Carolina marostica aura

Carolina Marostica

Porto Alegre/RS, 1991. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS.

Porto Alegre/RS, 1991. Vive e trabalha em Porto Alegre/RS.

Desenvolve uma pesquisa que nasce da pintura, expandindo-se para o campo tridimensional, através da exploração de elementos fundamentais do meio pictórico: matéria e cor. Interessa-lhe criar um universo orgânico de formas associadas ao interior do corpo e à pele que o separa do mundo. Na languidez da matéria e na euforia da cor, explora as fronteiras entre atração e abjeção, natural e artificial. Busca criar situações que rompam com a ordem e a assepsia do cotidiano, expondo a fragilidade da carne e o incontrolável da natureza.

Mestre em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2017). Bacharel em Artes Visuais pela Universidade do Rio Grande do Sul (2013). Expõe com regularidade desde 2010, com participações em mostras no Brasil e em Portugal. Realizou sua primeira exposição individual em 2013, na Associação Chico Lisboa (Porto Alegre/RS). Trabalha com pintura, objetos e instalações.



Work n 5 serie ecdises  ano2017jpg
Work serie ecdises 2017 vista exposicao residencia
Work n. 2 3 serie ecdises
Work n 6 serie ecdises ano 2017
Work zona quente sem tittulo 2017 detalhee
Work vista zona quente
Work sem titulo zonaquente 2017 detalhe3
Work sem titulo zona quente 2017 detalhe2
Work sem titulo  2017zona quente detalhe
Work onde eles vivem 2017
Work onde eles vivem. vista interna 2017
Work tutti frutti compression 2017
Work sem titulo. 2015 2016
Work rodape 2012
Work pin a 2017
Work pesadelo. 2017
Work captura. 2017. foto edouard fraipont
Work cadeira 2014 2017
Work acai cranberry tropical. 2017. foto edouard fraipont
Work acai cranberry tropical 2017


Carolina Marostica na Red Bull Station

2018 - Finalista do II Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea 

Exposições individuais

2018 - Voltaremos outros sob o mesmo sol, Galeria Aura, São Paulo/SP

2015 - Mutável Matéria, Galeria Temporária Jubiá, Porto Alegre/RS.

2015 - Universo Orgânico, Pura Cal, Lisboa/Portugal.

2014 - Inundação, Galeria de Arte do DMAE, Porto Alegre/RS.

2013 - Não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós, Associação Chico Lisboa, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas

2018 - II Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea, Porão do Paço Municipal da Prefeitura de Porto Alegre, Porto Alegre/RS

2017 - 14ª Residência artística Red Bull Station, Red Bull Station, São Paulo/SP.

2017 - Zona Quente, Garagem Aura, Porto Alegre/RS.

2017 - Sobremesa, Galeria Península, Porto Alegre/RS.

2017 - registro n.1, Casa Baka, Porto Alegre/RS.

2016 - Transmigrações, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS.

2015 - Sinestesia, Acervo Independente, Porto Alegre/RS.

2015 - De onde para onde, Instituto Superior de Economia e Gestão, Lisboa/Portugal.

2015 - G.A.B-A (Galerias Abertas das Belas-Artes), Faculdade de Belas-Artes da Universidade de

Lisboa /Portugal.

2014 - Futurama: Inovações da Juventude, Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, Porto Alegre/RS.

2014 - Craft Draft: Digital Nature translated into Art by Digital Natives, Embarcadero, Porto Alegre/RS.

2014 - Coletiva, Acervo Independente , Porto Alegre/RS.

2014 - 15/15, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo IA/UFRGS, Porto Alegre/RS.

2013 - Finalistas pintura FBAUL 2011'12, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa/Portugal.

2012 - Pintura e Desenho - A Novíssima Geração III, Museu do Trabalho, Porto Alegre/RS.

2012 - G.A.B-A (Galerias Abertas das Belas-Artes), Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa/Portugal.

2011 - À margem da paisagem, Espaço Ado Malagoli, IA – UFRGS, Porto Alegre/RS.

2011 - Passagens Interiores, Arquivo Público do Estado, Porto Alegre/RS.

2010 - Paisagem transfigurada, intervenção realizada na ocasião do festival Macondo Circus, Santa Maria/RS.

