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Aura arte antonio bokel

Antonio Bokel

Rio de Janeiro/RJ, 1978. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

Formou-se em design gráfico pela UniverCidade, em 2004. Realizou a sua primeira exposição individual em 2003, na Ken’s Art Gallery, em Florença, Itália, onde residiu e fez cursos de fotografia e história da arte. No Rio de Janeiro, teve aulas de modelo vivo com Bandeira de Mello e fez cursos de pintura com João Magalhães e com Luiz Ernesto, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Ao longo das duas últimas décadas, tem apresentado seu trabalho no Brasil e no exterior.

Principais exposições: 2012 - Gramática Urbana, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro. 2013 - Transfiguração do Rastro, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. 2014 - Na Periferia do Mundo, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro. 2015 - La Nature d’or, galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro. 2014 - Novas aquisições MAM, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. 2016 - Nada Além das Palavras Galeria Matias Brotas, Vitória. 2016 - Point of View / site specific, nos jardins do Palácio da Pena em Sintra Portugal.

Residências artísticas: AAAAA No Thing But Truth, na Sid Lee Collective Gallery, Amsterdam, Holanda.  ARTUR - Artistas Unidos em Residência, em Lagos, Portugal. Cidadela Art District, Cascais Portugal.

Indicado ao Prêmio Pipa em 2015.

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Formação

2010 - Curso de modelo vivo, Professor Bandeira de Melo, Rio de Janeiro/RJ.

2007 - Pintura, João Magalhães, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Pintura, Luiz Hernesto, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ.

2004 - Graduação em Design Gráfico pela UniverCidade, Rio de Janeiro/RJ.

2003 - História da Arte, Florença/Itália.

2003 - Fotografia, Florença/Itália.

 

Principais exposições individuais

2016 - Nada Além das Palavras, curadoria Daniela Name, Galeria Matias Brotas, Vitória/ES.

2015 - La Nature D’or, curadoria Mario Gioia, Galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro/RJ

2015 - Align, Cidadela Art District, Cascais/Portugal.

2014 - Na Periferia do Mundo, curadoria Vanda Klabin, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Instalação Faça Aqui Seu Grafite, Arte Rua, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Made in India, Galeria Homegrown, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Degrau, curadoria Mario Gioia, Galeria Contempo, São Paulo/SP.

2012 - Afetos Rotas e Desvios, Galeria Armando Mattos, Búzios/RJ.

2012 - Transfiguração do Rastro, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - Corpus Cordex, Centro Cultural Solar de Botafogo/RJ.

2011 - Grafitti Error, FB Galery, Nova Iorque/EUA.

2010 - “No Thing But Truth”, SidLee Collective Gallery, Amsterdam/Holanda.

2010 - Cruzes e Credos, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2006 - Instalacão:”We are tottaly together”, Galeria Box 4, Rio de Janeiro/RJ.

2004 - 69 d.p.i. Pornográficos, Galeria Mínima, Rio de Janeiro/RJ.

 

Principais exposições coletivas

2016 - Point of View, exposição coletiva / site specific, Sintra/Portugal.

2014 - Novas Aquisições, MAM, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Movimentos Paralelos, Santo Domingo/República Dominicana.

2012 - Gramática Urbana, curadoria Vanda Klabin, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - ARTUR, Artistas Unidos em Residência, LAC, Lagos/Portugal.

2011 - Atemporal, Espaço Apis, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - Conexão Atemporal, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2010 - Parede, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro/RJ.

2010 - Int3svenção, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2009 - Ocho, Rojo Gallery, Barcelona/Espanha.

2009 - Ocho, Rojo, Galeria Pop, São Paulo/SP.

2009 - Vem na Mão, CCJF, Rio de Janeiro/RJ.

2009 - Ocho, Rojo, Galeria Mini, Belo Horizonte/MG.

2009 - Devorando Discursos Extranjeros, Madrid/Espanha.
2008 - Exposição de Verão, box 4 e Silvia Cintra galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2008 - SP-Arte, stand Galeria Box 4, São Paulo/SP.

2008 - Top 3, mini Galeria, Belo Horizonte/MG.

2008 - Movimentos Paralelos, Cuba.

2008 - Projeto Fashion Containers, Fashion Rio, Rio de Janeiro/RJ.

