Aura arte antonio bokel

Antonio Bokel

Rio de Janeiro/RJ, 1978. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

Rio de Janeiro/RJ, 1978. Vive e trabalha no Rio de Janeiro/RJ.

Artista carioca, Antônio Bokel transita entre a pintura, a escultura, a literatura e a estética das intervenções gráficas urbanas. Sua gestualidade e experimentação cromática são marcas presentes em sua pintura, caminhando lado a lado com uma curiosidade informal direcionada sobre o universo das simbologias culturais e iconografias populares. Percebe-se, nos seus gestos, uma vontade de representação estética do caos, algo que podemos observar nos ritmos de espontaneidade e diligência, fruto das mobilidades frenéticas da urgência dos tempos atuais. Desse modo, a expressão gráfica do artista torna-se um amálgama das visualidades das ruas, das revistas, das imagens publicitárias, dos cartazes comerciais esquecidos e deteriorados pelo tempo, junto com criações visuais próprias das identidades periféricas que se sobrepõem sobre essas comunicações. Um trabalho que soma as linguagens gráficas e pictóricas do campo artístico junto com indagações frente ao imaginário urbano e social em que vivemos.

Bokel também tensiona diferentes linguagens plásticas ao aproximar soluções visuais que bebem de distintas procedências. Podemos notar em suas pinturas citações explícitas às correntes históricas informais, ao mesmo tempo em que se faz presente configurações geométricas próprias das vertentes racionais construtivistas. Ao ativar essa coexistência de códigos quase opostos, Antônio Bokel nos reafirma atuar em um cenário pós-moderno, onde o acúmulo da diferença parece fazer sentido. 


Mini Bio

Formou-se em design gráfico pela UniverCidade, em 2004. Realizou a sua primeira exposição individual em 2003, na Ken’s Art Gallery, em Florença, Itália, onde residiu e fez cursos de fotografia e história da arte. No Rio de Janeiro, teve aulas de modelo vivo com Bandeira de Mello e fez cursos de pintura com João Magalhães e com Luiz Ernesto, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Ao longo das duas últimas décadas, tem apresentado seu trabalho no Brasil e no exterior.

Principais exposições: 2012 - Gramática Urbana, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro. 2013 - Transfiguração do Rastro, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. 2014 - Na Periferia do Mundo, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro. 2015 - La Nature d’or, galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro. 2014 - Novas aquisições MAM, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. 2016 - Nada Além das Palavras, Galeria Matias Brotas, Vitória. 2016 - Point of View / site specific, nos jardins do Palácio da Pena em Sintra Portugal. 2017 - Tudo que está coberto, Galeria Aura, São Paulo. 2018 - Ver Rever, Centro Cultura dos Correios, Rio de Janeiro. 2018 - Inquiet(ação), AM Galeria, Belo Horizonte.

Residências artísticas: AAAAA No Thing But Truth, na Sid Lee Collective Gallery, Amsterdam, Holanda.  ARTUR - Artistas Unidos em Residência, em Lagos, Portugal. Cidadela Art District, Cascais Portugal, React Contemporary, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores. 

Indicado ao Prêmio Pipa em 2015 e 2019.

 

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Rio de Janeiro/RJ, 1978. Lives and works in Rio de Janeiro/RJ.
 

Antonio Bokel is an artist from Rio de Janeiro, who transits between painting, sculpture, literature and the aesthetics of urban graphic interventions. His gestuality and chromatic experimentation are features present in his painting, walking side by side with an informal curiosity directed at the universe of cultural symbologies and popular iconographies. One can perceive in his gestures a desire for aesthetic representation of chaos, something that we can observe in the rhythms of spontaneity and diligence, result of the frantic mobilities of the urgency of present times. Thus, the artist's graphic expression becomes an amalgam of the visuals of the streets, magazines, advertising images, commercial posters, which have been forgotten and deteriorated by time, along with visual creations of peripheral identities that overlap on these communications. A work that adds the graphic and pictorial languages ​​of the artistic field along with inquiries towards the urban and social imaginary in which we live.

Bokel also proposes different plastic languages ​​when approaching visual solutions that are influenced by different provenances. One can note in his paintings explicit quotations to informal historical currents, while at the same time making present geometric configurations of the constructivist rational trends. By activating this coexistence of almost opposing codes, Antonio Bokel reaffirms us to act in a postmodern scenario, where the accumulation of difference seems to make sense.

 

Mini Bio

He graduated in graphic design from UniverCidade in 2004. He held his first solo exhibition in 2003 at the Ken's Art Gallery in Florence, Italy, where he studied photography and history of art. In Rio de Janeiro, he took live model classes with Bandeira de Mello and took painting courses with João Magalhães and Luiz Ernesto at the Visual Arts School of Parque Lage, Rio de Janeiro. Over the last two decades, he has presented his work in Brazil and abroad.

Most important exhibits: 2012 - Gramática Urbana (Urban Grammar), Hélio Oiticica Municipal Art Center, Rio de Janeiro. 2013 - Transfiguração do Rastro (Transfiguration of the Trace), Hélio Oiticica Municipal Art Center. 2014 - Na Periferia do Mundo (In the Periphery of the World), Cultural Center of Federal Justice, Rio de Janeiro. 2015 - La Nature d'or (The Golden Nature), Mercedes Viegas Gallery, Rio de Janeiro. 2014 - Novas aquisições MAM (New acquisitions MAM), Museum of Modern Art of Rio de Janeiro. 2016 - Nada Além das Palavras (Nothing Beyond Words) Matias Brotas Gallery, Vitória. 2016 - Point of View / site specific, in the gardens of the Palácio da Pena in Sintra, Portugal.

