Favicon 1cb4489fb8f184406263c976f23e6ccba48662de2a4c7065632fd05b7305879a
Foto do perfil 1

Fabiano Devide

Florianópolis/SC, 1974. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

As obras do artista disponíveis no Aura apresentam personagens imersos em ambientes arquitetônicos de tonalidades frias, compostos por uma paleta de cinza, preto e azul. Esses personagens surgem como esboços, possibilitados pela técnica de impressão com carbono. O desaparecimento de detalhes, a simplificação de retratos, originalmente obtidos pela fotografia, leva a uma destituição das identidades. Tornam-se planos brancos, neutros, enclausurados numa temporalidade suspensa. Já as aberturas azuladas parecem como uma espécie de elo entre duas regiões, entre aquilo que é visível e o inalcançável. Mas presos em situações estanques, melancólicas e vazias, parecem incapazes de se libertarem. Ainda, há obras com ambientes inabitados, onde a volumetria dessas construções e suas passagens são ressaltadas.

Fabiano Devide possui formação artística na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV-RJ), onde recebeu orientações de João Magalhães, Charles Watson, Ivair Reinaldim, Daniel Senise, Suzana Queiroga, Paulo Sérgio Duarte, Luiz Ernesto, entre outros. Participou do Grupo de Estudos Ivair Reinaldim e mantém o site www.fabianodevide.blogspot.com desde 2010, onde escreve sobre arte contemporânea e o próprio processo criativo. Entre exposições individuais, coletivas e participações em salões de arte contemporânea, expôs nos estados do Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás e Pará.

Work dsc04488
Work dsc04486
Work dsc04487
Work dsc04485

Exposição individual

2011 - Híbridos, Galeria Café, Rio de Janeiro/RJ.

 

Exposições coletivas

2012 - Afinidades: a escolha do artista, Caza_Arte_Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ. Catálogo disponível em: http://bit.ly/1KAdFGR

2012 - Experiência Pintura, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ. Catálogo disponível em: http://bit.ly/1Ey5Zwt 

2013 - Until The End Of The World, Circuito Oriente, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Coletiva Caza_Arte Contemporânea, Café Baroni, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Opening, Orlando Lemos Galeria, Belo Horizonte/MG.

2014 - Como refazer o mundo, Galeria Luiz Fernando Landeiro, Salvador/BA.

2014 - Pintura!, Galeria Solar Meninos de Luz, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Mais Pintura, Espaço Cultural Contemporâneo ECCO, Brasília/DF.

2014 - Mais Pintura: Primavera, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ.

 

Salões

2012 - 18⁰ Salão Unama de Pequenos Formatos, Galeria Graça Landeira, Belém/PA.

2012 - 42⁰ Novíssimos 2012, Galeria IBEU, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - 12º Salão Nacional de Arte de Jataí”, Museu de Arte Contemporânea de Jataí, Jataí/GO.

Híbridos

Jozias Benedicto

 

A investigação de Fabiano Devide aborda questões associadas ao corpo, gênero e identidades, com vistas a dialogar plasticamente com uma temática que inicialmente estuda no campo acadêmico da Educação Física, onde possui mestrado e doutorado; e posteriormente no das Artes Visuais. Vem participando de diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) desde 2009, onde teve orientação de João Magalhães (Pintura II), Pedro França (História da Arte Contemporânea), Charles Watson (Processo Criativo), Ivair Reinaldim e Daniel Senise (Módulo Avançado de Pintura) e Suzana Queiroga (Experiência em Pintura II). Ao expor suas pinturas que tematizam as questões de gênero e identidade em um espaço alternativo ao circuito institucional de arte – o cubo branco da galeria - o artista busca ampliar o alcance de sua pesquisa. As pinturas que Fabiano expõe em Híbridos representam dois momentos de sua investigação (2010-2011). Atualmente os trabalhos exploram uma densidade cromática específica, a partir da fusão de etapas e camadas de cor, que colabora para a construção de um clima psicológico dramático. Os trabalhos apresentam imagens de práticas corporais de reserva masculina (luta), transpostas do suporte da fotografia para a pintura. Os corpos em movimento, fusão, dominação e submissão, ancoram sentidos de uma masculinidade hegemônica, que submete outras masculinidades, plurais, transitórias e contingentes. Esses corpos surgem em figuras híbridas, que exploram a continuidade e a fluidez da imagem, produzindo incertezas sobre onde começa e termina cada personagem, cujo vigor é reforçado pelo gesto vigoroso do artista, com pinceladas amplas que moldam espaços com sombras, congelando o tempo da vitória ou da derrota. Que lutas são estas, onde vencidos e vencedores se amalgamam? Que possibilidades existem para a construção de novas masculinidades, que não aquelas subordinadas à masculinidade hegemônica imposta? As pinturas de Fabiano não querem ser mero objeto de contemplação, mas discutir estas e outras questões com seus espectadores.

