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Flora assumpcao aura

Flora Assumpção

São Lourenço/MG, 1983. Vive e trabalha entre Recife e São Paulo.

Artista graduada em artes visuais, com especialização em gravura (2008), e mestre (2012-14), com bolsa da CAPES no Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP e atualmente doutoranda (2015-2018) na mesma instituição.

Flora iniciou sua produção em artes por meio do desenho, da pintura e da gravura. Desde 2002, se interessa pela extensão da escala do desenho para o espaço arquitetônico e experimenta diversos materiais, técnicas e linguagens. A artista mantém reflexão e prática direcionadas à pesquisa em desenho e em ocupação de superfícies bidimensionais e objetos e, paralelamente, desenvolve projetos de instalações para arquiteturas específicas e de instalações para espaços expositivos, explorando a relação do desenho com escalas arquitetônicas para a criação de ambientes ficcionais com a intenção de provocar experiências imersivas de caráter poético.

Flora trabalha em suas obras de arte com temáticas relacionadas ao elemento natural e ao fantástico (sobrenatural), numa tentativa de reflexão sobre a atuação do humano diante do mundo natural. A natureza aparece na forma de criaturas (principalmente pequenos seres marinhos, répteis e plantas) e fenômenos naturais (como neblinas, tempestades, furacões, mares, nuvens, desertos, vulcões e luar) sob uma atmosfera misteriosa, insólita e fantástica trazida de lendas, mitos e contos populares do Brasil e do mundo. Este é um artifício para abordar outros assuntos além do que a situação ficcional apresentada propõe (assim como o fazem os contos de fadas e lendas). O humano aparece na relação visual estabelecida entre o corpo dos animais e o modus operandi dos fenômenos naturais com os mecanismos (máquinas) criados pela humanidade, em alusão à ideia de inevitabilidade da máquina artificial em copiar os mecanismos da natureza, pois todos os princípios foram criados antes pela natureza.

Em 2002, a artista recebeu o 1° Prêmio Projeto Nascente em exposição coletiva no Centro Cultural Maria Antônia. Nos anos seguintes, Flora realizou exposições em diversos locais, principalmente em São Paulo, entre estes, Paço das Artes, CCSP, MAC-USP, Instituto Tomie Ohtake, Galeria Emma Thomas e Galeria Gravura Brasileira, além de projetos de arte de intervenções urbanas em espaços públicos da Cidade Universitária (USP) e também em outras cidades como Itajaí-SC (12° SNAI), Belém (ArtePará 2010), Piracicaba-SP (42°SAC), Atibaia-SP, Fortaleza-CE, Belo Horizonte-MG e Vitória-ES. Em 2007, recebeu o Prêmio Destaque do Júri no 16° Encontro de Artes Plásticas de Atibaia e, em 2012, participou do 10° Salão Elke Hering, Blumenau-SC, no qual foi contemplada com o 1° Prêmio.

Em 2013, recebeu o Prêmio ArteRef de Arte Contemporânea e foi Selecionada pelo Edital SESI de Artes Visuais, além de realizar a instalação semipermanente “Drusa” na Galeria Emma Thomas e participar da Bienal Europeia e Latino-Americana de Arte Contemporânea (BELA Gravura) no Enokojima Centre for the Creative Arts, em Osaka, Japão. Em 2014, Flora participou da Residência Artística Vale do Ribeira e apresentou individuais no MAMAM Recife, Pinacoteca da UFAL e Galeria Emma Thomas. Participou da 1ª Bienal Sul-Americana de Gravura e Arte Impressa Rio/Córdoba (MHN-RJ 2014/Museo Emilio Caraffa 2015) e recebeu o Prêmio Funarte Arte Monumento Brasil 2016.

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2016 – Prêmio Funarte Arte Monumento Brasil 2016.

2014 – Indicada a Melhor Exposição do ano pelo Guia Folha de São Paulo, com a individual "Abrigo das Miragens".

2013 – Prêmio de Artes Visuais SESI-SP.

2013 – Prêmio ArteRef de Arte Contemporânea.

2012/2014 – Bolsa CAPES de mestrado na ECA-USP.

2012 – 1° Prêmio no 12° Salão Elke Hering, Blumenau/SC.

2010 – Finalista do Prêmio EDP Energias na Arte, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo/SP.