Artistic residencies: AAAAA No Thing But Truth, Sid Lee Collective Gallery, Amsterdam, The Netherlands. ARTUR - Artistas Unidos em Residência (United Artists in Residence) Lagos, Portugal. Cidadela Art District (Citadel Art District), Cascais, Portugal.

Indicated to the Pipa Award in 2015 and 2019.



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2019 - Indicação ao Prêmio Pipa.

2015 - Indicação ao Prêmio Pipa.

Formação

2010 - Curso de modelo vivo, Professor Bandeira de Melo, Rio de Janeiro/RJ.

2007 - Pintura, João Magalhães, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Pintura, Luiz Hernesto, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro/RJ.

2004 - Graduação em Design Gráfico pela UniverCidade, Rio de Janeiro/RJ.

2003 - História da Arte, Florença/Itália.

2003 - Fotografia, Florença/Itália.

 

Principais exposições individuais

2019 - Espaço entre as coisas, Galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro/RJ

2018 - Inquiet(ação), AM Galeria, Belo Horizonte/MG

2018 - VerRever, Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro/RJ

2017 - Tudo que está coberto, Galeria Aura, São Paulo/SP

2016 - Nada Além das Palavras, curadoria Daniela Name, Galeria Matias Brotas, Vitória/ES.

2015 - La Nature D’or, curadoria Mario Gioia, Galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro/RJ

2015 - Align, Cidadela Art District, Cascais/Portugal.

2014 - Na Periferia do Mundo, curadoria Vanda Klabin, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro/RJ.

2014 - Instalação Faça Aqui Seu Grafite, Arte Rua, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Made in India, Galeria Homegrown, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Degrau, curadoria Mario Gioia, Galeria Contempo, São Paulo/SP.

2012 - Afetos Rotas e Desvios, Galeria Armando Mattos, Búzios/RJ.

2012 - Transfiguração do Rastro, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - Corpus Cordex, Centro Cultural Solar de Botafogo/RJ.

2011 - Grafitti Error, FB Galery, Nova Iorque/EUA.

2010 - “No Thing But Truth”, SidLee Collective Gallery, Amsterdam/Holanda.

2010 - Cruzes e Credos, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2006 - Instalacão:”We are tottaly together”, Galeria Box 4, Rio de Janeiro/RJ.

2004 - 69 d.p.i. Pornográficos, Galeria Mínima, Rio de Janeiro/RJ.

 

Principais exposições coletivas

2019 - O negócio da alma, Centro Cultural Correos, Rio de Janeiro/RJ

2017 - Pintura do tipo brasileira, Casa França Brasil, curadoria Renata Gesonimo, Rio de Janeiro/RJ

2017 - Matter /Non Matter, Museu de Angra do Heroismo, Ilha dos Açores, Portugal

2016 - Monumental, Marina da Glória, curadoria Marc Pottier, Rio de Janeiro,/RJ  

2016 - Point of View, exposição coletiva / site specific, Sintra/Portugal.

2014 - Novas Aquisições, MAM, Rio de Janeiro/RJ.

2013 - Movimentos Paralelos, Santo Domingo/República Dominicana.

2012 - Gramática Urbana, curadoria Vanda Klabin, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - ARTUR, Artistas Unidos em Residência, LAC, Lagos/Portugal.

2011 - Atemporal, Espaço Apis, Rio de Janeiro/RJ.

2011 - Conexão Atemporal, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2010 - Parede, Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro/RJ.

2010 - Int3svenção, Jaime Portas Vilasecas Galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2009 - Ocho, Rojo Gallery, Barcelona/Espanha.

2009 - Ocho, Rojo, Galeria Pop, São Paulo/SP.

2009 - Vem na Mão, CCJF, Rio de Janeiro/RJ.

2009 - Ocho, Rojo, Galeria Mini, Belo Horizonte/MG.

2009 - Devorando Discursos Extranjeros, Madrid/Espanha.
2008 - Exposição de Verão, box 4 e Silvia Cintra galeria, Rio de Janeiro/RJ.

2008 - SP-Arte, stand Galeria Box 4, São Paulo/SP.

2008 - Top 3, mini Galeria, Belo Horizonte/MG.

2008 - Movimentos Paralelos, Cuba.

2008 - Projeto Fashion Containers, Fashion Rio, Rio de Janeiro/RJ.

2007 - Novas Inquisições, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2006 - Visões Dub 2, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Galeria Haus Arte Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ.

2005 - Fôlego, Espaço Repercussivo, Rio de Janeiro/RJ.

2003 - Ken’s Gallery, Florença/Itália. 

 

Publicações

2016 - VER, Réptil Editora

Exposição VerRever

Vanda Klabin, 2018

Nessa exposição no Centro Cultural Correios, Antonio Bokel revela um constante cruzamento entre a arte e o tecido da vida urbana, como partes constitutivas do seu universo simbólico. Recorre a essa experiência da cidade como sequências existenciais – ali constrói o seu espaço referencial, ali parece inventar um território, ali pretende constituir uma extensão estética e espacial em uma dimensão mais ampla.

