Favicon 1cb4489fb8f184406263c976f23e6ccba48662de2a4c7065632fd05b7305879a
Aura arte aline daka

Aline Daka

Viamão/RS, 1979. Vive e trabalha em Porto Alegre e Picada Café/RS.

Artista visual, ilustradora e quadrinista. Formada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS com passagem pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em Portugal. Já participou de exposições no Brasil, em Portugal e na Espanha. É ilustradora da (n.t.) Revista Literária em Tradução e curadora do Suplemento de Arte. Tem seu trabalho publicado em revistas de arte e literatura, além de livros com ilustrações a partir de poesias. Atualmente, publicou um álbum de quadrinhos pela editora OSSO. 

A artista trabalha com narrativas nas diferentes linguagens do desenho, do livro de artista, da ilustração e dos quadrinhos. Possui como tema principal de suas obras o feminino na arte.   

Work aura aline daka destaque arte  11
Work aura aline daka destaque arte  13
Work aura aline daka destaque arte  12
Work aura aline daka destaque arte  10
Work aura aline daka destaque arte  9
Work aura aline daka destaque arte  7
Work aura aline daka destaque arte  1
Work aura aline daka destaque arte  6
Work aura aline daka destaque arte  4
Work aura aline daka destaque arte  2
Work aura aline daka destaque arte  8

Exposições individuais

2009 - O pátio das idades, Galeria Clébio Sória, Porto Alegre/RS.

 

Exposições coletivas

2017 - Devaneios, Galeria Aura, São Paulo/SP.

2015 - Projeto Livro Interferido II, Livraria Traça e Bar Ocidente, Porto Alegre/RS.

2015 - O CORPO NA ARTE: Instrumento, Plasticidade e Suporte, MAC - Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre/RS.

2014 - Futurama, Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, Porto Alegre/RS.

2012 - Supernova, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, IA/UFRGS, Porto Alegre/RS.

2011 - Ilustração, arte de narrar, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, IA/UFRGS, Porto Alegre/RS.

2010 - Je Le Sais Par Coeur, eu sei de cor, eu sei de coração", Bienal B, Galeria da Aliança Francesa, Porto Alegre/RS.

2010 - Projeto Trait-d-Union Portugal-França, Fundação Asso-Andaka, Espaço Expositivo da União Europeia, Lisboa/Portugal.

2010 - O Lugar que o Corpo Ocupa, Espaço Expositivo da Biblioteca de Telheiras, Lisboa/Portugal.

2009 - Filo-Café, Lamego/Portugal.

2009 - Filo Café, Petín, Galiza/Espanha.

2009 - Esphera, Bienal B, Galeria da Aliança Francesa, Porto Alegre/RS.

2009 - Hystéra, Galeria de Arte do DMAE, Porto Alegre/RS.

 

Salões

2014 - XVII Salão de Artes Visuais, Feevale, Novo Hamburgo/RS.

2011 a 2015 - Edições do Salão Internacional de Desenho para Imprensa, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS.

 

Livros e revistas ilustradas

2015 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (dezembro, #11), revista semestral, Florianópolis/SC.

2015 - Revista Esqueleto (agosto, #4), Ed. OSSO, Porto Alegre/RS.

2015 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (junho, #10), revista semestral, Florianópolis/SC.

2015 - Revista Farpa (novembro, #1), publicação independente, Natal/RN.

2015 - "Elevação e outros poemas" de Charles Baudelaire, Ed. Nephelibata, Florianópolis/SC.

2015 - "Gestas e opiniões do Doutor Fautroll, Pataphysico" de Alfred Jarry, Ed. Nephelibata, Florianópolis/SC.

2015 - "Nada, seguido de Alguma coisa" de Xavier Forneret, Ed. Nephelibata, Florianópolis/SC.

2014 - "Era uma vez um padre e um rei...", Ed. Marcavisual, Porto Alegre/RS.

2014 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (setembro, #9), revista semestral, Florianópolis/SC.

2014 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (março, #8), revista semestral, Florianópolis/SC.

