco esses operários. Se muitos portam roupas amarelas, que oscilam entre melancolia e assepsia, a escolha do azul, tão frio, é a contrapartida de diversos outros. A gama de cores, portanto, é mínima: azul, amarelo, cercados ou envolvidos por preto, cinza e o cáqui da fita adesiva, replicando as cores dominantes das instalações usuais de construções e recortes urbanos, as madeiras, os aglomerados e as embalagens de papelão. Por outro lado, tal como nos retratos em acrílica, os personagens das aquarelas são impassíveis e estão parados. Ainda que não possamos ver seus rostos, deduz-se que eles não comportam grandes expressões. Estão sempre parados, como a indicar estarem pensando o que farão em seguida na sua atividade de trabalho, ou precisamente o contrário disso, que estão a mil anos-luz dali, imersos em seus pensamentos, descolados do entorno precário em que se situam. Em oposição à provisoriedade das instalações, seus corpos e vestimentas, em alta definição, como que se alheiam das circunstâncias. É notável, também, a postura ereta de todos eles, suas conformações geralmente robustas, sólidas, sua altivez, afinal. E a ocultação da face, num resultado sutil, acaba tornando seus corpos desejáveis, visualizados sob roupas que os conformam sensualmente, oscilando entre a dureza e a sexualidade. Na aquarela que aqui apresentamos, a haste segura pela mão direita, em contraste com o saco erguido pela esquerda, produz essas sugestões oscilantes. Há outras aquarelas em que esse mesmo elemento verticalizado, por vezes mais diagonal, se manifesta com insistência, quer seja ele um cone de isolamento, uma madeira encostada num tapume, um risco a seccionar o personagem, mas sempre funcionando como elemento a separar as partes e projetar o personagem e seu entorno para cima ou para baixo, desestabilizando o conjunto. E essa mesma verticalidade também será pronunciadas em outras séries, como alguns sitesspecifics do autor, como veremos.

Por fim, mas não por último, seria o caso de retornar às acrílicas e aos sprays para vermos que o tratamento de campos de cores é em boa medida o da aquarela, o que parece naturalmente tê-lo então conduzido sobre o que e como fazer, não sei se com consciência ou não disso. O que importa é ressaltar a semelhança em pauta, evidentemente observando que na aquarela o resultado é de grande perfeição em relação às acrílicas e aos sprays, nos quais, por sinal, nem era o objetivo.

Mais um passo e... desaparecem todos os personagens. Ficam só recortes do espaço que eles frequentam, com sua provisoriedade, replicada na fita crepe, seus pedaços de coisas, estruturas em andamento, áreas interditadas, recortes de espaço que também precariamente tentam manter sua unidade pela disposição em que são recompostos. Por outro lado, essas disposições de detritos e instalações provisórias são estruturas em proliferação, contaminantes. A fita crepe não apenas extrapola o limite do quadro, invade a moldura, cerca-a, como também se projeta no espaço exterior, pode seguir pelas paredes em que a obra está pendurada, numa indicação de sua forte prevalência e autodeterminação.

Paralelamente Gafi desenvolveu outras obras que, por diversos aspectos, se ligam às séries de acrílica, spray e aquarela. Refiro-me aos sitesspecifics que andou fazendo nos últimos tempos, já comentados de passagem, que de certa forma espacializam os recortes de estruturas urbanas flagrados nas aquarelas e os encaminham também para outras direções, quer pensemos nas diversas “instalações” envolvendo objetos e fita crepe, ou aquelas com pedras, tijolos, plástico, vidro. De algum modo, essas instalações e configurações também se relacionam com outras séries de trabalhos que paralelamente Gafi realizou ao longo das acrílicas e aquarelas. A pesquisa com objetos, a feitura de caixas com utilização de resina, estruturas de madeira ou vidros atravessados por galhos que podem inclusive acompanhar retratos, simbioses problemáticas entre elementos naturais e artificiais em disputa.

De novo, os problemas da proliferação, da expansão, da contaminação e da ocupação do espaço voltam a se insinuar, no caso, com o movimento de galhos espinhentos que perfuram a parede para prosseguir. É como se estivéssemos, em diversas séries realizadas, diante de um insistente apelo pela presença, um anseio pela corporificação de algo que quer conquistar um espaço. Tanto elementos naturais quanto artificiais, portanto, buscam se apropriar do espaço, defender-se para não serem suprimidos. Há tensão, luta, disputa pelo domínio como condição de sobrevivência.

A imagem seguinte reúne os elementos da “peça”, alheia a qualquer classificação por gênero, sobressaindo no quadro à esquerda o personagem ou autorretrato com capa amarela, já comentado.

