Aura gabriel nehemy

Gabriel Nehemy

São Paulo/SP, 1979. Vive e trabalha em São Paulo/SP.

Gabriel Nehemy é formado em Publicidade e Propaganda pela Fundação Armando Álvares Penteado. Em 2007 ganhou o prêmio aquisição no Salão de Piracicaba tendo sua obra na coleção permanente da Pinacoteca Municipal. Em 2014 foi um dos escolhidos para o programa de exposição promovido pelo ministério da Cultura de Ribeirão Preto, onde participou de exposição no Museu da cidade (Marp). Nehemy aborda em seus trabalhos questões como o desgaste, o tempo, o excesso de informações e o caos.



2007 - Salão de Piracicaba - Prêmio aquisição com a obra "Forest", Piracicaba/SP.

Exposições individuais

2017 - Do que não cabe na pintura, Galeria Aura, São Paulo, SP.

2016 - Aul, cinza, rosa, Dconcept Escritório de Arte, São Paulo/SP.

2010 - Mixed Media, Ribeirão Preto/SP.

 

Exposições coletivas selecionadas

2017 - Coletivo Paralelo, Galeria Euroart, São Paulo/SP.

2016 - Exposição obras de ficção, Galeria Art Hall, São Paulo/SP.

2014 - Artistas selecionados pelo programa de exposições promovido pelo Ministério da Cultura de Ribeirão Preto, MARP, Ribeirão Preto/SP.

2014 - Foto Formato, Galeria Pintura Brasileira, São Paulo/SP.

2013 - Artes e Ofícios 1 - Para todos (evento paralelo à 30ª Bienal de São Paulo), Galpão de Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo/SP.

2011 - Objetos para a arte, MARP, Ribeirão Preto/SP.

2009 - Recortes de um tempo e do momento - registros, memórias: três décadas de artes visuais em uma obra aberta: 79 > 09, MARP, Ribeirão Preto/SP.

 

Salões e residências:

2016 - Salão de Acerburgo, MG.

2014 - Salão MARP com participação das obras “Nothing is by chance” e “Aviator”

2007 - Salão de Piracicaba, Piracicaba/SP.

Do que não cabe na pintura​

Julia Lima, 2017

 

A suposta facilidade visual da pintura é uma ideia um tanto distorcida que figura em certos discursos sobre a história da arte, como se esse fosse o suporte mais instantaneamente palatável entre as possibilidades (i)materiais, cada vez mais radicais, que se apresentam na arte contemporânea. O advento da performance, da arte conceitual, da intervenção urbana não são suficientes para justificar a hipotética superação da mídia – que hoje pode se configurar como um campo aberto, do grafite e do pixo ao digital, passando pela gravura, pela fotografia e pela instalação. A arte é um organismo vivo, que se adapta, avança e darwinianamente sobrevive por sua capacidade de mutação, e essas transformações desvelam um imenso horizonte para a expansão dessa plasticidade, que ainda respira. Tal abertura, no entanto, não se apresenta como subterfúgio para dizer que tudo vale, mas sim que a lógica por trás do meio tem capilaridade e contamina outros suportes que são, assim, subvertidos e usados como sustentação do pictórico.

 

As obras de Gabriel Nehemy são pinturas mais que pinturas. As composições nos oferecem algo além da tela e tinta que, a princípio, não conseguimos identificar. As abstrações já foram incorporadas à nossa alfabetização visual e o estranhamento vem só ao perceber que existe algum excesso que não se manifesta nas perspectivas tradicionais da tela como janela para o mundo ou assumida como superfície, a gestualidade como expressão máxima. Em seu processo criativo, Nehemy pinta empregando um procedimento de colagem que mistura padrões geométricos e estampas, fotos e até tecidos, numa argamassa de pigmentos e texturas que confere corpo e relevamento à tela. Alguns trabalhos, como Entremeios, revelam pequenas aberturas para uma outra dimensão por entre a agitada composição: imagens fotográficas de componentes da arquitetura urbana em plena degradação, encontrados ao acaso, emergem (ou são engolidos) em um ou outro ponto do plano. Estrias negativas de cores vibrantes, feitas com máscara de fita adesiva – que ocasionalmente permanecem coladas, quase esquecidas – tentam estruturar os muitos elementos que convivem ali. Contudo, essa cacofonia visual e plástica ganha uma camada final, equalizada por apagamentos claros, brancos e beges que tentam abaixar o som e conter o que transborda.