(Texto de 2011, Rio de Janeiro/RJ.)

 

Novíssimos

Bernardo Mosqueira

 

A pesquisa de Fabiano Devide inicialmente explorava as relações entre corpo, gênero e práticas corporais, com foco nas masculinidades e nos esportes. A partir dessas investigações, os trabalhos indicaram aberturas. Os rígidos instantâneos de corpos ativos, em movimento, deram lugar a uma aura silenciosa e introspectiva para corpos passivos, estáticos, em reflexão. Organizados em dípticos ou trípticos, os trabalhos apresentam figuras sem identidade que provém de fotografias produzidas pelo artista no seu convívio pessoal. Os cantos marcados e as formas de janelas azuis recorrentes surgiram no momento em que o silêncio que guia sua atual produção encontrou reverberação na discussão sobre arquiteturas opressoras, intensificando as sensações de desaceleração, contemplação e espera além de tangenciar a morte, a passagem do tempo e a espiritualidade.

(Texto de julho de 2012 para o Catálogo do salão 42 Novíssimos, Rio de Janeiro/RJ.) 

Conversando sobre Arte com Fabiano Devide

Excertos da entrevista cedida ao site Art&Arte, organizado por Marcio de Oliveira Fonseca, 2011, Rio de Janeiro/RJ.

 

[...] Fabiano, fale algo sobre sua vida pessoal.

Nasci em Florianópolis, em 1974. Transitei por cidades do Sul do país [...] em função da profissão de meu pai, que retornou ao Rio de Janeiro com a família na segunda metade da década de 1980. [...] cursei o ensino fundamental e médio, me interessando pelas atividades relativas às Artes e aos Esportes. [...] cursei Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro [1992-96], seguindo carreira acadêmica [...] com mestrado [1997-99] e doutorado [1999-2003] em Educação Física e Cultura, desenvolvendo pesquisas em Estudos de Gênero. Atualmente sou professor adjunto Instituto de Educação Física da Universidade Federal Fluminense (IEF/UFF) [...].

 

Como foi sua formação artística?

Minha relação com a Arte iniciou em 1985, quando meus pais me inscreveram no curso de pintura [...], em Curitiba. No ano seguinte, continuei estudando pintura no ateliê de José Ramon e desenho com Ronaldo Antunes, em Teresópolis, quando interrompi as atividades. Retomei [...] em 2009, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Pq. Lage), no Rio de Janeiro. Cursei “Pintura II”, com João Magalhães [...], “História da Arte Contemporânea”, com Pedro França; “O Processo Criativo”, com Charles Watson; e o “Módulo avançado de pintura”, com Ivair Reinaldim e Daniel Senise, onde iniciei um projeto em investigação que mantenho no curso de “Experiência em Pintura II”, com Suzana Queiroga. Também participo do Grupo de Estudos de Ivair Reinaldim, onde as leituras sobre Arte e Filosofia, História da Arte e Crítica de Arte têm conferido maior densidade à investigação em termos conceituais relativos ao processo criativo.

 

Você tem pós graduação em Educação Física, o que motivou a mudança para arte?

[...] Quando ingressei na EAV, já conhecia a dinâmica organizacional da instituição, assim como sua relevância na formação de artistas brasileiros. A atuação no meio acadêmico, sobretudo no contexto da pesquisa, contribui para manter as leituras sobre Arte paralelas ao fazer artístico. Sendo assim, há muito discurso teórico por trás do que tenho produzido em pintura e em projetos rascunhados que ainda não executei, mas que dialogam com os Estudos de Gênero nos quais produzo pesquisa no âmbito acadêmico.

 

Que artistas influenciaram seu pensamento?

Gosto do trabalho de diversos artistas [...] artistas que tenho pesquisado por possuírem trabalhos com diversos mediums, e tangenciarem a temática da investigação atual, são os brasileiros Leonilson, Alair Gomes, Alex Flemming, Gil Vicente, Marcelo Amorim, Fábio Barolli, Fábio Carvalho; além de David Hockney, Eric Fischl, Lucien Freud, Rainer Fetting, Francis Bacon, Oldrich Kulhanek, Paul Cadmus, Mapplethorpe, Elizabeth Peyton, Collier Schorr, Yvon Goulet, Duane Michals, Cole Robertson, David Trullo [...].