Este salto para a terceira dimensão prenuncia uma pintura que não se conforma à bidimensionalidade. E a saída para fora do quadro em direção ao espaço simula, inclusive, formas escultóricas ou arquiteturais que, por sua vez, podem ser lidas como maquetes ou protótipos para realizações em escalas gigantescas. É curioso, então, notarmos que, após um longo percurso restrito ao perímetro do ateliê, mesmo que nele esteja o mundo lá de fora, Gafi volta a um dos seus pontos de partida: o grafite urbano, e se joga de novo nas ruas. Mas, agora, reelaborado a partir de colagens de fitas em espaços exteriores. Fitas essas que projetam imagens de três dimensões, negando sua bidimensionalidade constituinte.

Abordando agora mais propriamente alguns de seus sites specifics, resultantes das, e em diálogo com as investigações anteriores, como já dito, chamam a atenção os trabalhos que recentemente Gafi instalou em Cascais (Portugal), no curto período de um mês que lá passou como artista residente. A exposição, intitulada “Deprivation”, foi no Cidadela At District, cujo nome parece cair como uma luva para seu campo de pesquisa. É perceptível que a abordagem de personagens e suas vivências urbanas conduziu Gafi a um questionamento das condições não apenas de trabalho como também de moradia. Das possibilidades que os trabalhadores urbanos, os mais diretos construtores da cidade, têm de ocupar esse mesmo espaço que constroem. Trata-se de uma discussão extremamente atual, com a especulação imobiliária atingindo o máximo de segregacionismo dos pobres. Eloquente, no mínimo, então, instalar numa galeria um fragmento das calçadas de Cascais que conquista seu espaço, mesmo em condições semiarruinadas, define-se como base para que se erga uma estrutura ou para que os homens possam transitar livremente por ele como espaço público. Aqui se prenuncia, a um só tempo, o cerceamento desse espaço e sua degradação.

Nos sites specifics, como é natural, radicalizam-se alguns conceitos que foram operados antes, com o emprego de elementos transitórios, provisórios, descartáveis, que se consomem rapidamente. Em particular, a fita adesiva que passa a ter mil e uma utilidades, além de outras fitas, tipicamente utilizadas em demarcações de áreas urbanas que estão sendo recuperadas, com listras amarelas e pretas em diagonal. Ao lado desses elementos que se degradam, onde incluímos o plástico, surgem seus opostos: pedras, vidro, metais, madeira, tijolo. Nessas correlações não se procura a harmonia ou pacificação, mas a busca das tensões que os reúnem e do informe que brota disso.

Este é um bom exemplo da utilização das fitas, um segmento de instalação pelas paredes de uma galeria, no caso, a exposição “Casa da Vez — Salão de Santo André”. “Casa da Vez” é um coletivo de artistas do ABC paulista do qual Gafi faz parte, que se reúne sistematicamente para discutir seus processos de criação. O pentágono de fita sugerido e aberto entre três planos é a ossatura central do corpo que se projeta. Ele está solidamente apoiado no fundo, o que lhe permite tanto tensionar o espaço quanto afrouxar-se nele, com um de seus lados solto. A um só tempo ele é duro e mole, pode crescer a partir de seus pontos fixos, é escultoricamente preso e aéreo. A forma disforme definitivamente se apoderou do canto em que está agarrada e ameaça o que se aproximar dela com sua mobilidade estranha, sua possibilidade de se projetar ou mesmo escapar por baixo da divisória, sua organicidade, em que a fragilidade contrasta com o poder de ocupação e delimitação de território.

Por fim, selecionei as imagens seguintes,da instalação que Gafi realizou na 3a Bienal Internacional de Graffiti Fine Art, ocorrida no parque Ibirapuera, em São Paulo,em abril e maio de 2015. Trata-sede uma operação de instalação/recorte, que ecoa a anterior com seu pentágono de fita, se observada de certo ângulo, agora com listras amarelas e pretas, que, no entanto, como poderia ser esperado, não circunscrevem todo a área, mas seccionam os“objetos”, selecionam deles um campo a ser notado, numa hipótese positiva. E mesmo essa figura da fita é aberta, pois ela se interrompe, o que enfraquece sua destinação. Parece que nos aproximamos do perímetro de um desastre e sua suspensão para tratamento.

No conjunto, em suas duas grandes bases quadradas, de um lado, veem-se a perfeição e a limpeza do cubo guardando como vitrine seu punhado de restos, fragmentos de concreto de uma demolição; de outro, um recorte qualquer de detrito urbano com suas pedras no meio do caminho envolvendo demolição e restos de embalagens: temporalidades intercambiáveis, passado, presente e futuro trocando de mão para se ordenar o caos,e natureza e cultura também, simuladas para cada um dos lados. Afastado, e com eles triangulado, um toco de pé, quase zoomórfico. Na tampa de cimento inclinada, as palavras “Reservado/ para”, e não se lê: aqui de novo algo se oculta, sujeito ou não. E dentro do cubo de vidro, a continuação da frase: a palavra “Grafite” fragmentada entre os pedaços de concreto de demolição, que parecem ser a reunião das partes da placa de cimento arruinada. Interligando esses elementos, em diversosaspectos, a tentativa de preservação e restauração, de proteger o espaço ameaçado, de resgatar mesmo o mais ínfimo para a esfera do valor, e onde também se inclui a dificuldade de realização de tudo isso, que as lacunas e os limites da fita protetora esclarecem.