2013 - "Projeto Da última inocência", Revista Arte ConTexto (novembro, #2), Porto Alegre/RS.

2013 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (setembro, #7), revista semestral, Florianópolis/SC.

2013 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (março, #6), revista semestral, Florianópolis/SC.

2013 - "Poemas em cortes profundos" de João Ayres e Elaine Guedes, Ed. Multifoco, Rio de Janeiro/RJ.

2012 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (setembro, #5), revista semestral, Florianópolis/SC.

2012 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (março, #4), revista semestral, Florianópolis/SC.

2011 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (setembro, #3), revista semestral, Florianópolis/SC.

2011 - Plaquetas Nephelibatas, Ed. Nephelibata, Florianópolis/SC.

2011 - Coleção Decadente, poetas do simbolismo brasileiro, Ed. Nephelibata, Florianópolis/SC.

2011 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (março, #2), revista semestral, Florianópolis/SC.

2011 - O que faltava ao peixe, Ed. Libretos, Porto Alegre/RS.

2010 - (n.t.) Revista Literária em Tradução (setembro, #1), revista semestral, Florianópolis/SC.

2009 - "A inocência de pensar" de Floriano Martins, Ed. Escrituras, São Paulo/SP.

2009 - "Das estações entre portas" de Joana Ruas, Ed. Escrituras, São Paulo/SP.

 

Residências

2009 - Um projeto urgente de loucura, Fábrica Braço de Prata, Lisboa/Portugal.

Armarinho da memória: ou do prazer de desenhar

Umbelina Maria Duarte Barreto

 

Sobre a artista e o prazer de desenhar

Escrever sobre a obra da jovem artista Aline Deorristt é manter a singeleza da potência de uma obra que se põe a si própria como outra.

Nesse sentido, o artigo enfoca a produção e pós-produção denominada “Da última inocência: Repertórios 1, 2, 3, 4 e 5” de Aline da Rosa Deorristt. Nascida em 1979, no Rio Grande do Sul, Brasil, Deorristt realizou a formação em Artes Visuais no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo ampliado o seu currículo com um período de estudos na Universidade de Lisboa.

A obra de Deorristt, que está sendo enfocada neste texto, parte do prazer de desenhar presente na emergência de um universo feminino que se “pró-jeta” em narrativas cruzadas no desenho e do desenho com a força do masculino. O conjunto da produção constitui-se de 28 desenhos realizados em grafite sobre papel e uma pós-produção propositiva de manipulação e apropriação dos desenhos produzidos, através da construção digital de novos repertórios em que se encontram objetos, livros e jogos.

O conjunto da pós-produção evidencia um universo aberto à reutilização, articulado à vontade do outro, mas, principalmente, em uma atitude da artista que se projeta no desejo de tornar o seu próprio desenho habitável, insinuando as astúcias do prazer na reapropriação dos desenhos pelo espectador, em uma aproximação do pensamento de Michel De Certeau (1994), em seu texto Invenção do Cotidiano, Artes de fazer, em que o autor se refere aos lugares do feminino diretamente ligado às práticas cotidianas.

1. Modos de usar o desenho

Passar da construção/ criação de uma produção-inventário organizada em cruzamentos, e com a aparência de um desenho documental enfatizando a condição do feminino, para a programação/ projeção da manipulação e uso do desenho na criação de um novo tipo de relação, construindo/ produzindo uma pós-produção perpassada por uma estética que pode ser vista nesse momento como evanescente, pode ser um modo de fazer arte em que a atitude propositiva do artista é a condição mesma da obra ou a própria obra.

A princípio, construir uma obra recriando e propondo um objeto artístico a partir de seu uso define um sentido que tem que ser negociado em colaboração entre o artista e seus “pretendentes”, ou, entre o artista e os espectadores de sua obra. Segundo Duchamp (apud Bourriaud, 2009: 15), “não é a arte um jogo entre todos os homens de todas as épocas?” E ainda Bourriaud afirma que “é justamente a pós-produção a forma contemporânea deste jogo”. 