Nessa zona de interseção, está presente uma capacidade de improvisação poética a partir da assimilação dos mais variados materiais e suportes, tais como objetos enigmáticos, utensílios urbanos, inserção de letras, jogos de palavras ou fragmentos literários, que transitam nas pinturas murais, nas superfícies das telas, nas fotografias, nas esculturas ou nas instalações espaciais. Mas é na sua pintura que encontramos os acordes do seu campo de ação, indicativos de uma força integradora de suas inquietudes estéticas, ao equilibrar cores, formas e volumes em um mosaico de pinceladas rítmicas que trazem à tona as assimetrias do mundo.

Nesse conturbado território, o artista evoca uma reflexão sobre o espaço urbano contemporâneo. A sua produção artística não é um fenômeno isolado no ateliê, mas realiza a sua inscrição no mundo, em uma esfera pública, ao corporificar sua emergência nos muros da cidade – ambos acolhem simultaneamente sua prática pictórica e criam uma fusão entre a obra e o mundo.

Antonio Bokel reivindica um estar no mundo, aglutinar experiências, deixar traços visíveis no olhar público e não apenas entre quatro paredes. As suas obras são verdadeiros manifestos visuais e apesar de apresentarem uma rica diversidade, se agrupam através de uma linguagem comum, ao reivindicar um sentido plástico vinculado às imagens e dissonâncias da vida urbana.

A sua estratégia de leitura da figuração se manifesta através de aspectos provenientes da linguagem da arte pop, de uma visível influência de Andy Warhol, Jean Michel Basquiat e Keith Haring; no uso de elementos da cultura popular, como as ilustrações de revistas, jornais e suas expressivas composições – são portadores de uma impetuosidade emocional, trazem símbolos e motivos aleatórios com fortes conteúdos críticos, que são confrontadas com a crueza e rudeza dos muros urbanos. O artista converteu a pintura desenhada na sua principal técnica, ao dissolver os sistemas figurativos e redefinir as formas no espaço, produzindo uma nova geração de imagens. O desfazer progressivo passa a ser um exercício constante e a coexistência de formas díspares anuncia um pensamento de descontinuidade e ruídos visuais incorporados à sua cultura visual.

Sua pintura gestual, instintiva, espontânea, encontra suas raízes na sua admiração por certos artistas que pontuaram a vanguarda da contemporaneidade e passa a observar o vocabulário ligado à tradição construtiva. Entre as suas afinidades eletivas estão Amílcar de Castro e Mira Schendel. As formas, agora dispostas através de um jogo de derivações geométricas, estão associadas a uma natureza controlada, mais ordenada, diversa da urgência da pichação. A construção composicional traz uma matéria opaca, protagonizada pelo acréscimo de uma espiral de sucessivas camadas que criam uma superfície convertida na densidade de um muro, um interminável palimpsesto de cores acrescido pela presença de formas geometrizadas, que se avolumam através de tensões dinâmicas.

Antonio Bokel atua no contexto da fotografia e adota um procedimento que acumula uma espécie de olhar memorialista, ao capturar o instante primeiro da pichação direta nos muros da cidade. Bokel recupera a imagem por ele criada e a reinscreve através da recuperação fotográfica. Uma espécie de desconstrução de imagens que não parecem interessadas em se definir, como se fossem fragmentos que corporificam um constante processo de integração e desintegração reintegração, sempre no ambíguo limite da efemeridade e da permanência. Na sequência, o artista utiliza experiências gráficas ou a própria serigrafia e finaliza com a intervenção pictórica na conclusão do seu processo artístico.

 

Tudo que está coberto.

Paulo Gallina, 2017

 

Ao se refletir sobre o universo das artes sempre se está pensando em imagens, com frequência, entretanto, confunde-se uma obra de arte com a superfície da imagem. Talvez nas produções artísticas literárias ou musicais a relação entre a forma apresentada e o conteúdo discorrido não se reportem tanto às imagens sobre o papel. Com a produção em artes plásticas, no entanto, a imagem é reiteradamente tomada como sinônimo da superfície visível. Uma conclusão razoavelmente lógica, ainda que se revele como falsa no contexto da pesquisa e produção do artista carioca Antonio Bokel.

As pinturas de Antonio revelam prontamente ao olho um interesse gestual, como se linha a linha, campo de cor a campo de cor, o artista registrasse movimentos sem preocupar-se exatamente com a imagem resultante. Porque a imagem, neste caso, é o registro gestual e não a desculpa para o gesto acontecer. O conjunto de pinturas RIR (2017) é revelador deste momento da pesquisa de Antonio: ao intercalar telas de linho e algodão, o artista também aproxima e sobrepõe a gestualidade livre à dureza de formas geométricas lineares preenchidas por negrume. Quase que naturalmente, Antonio revela ao observador como ambas as atitudes são formadas pelos mesmos pincéis, sprays, espátulas e dedos que depositam as tintas. As cores são camadas cobrindo as superfícies, fingindo-se de formas geométricas sem a pretensão de aproximar-se da matemática analítica capaz de conceber e calcular os perímetros e as áreas. Isso porque a matemática é apenas uma forma mental de se abordar o mundo, conquanto o conjunto dos painéis RIR promove uma experiência a ser explorada enquanto momento fora do tempo: sem passado e sem futuro, o artista exige do observador que ele exista e note a existência da matéria posta à vista.

