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Aura arte elke coelho

Elke Coelho

Elke Coelho é pesquisadora, artista e professora do Departamento de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina. Doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da USP (2014); mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS (2007); especialista em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de Londrina (2006); e graduada em Educação Artística pela mesma instituição (2005). Participou de exposições coletivas e individuais, entre elas: Área de risco, MAC-USP (2014); Quando os objetos se tornam abismos, Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura UEL (2013); Ontem o dia estava assim e outras anotações gráficas, Museu Victor Meirelles, Florianópolis (2010); e Ocorrências Silenciosas, Sala Theodoro De Bona, Museu de Arte Contemporânea do Paraná (2010). Organizadora, juntamente com o artista e professor Danillo Villa, do livro Cartografias Cotidianas (2011).

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Formação acadêmica

2014 - Doutorado em Artes Visuais, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo/SP.

2009 - Mestrado em Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2007 - Especialização em Literatura Brasileira, Universidade Estadual de Londrina/PR.

2005 - Graduação em Educação Artística, Universidade Estadual de Londrina/PR.

 

Exposições individuais

2014 - Área de risco, Centro de Apoio Pedagógico MAC – USP, São Paulo/SP.

2014 - Sobre os objetos, as aparências e os desejos, Sesc Paço da Liberdade, Curitiba/PR.

2013 - Quando os objetos se tornam abismos, DaP –  Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2013 - Quando os objetos se cruzam, Ecomuseu de Foz Iguaçu/PR.

2012 - Frágil área de risco, Museu Univ. de Arte de Uberlândia/MG.

2011 - Delicadezas Incisivas, Galeria de Artes da UFG, Goiânia/GO.

2010 - Ontem o dia estava assim e outras anotações gráficas, Museu Victor Meirelles, Florianópolis/SC.

2010 - Ocorrências Silenciosas, Sala Theodoro De Bona – MAC, Curitiba/PR.

2010 - Ontem o dia estava assim e outras anotações gráficas, DaP –  Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2008 - Ocorrências, DaP – Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2006 - Desenhos, Sesc Londrina/PR.

 

Exposições coletivas

2014 - Semana de Arte – Cidade: mundo plástico, DaP –  Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2013 - Pós-paisagem, DaP –  Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2012 - Estratégias pictóricas, DaP –  Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2012 - O desejo do verme, DaP – Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2012 - Expo-Arte Contemporânea, Centro Cultural Brasil-Moçambique, Maputo/Moçambique.

2012 - O desejo do verme, Memorial Meyer Filho, Florianópolis/SC.

2011 - Aluga-se – Até ½ Kilo, DaP – Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR.

2008 - II Noite do Múltiplo, Centro Cultural Arquipélago, Florianópolis/SC.

2006  - Londrina Artes Visuais, DaP – Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina/PR, Museu de Arte de Londrina/PR.

 

Salões

2014 - 42º Salão de Arte Contemporânea Luís Saciloto, Secretaria de Cultura e Turismo de Santo André/SP.

2013 - 19° Salão Unama de Pequenos Formatos, Universidade da Amazônia - Galeria Graça Landeira, Belém/PA.

2013 - 4° Salão de Arte 10 x 10, Fundação Municipal de Artes de Montenegro/SESC/RS.

2009 - 2° Salão de Arte 10 x 10, Fundação Municipal de Artes de Montenegro/SESC/RS.

2007 - 1° Salão de Arte 10 x 10, Fundação Municipal de Artes de Montenegro/RS.

Eis aqui um texto que se desejou silêncio

Juliana Simonetti

Queria que esse texto contivesse silêncio nos vãos de cada palavra. Ou melhor, que as palavras pedissem licença para se encaixarem nos vãos do silêncio. Imagino as letras-lâminas fatiando o silêncio com delicadeza. Todo cuidado é pouco para manipular as letras-lâminas. É preciso envolvê-las em algodão ou colocá-las em miúdos potinhos de vidro.

Todo cuidado é pouco para escrever sobre os trabalhos da artista Elke Coelho, que traz para o MuMA - Museu Universitário de Arte, nesta exposição denominada Frágil Área de Risco, alguns momentos de sua trajetória iniciada há quase 10 anos com a série Coisas de Iracema (ou será que já não tinha começado naquele quintal em Junqueirópolis, quando a menina se encantava com as ocorrências daqueles quase imperceptíveis trajetos desenhados pelas apressadas formigas no seco chão de terra?).

Quando começo a escrever este texto, me aflijo com a possibilidade de que alguma letra-lâmina mal colocada possa machucar os dedinhos de Iracema, pintadinhos de vermelho-sangue. Esmalte. Tudo é tão silente perto dela que não gostaria de assustá-la com palavras desnecessárias e adjetivos inconvenientes.   