Na pós-produção de Deorristt desenhar também passa a ser a criação de novos percursos em que se relacionam as formas de uso criando novos significados ou redes de significados em uma cadeia infinita de significações.

No conjunto de pós-produção em objetos denominados repertórios, Deorrist define novas formas de utilização do desenho a partir da criação de potências narrativas em que o desenho sobre papel passa a constituir um universo fragmentado de bonecas de papel.

2. Armarinho da memória

Aponta-se na obra da artista o caráter trágico na construção da figuração fragmentada evidenciando o nascer/ viver/ morrer, a partir das alegorias dos “trabalhos e os dias” do universo feminino, como um mito de origem, mas em referência a uma inexistente “cosmogonia” do feminino. Destaca-se o sentido positivo do prazer do desenho/ desígnio envolvendo o ganho de uma construção identitária, mas contrapõe-se a perda conscientemente evocada na projeção masculina eminentemente propositiva. Dessa tragédia construída como um texto busca-se a obra de Deorristt como uma catarse necessária a todo processo de criação artística que participa constitutivamente da concepção originária da obra de arte como uma poiesis.

Nesse sentido, os diferentes papéis, papéis de desenho e desenho de papéis, são tecidos em um lugar propositivo que se está a chamar de “armarinho da memória”, em um caminho de acesso à obra com a presença da contrariedade, pressupondo o contraditório para fazer/ esquecer-se de sua própria condição feminina, como uma artista começando a construir sua obra/ história em um espaço que tem sido reiteradamente dominado por uma história/obra do masculino.

Sobre os protocolos de uso dos lugares do feminino

Nascimento e morte anunciam a trágica brincadeira protagonizada por bonecas de papel guardadas na memória que são tecidas por Deorristt como documentos organizados em livro, ou em livros organizados em espaços de exposição em séries diferenciadas pelo uso do utilizador.
Os objetos da pós-produção crescem ou diminuem conforme os sentidos que lhe atribuem seus utilizadores.
Levar ao extremo a criação como um jogo poderá ser para a artista criar um evento relacional aproximando a obra da atual estética relacional de Bourriaud. Poderá também ser uma tentativa utópica de fazer com que o desenho agora passe a ocupar os sentidos já definidos na memória, invertendo a relação da produção originária em que os desenhos da artista se faziam primeiro como pensamentos para então existir em grafite sobre o papel.

Referências

Bourriaud, Nicolas. Pós-produção. Como a arte reprograma o mun do contemporâneo. São Paulo: Martins Fontes. 2009.

Certeau, Michel de (1994) A Invenção do cotidiano:1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

Deorristt, Aline. Projeto Da última inocência, Estojo-objeto de arte. 2012. 

Deorristt, Aline. Projeto Da última inocência, Repertório #4: Documentos livro 2, e Repertório #2: Correspondências, 2012.

Derrorist, Aline (2012). Projeto “Da última inocência: Repertórios 1, 2, 3, 4 e 5” Produção 28 Desenhos, 2012. 50 × 65 cm. Acervo e Fotografia da artista. Porto Alegre, RS, Brasil. 

Derrorist, Aline. Projeto Da última inocência, Repertório #3: Ficções, 2012. Pós-Produção Livro de artista. Detalhe. Acervo e Fotografia da artista. Porto Alegre, RS, Brasil.

 

(Umbelina Barreto é artista visual e professora no Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graduação em Artes Plásticas — Desenho e Pintura. Mestrado em Filosofia — Antropologia Filosófica; Doutorado em Educação. Artigo publicado na Revista Croma 1, Estudos Artísticos. Disponível em: http://issuu.com/fbaul/docs/croma1?e=7186499/2747243)

 

A arte impossível, entre uma loucura e um renascimento

Camilo Prado

 