Não por acaso, em algumas das pinturas presentes nesta exposição, a superfície das telas, dos linhos, dos algodões e das chapas de madeira revelam-se expostas ao olhar, sem mesura ou tratamento. Esse procedimento insinua um pensamento amplo sobre o fazer do pintor: o suporte está dado assim como a cor, a linha e a imagem. Essas imagens não se permitem ser a simples ilusão de um retrato ou paisagem a ser reconhecido, pelo contrário, nas mãos de Antonio Bokel a pintura é matéria visível e cotidiana que retrata a narrativa dos dias sem marcar o presente no segundo milênio ou no terceiro da era cristã. A pesquisa que explora o gesto e seu registro em linha ou superfície colorida relaciona estes vestígios ao suporte que os recebe, como fazem os muros das cidades com papéis lambe-lambe e grafites de toda sorte.

Uma pintura como Amilcar descalço (2017) e a gravura Homenagem a São Paulo (2017), para além do dado que integra o suporte[1] à imagem, revelam também o interesse do artista por rastros, vestígios dos muitos estados pelos quais a obra passou. Em Homenagem a São Paulo, por exemplo, as irregulares formas douradas que intervém aqui e ali na composição sugerem certa escavação na gravura, a forma irregular a um só tempo esconde e revela o que cobre. A colocação nessa gravura desse marcante material é memória desvelada, quase literalmente a revelação fotográfica de toda a experiência contida em uma memória[2]. No caminho até a imagem final tanto da pintura Amilcar descalço quanto da gravura Homenagem a São Paulo, Antonio parece reafirmar uma potência de sua pesquisa, como se a caminhada até a obra de arte fosse, em verdade, a finalidade de sua produção. Colocações tão marcadas de campos de cor sugerem certa negação da possibilidade desse seu trabalho ser simplesmente o fetiche da peça finalizada ou o fetiche da imagem nele contida. Os diálogos marcados entre a imagem inicial e o trabalho final reiteram a importância dos processos de pesquisa e do contato epidérmico entre o artista e a sua obra.

Enquanto em suas pinturas de grandes dimensões o artista carioca explora duas tradições históricas de pintura[3] para criar uma experiência entre o sujeito e a obra; em pinturas menores, como as caixas de madeira pintadas com tinta a óleo da série Pequenos olhos (2017), Antonio explora a especificidade característica desta diluição do pigmento. Os gestos do artista nessa série não atuam exatamente como pinceladas, aproximando-se cada vez mais às formas finais das pinturas. Eles prestam-se, antes, a ser como volumes de altos relevos, diferente da utilização esperada da tinta óleo[4]. A escolha do suporte, madeira, subverte também a expectativa da aplicação de óleo[5], tipicamente sobre tela. Fato é que estes pequenos formatos revelam-se enquanto um momento intermediário no método tradicional da aplicação da tinta: a paleta de cores. Comumente, entre o esboço e a finalização da pintura com a tinta, o pintor abre a cor em uma paleta: depositando as tintas em pequenas porções sobre a chapa de madeira[6] para, a seguir, criar diluições proporcionais entre as cores, portanto, tornando reprodutíveis com alguma facilidade cores únicas misturadas à necessidade da composição. A série Pequenos olhos, em alguma medida, é a paleta em que o artista abriu a cor e a imagem final formada na própria superfície onde acontece a diluição.

Assim como o francês ou o inglês, a pintura e a escultura são línguas bárbaras. Incapazes de diferenciar ser de estar, estas formas de comunicação selvagem concebem a experiência presente idêntica à toda a existência. Vivendo da vigília do observador, a pintura parece não existir no passado[7], nem no futuro[8], guardando sua capacidade de ser, sua permanência, na matéria e no presente. Este procedimento de aproximação entre o observador, sempre no presente, e a obra, impedida de comunicar-se sem um interlocutor, pode insinuar mais proximidade entre a imagem final de uma obra com seu valor intrínseco. Uma obra é um conjunto de valorações, atravessando valores compositivos, históricos, mercadológicos e narrativos; conquanto a manifestação mais palpável destas medidas imateriais talvez seja o valor em papel moeda que ela tem. A obra plástica de Antonio Bokel tem a vocação de aclamar todos os valores de uma peça, nas palavras do artista “foi ali que eu entendi que seguir adiante é um mergulho no infinito, uma incerteza constante que é guiada pela fé. Porque se você pensar muito em algumas coisas, você não faz. Independente da necessidade desta realização”.

