Foto guerreiro

Guerreiro do Divino Amor

Genebra/Suíça, 1983. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Genebra/Suíça, 1983. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. 

Em sua produção, Guerreiro do Divino Amor investiga as Superficções, forças ocultas que interferem na construção do território e do imaginário coletivo. Constrói, a partir disso, um universo de ficção científica mesclado a fragmentos de realidade, escancarando, através de uma ironia pungente, questões sociais e simbólicas profundas. Seus trabalhos ganham diversos formatos: filmes, publicações, objetos, instalações e conferências.

Mestre em arquitetura e artista com uma carreira que soma mais de uma década, Guerreiro do Divino Amor foi vencedor do prêmio PIPA 2019, finalista dos Swiss Art Awards 2017 e 2008 e do prêmio Generations, da Bienal de Imagem em Movimento de Genebra em 2016. Teve seu trabalho exposto na Fundação Iberê Camargo, no Museu de Arte do Rio (MAR), no Museu de Arte da Pampulha e no Arte Pará 2018, entre vários outros. Em 2018 realizou a individual Superficções, no Paço das Artes - MIS-SP. Foi residente na FAAP Lutetia e no Pivô-Pesquisa (SP), na CAL (Brasília) e participou da Bolsa Pampulha 2019. Atualmente, realiza uma residência em Genebra, Suíça. Seus filmes foram exibidos e premiados em várias mostras e festivais nacionais e internacionais.

 

Entrevista à revista ARTE!Brasileiros #49 - dezembro de 2019

Entrevista concedida a Luis Camillo Osório - Prêmio Pipa - agosto 2019

 

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Geneva/Switzerland, 1983. Lives and works in Rio de Janeiro.

In his production, Guerreiro do Divino Amor investigates Superfictions, hidden forces that interfere in the construction of territory and the collective imagination. It builds, from there, a universe of science fiction intermixed with fragments of reality, opening, through a poignant irony, profound social and symbolic discussions. His works cross different formats: films, publications, objects, installations and conferences.

With a Masters in Architecture and as an artist with a career spanning more than a decade, Guerreiro do Divino Amor was the winner of the PIPA 2019 award, a finalist for the Swiss Art Awards 2008 and 2017 and the Generations award of the Geneva Moving Image Biennial, in 2016. His work has been exhibited at the Iberê Camargo Foundation, at the Rio Art Museum (MAR), at the Pampulha Art Museum and at Pará Art 2018, among many others. In 2018 he hosted the individual Superficções, at Paço das Artes - MIS-SP. He was a resident at FAAP Lutetia and at Pivô-Pesquisa (SP), at CAL (Brasília) and participated in Bolsa Pampulha 2019. Currently, he is completing a residency in Geneva, Switzerland. His films have been shown and awarded at various national and international exhibitions and festivals.



2019 - Vencedor do Prêmio PIPA de Arte Contemporânea

2019 - Vencedor do Prêmio 24º Salão Anapolino de Artes

2018 - Menção honrosa no Cine Esquema Novo 

2017 - Finalista do Swiss Art Awards

2016 - Finalista do prêmio Generations, da Bienal da Imagem em Movimento de Genebra

2015 - Melhor curta documentário (De repente, Barbara), Transgender Film festival in Kiel (Alemanha)

2015 - Angu de Ouro 2015, melhor filme, Cineclube Mate com Angu, Duque de Caxias/RJ

2009 - Finalista Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro" (filme Clube da Criança)

2008 - Finalista Swiss Arts Awards 2008

2005 - Vencedor do Prêmio La Cambre Architecture

Exposições individuais

​2019 - Civilizações Super Superiores, Centro de Arte Contemporânea W, Ribeirão Preto/SP, curadoria Josué Mattos

2018 - Superficções, Paço Das Artes, MIS São Paulo/SP, curadoria Clarissa Diniz

 

Exposições coletivas

2019 - 7ª Bolsa Pampulha, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte/MG 

2019 - Exposição dos finalistas do prêmio PIPA, Villa Aymoré, Rio de Janeiro/RJ

2019 - Kadist Collection, Summer of '19, curadoria Marina Reyes Franco 

2019 - 24° Salão Anapolino de Artes, Anápolis/GO 

2019 - Renovação Carismática, Caixa Preta, Rio de Janeiro/RJ 

2019 - Palavras somam, MAB-FAAP, São Paulo/SP

2018 - Arte Pará 2018, Belém/PA, curadoria Paulo Herkenhof e Vânia Leal

2018 - Somos Muitxs, Solar do Abacaxis, Rio de Janeiro/RJ curadoria Bernardo Mosqueira e Catarina Duncan