2007 - Novas Inquisições, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2006 - Visões Dub 2, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Galeria Haus Arte Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Fôlego, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2003 - Ken’s Gallery, Florença/Itália. 

Texto de Vanda Klabin, 2017

 

Observa-se nas obras de Antonio Bokel um constante cruzamento entre a arte e o tecido da vida urbana, como partes constitutivas do seu universo simbólico. Recorre a essa experiência da cidade como sequências existenciais - ali constrói o seu espaço referencial, ali parece inventar um território, ali pretende constituir uma extensão estética e espacial em uma dimensão mais ampla.

Nessa zona de interseção, está presente uma capacidade de improvisação poética a partir da assimilação dos mais variados materiais e suportes, tais como objetos enigmáticos, utensílios urbanos, inserção de letras, jogos de palavras ou fragmentos literários, que transitam nas pinturas murais, nas superfícies das telas, nas fotografias, nas esculturas ou nas instalações espaciais. Mas é na sua pintura que encontramos os acordes do seu campo de ação, indicativos de uma força integradora de suas inquietudes estéticas, ao equilibrar cores, formas e volumes em um mosaico de pinceladas rítmicas que trazem à tona as assimetrias do mundo.

Nesse conturbado território, o artista evoca uma reflexão sobre o espaço urbano contemporâneo. A sua produção artística não é um fenômeno isolado no ateliê, mas realiza a sua inscrição no mundo, em uma esfera pública, ao corporificar sua emergência nos muros da cidade – ambos acolhem simultaneamente sua prática pictórica e criam uma fusão entre a obra e o mundo.

Antonio Bokel reivindica um estar no mundo, aglutinar experiências, deixar traços visíveis no olhar público e não apenas entre quatro paredes. As suas obras são verdadeiros manifestos visuais e apesar de apresentarem uma rica diversidade, se agrupam através de uma linguagem comum, ao reivindicar um sentido plástico vinculado às imagens e dissonâncias da vida urbana.

A sua estratégia de leitura da figuração se manifesta através de aspectos provenientes da linguagem da arte pop, de uma visível influência de Andy Warhol, Jean Michel Basquiat e Keith Haring; no uso de elementos da cultura popular, como as ilustrações de revistas, jornais e suas expressivas composições - são portadores de uma impetuosidade emocional, trazem símbolos e motivos aleatórios com fortes conteúdos críticos, que são confrontadas com a crueza e rudeza dos muros urbanos. O artista converteu a pintura desenhada na sua principal técnica, ao dissolver os sistemas figurativos e redefinir as formas no espaço, produzindo uma nova geração de imagens. O desfazer progressivo passa a ser um exercício constante e a coexistência de formas díspares anuncia um pensamento de descontinuidade e ruídos visuais incorporados à sua cultura visual.

Sua pintura gestual, instintiva, espontânea, encontra suas raízes na sua admiração por certos artistas que pontuaram a vanguarda da contemporaneidade e passa a observar o vocabulário ligado à tradição construtiva. Entre as sua afinidades eletivas estão Amílcar de Castro e Mira Schendel. As formas, agora dispostas através de um jogo de derivações geométricas, estão associadas a uma natureza controlada, mais ordenada, diversa da urgência da pichação. A construção composicional traz uma matéria opaca, protagonizada pelo acréscimo de uma espiral de sucessivas camadas que criam uma superfície convertida na densidade de um muro, um interminável palimpsesto de cores acrescido pela presença de formas geometrizadas, que se avolumam através de tensões dinâmicas.

Antonio Bokel atua no contexto da fotografia e adota um procedimento que acumula uma espécie de olhar memorialista, ao capturar o instante primeiro da pichação direta nos muros da cidade. Bokel recupera a imagem por ele criada e a reinscreve através da recuperação fotográfica. Uma espécie de desconstrução de imagens que não parecem interessadas em se definir, como se fossem fragmentos em constante desconstrução, sempre no ambíguo limite da efemeridade e da permanência. Na sequência, o artista utiliza experiências gráficas ou a própria serigrafia e finaliza com a intervenção pictórica na conclusão do seu processo artístico.