 

Em certo momento, entre acúmulos de colagem e de pintura, impôs-se ao artista um impulso de retorno à ordem, o que o levou a dar meia volta e repisar as próprias pegadas – ele passou, então, a descolar toda matéria que havia sido adicionada junto da tinta, escavando e desenterrando os pedaços de papel e retalhos têxteis por debaixo das grossas massas coloridas e revelando os fundos. Em Da Lama ao Caos, a vontade de criar respiros disputa com a gana de interferir uma vez mais, e pinceladas brutas de tonalidade escura desenham uma topografia imaginada. Recorrentemente, Nehemy intercala pigmentos fluorescentes e tonalidades pálidas, criando tensões entre pulsos cromáticos contrastantes e entre a pincelada livre e a listra rígida. Em The Last Day, o artista apropria-se do trabalho de um outro artista como base para a ação do pincel. Confunde-se a matéria, mas nunca as cores e os gestos; as pinceladas largas e convulsas, o espaço negativo criado pela máscara de fita e a tonalidade fluorescente em inserções pontuais continuam presentes, costurando toda sua produção.

 

Os trabalhos presentes nessa exposição são manifestações de algo que extrapola e não cabe, como dois corpos que não conseguem ocupar um mesmo espaço. Daí o esforço, em determinado momento, de retirar tudo ao final, descamando a pele para revelar a carne. O que sobra é mais do que a superfície, é a presença da ausência que Gabriel Nehemy opera intencionalmente para ordenar e conviver com o caos.

 

Gerações

Mario Gioia, fevereiro de 2016

 

“O público geral segue desconcertado com o abstrato. ‘O que é isso?’é a pergunta à qual devem responder com frequência os professores e os guias de museu”1, escreve o teórico alemão radicado nos EUA Rudolf Arnheim (1904-2007), no ano de 1989. O incômodo questionamento do prestigiado pensador da arte pode ser estendido hoje, em 2016, frente à Azul, Cinza, Rosa, primeira individual do paulista Gabriel Nehemy na cidade onde mora.

Para a exposição na dConcept, o artista continua a persistir em um caminho afastado da figuração, mas é interessante como esses dois polos friccionam dados interessantes pelas salas da galeria paulistana, sediada em uma antiga vila projetada por Flávio de Carvalho (1899-1973). Nehemy tem obtido resultados interessantes nessa contínua levada, mas cada vez mais amadurece no sentido de ir em busca de uma poética mais fluida, por linguagens e plataformas variadas, não só com a pintura, mas com o desenho, a fotografia e a assemblage, por exemplo.

Azul, Cinza, Rosa ganha esse título por conta da apresentação, sucinta, de três séries pictóricas em que cada uma das cores é carro-chefe de um conjunto. Entre as três formações, há algumas desconstruções, em especial quando outro meio é utilizado, como o fotográfico e o gráfico. São como pequenas explosões, diminutas sabotagens, que servem não como uma avalanche a soterrar efeitos lineares, mas mais como pedras lançadas numa superfície d’água, impactando-a e talvez até turvando-a, porém sem deixar de conferir a ela todos os atributos líquidos e fundamentais que tal corpo pode ostentar.

Nehemy parece mais hábil em explicitar mais decisivamente  o que quer lidar de “assuntos pictóricos”. Não que o acidental não se manifeste, mas os campos de cor mais evidentes da série azul, os corrimentos em cinza e a verticalidade mais forte no recorte rosa fortalecem o discurso plástico-conceitual do artista. Ele então fica mais distante do azul corroído utilizado na construção de trabalhos anteriores, que algo se relacionava ao esgarçamento do tempo e a uma inexorável entropia pela qual materiais, formas, volumes e cromatismos mergulhavam, num caminho sem volta.

Ao mesmo tempo, por conta da textura do papel algodão que salta aos olhos na fotografia, o artista capta o vestígio e o indício tão importantes no meio, mas não se furta a trazer elementos pictóricos muito claros já numa primeira visada. Cruzando, assim, duas abordagens visuais e de suporte, isso tudo chega a uma configuração ainda mais complexa com os desenhos, em que linhas, traços e círculos realizados pelo grafite sobre o branco ganham, por exemplo, o advento do dourado e outros procedimentos que relacionam o gráfico ao tridimensional, sem esquecer o arcabouço pictórico em que tudo isso fora gestado. Gabriel Nehemy, portanto, consegue em Azul, Cinza, Rosa elevar sua produção a um patamar de contemporaneidade que transita pelo instável, pelo inquieto e pelo inconforme, qualidades hoje tão necessárias para que uma obra se realize – não sem salutares embates e conflitos.

1. ARNHEIM, Rudolf. Ensayos para rescatarel arte. Madri, Cátedra, 1992, p. 29

> Pinacoteca Municipal Miguel Dutra

> João Figueiredo Ferraz – Coleção particular

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