2018 - Comuna Intergaláctica, Planetário do Ibirapuera, São Paulo/SP

2017 - Unânime Noite volume 3 Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre/RS, curadoria Bernardo José de Souza

2017 - Bienalsur Aqui, bem ao Sul , MAB Centro, São Paulo/SP, curadoria de Marcos Moraes

2017 - Vivemos na melhor cidade da América do Sul, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre/RS, curadoria Bernardo José de Souza e Victor Gorgulho

2017 - Suposto Norte | Suposto Sul, Cafuné, Berlin/GE , curadoria João Paulo Quintella e Michelle Sommer

2017 -  Unanimous Night, Contemporary Art Centre, Vilnius, Lituânia, curadoria Bernardo José de de Souza

2017 - O terceiro mundo pede a bênção e vai dormir, DESPINA, Rio de Janeiro,

2017 - Swiss Art Awards 2017 ( em paralelo à Art Basel)

2017 - Casa França Brasil, Rio de Janeiro "Imersões"

2017 - Abre Alas 13 | 2017", Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro/RJ

2016 - Segunda Gran Bienal Tropical de Puerto Rico

2016 - Bienal da Imagem em Movimento Centre d’Art Contemporain, Genebra/CH

2016 - Vivemos na melhor cidade da américa do sul, Átomos, Rio de Janeiro/RJ

2016 - Linguagens do corpo carioca, MAR, Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro/RJ, curadoria Paulo Herkenhof

2016 - Unânime Noite, Galeria Bolsa de Arte, São Paulo/SP, curadoria Bernardo José de Souza

2016 - Mostra imagem em movimento do parque Lage, Casa França Brasil, Rio de Janeiro/RJ

2016 - Da urgência de cada um, DESPINA Largo das Artes, Rio de Janeiro/RJ, curadoria Jõao Modé e Alexandre Sá

2015 - A Mão Negativa, EAV parque Lage, Rio de Janeiro/RJ curadoria Bernardo José de Souza

2009 - Brazil, Galeria Substitut, Berlim/GE

2008 - Swiss Art Awards 2008 (paralelo à Art Basel)

2005 - Paximobile, Antigos matadouro de Eupen, Bélgica, instalação Le Paxicule

2004 - Beneflux, festival de arte urbana, Bruxelas/BE, instalação Diner Chic 

 

Festivais e mostras

Janelas de cinema 2019, Recife/PE

Fest Curtas BH 2019, Belo Horizonte/MG

Fulldome Festival 2019, Planetário Karl Zeiss, Jena, Alemanha

Institute of Contemporary Arts Singapore, special screning Artifice and Fiction, La Salle College 2019

Festival Curta Cinema 2018, Rio de Janeiro/RJ

Itaú Cultural SP, Conversations in São Paulo: cultural exchanges in asymmetric contexts 2018

Festival Curta Cinema 2018, Rio de Janeiro/RJ

Festival Cine Esquema Novo 2018 e 2019, Porto Alegre/RS

Centro de Arte Dos de Mayo, Mostra Hasta que las cosas y los cuerpos sean como queremos que sean 2017, Madri/ES

Tokyo Fetish Film Festival 2016, Tóquio, Japão

Mostra do filme livre 2009, 2012, 2015, 2016, 2017, CCBB SP/RJ/DF/BH

Semana Cinerama 2016, UFRJ, Rio de Janeiro/RJ

Festival Mix México 2016, Cidade do México/MX

Mostra Strangloscope 2016 e 2018, MIS Museu da imagem e do som, Florianópolis/SC

Antebellum Festival Los Angeles 2015

Transgender Film Festival 2015, Manila/Copenhaguen/ Londres/ Kiel 

Mostra Kino Olho Rio Claro 2009

Curta Santos 2009

Maranhão na tela 2009

Vira Cultura maratona cultural, Conjunto nacional, São Paulo/SP

2009 FFF San José 2016, Costa Rica

 

Bolsas e residências

​2020 - Embassy of Foreign Artists, Genebra, Suíça

2019 - 7ª Bolsa Pampulha, Belo Horizonte/MG (março a setembro)