A escultura do artista carioca revela a disposição a tomar de assalto o espaço. Como um pensador, Antonio revela a clareza no conjunto escultórico apresentado em Tudo que está coberto. As peças simulam a espontaneidade de um gesto impensado, como uma camisa deixada sobre qualquer apoio em um dia de calor, portanto, sua exposição se reporta à oposição organizado x desarrumado. Sendo a eternização de um gesto despretensioso, as esculturas desta exposição estimulam o observador a refletir sobre a potência e a fragilidade do intento artístico. A matéria do mundo e a matéria dos corpos escultóricos tornam ausente a figura humana, sem deixar de pontuar sua presença através da manufatura dos materiais. Veja-se, como exemplo, os panos de bronze cuidadosamente remexidos, como lençóis, lenços e outros panos de uso cotidiano ou ainda como uma tela antes de ser esticada e presa sobre um chassi. A peça O que está coberto (2017) consegue inverter a expectativa material, o prego, martelado na parede, parece segurar o peso de um pano derramado ao chão como em uma composição flamenca do século XVI, entretanto é impossível qualquer prego sustentar o peso do pano fundido em bronze, ao menos a expectativa da vista não corresponde à realidade material que é apresentada. Assim como uma obra, com frequência, é muito mais do que a aglomeração de materiais. Uma afirmação aparentemente frágil que conta com a cumplicidade entre o observador e a peça para revelar-se central na força social que a arte pode ter, uma discussão sutilmente trabalhada pelo artista a cada passo tomado em direção a esta exposição.

Corpos-bloco de concreto, de ar ou de pintura são cobertos por panos fundidos em bronze, estimulando o visitante a enxergar o invisível. “Parte do conceito em minha obra é o corpo [humano] como concreto. Literal e figurativamente”, disse o artista ao curador em uma parada de café antes de chegarem à fundição durante a pesquisa que se apresenta nesta mostra. Uma afirmação simples que revela a vontade do artista de expor aos olhos uma compreensão de narrativa de como se dão as relações e os indivíduos no estranho hábito de se viver. A matéria do mundo e dos corpos é a forma e o conteúdo da pesquisa do artista carioca e revelar um descontrole no gesto da pintura ou na simulação do movimento natural dos panos em escultura é, nesta exposição, uma alegoria para a vida, com seus espantos, expectativas e desencantos.

Em seu livro A história universal da infâmia[9], o argentino Jorge Luis Borges apresenta ao seu leitor o conto de um rei chinês que exige de seus cartógrafos a fatura de um mapa com proporção 1:1, ou seja, um mapa que tenha o mesmo tamanho do reino. Borges, em sua narrativa, está comentando sobre a competência humana de cobrir o mundo com a percepção dos eventos constatada pelo indivíduo. A obra plástica do carioca Antonio Bokel trabalha, aparentemente, dentro desse paradigma, expandindo-o dentro dos sujeitos que observam a presença da obra de arte. Este colocar-se diante da obra no presente e somente no presente, descartando a memória capaz de retroceder o indivíduo a um passado recente ou ancestral, impede que o sujeito seja apenas uma entidade que percebe o mundo, como seria o mapa em relação ao reino do conto argentino.

De maneira semelhante a Jorge Luis Borges[10], os trabalhos apresentados nesta exposição servem como gatilho para a questão: o que está coberto? Seriam outras formas, obliteradas por camadas de tinta ou bronze? Ou estariam cobertos os significados de um sistema de comunicação que não se reporta a palavras, mas que todos vivenciamos dentro da experiência humana? O conjunto escultórico trazido para a exposição Tudo que está coberto é capaz de revelar gestos banais, semelhantes aos gestos pictóricos que encontramos nas pinturas de Antonio, e indicam, na fundição eternizada em bronze, uma condição natural da obra de arte: sua transformação de objeto diante do olho à narrativa humana que por ela foi tocada. Entre a possibilidade da ficção de uma pintura misteriosa escondida pelo puro gesto à realidade material do objeto escultórico, uma vez mais o sujeito que toma contato com a obra de Antonio Bokel é colocado diante da pergunta: todos esses conteúdos, essas leituras e compreensões por ele exploradas são filhas do artista, do olho de quem observa ou da mente de quem de fato consegue acessar a somatória das dúvidas sob tudo que está coberto?

 

[1] Habitualmente invisível ou completamente coberto.

[2] A qual, sem dúvida, forma-se de maneira sinestésica, integrando todos os sentidos e não singularmente imagens, sons ou cheiros.

[3] A abstração geométrica e a abstração informal.

[4] Note-se como as palavras olhos, que dá nome a série, e óleos, que dá forma as obras, são homófonas: sendo as grafias e significados diversos, a sonoridade das palavras é a mesma.

[5] Talvez a mais longeva tradição em pintura no ocidente.

[6] Correntemente conhecida como Paleta.

[7] No melhor dos casos o passado é uma memória, um registro de uma vivência; no pior, talvez, uma história culturalmente induzida passada de geração em geração.

[8] Um projeto de alteração da realidade pensada no tempo presente.

[9] BORGES, Jorge Luis. História universal da infâmia. São Paulo: Companhia das letras, 2016.

[10] O qual cria um conto para discursar sobre a percepção humana, seus falsetes e suas generalizações.

 

Texto de Vanda Klabin, 2017

 

Observa-se nas obras de Antonio Bokel um constante cruzamento entre a arte e o tecido da vida urbana, como partes constitutivas do seu universo simbólico. Recorre a essa experiência da cidade como sequências existenciais - ali constrói o seu espaço referencial, ali parece inventar um território, ali pretende constituir uma extensão estética e espacial em uma dimensão mais ampla.