Às vezes, penso se Iracema de Elke não é irmã de Miguilim de João.  Ambos nasceram com a incumbência de dar grandeza às miudezas do mundo. (É dolorido isso de colocar ênfase nas tantas coisas pequenas). Posso até imaginar os dois brincando de aprisionar formigas em riscos feitos de graveto no chão. Iracema e seus dedinhos compridos a desenhar os mais diversos formatos arredondados no chão. Miguilim ficaria um tanto apreensivo com o aprisionamento das pobrezinhas e sorriria, aliviado, cada vez que a mais corajosa das criaturinhas desbravasse os limites habilmente sulcados por Iracema.

Teve um dia (foi um dia triste, como outro qualquer), em que Iracema estava chupando chicletes de hortelã. Foi então que leu, no papelzinho miúdo que envolvia a guloseima, a seguinte pergunta: “Vamos rir mais?”. Iracema teve odiozinho daquele conselho.  Não que não goste de rir. Ri largo, quando ri. Mas aquilo lhe parecia uma afronta. Tratar a alegria daquele jeito. Assim em um papelzinho pra embalar tantos e tantos chicletes. Pra ela, conselho oportuno é escrito com letra de mão a ser enviado por correio com destino a remetente especial. Felicidade não é feita em série. É coisa artesanal, lapidada, uma a uma: dá um trabalho!

Acho que gente que presta atenção em formiga e papel de chicletes nasceu com coração sem calo. Arde em tudo. Iracema sabe bem disso. Não tem calo, mas não é boba, muito menos preguiçosa.

Então, anda por aí a cuidar para que tudo, toda essa área de risco chamada vida, esteja sob algum mínimo controle. Trabalha arduamente para não deixar (se) desmoronar. Esses dias mesmo, em mais um outro desses dias tristes quaisquer, construiu um microcosmos particular de cotonetes. Foram exatos 25.600 pontas de cotonetes. Acabou com os estoques dos supermercados perto de sua casa.

Iracema trabalhou arduamente para que os cotonetes se equilibrassem uns contra os outros. Um encaixe frágil, mas perfeito. Qualquer sutileza mal controlada era suficiente para implodir seu universo (de cotonetes). Poderia ter colocado cola ao menos entre eles, pensariam os com calo no coração. Mas Iracema é de outra natureza e não faz concessões. Não quer enganar ninguém. Quer ser justa até com os cotonetes. E Iracema construiu um mar de maciez, com altos e baixos, pontuado por pequenos alfinetes dourados. Dor sagrada. Em potencial. Nunca se sabe onde as lanças vão irromper. Nem mesmo Iracema sabe. Só se sabe que vão, em algum lugar. Mas o acaso não põe medo em Iracema. Acha até bonito isso de a vida não fazer sentido. De não dar conta. 25.600 vezes sem saber se naquela pequena maciez mora ou não a dor.    

Iracema tem, em sua casa, uma coleção de inutensílios. Cascas, bolinhas brancas, vidrinhos, palitinhos, tubinhos e um tanto de outras coisinhas sem nome, de tão inúteis. Os amigos gostam de presenteá-la com esses entulhozinhos bonitos. Tão bonitos que não servem para nada, só para serem belos mesmo. Iracema cataloga todos em seu museu particular. Um relicário de nadas.

Um dos passatempos preferidos de Iracema é desenhar seus pensamentos. Esses pensamentos nuvem, bem impalpáveis e que estão sempre se transformando indefinidamente. Iracema tenta agarrá-los em pleno vôo. E tem cada coisa estranha que a gente pensa! Os com calo nem devem saber do que eu estou falando. Eles não param para pensar nessa estranheza. Não dão trela para o vazio. Isso é doideira, diriam. Já Iracema gosta dessas coisas que brotam na cabeça sem mais nem menos. “Poesia não é para entender, mas para incorporar”, disse Manoel de Barros, outro dos graúdos que vivem entre as miudezas.

É verdade que ao longo da vida, os de coração sem calo encontram um espinho ou outro. As tais pedras no meio do caminho. Tem uns que já nascem em ninho de espinhos ou passam grande parte da vida morando em casulo de lâmina de barbear. Assim aconteceu com Iracema. Ao longo da vida, os sem calo arranjam cicatriz. Muitas. Mas não adianta, ainda há a memória do coração. Lá sempre ele estará sem calo e pronto para se espantar com o mundo. Iracema que nos diga. Eu silencio.

(Texto publicado no folder da exposição individual “Frágil área de risco”, realizada no Museu Universitário de Arte da Universidade Federal de Uberlândia, em 2012.)

 

delicadezas incisivas . exposição de elke coelho

Aline Dias

era infinito, isso eu sei que era.

nos trabalhos, as coisas se tocam. objetos pequenos (fósforos e cotonetes, sobretudo) são colocados próximos. e numa medida precisa de proximidade, ela se esforça para formar superfícies.