2007 – Prêmio Destaque do Júri, 16° Encontro de Artes Plásticas, Atibaia/SP. Obra em coautoria com R. Pera.

2004/2006 – Bolsa FAPESP de Iniciação Científica, Projeto pessoal de arte orientado pelo Prof. Dr. Tadeu Chiarelli.

2002 – 1° Prêmio "Visualidade Nascente 12", concedido pela USP em parceria com Editora Abril.

Formação acadêmica

2015/2018 – Doutoranda em Artes Visuais, Universidade de São Paulo, ECA-USP, São Paulo/SP.

2014 – Mestre em Artes Visuais, Universidade de São Paulo, ECA-USP, São Paulo/SP.

2008 – Bacharelado em Artes Plásticas - Habilitação em Gravura, Universidade de São Paulo, ECA-USP, São Paulo/SP.

 

Exposições e projetos individuais

2015 – A Natureza da Natureza, Projeto especial para a PARTE Feira de arte Contemporânea, São Paulo/SP. 

2014/2015 – Outras naturezas, outras miragens, Oficina cultural Oswald de Andrade, São Paulo/SP.

2014 – Abrigo das Miragens, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2014 – Rabo de Lagarto, Projeto Aquário, MAMAM, Recife/PE.

2014 – Miragens, Pinacoteca da UFAL, Maceió/AL.

2014 – Serpente-Anfíbio, das Criaturas Híbridas (ou Constrictor), Intervenção SESI Vila das Mercês, São Paulo/SP.

2013/2015 – DRUSA, Intervenção semipermanente na arquitetura da Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2013 – Serpente-Onça, das Criaturas Híbridas, Feira Parte, Paço das Artes/SP.

2013 – Divagações, Atelier A Pipa, São Paulo/SP.

2011 – ENCAPELADO (ou Contenções), Galeria Emma Thomas+Baró, São Paulo/SP.

2011 – JAULA, das Serpentes Reencarnadas, Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), Fortaleza/CE.

2011 – ÓBIDOS, das Serpentes Reencarnadas, Intervenção urbana no muro da Igreja da Prainha, Fortaleza/CE.

2006 – Desenho, Gravura, Pintura, Espaço Annablume, São Paulo/SP.

2006 – Araucárias, Programa de Exposições Individuais de Artistas da ECA-USP, Espaço Aliança Francesa, São Paulo/SP.

 

Exposições e projetos coletivos

2016 – 1a Mostra Itinerante de Arte dos Artistas Residentes de Ilha Comprida, Iguape, Cananeia, Vale do Ribeira/SP.

2014/2015 – 1ª Bienal Sul-Americana de Gravura e Arte Impressa, Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro/RJ e Museo Emilio Caraffa, Córdoba/Argentina.

2014 – 4th Edition My Paper Sunglasses, SomoS Art House, Berlim/Alemanha.

2013 – BELA Print (Bienal Europeia e Latinoamericana), Enokojima Centre for the Creative Arts, Osaka/Japão.

2013 – Projecto Multiplo, 'na Folhetaria', exposição de arte impressa, curadoria: Paula Borghi, CCSP, São Paulo/SP.

2012 – Trânsitos e Visualidades, Galeria de Arte e Pesquisa, UFES, Vitória/ES.

2011 – Diálogos do Moderno ao Contemporâneo, curadoria Rejane Cintrão, acervo do Banco Santander, São Paulo/SP.

2011 – III Feira de Arte Impressa, Galeria Vermelho / Tijuana, São Paulo/SP.

2010/2011 – II Feira de Arte Impressa e exposição coletiva, Galeria Vermelho / Tijuana, São Paulo/SP.

2010 – Exposição dos artistas finalistas do Prêmio EDP: Energias na Arte, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo/SP.

2010 – ARSENAL Emma Thomas, Coletiva das Galerias Baró e Emma Thomas, São Paulo/SP.

2010 – SP-ARTE, Feira Internacional de Arte na Fundação Bienal de São Paulo, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2010 – Mostra 10+20, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2009 – DEVICE (Rain of Nail Stars), Instalação para o stand da Galeria Emma Thomas, SP-Arte Foto 2009, São Paulo/SP.

2009 – OCHO Global&Colorful, Instalação, fachada Galeria Mini-Arte, Belo Horizonte/MG.