É possível que estejamos ainda muito próximos do movimento juvenil denominado punk, para dele termos alguma compreensão mais ampla e, sobretudo, para percebermos o impacto que causou na cultura do Ocidente em termos de comportamento. Arriscaria dizer, no entanto, que a identificação do punk com os contrários surgidos na cultura do Ocidente é um dos elementos que o definem. Desde os memoráveis atos dos cínicos (séc. IV a.C.), sempre dispostos a ofender, a agredir, a ridicularizar: de Antístenes, que indo visitar o venerável Platão, que estava doente, “depois de ter visto a bacia em que ele vomitara exclamou: ‘Vejo a bile aqui, porém não consigo ver o orgulho’”; de Diógenes cuspindo na cara de um anfitrião, “pois não encontrava, disse ele, um lugar pior”; de Crates que, “em certa ocasião foi advertido pelos inspetores de polícia porque vestia roupas levíssimas de musselina”; de Hiparquia, a jovem donzela rica que a tudo e a todos abandonou para viver nas ruas ao lado de Crates e de cujas obras ― devoradas pelo tempo ― restam fragmentos de que nenhum punk discordaria: “Minha pátria não tem apenas uma torre nem apenas um teto; onde quer que seja possível viver bem, seja onde for, em todo o universo, é lá a minha cidadela e minha casa”. Desses filósofos, eu dizia, passando pelos monges andarilhos da Idade Média (bons cantantes: “tanto para o papa, quanto para o rei,/ bebemos todos sem lei!”), até o Romantismo e o Decadentismo, bebedores, comedores e fumadores de absinto, haxixe e ópio, bem como inimigos declarados da “modernidade” e da “industrialização”, e ainda passando pelas “vanguardas”, Expressionismo, Dadaísmo e Surrealismo (“não é o medo da loucura que nos forçará a deixar dobrada a bandeira da imaginação”) e a geração Beat e sua “contra-cultura”, encontramos identificação comportamental com o punk. Por isso não é de se estranhar que tenha sido nesse meio, aqui, no Brasil, que obras filosóficas (de Schopenhauer, Nietzsche, Cioran, Foucault, Rosset), literárias (de Blake, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Artaud, Lorca, Breton, Péret, Genet, Ginsberg, Kerouac, Burroughs) e reproduções (em xerox!) de pinturas (de Duchamps, Dalí, Magritte e demais pintores surrealistas), além, claro, de inumeráveis textos anarquistas (de Bakunin, Proudhon, Emma Goldman, Malatesta, Kropotkin), tenha circulado através de fanzines pela periferia e atingido a mente desses miseráveis e inconformados jovens (“vagabundos”, “marginais”, “drogados”, “pobres”, “podres”, “punks”). Nada de novo. Diógenes, o cínico, foi parar em Atenas fugido de sua cidade por ter falsificado moedas! Parece haver um elo entre arte e contravenção nos interstícios dos subterrâneos do Ocidente. Fato é que sempre houve jovens contrariando a sociedade, “se não por palavras, mas por atos”, para usar de uma expressão de Sócrates (talvez o primeiro suicidado pela sociedade). E no punk, parece-me que se pode encontrar uma junção de toda a contravenção ocidental, uma reunião colossal de NÃOS! Daí toda a filosofia “terrorista”, anticristã e anti-social, toda literatura de agressão, todas as palavras sujas, toda a contestação, raiva, angústia, nojo, desprezo pelo humano, ter encontrado guarida na mente desses fodidos da periferia do Brasil, na década de 1980 e 1990, e gerado formas de expressão artística diferentes daquelas que vêm pelos meios “normais” (escola-universidade-tradição). Do meio punk surgiram indivíduos que, não importa o que foram fazer “depois que cresceram”, fizeram de um modo peculiar, fizeram do seu modo. Música (muita música), teatro, dança, literatura, filmes e… pintura.