Nessa zona de interseção, está presente uma capacidade de improvisação poética a partir da assimilação dos mais variados materiais e suportes, tais como objetos enigmáticos, utensílios urbanos, inserção de letras, jogos de palavras ou fragmentos literários, que transitam nas pinturas murais, nas superfícies das telas, nas fotografias, nas esculturas ou nas instalações espaciais. Mas é na sua pintura que encontramos os acordes do seu campo de ação, indicativos de uma força integradora de suas inquietudes estéticas, ao equilibrar cores, formas e volumes em um mosaico de pinceladas rítmicas que trazem à tona as assimetrias do mundo.

Nesse conturbado território, o artista evoca uma reflexão sobre o espaço urbano contemporâneo. A sua produção artística não é um fenômeno isolado no ateliê, mas realiza a sua inscrição no mundo, em uma esfera pública, ao corporificar sua emergência nos muros da cidade – ambos acolhem simultaneamente sua prática pictórica e criam uma fusão entre a obra e o mundo.

Antonio Bokel reivindica um estar no mundo, aglutinar experiências, deixar traços visíveis no olhar público e não apenas entre quatro paredes. As suas obras são verdadeiros manifestos visuais e apesar de apresentarem uma rica diversidade, se agrupam através de uma linguagem comum, ao reivindicar um sentido plástico vinculado às imagens e dissonâncias da vida urbana.

A sua estratégia de leitura da figuração se manifesta através de aspectos provenientes da linguagem da arte pop, de uma visível influência de Andy Warhol, Jean Michel Basquiat e Keith Haring; no uso de elementos da cultura popular, como as ilustrações de revistas, jornais e suas expressivas composições - são portadores de uma impetuosidade emocional, trazem símbolos e motivos aleatórios com fortes conteúdos críticos, que são confrontadas com a crueza e rudeza dos muros urbanos. O artista converteu a pintura desenhada na sua principal técnica, ao dissolver os sistemas figurativos e redefinir as formas no espaço, produzindo uma nova geração de imagens. O desfazer progressivo passa a ser um exercício constante e a coexistência de formas díspares anuncia um pensamento de descontinuidade e ruídos visuais incorporados à sua cultura visual.

Sua pintura gestual, instintiva, espontânea, encontra suas raízes na sua admiração por certos artistas que pontuaram a vanguarda da contemporaneidade e passa a observar o vocabulário ligado à tradição construtiva. Entre as sua afinidades eletivas estão Amílcar de Castro e Mira Schendel. As formas, agora dispostas através de um jogo de derivações geométricas, estão associadas a uma natureza controlada, mais ordenada, diversa da urgência da pichação. A construção composicional traz uma matéria opaca, protagonizada pelo acréscimo de uma espiral de sucessivas camadas que criam uma superfície convertida na densidade de um muro, um interminável palimpsesto de cores acrescido pela presença de formas geometrizadas, que se avolumam através de tensões dinâmicas.

Antonio Bokel atua no contexto da fotografia e adota um procedimento que acumula uma espécie de olhar memorialista, ao capturar o instante primeiro da pichação direta nos muros da cidade. Bokel recupera a imagem por ele criada e a reinscreve através da recuperação fotográfica. Uma espécie de desconstrução de imagens que não parecem interessadas em se definir, como se fossem fragmentos em constante desconstrução, sempre no ambíguo limite da efemeridade e da permanência. Na sequência, o artista utiliza experiências gráficas ou a própria serigrafia e finaliza com a intervenção pictórica na conclusão do seu processo artístico.

 

HIERÓGLIFOS CONTEMPORÂNEOS

Daniela Name, 2016

 

“Eu preciso dessas palavras escritas”
Arthur Bispo do Rosário

A relação de Antonio Bokel com as palavras e com o grafite ganha destaque e novos significados nessa primeira individual do artista em Vitória. O que se vê, não apenas no interior da galeria Matias Brotas, mas também na obra que vaza para além do espaço expositivo - na intervenção feita na fachada e nos sampler-lambes espalhados pela cidade - é a afirmação do interesse do artista pela escrita. 

Nas cavernas de Lascaux, as primeiras pinturas foram e são simultaneamente arte e comunicação, conjunto de signos gráficos e figurativos que formam uma linguagem a ser decifrada, um vocabulário visual anterior aos alfabetos. Do Brasil à China, da Rússia ao mundo árabe, passando pelos alfabetos grego e esquimó, cada letra guarda em si a memória de uma imagem, que um dia foi desenho a tentar narrar e guardar o mundo para o tempo. As palavras não deixam de ser uma espécie de arquivo fantasmático, da sobrevivência do casamento entre ícones e letras nos ideogramas japoneses aponta para a possibilidade de as palavras também serem uma espécie de paisagem. Um horizonte instável, mas sempre possível, onde vamos buscar indícios sobre uma cultura e uma sociedade. 

Bokel começou a mirar esse horizonte a partir de sua relação com o grafite e as intervenções urbanas. Sua pintura tinha, em seus primeiros passos, forte vínculo com a obra de artistas como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Nada além das palavras apresenta um amadurecimento do artista carioca para além das referências da arte urbana. A escultura Portugal no mundo, em que um galho de bronze perfura o livro que dá nome à peça, é muito emblemática para compreender esses novos caminhos. O galho, referência de paisagem recriada pelo artista, é também uma lança fálica que golpeia e fecunda a enciclopédia, espelho para nossa realidade como nação. No Brasil, o idioma colonizador estuprou as línguas indígenas donas desse país-continente, assim como os dialetos africanos de reis e rainhas capturados e escravizados. Mas o explorador europeu acabou sendo poluído, corrompido e adulterado por aqueles que oprimiu, já que o português falado no Brasil é um ruído do tripé de raças que marca nossa origem, constantemente recombinado com todas as influências que recebe de um mundo globalizado.