2018 -  Residência CAL UnB,Brasília/DF (setembro e outubro )

2018 - Pivô Pesquisa (Pivô Research), São Paulo (abril a julho )

2017 - FAAP, São Paulo/SP (agosto a dezembro)

 

Formação

2016 - Casa França-Brasil: Bolsista no programa “Imersões Poéticas”

2015-2016 - EAV parque Lage: Bolsista no Seminário Imagem em movimento e nos cursos Passado, presente e futuro, por Bernardo De Souza e Teoria e Portfólio, por Marcelo Campos e Efraim Almeida

2012-2013 - Cimdata Medienakademie (Berlim) - Bolsista na formação técnica Sound and Videodesign                 

2000-2006 - Graduação e Mestrado em Arquitetura - Escola de arquitetura de Grenoble (França) e Instituto La Cambre Architecture (Bruxelas)                

2004-2006 - Instituto La Cambre Artes visuais (Bruxelas): ateliê Espaços Urbanos 

Prefácio da revista SuperRio Superficções

Bernardo José De Souza  

 

Forças obscuras movem o mundo.

Em paralelo ao que chamamos realidade, articulam-se instâncias simbólicas a operar em um plano fantasma, uma dimensão tão solerte e insidiosa quanto efetiva na orquestração do tabuleiro político que dá os rumos ao planeta Terra neste primeiro quartel do século XXI.

Para além do diapasão sociológico amparado em padrões científicos que guardam dívidas históricas com o arcabouço teórico dos novecento, desenha-se em nosso horizonte uma paisagem ficcional que desafia até mesmo as mais consolidadas leis da física, os pérfidos e malévolos fluxos econômicos e as sedimentadas, embora fantasiosas, instâncias políticas, místicas ou mesmo geográficas.

Superficções, a cosmogonia divisada por Antoine Guerreiro do Divino Amor para investigar uma realidade que subjaz a outra realidade - artificial e escamoteada - constitui uma cartografia de beleza e acuidade raras. E, por paradoxal que possa nos parecer, investir em uma breve síntese desse outro mundo - que nada mais é que o nosso próprio - demanda um pé no chão e boa dose de racionalidade, a qual talvez nos permita decifrar, ainda que apenas em alguma medida, os móveis que levaram o artista a conceber tal desvario eivado de lucidez e dotes visionários (não fosse desafiadora minha tarefa de aqui deslindar a obra do artista, estaria eu incorrendo em outra ficção, inspirado por aquela feita pelo próprio Antoine, a qual se sobrepõe à nossa para trazer à luz a mais rotineira e pura realidade).

Formado em arquitetura na École Nationale Supérieure d’Architecture de Grenoble e La Cambre Architecture de Bruxelas, Guerreiro do Divino Amor é descendente de pai europeu e mãe brasileira, ele suíço, ela carioca, um mestiço no melhor estilo pós-colonial - o nome Divino Amor foi roubado de uma de suas madrastas, pastora de igreja evangélica no Rio de Janeiro. Em seus estudos preliminares sobre esse mundo que é mais mundo, evocou os filósofos e os mestres responsáveis por conformar o universo segundo a ótica e a percepção inauguradas pela civilização ocidental. Entretanto, o cânone a reger nosso planeta desde o malfadado advento da modernidade haveria de exigir do artista uma dramática virada conceitual, de modo a lhe permitir escrutinar as velhas estruturas de poder, voláteis e obtusas, apesar de sólidas em seus ostensivos marcos estruturais - espelhos da verticalidade científica e acadêmica.

Inicialmente interessado pelo conjunto de forças a comandar os destinos e os desfechos de nossa épica desventura sobre a Terra, o artista acabou por abandonar a escala global e, por consequência, a proposição de uma nova teoria sócio-política e simbólica, de proporções megalomaníacas, para realizar sua guinada iconoclasta rumo ao sul, um retorno aos trópicos maternos, o que lhe concederia o sabor da especulação acerca das realidades novomundistas - a exemplo do que fizera Levi-Strauss há quase um século atrás.  