 

HIERÓGLIFOS CONTEMPORÂNEOS

Daniela Name

 

“Eu preciso dessas palavras escritas”
Arthur Bispo do Rosário

A relação de Antonio Bokel com as palavras e com o grafite ganha destaque e novos significados nessa primeira individual do artista em Vitória. O que se vê, não apenas no interior da galeria Matias Brotas, mas também na obra que vaza para além do espaço expositivo - na intervenção feita na fachada e nos sampler-lambes espalhados pela cidade - é a afirmação do interesse do artista pela escrita. 

Nas cavernas de Lascaux, as primeiras pinturas foram e são simultaneamente arte e comunicação, conjunto de signos gráficos e figurativos que formam uma linguagem a ser decifrada, um vocabulário visual anterior aos alfabetos. Do Brasil à China, da Rússia ao mundo árabe, passando pelos alfabetos grego e esquimó, cada letra guarda em si a memória de uma imagem, que um dia foi desenho a tentar narrar e guardar o mundo para o tempo. As palavras não deixam de ser uma espécie de arquivo fantasmático, da sobrevivência do casamento entre ícones e letras nos ideogramas japoneses aponta para a possibilidade de as palavras também serem uma espécie de paisagem. Um horizonte instável, mas sempre possível, onde vamos buscar indícios sobre uma cultura e uma sociedade. 

Bokel começou a mirar esse horizonte a partir de sua relação com o grafite e as intervenções urbanas. Sua pintura tinha, em seus primeiros passos, forte vínculo com a obra de artistas como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Nada além das palavras apresenta um amadurecimento do artista carioca para além das referências da arte urbana. A escultura Portugal no mundo, em que um galho de bronze perfura o livro que dá nome à peça, é muito emblemática para compreender esses novos caminhos. O galho, referência de paisagem recriada pelo artista, é também uma lança fálica que golpeia e fecunda a enciclopédia, espelho para nossa realidade como nação. No Brasil, o idioma colonizador estuprou as línguas indígenas donas desse país-continente, assim como os dialetos africanos de reis e rainhas capturados e escravizados. Mas o explorador europeu acabou sendo poluído, corrompido e adulterado por aqueles que oprimiu, já que o português falado no Brasil é um ruído do tripé de raças que marca nossa origem, constantemente recombinado com todas as influências que recebe de um mundo globalizado.

Black circuluz, tela tríptico que domina a montagem, fala desses ruídos entre paisagem e grafismos, e de como a luz acobreada dos trópicos pode aquecer e ressignificar o olhar sobre a paisagem e a escrita/discurso que criamos sobre ela. Ecoam nessa pintura todos os trabalhos reunidos em Vitória, um conjunto que, além de destacar a sobreposição entre palavra e imagem - e a leitura do grafite como um hieróglifo contemporâneo - evidencia a capacidade de Bokel de mesclar as várias linguagens artísticas. 

Nas telas maiores, quase monumentais, as áreas de monocromia, sobretudo na cor branca, como se vê na pintura Acaso, lembram as máscaras de extênsil usadas para pintar e escrever nos muros da cidade e revelam a presença de um vocabulário de gravura se infiltrando no fazer pictórico. É interessante, ainda, ver como tanto nos trabalhos agigantados quanto nas pequenas pinturas há um arranjo aparentemente randômico entre uma paisagem que parece ter sido feita com carimbos ou com monotipia, áreas de cor e o grafismo. Neste último, há a recorrência dos círculos, elemento que faz da escrita de Bokel algo contínuo, fluido, cíclico e feminino. Ao criar um painel que se estrutura a partir das distinções, pintando como quem faz uma espécie de sampler, Bokel transpõe para seu trabalho um pouco da lógica das cidades, onde cartazes e letreiros se acumulam e se invadem nos muros e se misturam à vegetação, à identidade visual dos ônibus em movimento, às cores dos carros e dos passantes. Essa noção da cidade como um painel de signos efêmeros, em constante reconfiguração, aparece não apenas nas pinturas, mas também nos trabalhos em outros suportes - escultura, fotografia ou gravura. 