2009 – Cascavel II, projeto site-specific, coautoria com Renato Pera para o Atelier OÇO, São Paulo/SP.

2009 – Cascavel I, projeto site-specific, coautoria: R. Pera para stand da Galeria Emma Thomas, SP-ARTE, Bienal SP, São Paulo/SP.

2009 – COACOALCO (En la casa de la Serpiente), site specific, coautoria com Renato Pera, Exposição 1M, São Paulo/SP.

2009 – 10 Anos de Gravura Brasileira, Galeria Gravura Brasileira, São Paulo/SP.

2008/2009 – CROTALUS (versões I e II), site-specific, coautoria com Renato Pera, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2008 – MORNING STAR (Serpiente Emplumada), coautoria com Renato Pera, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2008 – Exposição coletiva de Gravura, The Pacific Northwest College of Art, Portland, Oregon/EUA.

2008 – WETBLUE – PaisagenSalgadas, Espaço Casa de Quem!, São Paulo/SP.

2007/2008 – 27 Formas – Exposição dos Formandos de Artes Plásticas do CAP/ ECA/ USP, Paço das Artes, São Paulo/SP.

2007/2008 – Boiruna maculata (Mussurana), coautoria com Renato Pera, Galeria Emma Thomas, São Paulo/SP.

2007/2008 – URUTU, Intervenção site-specific, coautoria com R. Pera, prédio central da ECA-USP, São Paulo/SP.

2007 – Buraco Negro, Projeto site-specific, coautoria com Renato Pera, Casamoda, São Paulo/SP.

2007 – Documentação dos Projetos 60% OFF e OFF, coautoria com Renato Pera, MAC-USP, São Paulo/SP.

2007 – Oniforma, curadoria de Claudinei Roberto e Eurico Lopes, Centro Cultural São Paulo (CCSP)/SP.

2006/2007 – Projeto OFF, Intervenção urbana, coautoria com R. Pera, Cidade Universitária (USP), São Paulo/SP.

2006 – Projeto 60% OFF, Intervenção urbana, coautoria com R. Pera, Cidade Universitária (USP), São Paulo/SP.

2006 – Coletiva de artistas da ECA-USP, Aliança Francesa, Unidade Brooklin, São Paulo/SP.

2005 – Exposição do Acervo do Espaço Coringa, São Paulo/SP.

2004 – Epopeia Paulista, Exposição permanente, Estação Luz de metrô e trem de S. Paulo,  trabalho coletivo criado e coordenado pela artista plástica Maria Bonomi.

2002/2004 – CAP002 / CAP003 / CAP004, mostras de arte dos alunos do Depto de Artes Plásticas da ECA-USP, São Paulo/SP.

2002 – Visualidade Nascente 12 – A Observação de um Estranho Mundo, Centro Universitário Maria Antônia, São Paulo/SP.

 

Residências

2014 – Residência Artística Vale do Ribeira - 3a Edição, Prefeitura Municipal de Ilha Comprida/SP.

 

Salões de arte

2016 – 44° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2015 – 43° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2014 – 33o Arte Pará 2014, curadoria: P. Herkenhoff, E. Chiodetto e A. Sobral, Fundação R. Maiorana, Belém/PA.

2012 – 10° Salão Elke Hering, curadoria: Agnaldo Farias, F. Lindote e Franzoi, Museu de Arte de Blumenau/SC.

2011 – 62° Salão de Abril, curadoria: Agnaldo Farias, Andrés Hernandez e Ana V. Maia, Fortaleza/CE.

2010 – 29° Arte Pará 2010, curadoria: Orlando Maneschy, Fundação Rômulo Maiorana, Belém/PA.

2010 – 42° Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (SAC), São Paulo/SP.

2010 – 12° Salão Nacional de Arte de Itajaí (SNAI), curadoria: Josué Mattos e Ricardo Resende, Itajaí/SC.

2007 – 16° Encontro de Artes Plásticas, Atibaia/SP.

2007 – 3ª Bienal de Gravura do Museu Olho Latino, Atibaia/SP.

2005 – 14° Encontro de Artes Plásticas de Atibaia/SP.

2005 – 33° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/SP.

2004 – 13° Encontro de Artes Plásticas de Atibaia/SP.