Em seu novo contexto, banhado pela luz do sol e pelas águas equatorianas, Guerreiro do Divino Amor acabou por recobrar os olfatos e reminiscências da infância, bem como os medos, aventuras e fantasias que alimentaram sua sanha adolescente: sexo e religião embalados em um misto de euforia, transgressão e autoritarismo. E como das tensões é feito o mundo, e apenas a partir delas é possível dar o passo adiante, a reconstrução de suas próprias teorias, em solo brasileiro, aportou renovado fôlego às seminais especulações sobre as dinâmicas sociais e os abalos políticos experimentados pela humanidade.

Para enfim tangenciar a superealidade que nos põe em pé na extenuante jornada dia-após-dia, incorporou os pecados e os delitos locais, bem como os vernizes inescrupulosos de um país que insiste em fazer tábula rasa de sua experiência histórica e sempre aludir a um futuro prometido, embora jamais experimentado - daí derivam a máxima proferida pelo escritor Stefan Zweig, “Brasil, o País do futuro!”, e o bordão “50 anos em 5”, do presidente Juscelino Kubitscheck (responsável por construir Brasília neste exíguo espaço de tempo, cidade que, segundo o arquiteto Sérgio Bernardes, constituiu um fragoroso “tropeço histórico”, por N razões, entre elas a de apartar a população do eixo forte do Poder).

Já em pleno novo milênio, quando sabemos ser nossa democracia representativa uma falácia - como de resto boa parte das demais ao redor do globo -, e quando sabemos seguir sob os comandos das oligarquias que historicamente conduziram nossa pátria, bem como do monopólio midiático e de sua ardilosa disseminação das ideias reacionárias que hoje amalgamam a nação, resta imperioso buscarmos alternativas semânticas e simbólicas que possam dar conta do inferno no qual se converteu a realidade forjada por uma estrutura política fascista e velada, a qual segue pondo em marcha os sucessivos e reeditados projetos venais de poder - tudo isso para não falar no protagonismo da igreja evangélica no processo de submissão do povo às leis perversas da tributação imposta pelo “Divino”.

Superficções baixa sua lupa sobre o Rio de Janeiro, terra-síntese da brasilidade que oblitera o racismo, o preconceito e a truculência do Estado, aspergindo sobre o mundo seu antídoto à fúria das massas, e devolvendo a elas um painel cuja beleza de tintas tropicais revela-se tão sublime quanto ficcional. As categorias “sociológicas” de Guerreiro do Divino Amor vem solapar quaisquer planos de manutenção das esferas de poder outrora conhecidas, pois ele as substitui por novas, operantes abaixo e acima do reino dos meros mortais - seus efeitos gasosos e nefastos não mais podem ser sublimados, vem à tona como a lava dos vulcões, refletem alegoricamente o horror do andar de baixo, cegando, assim, quem sabe, os olhos embotados dos medalhões em seus barrocos camarotes funcionais.

Enquanto se insiste em viver no matrix da realidade inventada, sem sequer questioná-la, as superficções descortinam um novo universo, tão ativo quanto as forças de trabalho que geram as riquezas jamais vistas, sempre prometidas e nunca alcançadas. É tudo política, nos diz o Guerreiro!

Como uma espécie de esfinge com LSD na boca, ele nos indaga: abram os olhos e me respondam: ora lodo, ora purpurina, o que está a correr nas veias abertas do povo brasileiro?

 

As Superficções do Guerreiro do Divino Amor – branquitude, superhibernação e supermessianismo

Clarissa Diniz

Em que pese a responsabilidade de se pensar a colonialidade no Brasil – desmontando invisibilidades e reparando historicamente seus genocídios e epistemicídios –, fica cada vez mais patente a necessidade de endereçar-se não apenas ao outro do euroetnocentrismo, mas àqueles que, por seus privilégios, ocupam posições a ele contíguas. Problematizar e destituir a colonial supremacia da branquitude é inextricável do comprometimento em salvaguardar protagonismos e centralidades aos não-brancos. Na arte, a monopolização dos regimes de representação nas mãos de alguns implica, inevitavelmente, na manutenção da impossibilidade política da auto representação em geral e, com ela, na falência de qualquer representatividade. Nesse sentido, o exercício do direito à auto representação por parte daqueles que têm sido historicamente impedidos de acessá-la requer, dos que ocuparam a representação como ponto de vista, o dever de representarem a si e a suas perspectivas. Diante do despotismo de ter alçado a universal um único ponto de vista, canonizando-o enquanto a própria ideia de representação, demandar que representemos a nós mesmos parece eminentemente mais ético do que autoritário. Entretanto, é possível contar nos dedos quais são os artistas que, no Brasil, estão produzindo auto representações fora do espectro dos sujeitos cujas imagens lhes haviam sido saqueadas. Enquanto travam-se lutas pela presença de artistas negros ou indígenas e suas auto representações – ou quaisquer questões que lhes interessem para além da abordagem identitária – no âmbito da arte, em sua maioria, os artistas não-negros e não-indígenas se conservam estratégica e confortavelmente distraídos em relação ao dever político de se representarem sem ficcionalizar a coincidência de nossas imagens brancas, judaico-cristãs, patriarcais, etc, com a ideia da representação em si mesma. Sem rodeios: ainda hoje, a arte produzida no “miscigenado” Brasil não tem enfrentado a branquitude que lhe é constitutiva. É nesse contexto desértico que situa-se, por sua vez, a obra de Guerreiro do Divino Amor.