2010 - Algumas Impressões 9, Espaço Ado Malagoli, IA – UFRGS, Porto Alegre/RS.

 

Salões

2014 - 20º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre, Câmara Municipal de Porto Alegre/RS.

2012 - XXV Salão de Primavera / Prémio Rainha Isabel de Bragança, Galeria de Arte do Casino Estoril, Estoril/Portugal.

2010 - 19º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre, Câmara Municipal de Porto Alegre/RS.

 

Residências

2017 - 14ª Residência artística Red Bull Station, Red Bull Station, São Paulo/SP.

2017 - Zona Quente, Garagem Aura, Porto Alegre/RS.

Todos os corpos giram ao seu redor
Ulisses Carrilho, julho de 2018.


Eis o homem: jogando nos sapatos a culpa dos pés.
Samuel Beckett, "Esperando Godot"

Células tronco são células sem especificidade o bastante para transformarem-se em quaisquer tipos de células, presentes nos órgãos mais importantes dos mamíferos, com capacidade de autorenovar-se para produzir mais células de si mesmas. Shinya Yamanaka, cientista japonês, criou células tronco embrionárias pluripotentes a partir de células multipotentes, efetivamente apagando as diferenças entre células adultas e embrionárias, o que lhe valeu o prêmio Nobel em 2006. Muito embora não inaugure um campo estrito de investigação na medicina, o uso destas células para tratar de órgãos e tecidos injuriados que precisam de renovação, ilumina uma série de hipóteses, a partir da possibilidade de duplicar-se, repetir-se, substituindo métodos mais invasivos como enxertos ou transplantes. Esta capacidade das células tronco embrionárias em repetir-se diferentemente é chamada pelos cientistas, não à toa, de plasticidade.

Com os caninos afiados, a filósofa francesa Catherine Malabou rumina tais verdades biológicas para pensar a plasticidade à luz do conceito de repetição na abordagem de Jacques Derrida. A autora comenta a conferência "The Ends of Man" [Os Fins do Homem] proferido em Nova York, em 1968, por ocasião do seminário Filosofia e Antropologia. Nele o autor insiste nas dificuldades de abrirmos um espaço que separe as inúmeras diferenças que escondem o termo "humano"– nacionais, éticas, culturais ou gêneros – a uma possível universalidade, à partir da sua perspectiva mais aberta. Devemos ler o "fim" do homem como um duplo dúbio e vacilante: ao passo que atestam a desaparição do humano afirmam também que assumimos um momento de plenitude. O humano acessaria este estágio ao evocar sua desaparição. Eis então a natureza apocalíptica do humano: sua destruição é sua verdade, na sua morte e na sua completude, dissolução e êxito que ainda estão por vir. A iminência do colapso quando não amedronta, é rebatida pela calamidade já instaurada – não há plano ou estratégia a ser desfiada, senão uma crise que se impõe. Alvorece uma última expectativa: todos os outros corpos, como planetas, planetas anões, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram ao seu redor. O sol. O mesmo sol.

Embrenhada nos escritos que compõem o imaginário da artista, dormia à espreita a frase que intitula esta mostra. Em "Voltaremos outros sob o mesmo sol" encontramos no verbo voltar um eco de tal ideia de repetição, usada por Malabou e seus convivas, para discorrer a possibilidade de um superhumano, de um pós-humano ou de uma transhumanidade. A frase, como a mostra, carrega em suas cores as tintas de uma era embrenhada na investigação de um ecossistema futuro ou passado, de um porvir corporificado ou um passado liquefeito, das cores aberrantes que pulsam vidas que subvertem os contornos conhecidos e terrenos em vez de representar os desastres e as catástrofes. Mas também sentimo-nos encharcados, pares daqueles que estão submersos, próximos àquilo que é invisível – ou daquilo que os olhos não alcançam, que está para além da linguagem. Imaginar o futuro convoca o passado – hoje é sempre ontem – e cada espaço é sempre um acúmulo desigual dos tempos.