Abrigo das Miragens

Lucas Oliveira

 

A exposição 'Abrigo das Miragens', segunda individual da artista Flora Assumpção na Galeria Emma Thomas, apresenta um panorama de obras produzidas entre 2012 e 2014. Flora realiza um trânsito entre linguagens como desenho, gravura, fotogravura, vídeo, objeto e instalação. Além disso, recorre a outros recursos tecnológicos, a exemplo da gravação a laser e adesivos espelhados ou plásticos de usos cotidianos, que lhe permitem distender os limites entre as técnicas tradicionais e os materiais expressivos industriais. Cria corpo para que a solução material seja o elemento forte de conhecimento e aproximação dos trabalhos.

Nesse sentido, a ideia de “miragem” pode remeter a própria qualidade material, sendo ele o conteúdo essencial de si mesmo, norte da experiência de contato com este tipo de trabalho de arte. Aspectos ópticos da luz, como a refração, o brilho ou a textura das superfícies, o espelhamento, a imersão na cena, tudo contribui para ampliar os sentidos e traduzir um ambiente psicológico das obras, ou mesmo uma conversa com o espaço. Por outro lado, podemos entender “miragens” como uma condição ou metáfora inevitável das ilusões humanas. Afinal, o que são a curiosidade, o deslumbre e a ilusão se não sintomas do desejo?

Um dado a considerar é a influência vibrante da literatura fantástica, de autores como Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar e Gabriel Garcia Márquez, na trajetória da artista. Como eles, Flora cria simulacros, máquinas de criar desejo. Circulando pelo espaço, nota-se que seus experimentos circunscrevem mas não delimitam qualquer alegoria, criatura, corpo. A natureza e a máquina, no limite, seriam em seu trabalho apenas efeitos de uma percepção imediata, uma artimanha do pensamento para condicionar o sensível.

A exposição é aberta com parte da série 'Pequeno Compêndio das Tormentas (Furacões e Mares)', na qual a artista reelabora a combinação que talvez seja a mais forte de sua trajetória: a estética funcional da máquina da natureza e o imaginário fantástico. Flora trabalha sobre imagens do sublime, aquelas que submetem a humanidade à sorte das formas mais imensas e destrutivas da natureza. Nestas fotogravuras e fotografias, a artista se apropria de imagens retiradas da internet. Tensiona com o conteúdo sublime das tempestades, dos maremotos, editando e manipulando as imagens. Flora retira as imagens de sua condição pública e as sequestra para o seu laboratório, submetendo-as ao processo artesanal longo e delicado que é gravar uma fotografia em camadas, corroendo o metal. Lado a lado, as ondas gigantescas e as nuvens parecem sugerir que a grandiosidade e a violência desses fenômenos possuem uma dimensão intimista, privada, secreta. Como se fosse possível reduzir a sua fúria e estudá-la detalhe por detalhe, como uma célula ou sistema filosófico. Também o faz em 'Estrela de Gelo', em menor escala, adotando outras expressões e dimensões do fenômeno natureza com seus módulos delicados, porém violentos.

Da mesma maneira, os trabalhos 'Água viva', 'Animais Simbióticos' e 'Fósseis (Coleção I)' possuem um forte componente ficcional. São criaturas míticas cujo enigma está salvaguardado pela transparência intangível do interior do espelho ou pela segurança do cubo acrílico gelado e blocado. São espaços ao avesso que aprisionam os desenhos, criaturas, e nos informam de sua condição pela ausência e pela transparência. 'Fósseis', de maneira mais evidente, antecipam a noção de “máquina”, sempre presente na trajetória da artista e traz ainda o vestígio da morte associada à ideia de engrenagem, de maquinário, decorrente da observação e do uso que Flora faz de adereços do vestuário, malhas de metal, correntes, joias, bijuterias etc.

Extrapolando o plano bidimensional e trabalhando com o objeto, Flora nos brinda com uma amostra da série das 'Piscinas', uma transferência da iconografia e dos cenários ficcionais míticos, sagrados e fantásticos para uma experiência de contato com a natureza - a água - totalmente controlada, retraída. A água sem movimento é como o tempo parado, sem vida. Na contramão, 'Metamorfoses' é o ensejo que as arestas deste espaço arquitetônico reduzido necessitam para avivar os medos, que tomarão formas distintas a depender do espectador, com sua leitura daquilo que estaria além dos limites da parede ou do chão.