É desse meio que veio a autodidata Aline “Daka” Deorristt, artista plástica nascida em Viamão, cidade vizinha a Porto Alegre, em 1979, e autora de uma obra singular, imagética e imaginativa. Aline é pintora, desenhista, faz ilustrações para livros e capas de disco, e atualmente estuda também gravuras em metal, método pelo qual já criou algumas obras. Por esses dias, segundo ela, anda lendo Julio Cortázar e fazendo exposições de suas obras. Sobre duas dessas exposições ela fala aqui: a exposição coletiva Hystéra (ocorrida de 09/06 a 01/07 de 2009, Galeria de Arte do DMAE) e da exposição individual O pátio das Idades (de 03 a 21/09 de 2009, na Galeria Clébio Sória), ambas em Porto Alegre. É também aluna de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS, cursando o 6º semestre, bolsista do programa de Bolsas Santander Luso-Brasileiras e Relinter/UFRGS, e está a caminho da Universidade de Lisboa (Faculdade de Belas Artes), onde permanecerá por seis meses. Mora em Porto Alegre e edita os blogs: O Impossível, em parceria com a jovem escritora Ana Santos e Esfera, com as artistas gaúchas Lílian Gomes, Fernanda Kieling e Ana Becker. Aqui, ela fala sobre sua autoformação, sobre sua relação atual com a academia, sobre sua obra, sobre Rimbaud e suas heranças estéticas, e demais perguntas (impertinentes, talvez!) que lhe fiz, depois de uma série de mensagens trocadas via correio eletrônico. [CP]

CP | Aline, você está fazendo o caminho inverso de muitos artistas atuais. A sua formação artística veio antes da formação acadêmica. Autodidatismo, faça-você-mesmo… Como foi isso?

AD | Bem, isso foi a partir de 1998, eu já era punk, morava com amigos bem longe dos pais e da terra natal. Uma das grandes influências para o início de tudo foi o grande poder imagético da literatura que eu lia, os mundos que eu criava a partir daí… Rimbaud! Sim, as imagens! Eu me apaixonava tanto pelas reproduções de pinturas como pelas histórias dos seus pintores, pelas gravuras dos livros e dicionários antigos com os traços bem fininhos e cheios de detalhes… Lewis Carrol, Gustav Doré, Nouveau Petit Larousse Illustré (1955)… Pelos HQs na linha de Crepax e Mutarelli… Inicialmente compus fanzines, que eu mesma desenhava, recortava, escrevia, editava, xerocava e espalhava pelos quatro cantos… como tantos outros punks, movidos pela vontade de relação crítica para com o mundo. Comecei a desenhar para dar poética às publicações, porque eu precisava fazer minhas próprias imagens, de alguma forma precisava daquilo, e certamente para ver também o que e como eu me arranjava naqueles dias. Depois fui parar nos quadrinhos, cheguei a publicar duas edições de um fanzine de HQ chamado “Atristar”, que quer dizer “entristecer”, ele teve grande distribuição entre os punks e afins… Nessas soluções criativas eu me inventava e me salvava. De uma maneira inconsciente somos seduzidos pelas espécies de rituais que vamos construindo para nós mesmos. São momentos de solidão e metamorfoses, de conversa com os mortos… A “Hora do Lobo”, como definiu Bergman, é necessária ao amadurecimento, porque os conhecimentos aí são aprofundados, e não raro de maneira extrema e febril. Enfrenta-se tudo isso depois em choque com o cotidiano, que é duro. Por isso acredito que minha formação foi construída à flor da pele. Desenvolvi habilidades manuais a partir de desejos puros, fazendo apenas, exercitando, produzindo imagens pessoais, misturando elas à bagagem cultural que estava adquirindo. Soltando a mão eu me alimentava de minhas memórias sensíveis de vida, que era o que eu tinha, e de percepções que procurava sempre renovar. Eu sempre quis captar algo do cotidiano para além do que ele pudesse me dar. Desenhava cada vez mais e desenhava com o possível. Por isso nunca compreendi os conceitos que separam a arte da vida. Porque ela tem muita fome de existir, a arte tem fome de envolvimento… E autodidatismo é puro envolvimento. É experiência. E autonomia. Simples assim. Mas complexo. Vai entender… Quando se faz isso com a própria vida você está levando algo muito a sério (mais sério ainda, porque é espontâneo), daí nascem os estudos. A arte aí é transformadora, e supera os limites do que chamam pejorativamente de “terapia”. É linguagem e conhecimento sendo manipulados, gerados e nutridos, a toda vontade. Acumulei naquele tempo uma boa quantidade de trabalhos que alguns chamam de “fase negra”, mas que para mim foram fundamentais à descoberta da minha arte. A arte possível, entre uma loucura e um renascimento. Sim, eu era bem jovem e já compreendia isso, de várias maneiras. E, como você pode ver, esse vício persistiu tanto, que como por ironia, há dois anos, na beira dos trinta, resolvi assumir uma postura de quem tem um lugar no mundo, de quem tem o que fazer, isto é, de que se pode alguma identidade para si. Entrei para a Universidade de Artes com a intenção de “trabalhar” ainda mais, vesti o artista. E se este grande fato acentuou minha produção? Sem dúvida nenhuma, e como dizem por aí: “para o bem e para o mal”. Mas não superou o autodidatismo, que é sempre a fonte dos milagres na terra.