 

Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?

Minha história de leitura no campo dos Estudos de Gênero influencia diretamente a investigação atual. A questão norteadora que problematizei [mas vem se ampliando] estava relacionada às práticas corporais que se configuram, paradoxalmente, como um espaço de construção da masculinidade hegemônica, e de produção de imagens com teor homoerótico. Como a arte contemporânea [a pintura] pode levantar questões sobre os mecanismos pelos quais esse paradoxo se manifesta no cotidiano? [...] compartilho de que não há uma “verdade” ou sentido a priori na obra do artista, optando por interpretá-la como “fluída”, no sentido conferido por Zygmund Bauman; de forma que a mesma não tenha a intenção de dizer algo “fechado”, pois essa produção de sentidos ocorre no diálogo entre a intenção do artista e a história de leitura do espectador, a partir de uma lógica “aberta” e “plural”, conforme a argumentação de Danto. Por isso busco uma pintura que possa despertar no espectador mais do que a primeira leitura, presente em sua superfície.

 

Como você descreve seu trabalho como artista?

Tenho me dedicado prioritariamente à pintura. Penso que meu trabalho de pintura está na “infância”, em amadurecimento e processo, necessitando foco e dedicação. Trabalho a partir da apropriação de imagens – uma característica da obra de artistas contemporâneos sobre a qual tenho refletido com mais atenção. A maioria das pinturas surge de fotografias, que “coleciono” e organizo a partir das possíveis relações com as questões da minha investigação. [...] Meu processo utiliza a manipulação digital da imagem, sua impressão sobre papel, um desenho sobre transparência a partir da imagem impressa e a projeção desse desenho. Nesse processo, a imagem inicial é subtraída em diversos elementos, de acordo com minhas intenções em relação ao trabalho, no intuito de potencializar as questões inerentes à investigação no campo das questões de gênero, corpo e masculinidades.

 

Qual sua opinião sobre os salões de arte? Algumas sugestões para aperfeiçoá-los?

Hoje interpreto os Salões de Arte como uma estratégia de ingresso dos novos artistas no cenário das Artes Visuais [que também inclui as galerias], no intuito de conferir visibilidade ao seu trabalho, tanto em nível local, como nacional. Entretanto, é notório que “novos artistas” [iniciantes], enfrentam dificuldades para tal inserção, por não terem participado de Salões anteriormente. Entretanto, [...] a Arte pode –e deve – ocupar espaços que extrapolem o Cubo Branco, no sentido de diálogo com outros públicos que também consomem arte, de formas distintas, por outros “canais”, que não a galeria, o museu ou os eventos como uma Bienal. Vide o advento das galerias virtuais [...]. Esse também foi um dos motivos pelo qual optei realizar minha primeira exposição individual – Híbridos - num espaço não institucional [...].

 

O que você pensa sobre as Bienais e Feiras de Arte?

Acho que as Bienais e Feiras de Arte têm objetivos distintos e devem existir. Em recente visita à Bienal do Mercosul, em Porto Alegre; e à Feira ArtRio, percebi as particularidades cada evento, em termos de montagem, público, objetivos etc. José Roca, em seu texto intitulado “Duodecágolo”, lista vinte características de uma Bienal de Arte, entre as quais, a de número 12: “Uma Bienal não é uma feira de arte: Os artistas não devem estar isolados cada um no seu espaço como se fosse um estande de feira comercial. Suas obras devem estar em um diálogo espacial; esse texto resultante é o que denominamos curadoria”. Feiras são relevantes e têm o seu papel no comércio da arte, desde que nós, personagens que ocupam esse cenário em diferentes posições sociais e relações de poder [artistas, críticos, galeristas, curadores etc.], tenhamos uma reflexão crítica sobre a expressão de cada um dos eventos, distanciando-nos, por exemplo, da idolatria, no sentido conferido por Vilém Flusser; e de certo grau de fetichismo em relação às imagens circulantes na arte contemporânea, que numa “sociedade do espetáculo”, assumem projeção planetária, o que inclui, também, o valor conferido à obra de arte [mas isso é outro debate].

 

Você escreve sobre seu trabalho?