No conjunto exposto na Matias Brotas, o artista adiciona a alguns desses mosaicos de fragmentos áreas inteiras pintadas de dourado, o que causa estranheza - a melhor das estranhezas - no observador. Cor ancestral para a história da pintura (dos ícones bizantinos a Klimt, passando pelas iluminuras medievais) e da arquitetura (das igrejas barrocas brasileiras aos palácios Ming), o dourado é o brilho mais branco que o branco, tom capaz de criar uma superfície ao mesmo tempo opaca e reflexiva, uma imagem que dura e reverbera na retina, no corpo e na memória de quem vê. Além de toda a sua carga histórica e simbólica, o dourado cria um estado de suspensão, algo como uma paisagem entre parênteses. 

Ao optar pelo uso da cor, ora salpicando ouro sobre o branco, ora misturando-o a um vermelho árabe e oriental, Bokel dá à efemeridade um banho daquilo que se alonga e que dura - como símbolo e como estímulo visual. Algo de nossa constante brevidade que pode, quem sabe, roçar no eterno.

(Texto de 2016).

 

Corpo-limiar

Mario Gioia

 

É das obras mais instigantes presentes em La Nature d’Or. Um gesto gráfico que se desloca à esquerda de um vértice algo nave, algo edifício, rasgando o céu, em preto e branco, pontuado por nuvens extremamente plásticas. A caneta hidrográfica vai formar um volume por cima desse firmamento, meio informe. Na fotogravura feita a posteriori, o tom cinza predominará, mas na matriz-publicação que deu origem ao trabalho, o papel colado, marcado com a intervenção-gesto junto a outros acidentes, gera uma dimensão processual que termina por se estabelecer como um dos eixos potentes na nova individual de Antonio Bokel, no Rio de Janeiro.

A robusta obra arquitetônica de Kenzo Tange (1913-2005), que tanto rendeu delírios maravilhosos e utópicos influenciando o agrupamento dos metabolistas como foi elogiada por trazer a tradição construtiva do país oriental a uma modernidade de primeira hora, parece despedaçar-se, desmanchar-se e buscar uma reconstituição a partir da subjetividade hiperfragmentada do autor, que cotidianamente no seu fazer de ateliê se reinventa por meio de linguagens, investigações, abordagens, materiais. O Ginásio Nacional Yoyogi, então, se encontra com o ‘minhocão’ do Rio Comprido.

Como habitante de uma cidade ao mesmo tempo cindida e compartilhada, o artista carioca deixou faz muito um lado mais conhecido de sua produção, aquele em que grafismos e outros procedimentos o aproximavam mais da linguagem da arte da rua. Não à toa, em uma de suas mais irônicas obras, o centro da fotografia registrava o escrito numa parede qualquer: Eu não faço grafite.

De toda forma, a vivência dentro desse lócus complexo vai provocar experiências e desdobramentos de incertas determinações, mas que, ao final, forjam uma poética crispada e não linear. “A experiência urbana é primeiramente corporal. […] O corpo resiste enquanto corpo, ele não se pode furtar a uma relação com o real, com um mundo: ele não pode viver em um real que se parece com ‘qualquer coisa’, em um lugar que é ‘qualquer lugar’, um ‘lugar qualquer’. Não se habita um lugar qualquer, mas um mundo onde, de imediato, dentro e fora, privado e público, interior e exterior estão em ressonância. É preciso ‘ter lugar para existir’ […]”1, escreve Olivier Mongin.

Em La Nature d’Or, assim, Bokel persiste na lida diária de variadas experimentações. Há, por exemplo, um video em que os anteriores escritos de sua produção serão transmutados para perguntas, sempre com ironia, sobre a natureza do ofício artístico. É como se o artista extraísse de garatujas, chispas semânticas e outros signos urbanos uma certa energia, frescor e irreverência, mas retrabalhasse isso por um tempo mais dilatado e devolvesse tal carga por meio outro - no caso, o audiovisual, hoje onipresente e acessível a todos. A imagem de uma natureza encorpada, inicialmente apreendida como impassível, mas na verdade um sítio de contínua transmutação, provoca uma ruidosa recepção a ser apresentada juntamente com as questões trazidas, em forma de legenda, pelo pensamento do autor.

E numa era de circulação maximizada de quase tudo que pudermos imaginar, o artista elege novos vetores na produção pictórica - esta nunca pura, em constante elo com o desenho, o tridimensional, a colagem, a gravura. Um deles é a superfície da madeira naval, a mais sóbria e ‘isenta’ possível. Outro é o dourado, que pontuará diversas peças em La Nature d’Or e se espalhará de modos mais detidos ou desregrados por todo o recorte.