CP | Além de outros elementos, sua arte possui uma forte característica suburbana onde transparece, sobretudo nos rostos e olhares, uma angústia, uma raiva, uma agressividade, mas também, nos gestos, uma ternura. Estaria aí uma herança do punk? Já que você, como muitos outros jovens de nossa geração, conviveu com essa “coisa” chamada movimento punk?

AD | Sim, o movimento punk foi uma de minhas vidas, a arte começou a tomar forma aí. São permanentes as experiências desse período, muito fortes, influenciando o caráter gráfico e pictórico dos desenhos (acúmulo de coisas, cores vivas, figuras em estados cruciais, crises, os temas ligados ao existir e à condição de mundo, etc.) não posso me desfazer disso. Nós punks saímos de casa muito cedo, meninos e meninas, não tínhamos nada mesmo e nem éramos aceitos em nenhum lugar senão ali, entre os nossos. O rancor era embebido numa vontade extrema de mudar as coisas, a vida, a política, a música, o amor, tudo! Para isso era preciso muito mais que gritar na rua, era preciso sacudir o mundo e a si mesmo. Desconstruir a fragmentação que herdamos: uma luta! Éramos nossos próprios exemplos e nossas cobaias, criávamos nossos rituais porque já não tínhamos Deus. Sim, sempre fomos ternos e cativantes apesar daquela nossa aparência propositalmente rude. Lembro de como éramos extremos, tanto na dor como nas paixões. Barroco, não? E tínhamos toda a responsabilidade de estar crescendo num mundo que nos espiava, não dava tréguas e estava mudando sem que percebêssemos (nesta época exatamente a internet estava chegando… ). Alojados em qualquer lugar, com um monte de livros pra ler, sem perspectivas, sem professor para explicar as teorias (que eram relacionadas diretamente aos sentimentos e sentidos e desejos e pensamentos que se formavam cruamente ali, despidas de maiores pudores, em contato direto com a nossa condição de vida). Eu não tive aulas de desenho, mas tive pessoas criativas à minha volta indo e vindo e situações sem paralelos que contribuíram muito para o desenvolvimento das minhas percepções gráficas e visuais. E isso tudo aconteceu neste país bem aqui e sei que ainda existem punks assim. O movimento punk mudou a vida de todos que passaram por ele, tenho certeza disso. Ninguém sobrevive a tanto rasgo e a tanta costura de maneira a ignorar o que o formou. Sei também que estou sendo um pouco doce para relatar tal experiência, que foi um trampolim para se descobrir a vida, mas que como diz Cortázar, é (foi) também: “… esse jogo à beira da sacada, esse fósforo ao lado da garrafa de gasolina, esse revólver carregado na mesa iluminada… “, muitos riscos e muitas iminências obscuras. Prefiro fazer isso que cair em antigos chavões ou transformar tanta coisa expressiva e profunda em frases de efeito e dar ao leitor algo que eu detesto que me dêem: um retrato chocante, mas de falso toque. Conservo elementos do espírito daquela época na minha arte e no meu caráter, é inevitável, é memória.

(Entrevista publicada pela Revista Agulha de Cultura #70, 2009. Disponível em: http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/2015/03/camilo-prado-aline-daka-arte-possivel.html)