Black circuluz, tela tríptico que domina a montagem, fala desses ruídos entre paisagem e grafismos, e de como a luz acobreada dos trópicos pode aquecer e ressignificar o olhar sobre a paisagem e a escrita/discurso que criamos sobre ela. Ecoam nessa pintura todos os trabalhos reunidos em Vitória, um conjunto que, além de destacar a sobreposição entre palavra e imagem - e a leitura do grafite como um hieróglifo contemporâneo - evidencia a capacidade de Bokel de mesclar as várias linguagens artísticas. 

Nas telas maiores, quase monumentais, as áreas de monocromia, sobretudo na cor branca, como se vê na pintura Acaso, lembram as máscaras de extênsil usadas para pintar e escrever nos muros da cidade e revelam a presença de um vocabulário de gravura se infiltrando no fazer pictórico. É interessante, ainda, ver como tanto nos trabalhos agigantados quanto nas pequenas pinturas há um arranjo aparentemente randômico entre uma paisagem que parece ter sido feita com carimbos ou com monotipia, áreas de cor e o grafismo. Neste último, há a recorrência dos círculos, elemento que faz da escrita de Bokel algo contínuo, fluido, cíclico e feminino. Ao criar um painel que se estrutura a partir das distinções, pintando como quem faz uma espécie de sampler, Bokel transpõe para seu trabalho um pouco da lógica das cidades, onde cartazes e letreiros se acumulam e se invadem nos muros e se misturam à vegetação, à identidade visual dos ônibus em movimento, às cores dos carros e dos passantes. Essa noção da cidade como um painel de signos efêmeros, em constante reconfiguração, aparece não apenas nas pinturas, mas também nos trabalhos em outros suportes - escultura, fotografia ou gravura. 

No conjunto exposto na Matias Brotas, o artista adiciona a alguns desses mosaicos de fragmentos áreas inteiras pintadas de dourado, o que causa estranheza - a melhor das estranhezas - no observador. Cor ancestral para a história da pintura (dos ícones bizantinos a Klimt, passando pelas iluminuras medievais) e da arquitetura (das igrejas barrocas brasileiras aos palácios Ming), o dourado é o brilho mais branco que o branco, tom capaz de criar uma superfície ao mesmo tempo opaca e reflexiva, uma imagem que dura e reverbera na retina, no corpo e na memória de quem vê. Além de toda a sua carga histórica e simbólica, o dourado cria um estado de suspensão, algo como uma paisagem entre parênteses. 

Ao optar pelo uso da cor, ora salpicando ouro sobre o branco, ora misturando-o a um vermelho árabe e oriental, Bokel dá à efemeridade um banho daquilo que se alonga e que dura - como símbolo e como estímulo visual. Algo de nossa constante brevidade que pode, quem sabe, roçar no eterno.

 

Corpo-limiar

Mario Gioia, 2015

 

É das obras mais instigantes presentes em La Nature d’Or. Um gesto gráfico que se desloca à esquerda de um vértice algo nave, algo edifício, rasgando o céu, em preto e branco, pontuado por nuvens extremamente plásticas. A caneta hidrográfica vai formar um volume por cima desse firmamento, meio informe. Na fotogravura feita a posteriori, o tom cinza predominará, mas na matriz-publicação que deu origem ao trabalho, o papel colado, marcado com a intervenção-gesto junto a outros acidentes, gera uma dimensão processual que termina por se estabelecer como um dos eixos potentes na nova individual de Antonio Bokel, no Rio de Janeiro.

A robusta obra arquitetônica de Kenzo Tange (1913-2005), que tanto rendeu delírios maravilhosos e utópicos influenciando o agrupamento dos metabolistas como foi elogiada por trazer a tradição construtiva do país oriental a uma modernidade de primeira hora, parece despedaçar-se, desmanchar-se e buscar uma reconstituição a partir da subjetividade hiperfragmentada do autor, que cotidianamente no seu fazer de ateliê se reinventa por meio de linguagens, investigações, abordagens, materiais. O Ginásio Nacional Yoyogi, então, se encontra com o ‘minhocão’ do Rio Comprido.

Como habitante de uma cidade ao mesmo tempo cindida e compartilhada, o artista carioca deixou faz muito um lado mais conhecido de sua produção, aquele em que grafismos e outros procedimentos o aproximavam mais da linguagem da arte da rua. Não à toa, em uma de suas mais irônicas obras, o centro da fotografia registrava o escrito numa parede qualquer: Eu não faço grafite.

De toda forma, a vivência dentro desse lócus complexo vai provocar experiências e desdobramentos de incertas determinações, mas que, ao final, forjam uma poética crispada e não linear. “A experiência urbana é primeiramente corporal. […] O corpo resiste enquanto corpo, ele não se pode furtar a uma relação com o real, com um mundo: ele não pode viver em um real que se parece com ‘qualquer coisa’, em um lugar que é ‘qualquer lugar’, um ‘lugar qualquer’. Não se habita um lugar qualquer, mas um mundo onde, de imediato, dentro e fora, privado e público, interior e exterior estão em ressonância. É preciso ‘ter lugar para existir’ […]”1, escreve Olivier Mongin.