Em muitos dos dípticos, trípticos e conjuntos, módulos de conteúdos aparentemente assimétricos se ladearão, ganharão pares e associações numerosas. Campos de cor, chassis ‘alisados’, rastros de spray e linhas que emulam os antigos desenhos técnicos criam, assim, novas configurações visuais-conceituais de borradas especificações. Tais quais as fantasmagorias brilhantes que, enigmaticamente, parecem ter se instalado nos priscos retratos de astros hollywoodianos. O brilho (ou a ilusão de) pode fazer um bom par com a outra série, desta vez produzida por Bokel a partir do Instagram. Lumes postiços que, catalisados pela prática multifacetada do artista, podem, sim, dizer muito sobre a nossa essência, mesmo que ela esteja sobreposta, esgarçada, dividida.

1. MONGIN, Olivier. A Condição Urbana. São Paulo, Estação Liberdade, 2009, p. 242.

(Texto de 2015).

 

Arte como por acaso

Osvaldo Carvalho

 

O sentido de um discurso emerge para além daquilo que significa cada uma das palavras nele contidas passando a se expressar na superfície do seu todo. Mas só depois de feito é que se pode compreendê-lo. Antonio Bokel é objetivamente explícito na concepção de sua ação Como Por Acaso em que sua sintaxe, disposta em um lambe-lambe no fundo da vitrine, é borrada de tinta em um ato único propiciado pelo artista. Mas as consequências desse gesto não ficam naquela crosta do acontecimento em si que constatamos em data e local sabidos. Na proposta de Bokel nos deparamos antes com a dúvida que com a certeza. Será que presenciamos um comparativo, isto é, a performance se deu ao acaso ou, ao contrário, houve a intenção de que se assemelhasse com o casual e assim agiu o artista em conformidade?

A grande charada está na relação lógica das palavras na frase que se ergue diante dos olhos em sua simplicidade colossal que parece não deixar dúvidas, e o expectador menos atento aceita sem muitas especulações. Haveríamos de nos preocupar com algo mais? Decerto que sim, porque vivemos um período em que justamente pequenos detalhes possuem grande potência, melhor dizendo, aquilo a que estabelecemos insignificâncias são justamente nossos piores deslizes. O que não pode ser maior que a montanha torna-se, paradoxalmente, imperceptível.

Façamos então uma breve investigação sobre o estabelecimento da linguagem em Como Por Acaso; há muita coisa que pode ser captada abstratamente quando falamos, mas no momento da produção / recepção de enunciados temos algo único: é a interpretação, interpretando nos comunicamos e dessa maneira somos levados a uma outra dimensão universal da comunicação: a criatividade. Aqui (em seu enunciado) o artista nos leva a refletir sobre a precariedade de nossa fala e sobre a árdua tarefa que é a formação de um discurso consistente. Com um balde de tinta que lança sobre o “acaso planejado” se mostra avesso ao ponto de vista que se satisfaz linguisticamente, aquele que aceita a tradição. Bokel é daqueles artistas atentos que acompanham a formação cultural de seu tempo, a gênese de cada uma de suas dimensões, à feição de um procedimento dialético em que nunca se deixa reduzir a qualquer formalização. É um inquieto.

Ao sermos confrontados com as possibilidades múltiplas da palavra é que percebemos a pertinência do processo poético-visual que a reinsere no campo da arte a qual, como dizia Michel Butor, derruba muros de conhecimento erguidos para separar a palavra da imagem. Nesse desenvolvimento o artista altera a referência alterando a verdade. Temos na vitrine o resultado de uma experimentação em que Bokel se submete à possibilidade do erro, não há uma real preocupação de fundamentação, mas concordância de que tudo está em constante movimento, tudo segue o fluxo de transformações da natureza.

A arte não é algo a serviço do entendimento, aliás, devemos desconfiar daqueles que prezam antes de tudo pela clareza, ela como recurso lógico não é um bem absoluto, mas um meio.

(Texto de 2014).

>< Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro/RJ.

>< BGA Investimentos.

>< MAR – Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro/RJ.