(Lucas Oliveira é artista, educador e pesquisador. Texto realizado em 2014.)

 

Outras naturezas, outras miragens FLORA ASSUMPÇÃO

Lucas Oliveira

 

Dando sequência às pesquisas desenvolvidas nos últimos anos, Flora Assumpção integra esta coletiva de exposições individuais explorando uma nova dimensão interpretativa de seu trabalho: a noção de paisagem como um constructo, um artifício da subjetividade que condiciona a percepção do espaço. Quer dizer, a paisagem como uma derivação de si. Entre vídeos, fotografias, gravuras, desenhos e objetos, Flora cria um ambiente psicológico de trabalhos que traduzem o que seria uma natureza dos próprios recursos materiais que utiliza, animados pela presença fantasmática ou alegórica de criaturas que nos trabalhos se corporificariam, a saber, paisagens condensadas ou criaturas de ânimo duvidoso.

O conjunto de trabalhos expostos representa mudanças de ponto de vista no trabalho da artista. Por um lado, alguns trabalhos acusam a vontade de olhar para o mundo e de condicioná-lo, de estudá-lo e sintetizar os mais escandalosos detalhes e suas diversas naturezas. A série 'Pequeno Compêndio das Tormentas (Furacões e Mares)', reelabora a combinação que talvez seja a mais forte de sua trajetória: a estética funcional da máquina da natureza e o imaginário fantástico. Flora trabalha sobre imagens do sublime, aquelas que submetem a humanidade à sorte das formas mais imensas e destrutivas da natureza. Em 'Salar' e 'Montanha construída', além de aliar-se a uma tradição imagética latino-americana, a artista propõe que as experiências corporais e de percepção visual sejam o parâmetro do espectador para transportar-se para esses espaços, fazendo do corpo a régua para medir e provar uma geografia. Novamente, retira-se da natureza alguns elementos, alguns detalhes que permitem internalizar a referência da paisagem e do espaço, fazer deles um exercício ficcional e de percepção.

As séries 'Engrenagens', 'Serpentes Negras' e 'Spectros' são aquelas que, de maneira mais evidente, antecipam a noção de “máquina”, sempre presente na poética de Flora. A ideia de engrenagem, de maquinário, decorre da observação e do uso que Flora faz de adereços do vestuário, malhas de metal, correntes, joias, bijuterias etc. É importante considerar também que há aqui uma influência vibrante da literatura fantástica de autores como Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar e Gabriel Garcia Márquez. Criam-se simulacros, máquinas de criar desejo. Da mesma maneira, as séries 'Animais Simbióticos' e 'Fósseis' possuem um forte componente ficcional. São criaturas míticas cujo enigma está salvaguardado pela dimensão do espelho, pela segurança do cubo acrílico gelado.

Em sentido talvez oposto, a artista se volta contra este olhar para fora, para nutrir-se de experiências privadas, íntimas, secretas. Nas séries 'Spectro' e 'Animais Simbióticos' e em 'Água viva', encontramos imagens de criaturas que parecem misturar-se à superfície das folhas de ouro, prata ou com a gramatura do espelho. Um momento único ou um instante vertiginoso com cada imagem? Não são gravuras, não são objetos, mas um encontro, um tensionar entre a sedução da matéria e o movimento ruidoso da forma.

Extrapolando o plano bidimensional e trabalhando com o objeto, Flora nos brinda com uma amostra da série das 'Piscinas', uma transferência da iconografia e dos cenários ficcionais míticos, sagrados e fantásticos para uma experiência de contato com a natureza -a água- totalmente controlada, retraída. A água sem movimento é como o tempo parado, sem vida. Com um horizonte fugidio, os vídeos 'Desfiladeiros', antes apresentados na instalação 'Vertigem do Mar' respondem a essa paralisia com a expansão do tempo, uma experiência de imersão corporal sem fim.

Nos trabalhos inéditos “O pagode de Babel”, inspirado no conto de G.K. Chesterton, e 'Ostra', Flora parece ter retirado da gaveta das 'Pequenas criaturas' estes objetos domésticos, metálicos, côncavos. É de se suspeitar de uma ironia na exposição conjunta destas duas peças: aparentam te convidar ao toque, a se deixar confundir por sua funcionalidade, ao tempo em que as pequenas engrenagens esperam o momento de prender-se e flagelar o corpo daquele que se deixar seduzir. Segredos de estranha natureza escondidos sob a gaveta do aparador, desta vez travestidos em miniaturas.