Superficções

Desde 2005, Guerreiro do Divino Amor vem realizando o projeto Superficções que, partindo de complexos urbanos, se lança sobre formas de organização social, política, econômica, religiosa, moral e cultural das cidades. Filho da ‘globalização’ e da internet, tem combinado a experiência de residir nos locais por ele ficcionalizados ao trabalho de um arqueólogo digital, que escava no emaranhado das informações da web as iconografias e os imaginários dos quais se apropria, num processo de criação em aberto que é continuamente atravessado por novos dados, configurando narrativas infinitas apresentadas em capítulos. Bruxelas, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte têm constituído, assim, diferentes portas de entrada dessa superficção que tem, como fundo, a aventura civilizacional. Não a reiteração do messianismo imperialista que anseia por hegemonia econômica, política e simbólica, mas sua problematização e sátira: é tomando o mapa mundi como pano de boca que Guerreiro do Divino Amor tem elaborado sua dramaturgia das disputas entre diferentes povos, nações, classes, grupos, indivíduos e as cosmopolíticas que nelas se chocam e que delas derivam. Colonizada pelos horizontes utópicos da harmonia social enquanto avançava o imperialismo e a expectativa de encontrar um paraíso perdido, a ficcionalização tornou-se refém tanto de um passado mítico quanto de um imaginário futurista. Vem contudo, se descolonizado desde que os édens não se mostraram localizáveis e, principalmente, quando os “bárbaros” que ocupavam as terras a ele imaginariamente destinadas insurgiram-se contra o projeto “civilizacional” euroetnocêntrico, desvelando sua ficcionalidade. Considerar ficcionais as bases epistêmicas, ontológicas e jurídicas de um mundo em franco processo de cataclisma é, evidentemente, libertar a ficção do cárcere da paz e criadoramente encarar a guerra, o apocalipse e outros fins já em curso, ficcionando o real para pensá-lo 1.

Guerra

Superficções fundamenta-se numa guerra primordial: o Superimpério versus a Supergaláxia. Ainda que assuma características específicas a cada capítulo, é, em linhas gerais, uma guerra entre “civilizações dicotômicas que lutam pelo controle do espaço e da mente dos humanos”. Enquanto a Supergaláxia se move por “impulsos descoordenados”, o Superimpério “é uma máquina de batalha racional, comandada por superconsórcios”, como revela Supercomplexo metropolitano expandido (2018), no qual São Paulo é apresentada em sua dimensão maquínica do poder, das carreiras, da meritocracia e do dinheiro. Nas disputas em jogo na pauliceia são obliterados e escamoteados os sujeitos sociais excluídos de seu projeto de sucesso: por isso, protagonizam o filme o projeto bandeirante, a escravidão, as igrejas, os jogos de sorte, os bancos, a mídia e o prefeito Dória, compondo a cartografia desse Supercomplexo interligado por superdutos e supervórtices que garantem seu funcionamento. Atento às representações de sua própria posição social, a Guerreiro interessa não só o escrutínio, como também a nominação dos sujeitos e das organizações que fazem funcionar os dispositivos de manutenção e de produção de poder que protagonizam seus filmes, dos quais os indivíduos oprimidos pelo Superimpério são, como fica também evidente em SuperRio (2015), vítima e infraestrutura.