Mas, como Gafi nos explica, a frase “reservado para grafite” é adotada pelos grafiteiros para selecionarem um espaço público em que farão suas intervenções. A instalação aqui em pauta, portanto, a partir desse dado, adquire outros sentidos que precisamos esmiuçar. Como dito, Gafi foi o mais jovem artista a participar da 3a Bienal de Graffiti Fine Art. Supreendentemente, no entanto, ele não fez um grafite, mas uma instalação-denúncia da própria organização da bienal. Sem orçamento para patrocinar o cachê dos artistas convidados, eles tiveram de realizar os trabalhos sem contar com um auxílio geralmente imprescindível, executando suas pinturas no espaço reservado do Ibirapuera. Gafi tomou outro caminho: estudou o espaço em processo de restauração, percorreu suas áreas internas e ali localizou os materiais para a fatura de seu trabalho. A única exceção é a inscrição “reservado para grafite” que ele aplicou sobre os materiais. Temos assim uma inesperada operação que “miniaturiza” e metaforizao Pavilhão das Culturas Brasileiras, na qual agora podemos admitir o cubo de vidro como o prédio da exposição em processo de restauro e o restante como o entorno precário desse mesmo prédio.

Vamos adiante ainda: é importante observar que a placa de cimento, tipicamente usada para tampar estruturas de canalização, aqui é refuncionalizada e elevada, no duplo sentido, ao estatuto de placa ou lápide: por sua posição verticalizada e seu enobrecimento. Mesmo que ruína, ela guarda vestígios ou prenúncios de sua glória, passada ou futura. Ao lado, outra operação está ocorrendo: dentro do cubo de vidro, a palavra grafite foi despedaçada, como a indicar a impossibilidade de realização do próprio grafite, quer seja no espaço expositivo, quer em qualquer outro. E foi grafada em maiúscula, para amplificar a queda de sua integralidade. A atividade de grafitar, assim, está duplamente partida: pela secção da frase e pela fragmentação da palavra. Além de irrealizada, pois seu suporte foi danificado, destruído. Mas permanece, ainda, sua variada ambiguidade: os fragmentos estão protegidos pela caixa-museu por seu valor, o grafite está em um museu-prisão, o grafite está morto afinal em seu museu-mausoléu. Em comum: o estado de suspensão em que essas condições o situam, alheado de seu fundamento: ser uma arte nas ruas, uma street art. “Aqui tudo está em construção e já é ruína” (Caetano Veloso). E poderíamos desdobrar: aqui algo quase chega a estar presente e já se ausenta.

Porque é da ausência que estamos falando desde o início, e das perdas que daí advêm. Ausência de rostos que constituam individualidades, ausência de seres humanos num mundo de puros objetos alienados, ausência dos próprios objetos íntegros diante de seu esboroamento. Mas nem tudo está perdido nesses projetos: há índices de futuro neles, apesar de tanta deformidade e indistinção. Há o corpo do homem e sua altivez, e há uma fita que delicadamente pode protegê-lo.

 

DEPRIVATION

Paulo Arraiana

Cascais, Portugal, 2015

Guilherme Augusto Gafi (1986) interessou-se desde cedo pela dialética urbana, utilizando uma semântica visual que emerge da estética do caos e da semiótica urbana onde cresceu (Santo André- São Paulo/ Brasil). Alimentado pela dinâmica do ruído visual urbano, característica inerente às grandes metrópoles, criou toda uma dialética na não identidade e códigos gráficos presentes no dia-a-dia do operário urbano. Códigos estes, por vezes invisíveis, consumidos inconscientemente por quem faz parte da dinâmica da alienação urbana. Em locais onde a velocidade simboliza um suposto desenvolvimento, o tempo, o scroll diário, o espaço e noção de propriedade ditam os objetivos e onde a qualidade de vida está inevitavelmente associada à velocidade da rede, do trânsito, do número de likes ou propriedade, Guilherme Augusto Gafi retrata os intervenientes anónimos deste processo, os sem rosto e identidade, presentes no espaço urbano, responsáveis incondicionais por essa força motriz a uma suposta qualidade de vida. GAFI usa técnicas clássicas como a aquarela misturada com materiais menos nobres e efémeros como a fita adesiva para embalagens, num diálogo incoerente à procura o equilíbrio/desequilíbrio da composição dentro do caos visual urbano. Fruto de um questionamento sobre o valor do espaço, especulação imobiliária e qualidade de vida nas grandes “megalopoles” e assente na consciência/inconsciência sobre o valor do espaço em diversos pontos do planeta, Guilherme Augusto Gafi questiona através das suas instalações, fotografia ou vídeo, esta noção de território vs qualidade de vida, colocando marcas de sinalização urbana em espaços naturais, paisagens protegidas, impossíveis de habitar fora dos espaços urbanos e grandes metrópoles, onde o valor por m2 é oferecido como sinónimo de pertença ou qualidade.