(Lucas Oliveira é artista, educador e pesquisador. Texto realizado em 2014.)

 

Of snakes, mythology and Aby Warburg: studio visit with Flora Assumpção

Stefanie Hessler

 

It is a hot São Paulo spring day when I visit Flora Assumpção in her studio. I had seen her work in August 2010 at Galeria Emma Thomas and Baró in São Paulo, where I went for an event titled “The Creators Project“. In the midst of the flurry of open bar, concerts and new media projects, during a calm moment outside in the patio, I saw her giant silver snake on the wall surrounding the outside of the gallery space. From inside the gallery, visitors could already see it through the large glass facade opening up to the patio of the industrial building. During my research, I found out that Flora was the artist behind this piece and I wanted to meet her to know more about her work. So here I am at her studio, which smells of the delicious cake Flora is baking.

She explains how she came to working with the snakes as one of her major visual forms and distinctive mark and how this reptile‘s symbolic and mythological attributions are connected with that decision. Flora used to draw the hand rails of São Paulo busses and how they wind like snakes through the public transport systems of this city and any other city in the world. The serpent is perceived as the sinful creature who offered Eve the forbidden fruit and led to mankind‘s expulsion from paradise, but also as mythological being. It was held sacred in the ancient world and believed to be immortal due to its moulting and the capacity to regrow its skin, making it the sign of pharmacies and healing today, and perceived as a clever, ambiguous, deceitful creature. Flora explains that her use of this imagery is as rich and pointing to several subjects and topics that are as multifaceted as the meanings and significations this reptile stands for.

She uses this metaphor to conceive intriguing photographs that leave the viewer in the uncertain of whether they have been digitally altered and how the pictures come into being. I am puzzled and amazed when Flora pulls out some old necklaces she has inherited from her grandmother or bought on flea markets and explains that these are the originals for the photographs she takes. I marvel at these common and quite plain objects, that obviously open up for a much greater visual potential than it may seem. Between a shiny consumer object and containing a supernatural and phantasmatic twist, they are intriguing visual expressions between the abstract and the very concrete.

In her outdoor pieces, the snakes are installed on walls without any backdrop other than the subsurface they are placed on. This deprives them of their pictorial character, becoming almost three dimensional invaders of the real world, claiming and demanding the visual attention of anyone near them. In some cases they even resemble sculptures rather than photographs, leaving the viewer in surprise when coming closer and realising that it was due to the glass wall in front of them that the photographs appeared to be sculptural entities. In a beautiful contrast to them stand Flora‘s simple line charcoal drawings, and her artist books that fluctuate between art objects and sketch-book, and which string together series of colour-manipulated photographs.

The mythos of the snake has manifold references in art history and mythology: Hercules, the Greek hero who stands for strength and courage, is said to have strangled the snakes that his mother Hera sent to the children‘s room. German art historian and cultural theorist Aby Warburg (1866-1929) was fascinated by the Native American Hopi who made images and pictures of snakes, allowing them to create a mental distance to the creatures and thereby overcome their deadly fears, so they could even take the poisonous reptiles into their mouth. Warburg was fascinated with the power of symbols and the field of tension between the human fear of demons and how they - by making images and symbols of them - managed to get over them. It is an interesting turn to think of how Flora blows up the photographs of something as trivial as a silver chain necklace to the size of a menacing snake, changing its materiality, meaning and thereby also its potency.

(Texto realizado em 2011, disponível em: http://bit.ly/1OxQqwo )

><  PISCINA (Troféu-Monumento), obra pública (obelisco), Acervo Municipal de Guarulhos/SP.

>< Spectro IX a XII, Acervo da Bienal Internacional de Guanlan, China.

>< Engrenagem II (Rastejante), Acervo da Pinacoteca da UFAL, Maceió/AL.

>< Spectro VIII (Argentum serpens), Acervo Cabildo Insular de La Palma, Espanha.

>< Serpentes de Marfim I e Copper Serpents III, das Serpentes Fantasmas, Acervo Museu de Arte Blumenau/SC.

>< Documentação dos Projetos 60% OFF e OFF, coautoria R. Pera, Acervo Municipal de Atibaia/SP.