Passei a escrever sistematicamente sobre o meu trabalho em 2010 [...] construí um projeto de investigação a ser desenvolvido no ano e, pela primeira vez, assumi a responsabilidade de interlocução entre a minha produção acadêmica e as Artes Visuais. Construí um Blog [www.fabianodevide.blogspot.com] onde passei a postar imagens e textos sobre meu processo criativo [...]. Atualmente, o Blog tem se tornado um espaço [..] onde cada vez menos posto imagens e textos sobre meu trabalho, optando por postar notas sobre textos teóricos que leio, imagens de exposições, Feiras e Bienais que visito [...].

 

É possível viver de arte no Brasil?

O cenário das Artes Visuais [...] está em expansão se comparado com a década anterior. [...] Mas é preciso cuidado ao associar a expansão de espaços que comercializam arte, com a conseqüente venda de obras de artistas, pois ainda é comum assistirmos galerias que não se sustentam no mercado e artistas que abandonam suas profissões e após alguns anos tentando viver do trabalho com a Arte, retomam antigas atividades. Nesse cenário, os mais persistentes e com um trabalho denso, tendem a se inserir e prosperar. Mas são necessárias condições para que o artista possa se dedicar integralmente a sua obra - um privilégio de poucos. [...]

 

O Brasil já tem condições de concorrer no mercado internacional de arte?

Poucos artistas brasileiros estão inseridos no mercado internacional com visibilidade. Temos expoentes com expressão, como A. Varejão, B. Milhazes, Ernesto Neto, Cildo, Oiticica, M. Schendel. É gratificante estar visitando instituições no exterior e se deparar com a obra de um brasileiro/a. Mas são exceções que não retratam a realidade dos milhares de artistas e do mercado de arte Brasil. É preciso refletir sobre o escasso incentivo às Artes Visuais no país, que se inicia na infância, nas escolas, onde o componente curricular das Artes não recebe a devida relevância na formação dos alunos/as. Isso se reflete num público que não valoriza a Arte, não será consumidor de arte, não buscará instituições para se deparar com a experiência estética de olhar e sentir uma obra de arte. A realidade de alguns museus no exterior é de filas diárias para acessarmos seus acervos [...], enquanto no Rio e São Paulo, o MAM e o MASP, apesar de um acervo representativo e de sediarem exposições internacionais importantes, estão esvaziados de espectadores. [...]

 

Quais são seus planos para o futuro?

[...] No campo das Artes Visuais, pretendo manter os estudos e o diálogo com professores e artistas que possuem um processo que dialoga com o meu. Considero que visitar os eventos [exposições, Bienais e Feiras] é uma experiência importante na formação. No mais, busco construir um trabalho denso e, sobretudo, sincero com meus objetivos, independentemente do mercado. [...]”

(Entrevista completa disponível em: http://bit.ly/1BpELYU )

 

Excertos da entrevista ao site COOOSMO Arte Contemporânea, com Bruna Bailune, 2012, Rio de Janeiro/RJ

 

O trabalho de Fabiano Devide se desenvolve ao redor de um tema central: o corpo, as questões de gênero e o comportamento humano. Fabiano é professor adjunto do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, onde desenvolve pesquisas na área de Estudos de Gênero no âmbito do esporte no Brasil. Após anos construindo uma vida acadêmica sólida, Fabiano retomou os estudos nas artes visuais, desenvolvendo sem pressa sua linha de pensamento plástico, que conversa com as experiências vividas em seu cotidiano ou sua profissão. O professor e artista nos recebeu em seu apartamento, em Botafogo, onde mantém seu ateliê.

 

Cooosmo – Conte um pouco sobre sua formação e seu início nas artes visuais.

Eu comecei a pintar aos 11 anos, em Curitiba. Na escola, gostava das aulas de educação física e educação artística, nas quais me destacava. Meus pais então me matricularam no ateliê de pintura a óleo da artista Consuelo Fabrino, um curso de certa forma “acadêmico”. Olhávamos as fotos de uma pintura e tentávamos reproduzí-la numa tela pequena. Foi minha primeira aproximação com a atividade artística de forma sistemática [...]. Depois nos mudamos para Teresópolis e lá eu entrei para o ateliê de pintura do artista José Ramon, momento que também comecei a ter aulas de desenho com o artista plástico Ronaldo Antunes. As aulas eram mais organizadas e tínhamos um encontro semanal que tratava de uma técnica diferente: desenho a carvão, aquarela, pintura com acrílica… Mas paralelamente, aumentava meu envolvimento com as práticas esportivas e acabei me dedicando mais nesta área. Foi quando ingressei no curso de Educação Física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a arte ficou em segundo plano. Segui a carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado e passei a fazer uma investigação na área de Estudos de gênero no esporte, uma área relativamente nova no Brasil.