Estética

Mais do que se apropriar de imagens recortadas de seus veículos originais e rearranjadas junto a outros elementos, nos filmes, painéis e publicações que compõem Superficções têm papel central os tratamentos aos quais são submetidas suas imagens, provocando-nos a simultânea familiaridade e estranhamento que são os fundamentos críticos do projeto. Por meio dessa estratégia de montagem se constitui – em dimensões tão objetivas quanto inconscientes – um dos terrenos centrais da batalha civilizacional entre o Superimpério e a Supercolônia: o estético. Como adverte Divino Amor, a dominação da civilização racional ambiciona “criar zonas de conforto (...) num mundo à própria imagem: liso, limpo”, por isso promovendo higienizações de toda ordem. O alvejamento social tematicamente presente em Superficções – e que em A cristalização de Brasília (2019) é metaforizado pelos vulcões de água sanitária espalhados pela capital brasileira, que embranquecem tanto as dimensões terrenas quanto espirituais da vida – é tensionado pela antieconomia estética das colagens que estruturam a narrativa dos filmes: instância onde as disputas estéticas das diferentes classes, raças e gêneros entram em evidência. Considerando que a guerra entre o Superimpério e a Supergaláxia assume feições de luta de classes, é fundamentalmente o “gosto burguês” que é a todo momento contraposto pela verborragia iconográfica dos filmes e dos painéis animados por mecanismos chineses, cuja totalidade fragmentária e assimétrica não anula, senão acentua, a dominação simbólica e a guerra cultural entre projetos civilizatórios. Em Supercomplexo metropolitano expandido, a perspectiva racionalista e ordenadora encenada pela voz em off que – maquínica e dessubjetivadamente – conduz o filme é posta em tensão por efeitos especiais aparentemente anacrônicos e por uma visualidade desobediente, excessiva, hipercolorida, que suspendem o caráter progressista e higiênico de sua retórica. Em A cristalização de Brasília, o ruído entre a lisura do tema e tessitura crítica do filme se dá com o sotaque goiano da apresentadora de traços indígenas, Sallisa Rosa, que percorre o Congresso Nacional num modelito rosa-choque; e, em SuperRIo, da imagem de uma mulher negra, Pahtchy, atuando como a “mulher do tempo”, uma histórica fetichização da branquitude machista. É também por sua inscrição no campo da arte que Superficções tensiona as disputas em torno da hegemonia simbólica, uma vez que ocupa o cubo branco e o campo social elitizado da “arte contemporânea” com imaginários que – como os anos 1980 com sua lycra neon, Xuxa ou o brega, o que nos dá a ver o bloco Bunytos de Corpo 2 – estão dele apartados por processos de distinção social, moral, cultural e política.

Messianismo

Em seu filme mais recente, Guerreiro do Divino Amor enfrenta a história da capital brasileira como ícone da branquitude messiânica. Em A cristalização de Brasília, a guerra entre o Superimpério e a Supergaláxia cede seu protagonismo para uma reflexão sobre o modus operandi da modernidade enquanto colonialidade, a qual, no Brasil, encontrou na década de 1950 seu ápice melancólico. “A superficção primordial da supernação é o supervazio”, narra o filme enquanto a voz de Vinícius de Morais declama os primeiros e constrangedores versos da Sinfonia do Alvorada (1961), composta a pedidos de Juscelino Kubitschek – “no princípio era o ermo”. No filme, a fundação e a construção de Brasília são relacionadas com a invasão do território indígena posteriormente batizado como Brasil pelos colonizadores portugueses. Alvejando com jato de água sanitária o lugar que considera supervazio, o gesto colonial ficciona como deserto o que historicamente estava a desertificar: “não havia ninguém / a solidão mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre o nada”, presume a poesia de Vinícius enquanto assume estar “tomando posse” do lugar ao nele assinalar “dois eixos que se cruzam em ângulo reto – ou seja, o próprio sinal da cruz”. A empreitada jesuítica e sua catequese, sua atualização desenvolvimentista na década de 1950 e seu ressurgimento messiânico na forma da neopentecostalização e da eleição de um autoproclamado messias para a presidência do país é o que o filme diagnostica como “febre bandeirante que se multiplica e hipnotiza, se propagando nos seres na forma de uma epidemia de Síndrome de Estocolmo”. Talvez porque crendo estar num deserto, criamos simpatia inclusive por aquilo que nos fere. Urge, assim, que floresçam as formas de vida que hibernam pelo medo de acordar.

Casa Niemayer, Brasília

MAP - Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte

MAR - Museu de Arte do Rio

MAB - FAAP São Paulo 

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