(é justa a pressão que, sem cola, mantém os objetos em contato)

o plano fofo de algodão é obra de longo trabalho. ela passa muito tempo juntando centenas de hastes. pequenos elementos pressionados, a formar uma superfície. uma superfície que não é coesa, todo sem emendas, mas plano instável e frágil.

(cinco horas por dia por quarenta dias)

essa proximidade precisa ser feita de paciência e cuidado. que tamanho pode ter uma superfície de algodão de cotonetes justapostos? nos cadernos, ela faz contas, anota as quantidades, calculando o tanto que precisa de cotonetes ou pregos, o tanto que um pacote tem, o tanto que custa, o tanto que cada quantidade vai ocupar de espaço.

com fósforos e algodão ela forma pequenos quadros, depois fixados nas paredes. quadrados, circulares, tendo acrílico ou papelão pintado como suporte, quase não importa. importa cortar, conter, manter coeso. importa juntar e ordenar as coisas, colocá-las em contato. marcar uma posição e continuar um trajeto.

ela sabe que cada gesto carrega preguiça e pulsação. ela observa com cuidado o mundo. se assusta. me inquieta o mundo, ela diz. cisco, alfinete, pedra, tecido, casca. tudo repleto de sentido e nada possui um sentido. ela tenta alargar o manejo automatizado das coisas. ela sabe que pode adentrar estágios de loucura tamanha quantidade de espantos se tudo nos encantasse. a gente interfere no que vê, assim mesmo, só de estar vendo.

ela sorri. mas não é um sorriso fácil. ela tem o rosto sério. parece um silêncio que vem das coisas, do que está parado, não das pessoas que murmuram abaixo do seu cansaço, sua falta de assunto, sua vontade de estar em outro lugar. um silêncio e uma preocupação de quem cuida das coisas. de todas elas. as de dentro de casa, as memórias, o que os seus alunos podem ser, as pontas dos cigarros, a temperatura da água. ela cuida de tudo. como uma personagem de lispector, que cuida da manhã nascendo. ela cuida de uma ausência na cozinha, de um amor que não vem, outro que não vai embora.

ela gosta do contraste entre o algodão e a ponta afiada. no algodoeiro tem espinho? o manejo dos objetos deixa pequenas marcas. fazer o trabalho imbuída dessa grave delicadeza. leva tempo colocar as coisas próximas, mesmo as coisas mais brutas, inúteis, desprovidas de desejos, vontades, teimosias. os gestos se repetem. se inscrevem nas coisas, no espaço mínimo entre elas.

dentro de uma estrutura geométrica, ela fala de estratégias para não cair no caos. a bagunça guarda a potência de que nos afastamos pelo cansaço e pelo trabalho. como determinar a posição, o lugar de tudo que procuramos? ela fala de ordenar não para prender, estancar ou dominar fluxos imprecisos, mas para poder ganhar um pouco de força e sentido entre imagens e ações condicionadas.

do que é feita a relação de uma pessoa com o mundo? é muito pra entender. e a relação de uma pessoa com um material? também é muito. e com uma coisa, um cotonete, por exemplo? ainda é muito.

ela diz: nunca sei avaliar se as coisas se sustentam ou não.

que diz uma caixa de cotonetes de um campo de algodão? o que diz do fogo um palito de fósforo? o que um trabalho diz de uma experiência? o que uma experiência diz de uma pessoa? ela é maior do que eu posso ver. mais bonita. e com uma certeza apenas intuída digo que o algodão também é mais bonito que a caixa onde ele está.

lembro de uma foto numa revista de quando eu era criança: a foto de um algodão. lembro de ter achado a flor mais bonita por um tempo. nunca estive em um campo branco de algodão. o algodão da roupa. as bolinhas de algodão para limpar o rosto.

(acho que o mundo, mesmo bonito, é denso, não cicatriza na gente)

ela fala de um campo de algodão. não era possível ver um fim, uma linha qualquer que delimitasse aquilo que eu via. ela queria que tivesse uma linha ou qualquer outra coisa que cortasse aquela uniformidade, algo que fosse composto por um outro material ou simplesmente se negasse a ser aquilo que o entorno afirmava.