 

Cooosmo – E do que trata exatamente esse estudo?

São estudos que visam discutir as relações entre os sexos na sociedade, atravessadas por relações de poder. Nesse contexto, me interessa o processo de construção das identidades de gênero masculina e feminina, especificamente, no contexto do esporte. [...]

 

Cooosmo – Em que momento você retomou as práticas artísticas?

Quando me mudei para o Rio, conheci amigos que passaram pelos cursos do Parque Lage. [...] em 2009 eu já tinha entrado no Parque Lage e já vinha sofrendo um processo de contaminação. Meu olhar estava mudando e sentia que perdia a ingenuidade em relação ao que eu entendia como arte. [...] Como eu não tinha lastro de teoria e História da Arte, senti que precisava estudar. Passei a comprar livros e fazer cursos teóricos, como o Processo Criativo, com Charles Watson; e História da Arte Contemporânea, com Pedro França. Nessa época [...] passei a encarar o trabalho artístico com mais dedicação. [...] iniciei uma investigação plástica direcionada [...]. Resolvi tratar no contexto da pintura, de questões que eu discutia no meio acadêmico. [...] Comecei a desenvolver um trabalho que tinha como objetivo explorar as relações entre gênero e identidades masculinas nas práticas corporais. Queria problematizar com a pintura, a questão do cruzamento de fronteiras: a luta como uma área de reserva masculina, mas que produz cenas que podem gerar uma interpretação plural; e a dança, que historicamente é uma área da reserva feminina, na qual os homens se inserem e por vezes, enfrentam uma série de preconceitos. Depois deste estudo, desenvolvi uma série que eu chamei de “Silêncios” [...]. Considero este momento um divisor de águas na minha recente trajetória, quando meu trabalho, de fato, passou a amadurecer e desenvolver uma linguagem. Os personagens que apareciam nos trabalhos anteriores em posturas ativas de luta ou de dança, começaram a aparecer sozinhos, estáticos, numa situação de reflexão e numa atmosfera fria. A paleta de cores do trabalho começou a se direcionar para os tons de cinza e azul… No fim daquele ano de 2011 [...] produzi alguns desenhos com impressão de carbono e quando retornei às aulas comecei uma série nova que mantinha essa a paleta de cores (cinza e azul) ainda com os personagens num certo isolamento, mas agora também em situações de confinamento. [...] Depois de desenvolver esses trabalhos passei a enviá-los para diversos salões e em 2011 começaram a ser selecionados [...].

 

Cooosmo – E como consequência…

[...] busquei manter duas frentes de trabalho: continuo com a investigação dessa série que eu chamo de “Janelas”, e retomei a pesquisa das práticas corporais, ainda discretamente. Comecei a observar algumas posturas dos atletas, ainda relativas ao tema da identidade masculina, que acho, os associam a uma condição de imortalidade ou do herói. Adquiri algumas fotografias que representam essas cenas no futebol e estou começando a intervir nelas com “máscaras”, para falar sobre questões como a memória e o desaparecimento (ou a morte). [...] Tem uma relação com a questão do vanitas na história da pintura, pois simbolizam o apagamento da memória, o apagamento da imagem do herói personagem da fotografia que passa a ser anônimo. [...] Essa reflexão, na realidade, não é recente no meu trabalho. Fiz um trabalho semelhante em 2009, com intervenções em fotos antigas de família [...]

 

Cooosmo – O meio acadêmico contribuiu para você se transformar num artista mais organizado e metódico?

Na verdade não é uma questão de organização, são tentativas de relatos. Escrever sobre o processo antes de desenhar para mim é muito importante, pois entendo melhor o que estou fazendo, desenvolvo um discurso. Mas para outras investigações o desenho é a melhor ferramenta. Por exemplo, agora estou tentando transformar os desenhos da série “Janelas” em objetos tridimensionais, que é uma coisa que eu nunca fiz. Para esses casos é importante projetar, desenhar. Comecei construindo caixas-projeto de papel cartão imaginando diferentes ambientes, mas agora estou fazendo o inverso: a partir do ambiente tridimensional presente nos desenhos, vou construindo essas espécies de maquete dos espaços. [...]