Os materiais não se organizam, mas parecem ser afetados pelo processo de mutação e alojamento, como pequenas colônias que se multiplicam por frestas ou corpos que pendem do teto como estalactites. Os processos escultóricos presentes na mostra ressoam como a recorrência de tentativas de domesticação do corpo, numa alusão a processos evolutivos, deformações e mutações, com acabamentos viscosos e reflexivos. Superfícies que revelam brilhos denotam mais uma faceta da corporalidade da pintura, tão disfarçada ao longo da história da arte.

Do conflito entre o que o conhecimento científico nos mostra e o que construímos como nossa identidade ocidental, separando natural e artificial, surge uma simbiose e interdependência entre natureza e cultura, sugerida pela dinâmica material empregada pela artista a partir do uso de materiais sintéticos em processos escultóricos. São eles, os materiais, que indagam o que nos diferencia e o que nos aproxima desses corpos artificiais. A discussão das cores, que na trajetória de Carolina Marostica origina-se no campo da pintura, revela um uso singular do espaço, a partir de excessos exorbitantes e que aludem a transbordamentos e sedimentação.

Numa mirada atenta pelos escritos de Carolina Marostica, a palavra corpo passa a surgir incessantemente. A constatação dessa regularidade – uma repetição – dá a pensar: verificando, num primeiro passo, a presença de dois corpos que se inter-relacionam: "o corpo da obra e o meu corpo". Devido à interdependência destes, é leviano abordá-los separadamente. No entanto, há um terceiro corpo, que por ora nos interessa: aquele que surge quando a obra é exposta. Para Marostica, este corpo-espectador é considerado já na construção das obras, que não oferecem-se à simples apreciação. Nas palavras da artista, falar em corpo é falar do mundo material –em oposição ao imaterial–, do sensível –em oposição ao inteligível–, de instintivo –em oposição ao racional–, do natural –em oposição ao civilizado–, do efêmero –em oposição ao eterno.

Para Malabou, residiria no poder plástico a capacidade de desenvolvermo-nos fora de nossos próprios padrões, de transformar e incorporar ao um aquilo que é passado ou estrangeiro, curar feridas, substituir o que foi perdido, recriar moldes quebrados. Mas nós realmente desejamos que este outro humano venha? A filósofa desponta que frente à cultura das novidades e inovações, a abertura desta questão é tremulante e oferece a possibilidade de esculpirmos um humano que vem, aquele que criará novas genealogias, desprovido da culpa original, pronto para jogar de novo – repetir, mas repetir diferente.


 

Mutável Matéria

Talitha Motter

 

Merleau-Ponty, certa vez, afirmou que “é oferecendo seu corpo ao mundo que o pintor transforma o mundo em pintura” [1]. E é justamente por meio de seu corpo que Carolina Marostica vivencia o entorno e o refaz em trabalhos, através de substâncias recolhidas no seu transitar cotidiano. Ao invés de trazer uma representação do visível para a pintura, desenvolve suas obras como matéria formante do mundo. Nas telas e instalações (que também fulguram como pintura), esses materiais, como a tinta a óleo, o silicone ou a pelúcia, que partilham a característica de serem informes, maleáveis e de fácil resposta ao gesto da artista, geram movimentos de expansão, de trocas e de acomodação. Eles trazem à tona as forças que interagem na natureza para moldarem nossos corpos. Tais estruturas aludem à instabilidade, à transitoriedade que se esconde sob a visão superficial da pele que reveste os seres.

Nesse percurso expositivo, somos deslocados para uma situação de maravilhamento e descoberta. Distanciando-nos do embotamento da sensibilidade, observando as gradações de espessuras dos materiais, a maneira como há regiões que se adensam para após se diluírem, notamos a carne que se contorce. Das experiências primeiras, da percepção inicial das coisas, quando ainda não se estabeleceram filtros do que é adequado ou não, surge essa matéria que se apresenta plena de luz. Rasgam-se, em nossos olhos, verdes e rosas fluorescentes. E ali essas cores brincam, numa mistura que não tem receio do poder das cores. Como afirma a artista, nessa esfera do que é primeiro, “os contrários se diluem” [2]. Colocar-se na situação de desequilíbrio, deixar a matéria agir, os elementos deslocarem-se, numa relação mais livre com o corpo-matéria, faz parte do processo de Marostica.

[1] MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p.16.

[2] MAROSTICA, Carolina. Entrevista. Porto Alegre, 21 jul. 2015. Entrevista concedida à autora.

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