Em La Nature d’Or, assim, Bokel persiste na lida diária de variadas experimentações. Há, por exemplo, um video em que os anteriores escritos de sua produção serão transmutados para perguntas, sempre com ironia, sobre a natureza do ofício artístico. É como se o artista extraísse de garatujas, chispas semânticas e outros signos urbanos uma certa energia, frescor e irreverência, mas retrabalhasse isso por um tempo mais dilatado e devolvesse tal carga por meio outro - no caso, o audiovisual, hoje onipresente e acessível a todos. A imagem de uma natureza encorpada, inicialmente apreendida como impassível, mas na verdade um sítio de contínua transmutação, provoca uma ruidosa recepção a ser apresentada juntamente com as questões trazidas, em forma de legenda, pelo pensamento do autor.

E numa era de circulação maximizada de quase tudo que pudermos imaginar, o artista elege novos vetores na produção pictórica - esta nunca pura, em constante elo com o desenho, o tridimensional, a colagem, a gravura. Um deles é a superfície da madeira naval, a mais sóbria e ‘isenta’ possível. Outro é o dourado, que pontuará diversas peças em La Nature d’Or e se espalhará de modos mais detidos ou desregrados por todo o recorte.

Em muitos dos dípticos, trípticos e conjuntos, módulos de conteúdos aparentemente assimétricos se ladearão, ganharão pares e associações numerosas. Campos de cor, chassis ‘alisados’, rastros de spray e linhas que emulam os antigos desenhos técnicos criam, assim, novas configurações visuais-conceituais de borradas especificações. Tais quais as fantasmagorias brilhantes que, enigmaticamente, parecem ter se instalado nos priscos retratos de astros hollywoodianos. O brilho (ou a ilusão de) pode fazer um bom par com a outra série, desta vez produzida por Bokel a partir do Instagram. Lumes postiços que, catalisados pela prática multifacetada do artista, podem, sim, dizer muito sobre a nossa essência, mesmo que ela esteja sobreposta, esgarçada, dividida.

1. MONGIN, Olivier. A Condição Urbana. São Paulo, Estação Liberdade, 2009, p. 242.

 

Arte como por acaso

Osvaldo Carvalho, 2014

 

O sentido de um discurso emerge para além daquilo que significa cada uma das palavras nele contidas passando a se expressar na superfície do seu todo. Mas só depois de feito é que se pode compreendê-lo. Antonio Bokel é objetivamente explícito na concepção de sua ação Como Por Acaso em que sua sintaxe, disposta em um lambe-lambe no fundo da vitrine, é borrada de tinta em um ato único propiciado pelo artista. Mas as consequências desse gesto não ficam naquela crosta do acontecimento em si que constatamos em data e local sabidos. Na proposta de Bokel nos deparamos antes com a dúvida que com a certeza. Será que presenciamos um comparativo, isto é, a performance se deu ao acaso ou, ao contrário, houve a intenção de que se assemelhasse com o casual e assim agiu o artista em conformidade?

A grande charada está na relação lógica das palavras na frase que se ergue diante dos olhos em sua simplicidade colossal que parece não deixar dúvidas, e o expectador menos atento aceita sem muitas especulações. Haveríamos de nos preocupar com algo mais? Decerto que sim, porque vivemos um período em que justamente pequenos detalhes possuem grande potência, melhor dizendo, aquilo a que estabelecemos insignificâncias são justamente nossos piores deslizes. O que não pode ser maior que a montanha torna-se, paradoxalmente, imperceptível.

Façamos então uma breve investigação sobre o estabelecimento da linguagem em Como Por Acaso; há muita coisa que pode ser captada abstratamente quando falamos, mas no momento da produção / recepção de enunciados temos algo único: é a interpretação, interpretando nos comunicamos e dessa maneira somos levados a uma outra dimensão universal da comunicação: a criatividade. Aqui (em seu enunciado) o artista nos leva a refletir sobre a precariedade de nossa fala e sobre a árdua tarefa que é a formação de um discurso consistente. Com um balde de tinta que lança sobre o “acaso planejado” se mostra avesso ao ponto de vista que se satisfaz linguisticamente, aquele que aceita a tradição. Bokel é daqueles artistas atentos que acompanham a formação cultural de seu tempo, a gênese de cada uma de suas dimensões, à feição de um procedimento dialético em que nunca se deixa reduzir a qualquer formalização. É um inquieto.

Ao sermos confrontados com as possibilidades múltiplas da palavra é que percebemos a pertinência do processo poético-visual que a reinsere no campo da arte a qual, como dizia Michel Butor, derruba muros de conhecimento erguidos para separar a palavra da imagem. Nesse desenvolvimento o artista altera a referência alterando a verdade. Temos na vitrine o resultado de uma experimentação em que Bokel se submete à possibilidade do erro, não há uma real preocupação de fundamentação, mas concordância de que tudo está em constante movimento, tudo segue o fluxo de transformações da natureza.

A arte não é algo a serviço do entendimento, aliás, devemos desconfiar daqueles que prezam antes de tudo pela clareza, ela como recurso lógico não é um bem absoluto, mas um meio.

>< Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro/RJ.

>< BGA Investimentos.

>< MAR – Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro/RJ.

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