 

Cooosmo – Sobre a paleta de cores do seu trabalho, a presença constante do azul e esse quê de penumbra…

Uma fantasmagoria. Isso é intencional. Porque nos desenhos dessa série eu não preencho os personagens. Todo campo do espaço, do chão e das paredes é preenchido com tinta e dos personagens não, exatamente para falar do esvaziamento, daquele sujeito anônimo que está retratado ali e a não atribuição de nenhuma identidade a ele [...]

 

Cooosmo – E quanto ao processo de materialização das idéias?

No início pesquisava imagens na internet, principalmente durante esta fase da investigação das questões das práticas corporais relacionadas às masculinidades. Depois de algum tempo, passei a fazer fotos de cenas cotidianas [...] com meu celular e que dialogavam com a minha investigação [...]. Mas quando passo a cena para o desenho, retiro o contexto espacial e permanece só o personagem na sua posição original. [...] E entra aí a questão da arquitetura, do ambiente fechado. Acho que na verdade não existe uma zona de conforto, estou sempre em desequilíbrio. O artista precisa estar aberto ao acaso para escapar do controle daquilo que estava projetando, porque muitas vezes é ali que está a potência da criação. É você estar pensando o tempo inteiro sobre seu trabalho, estar com o caderninho no bolso para registrar os insights que tem ao caminhar pela rua, ao fazer uma viagem, ao conversar com uma pessoa [...].

 

Cooosmo – E por que os títulos “Janelas” e “Silêncios”?

[...] A linguagem é sempre contextualizada: trata de alguém que fala de algum local social para uma audiência específica, num contexto específico. [...] O processo de significação da imagem é muito similar a um discurso. O trabalho em uma galeria, ou em um museu, ou em um espaço não institucional funciona de maneiras diferentes. Então eu acho que na dificuldade de nomear cada trabalho, eu tendo a dar um nome para uma série de trabalhos, porque de alguma maneira o meu maior desejo é que exista uma interpretação plural da imagem que estou produzindo. Me interessa que o espectador olhe e pense em algo, se identifique de alguma maneira com a imagem. [...] o título da obra muitas vezes direciona a interpretação e, não que seja uma regra, mas de alguma forma cria um certo véu sobre a interpretação que ele teria se não tivesse um título associado à obra. [...]

 

Cooosmo – Conte um pouco sobre sua atuação no mundo institucional.

[...] meu trabalho artístico tem intenções e uma delas, sem dúvida, é que as pessoas possam ver essa produção. Para isso, ou esses trabalhos tem que estar num salão, num espaço institucional, ou numa galeria. [...] Ainda não mantenho um ateliê fora [...]. Isso muitas vezes é complicado, porque sinto vontade de trabalhar com grandes formatos ou produzir simultaneamente vários trabalhos e não posso. Isso acaba freando o processo. Mas acredito também que o ateliê do artista [...] está na cabeça. [...] O que estou tentando fazer é conciliar. Minha vida acadêmica foi um projeto planejado e hoje [...] separo um tempo para produzir sem ansiedade. As pessoas na universidade sabem que me dedico à arte e alguns acompanham meu processo, indo nas exposições que participo ou até mesmo me convidando para falar sobre diálogos possíveis entre Esporte e Arte [...]. Acho que isso também me potencializa como professor porque abre outros canais como a sensibilidade e a percepção que são fundamentais à docência. A arte educa e sensibiliza. Quanto ao vínculo institucional no campo da Arte, [...] o processo, geralmente tem sido das pessoas conhecerem meus trabalhos em exposições, feiras ou pelo meu site. Fazem contato, conhecem o portifólio, visitam o ateliê e surgem os convites. [...] Construí um blog para escrever sobre meu processo criativo e compartilhá-lo com outros artistas em 2010, mas [...] de um projeto de portifólio, o site foi tomando vida própria: comecei a escrever sínteses de textos de história e crítica da arte que lia e passei a mostrar menos meus trabalhos nas postagens. Também publico sobre trabalhos de artistas que abordam a temática do esporte ou do gênero, dessa forma compartilho com meus alunos da universidade e outros artistas que se interessam por esta investigação. [...] Um artista não se faz em um ou dois anos. Há pouco tempo assisti um documentário sobre o Gehard Richter que apresenta o seu processo criativo. Quando você compara as pinturas dele de 20 anos atrás com o que ele faz hoje, você entende o processo de transformação que o artista passou até chegar na pintura abstrata… E ele levou trinta anos para chegar onde chegou…

> Obras em coleções particulares no Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Belo Horizonte.