(desenho é forma de delimitar um espaço, de marcar uma posição para, ainda que provisoriamente, lidar com a mutabilidade incessante do mundo)

os objetos ocupam lugar a nossa volta, ocupam o espaço da nossa experiência. os objetos alinhados na fábrica, na loja, sobre os nossos móveis, gavetas, prateleiras. sem uso ainda, preparados para serem usados. comprar novos e sem marcas. as pessoas que manuseiam os objetos quando eles estão sendo feitos. o que as pessoas tocam com as mãos.

ela disse que via pequenos pontos brancos, mais ou menos alinhados, organizados em fileiras mais ou menos equidistantes, que se alinhavam até o horizonte.

os objetos feitos para um uso que não é o do artista. os objetos transitam entre a fatura anônima e impessoal e os usos particulares. nunca é estanque. o que se faz com as mãos sempre deixa marcas. a diferença inframince de que fala duchamp, entre dois objetos saídos da fábrica, produzidos em série.

ela lixa as lâminas para apagar a marca do fabricante.

ela ri grande, quando ri.

(macio é pouco para o cobertor preferido, rígido é pouco para o corpo que cai no chão)

ela fala com cuidado. cuida das palavras também, eu acho. não quer que a minha filha leia virgínia woolf. ela sabe que não dá pra tapar os buracos que as pessoas deixam abertos nas paredes das nossas casas enquanto estamos fora.

ela disse que as esferas de algodão é que auxiliam a pensar o corpo, o espaço e as tatilidades.

minha posição, não tem como marcar na areia em volta dela. estou longe. e nem mesmo tem areia em volta dela. tem piso de cerâmica, pedaços de madeira. ela pisa no chão, não flutua. tem o cimento da calçada, asfalto, um pouco de barro. tem o chão da sala de aula, dos corredores e das ruas. não tem como traçar um círculo em volta. eu posso ver pedaços dela. inteira não. isso não poderia. e nem é por mesquinharia, é porque não dá.

ela tenta conservar as mãos limpas, enfrentar a difícil tarefa de manter tudo branco. a mão e o material, o contato entre eles. o esforço para não sujar, para não estragar nada. o algodão que serve para limpar. as mãos se concentram nas tarefas repetidas. ficam sujas e se limpam. tocam as coisas.

ela anda nas lojas de armarinhos e ferragens. ela procura o quê? o que ela quer ninguém sabe. ela se pergunta como falar da relação que mantemos com alguns textos, da forma como estão entranhados em nossa pessoa.

as hastes deitadas - horizontal e vertical. como se virasse todo o campo de algodão?

conheço poucas coisas mais delicadas que isso, ela escreveu sobre outra artista. não se trata de uma aptidão extraordinária, ela diz. mas de uma ética, um gesto, um posicionamento.

e tem algo que resiste em se tornar palavra.

vila cacimba é junqueirópolis é macondo é itabira.

muitos artistas mentem, dizem que não falam de si. mas como falar do outro se você não é o outro e sim você? ela diz que pode até falar do outro mas a partir de você, não existe outro ponto que não seja você.

(Texto publicado no folder da exposição individual “Delicadezas incisivas – Elke Coelho”, realizada na Galeria da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiânia, em 2011.)

 

Sobre a exposição “ontem o dia estava assim e outras ocorrências gráficas”

Fernando Lindote

Os desenhos de Elke Coelho podem exigir, de alguns de nós, uma pausa antes da fruição. Pois cada um dos desenhos e cada um dos três conjuntos de desenhos apresentados neste momento no Museu Victor Meirelles constituem um corpo delicado de estratégias, como uma conversa em voz baixa, com seu tempo para considerações demoradas e respostas pensadas.

 Elke instaura um espaço que supõe algum erro ao leitor apressado. A artista usa modos de representação, soluções gráficas e sistemas de amostragem que podem parecer, para um olhar ansioso e rápido, já conhecidos.  Há referências a sínteses conhecidas de objetos cotidianos. Figuras referenciais ou imaginadas convivem em soluções formais que desembocam de vários canais visuais, desde modelos do desenho da tradição recente da arte moderna até resoluções dos modos atuais de animação ou cartum. Esses modelos são conseqüências de uma busca do meio adequado às questões do trabalho e estão a serviço de uma lógica de raciocínio muito particular. Elke tem algo para nos falar. Porém, esse algo não parece simples de ser colocado. Talvez porque não cessa de mudar enquanto a artista persegue sua manifestação. Fugidio, seu conteúdo não cansa de não ser representado. E a cada tentativa de Elke, ou nossa, que acompanhamos agora essa aventura, aquilo que se manifesta, deriva, abre nova possibilidade de leitura e nos reinscreve em sua pauta.

Os desenhos de Elke Coelho, sob a aparente docilidade de suas formas e medidas, podem constituir armadilhas. Dessas que, tanto nos capturam quanto nos abrem os sentidos para o delicado e para o imprescindível.

(Texto realizado para a exposição individual “ontem o dia estava assim e outras ocorrências gráficas”, realizada no Museu Victor Meirelles, em 2010.)

>< Acervo da Galeria da Faculdade de Artes Visuais Universidade Federal de Goiânia/GO.